Índice de Capítulo

    O som do bater das botas de Evelyn ecoava contra o piso de mármore, misturando-se com o ruído metálico da espada de Hyandra sendo arrastada atrás dela. Cada passo parecia um aviso de destruição.

    A elfa olhou para os lados, buscando algum ponto de vantagem no corredor. Mas o espaço era amplo demais, aberto demais. Não havia cobertura, nem nada que pudesse usar a seu favor.

    Foi então que teve uma ideia. Girou sobre o próprio eixo, deslizando no piso escorregadio. Lançou uma onda de gelo azul que varreu o corredor, transformando-o em uma pista congelada em segundos.

    Hyandra fincou os pés e a ponta da espada no solo, tentando frear o movimento. Por um instante, perdeu o equilíbrio — uma fração de segundo, mas era tudo o que Evelyn precisava.

    Dezenas de pilares de gelo surgiram do chão em estocadas verticais, investindo com pontas afiadas em direção ao corpo da Lady.

    Mas Hyandra conseguiu contornar a situação. Girou a espada verticalmente, envolta em calor. A arma cortou os pilares como se fossem nada, vaporizando-os no mesmo instante. O ar ficou tão seco que a garganta de Evelyn arranhou e ela arregalou os olhos.

    Em seguida, ergueu uma parede grossa de gelo entre elas. O frio ali era extremo, qualquer pessoa congelaria só de estar lá. Ainda assim, Hyandra partiu a barreira com um único golpe, abrindo uma passagem como se o gelo não oferecesse resistência alguma.

    Evelyn recuou um passo, sentindo um arrepio. Engoliu seco e mordeu o lábio inferior. O olhar da mulher era profundo, penetrante e inabalável.

    Ela é imparável!”, pensou a elfa em um momento de surpresa e pânico.

    Evelyn nunca, em toda a sua vida, havia enfrentado alguém assim. Na maior parte das vezes, as pessoas não conseguiam desviar ou impedir seus ataques, e mesmo quando conseguiam, cedo ou tarde eram atingidas. Mas com aquela mulher era diferente. Ela desviou, impediu ou destruiu todos os seus golpes. Ela era uma humana, mas parecia ser um monstro.

    A elfa voltou a correr. O corredor chegava ao fim. As portas do salão estavam logo à frente. Sem hesitar, chutou a porta dupla e se lançou para dentro do novo cômodo.

    Era um salão amplo — o mesmo de antes —, havia dois andares, um teto alto e espaço de sobra. Diferente dos cômodos estreitos anteriores, aqui ela teria liberdade para se mover. Com sorte, o fogo de Hyandra se dispersaria mais facilmente, sem paredes próximas para concentrar o calor.

    Será que isso é suficiente?”, pensou ela.

    Evelyn correu até o centro da sala, sua Alma se espalhava naturalmente pelo chão. O frio tomava conta do salão em uma camada translúcida de gelo e neve. Ela se virou para a porta, respirando fundo, com os olhos fixos no batente.

    Hyandra surgiu. Seus passos eram pesados, e a espada deixava um rastro de faíscas e um líquido flamejante avermelhado atrás de si. Seu corpo exalava calor, iluminando o salão com tons escarlates. O ar ao redor dela se distorcia, como uma miragem em um deserto gélido.

    O frio e o fogo agora coexistiam em um equilíbrio instável. Aquela não era uma simples luta, era um embate entre dois extremos.

    — Eu já disse que não quero lutar. Por que insiste? — disse Hyandra, com voz calma, mas firme.

    Evelyn não respondeu. Apenas ergueu a mão, concentrou sua Alma entre os dedos e lançou três projéteis de gelo em uma rápida sequência.

    Hyandra suspirou. Desviou do primeiro. Do segundo. E partiu o terceiro ao meio com um golpe seco da espada. O cristal se despedaçou em uma chuva de cacos congelados.

    A elfa congelou ainda mais o chão, prendendo os pés da Lady até os joelhos. Se aquilo conseguisse atrasá-la apenas por um instante… Hyandra cravou a lâmina no chão. Um pulso de fogo escapou de seu corpo, evaporando tudo em volta. O gelo virou vapor em um único segundo.

    Evelyn começou a suar. Engoliu seco — não pelo calor, mas pelo peso esmagador da presença de sua inimiga.

    — Eu não quero me repetir. Saia da minha casa agora.

    Os joelhos de Evelyn queriam ceder. Queriam correr dali o mais rápido possível. Mas sua vontade não permitiu o desejo egoísta. Ela havia prometido a si mesma que não sairia dali sem respostas. Precisava cumprir a promessa.

    — Você já sabe qual é minha resposta.

    A elfa avançou novamente. Deslizou com precisão sobre o chão congelado, criando enormes lâminas de gelo ao redor dos braços. Em um movimento fluido, girou o corpo, prestes a dar uma cotovelada coberta de gelo contra Hyandra.

