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    O serviçal tropeçou para dentro da biblioteca, derrubando uma pequena pilha de livros sobre uma mesa próxima. Niko entrou logo atrás, segurando a foice com firmeza, com os olhos atentos examinando o novo ambiente.

    Era um salão amplo e escuro, repleto de altas estantes de madeira que formavam corredores labirínticos. O ar carregava o cheiro forte de papel envelhecido e de cera derretida. O tapete felpudo abafava os passos dos dois, tornando o silêncio ainda mais denso.

    Gregory agora mantinha uma postura frágil, como se o golpe anterior o tivesse debilitado. Em um instante, porém, o homem se lançou para frente com velocidade surpreendente, a arma estendida mirando o peito de Niko. Antes que o golpe o atingisse, o albocerno ativou seu Portal, desaparecendo em meio às prateleiras antigas.

    Ele surgiu no segundo andar da biblioteca, acima do salão, com uma visão privilegiada iluminada pela luz vinda do corredor.

    Com calma, ele sacou sua pistola do manto, puxou o carregador e contou as balas restantes. “Cinco balas no pente, mais um carregador cheio… tenho treze tiros no total”, calculou. Recolocou o carregador com precisão, mirando novamente para baixo.

    Lá embaixo, Gregory ainda procurava por Niko, olhando em todas as direções. Sem vê-lo, correu em direção às estantes, tentando se esconder entre as sombras.

    Niko permaneceu no alto, observando o serviçal se mover entre os corredores de livros. Respirou fundo, controlando o ritmo, e apontou a pistola em sua direção, aguardando o momento certo. Disparou.

    O tiro cruzou o ar, mas atingiu apenas o vazio onde Gregory uma vez estava. O homem havia se jogado para o lado com reflexos absurdos. “O quê?!”, pensou Niko, surpreso.

    Enquanto corria, Gregory esticou o braço por entre os livros, derrubando vários volumes que despencaram como uma avalanche de páginas, cobrindo parte da biblioteca com poeira fina. A névoa de papel e pó dificultava a visão. Instintivamente, Niko recuou alguns passos.

    Ele está usando distrações para perdê-lo de vista?”, pensou ele, mas não teve tempo de analisar melhor. Gregory já se movia pelas sombras, silencioso, aproximando-se com uma precisão predatória, desaparecendo sob seus pés.

    Algo cortou o ar bem ao lado de Niko — ele ativou seu Portal no último segundo, escapando da estocada fatal e surgindo do outro lado do andar, graças à faca que havia arremessado antes.

    — Esse seu truque está começando a me irritar de verdade. — resmungou o serviçal.

    Niko lançou outra faca, agora mirando atrás de Gregory, que permanecia imóvel, atento a qualquer sinal da Alma do oponente.

    Sem hesitar, Niko partiu para o ataque. Correu com a foice em mãos, enfrentando o inimigo de frente. Gregory ergueu o atiçador de lareira para se defender, aparando os golpes, lançando faíscas cintilantes entre os impactos.

    O serviçal começou a pressioná-lo com ataques rápidos e precisos. Niko recuava, aguardando a oportunidade perfeita para atingi-lo.

    Quando Gregory preparava um golpe certeiro, Niko ativou seu Portal, desaparecendo — e então surgindo bem atrás do mordomo. Gregory virou-se rápido, mas não a tempo de evitar o chute nas costelas que o lançou contra uma das estantes.

    Ao se erguer, viu Niko à sua frente. Estava segurando uma pistola em uma mão, e sua foice na outra, completamente implacável.

    — Acabou. Por favor, desista da luta.

    Gregory não respondeu. Em vez disso, avançou com um golpe horizontal violento, desarmando Niko com um estalo metálico.

    Usando o braço direito, tentou perfurar o estômago do garoto, que defendeu com a foice por instinto.

    — Terceira lição: tenha certeza de que o inimigo não poderá virar o rumo da luta.

    Enquanto falava, Gregory puxou um candelabro pesado da estante ao lado e bateu-o contra Niko, atingindo sua cabeça. O garoto cambaleou, sentindo uma dor latejante, fechando um dos olhos e levando a mão ao lado do chifre.

    Com o caminho livre, o serviçal lançou o candelabro contra a vidraça colorida atrás de si. O vidro estourou em mil pedaços. Gregory pulou pela abertura, desaparecendo na noite azulada iluminada pela lua e pelas estrelas.

    Ele aterrissou na neve, deslizando com maestria e amortecendo a queda com uma cambalhota. Niko o seguiu, lançando uma faca ao chão e usando sua Alma para pousar com segurança.