    A Lady apenas subiu a espada com uma defesa perfeita. O impacto foi bloqueado. Outro pulso de calor escapou de seu corpo, forçando Evelyn a recuar antes que fosse queimada. Mas ela não parou.

    Atacou pelas laterais, mirando as pernas, os flancos, os pontos cegos. Hyandra recuava com uma precisão impossível, desviando de cada ataque com frieza. Era como se visse os golpes antes mesmo de serem desferidos. 

    Seus ataques foram inúteis. Evelyn se afastou, ofegante, o peito subindo e descendo com esforço.

    — O-o que diabos é você?! — gritou ela.

    Hyandra respondeu sem levantar a voz:

    — Sou uma amostra do que você e Niko enfrentarão se não fugirem agora.

    Aquelas palavras ficaram ecoando em sua mente. “Como assim?”, “Uma amostra…?”, “Do que ela tá falando…?”, pensou ela inutilmente.

    Preparando sua investida final, Evelyn cravou os pés no gelo e estendeu os braços à frente. Ao seu redor, dezenas de estacas de gelo emergiram do chão como lanças monstruosas, formando um círculo fechado em torno de Hyandra. Cada uma delas brilhava com um tom azulado translúcido e era afiada como uma lança.

    Do outro lado, Hyandra permaneceu parada. Não se mexeu, não ergueu a espada. Apenas observava — serena, como se aquilo fosse um espetáculo do qual não queria participar.

    Evelyn estendeu a mão e cerrou os punhos com força. As estacas dispararam ao mesmo tempo. O som foi como o estalo de um mundo se partindo. Lâminas cortaram o ar de todos os lados, avançando em alta velocidade para o corpo da Lady. 

    Então, em um único movimento fluido, Hyandra girou sua gigantesca Zweihänder. O metal percorreu um arco destruidor, e uma explosão de chamas carmesim engoliu o salão como um rugido de uma fera adormecida.

    O fogo devorou as lanças de gelo no ar. Antes que qualquer uma delas pudesse tocá-la, foram derretidas e transformadas em vapor, dissipando-se como se nunca tivessem existido.

    O calor era tão intenso que a umidade do ambiente desapareceu como se tivesse sido apagada da realidade.

    Evelyn deu um passo para trás, depois outro e outro. Sua garganta secou, como se tivesse inalado carvão em brasa. A visão ficou embaçada por um segundo — não por medo, mas pelo ar denso e sufocante.

    Estava confusa. O salão deveria conter esse tipo de calor. Ali era frio, aberto, espaçoso o suficiente para a Alma flamejante de Hyandra se dissipar… mas nada parecia conter aquela mulher. Parecia ter a força de um vulcão dentro dela.

    A Lady avançou, correndo em direção à elfa. Sua espada cortou o espaço entre as duas com um golpe vertical brutal. O impacto rachou o chão e trincou as colunas próximas, o som ressoava como trovões em uma sala fechada. Evelyn desviou no último instante, sentindo o calor passar pelo seu rosto.

    Mas antes que pudesse reagir, Hyandra girou a lâmina em um arco diagonal. Evelyn saltou para trás, tentando se reposicionar, mas não foi rápida o suficiente. O golpe não a atingiu diretamente — a onda de calor criada pela lâmina explodiu à sua frente e a lançou contra um dos pilares do salão.

    Ela colidiu com força. O som surdo do impacto repercutiu pelo salão. O ar foi arrancado de seus pulmões e, por um instante, sua mente ficou vazia.

    Ela não podia vencer, e finalmente aceitou isso.

    Hyandra girou a espada novamente, colocando-a sobre o ombro como se não pesasse nada. Seus olhos repousaram sobre Evelyn com uma seriedade absoluta. Não havia fúria, nem orgulho. Apenas uma expectativa silenciosa de que, finalmente, ela desistisse.

    — Acabou. — disse a Lady, com a voz firme e direta.

    Evelyn se levantou, escorregando pelo pilar rachado. Estava ofegante, seus braços trêmulos, os músculos rígidos e pulmões em brasa. Sua mente gritava para continuar lutando, mas seu corpo se recusava. O calor sufocante, a dor dos golpes, o peso daquele olhar… tudo dizia que não havia mais o que se fazer. A luta acabou.

    Hyandra não se moveu. Ela respirou fundo, suspirou — e apenas esperou. Postura relaxada, espada em descanso, mas o corpo ainda pronto.

    E então… passos surgiram. Fracos e arrastados, vindo do corredor escuro. O som era irregular, hesitante, como se a pessoa que se aproximava estivesse ferida — mas ainda assim, não parava de andar.

    Evelyn sentiu um arrepio subir pela nuca. Hyandra virou o rosto devagar, o olhar se fixando na entrada lateral do salão. As chamas ao seu redor começaram a tremular com mais intensidade.

    Uma figura se aproximava das duas. Era uma silhueta baixa, com altos chifres de cervos, usando um manto negro como a noite. Seus olhos pretos com as íris claras e brilhantes. Aquele era Niko.

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