    Agora estavam no jardim interno da mansão — o mesmo visto antes, no corredor. O campo era amplo, cercado por muros, salpicado por arbustos e coberto de neve. Pequenos flocos começavam a cair do céu, aumentando o frio da noite.

    Os dois se encararam por um instante. A respiração quente de Niko formava nuvens brancas no ar gélido.

    Gregory ajeitou o casaco, limpando o ombro, empunhando o atiçador como uma espada nobre.

    — Você realmente é persistente, não é? — disse com falso respeito. — Acha que me atrasar aqui vai ajudar sua amiga? Me desculpe, mas minha Lady é forte demais. Sua amiga não tem chance de vencê-la.

    Niko não respondeu a provocação. Seu coração batia com força, e suas feridas queimavam de dor. Aquilo fez uma raiva silenciosa surgir dentro dele. O garoto só queria acabar com a luta logo, o mais rápido possível.

    — Cala a boca.

    — Hein?

    — Cala a boca. E vamos acabar logo com isso.

    Gregory fixou seu olhar no garoto, e partiu para um ataque direto. A neve sob seus pés mal fez barulho quando se moveu, como se nem estivesse correndo de fato.

    Estocou a lâmina direto no peito de Niko, que desviou e girou a foice de baixo para cima, tentando desequilibrá-lo. Gregory recuou com graça, como um bailarino.

    Niko não perdeu tempo: lançou uma adaga ao lado do oponente e apareceu atrás dele. Gregory já esperava isso — girou no mesmo instante, deslizando pela neve para manter o equilíbrio.

    Os dois trocaram golpes intensos em sequência. Gregory atacava com ângulos imprevisíveis, forçando Niko a se esquivar, testando seus limites. Ambos já estavam feridos, a agilidade de Gregory estava comprometida, a força de Niko reduzida.

    Subitamente, Gregory quebrou o ritmo. Fingiu um ataque direto, mas mudou o ângulo no último segundo, atingindo a perna de Niko. A lâmina perfurou um tendão. O garoto grunhiu de dor, cambaleando para trás.

    Gregory não perdeu tempo. Chutou o garoto com força, derrubando-o na neve. Sem hesitar, se jogou sobre ele, cravou o pé em seu peito e pressionou a lâmina contra seu pescoço.

    — Parece que essa luta termina aqui. — sussurrou o assassino.

    Ele levantou a lâmina para o golpe final — uma estocada certeira na garganta de Niko. Mas, em um piscar de olhos, Niko ativou sua Alma. Sumiu debaixo do serviçal, surgindo atrás dele com a foice já em mãos.

    Gregory piscou, surpreso. Um frio súbito atravessou seu peito. Ao olhar para baixo, viu a enorme lâmina da foice saindo de seu peito.

    Por um momento, os dois ficaram imóveis. O atiçador caiu da mão de Gregory, afundando na neve. Niko arregalou os olhos. Suas íris contraíram. O fim da luta não trouxe o alívio que imaginava — apenas trouxe ansiedade.

    O serviçal deu um passo à frente, caiu no chão branco e soltou um suspiro trêmulo. De seu peito, uma luz pálida começou a escapar, como uma poeira brilhante dissolvendo-se no ar.

    Niko se jogou no chão, apoiando a cabeça do inimigo em seu braço, tentando conter o brilho com as mãos. Porém, quanto mais pressionava contra a ferida, mais brilho saía de dentro dela.

    — Não, não, não, não, não, não, não… Me desculpa. E-eu não queria. Por favor, não morre. Eu não… — suplicou Niko, com a voz trêmula.

    Gregory o olhou uma última vez. Os olhos estavam vazios e o rosto cansado. Abriu a boca, mas nenhuma palavra saiu.

    A luz ao redor dele se intensificou. Pequenos flocos brancos escaparam de seu corpo, desaparecendo na noite gelada. A poeira brilhante se misturou com a neve que caía. Em poucos segundos, só restava o vazio.

    — Não, não, não…

    Niko agora segurava o nada. O chão sob ele estava intocado. Sem sangue, sem vestígios. Como se Gregory jamais tivesse estado ali. Como se jamais tivesse existido.

    O garoto engoliu seco. Sua boca tremia. Os dedos formigavam. Queria entender o que acabou de acontecer. Queria processar tudo o que havia acontecido mais que tudo, mas não havia tempo.

    Do outro lado da mansão, explosões ecoavam pelo ar.

    Niko ergueu os olhos, trêmulo. Respirou fundo. Se o corpo não obedecia, então ele o forçaria a obedecer.

    Ainda que ansioso, ainda que com medo, Niko se levantou. Evelyn precisava dele. Agarrou o atiçador e o fincou no chão. Em seguida, pegou a foice, ativando seu Portal enquanto caminhava rumo à batalha.

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