Índice de Capítulo

    Ele parou na entrada do salão, com os pés firmes no chão e segurando a foice com força. O surgimento de mais um integrante na luta fez o ar pesar. Apesar disso, Hyandra não desviou o olhar — permaneceu imóvel, encarando Niko com frieza, quase indiferente.

    Suas roupas estavam rasgadas, a pele marcada por cortes e sujeira. Mesmo assim, seus olhos não tremiam. Niko atravessou a porta, com os passos firmes apesar do cansaço, parando a poucos metros das duas. Seu corpo estava ferido, exausto, mas a maneira como segurava a foice deixava claro: ele estava pronto para a batalha.

    Hyandra não queria mais lutar. Já havia tentado evitar o combate com Evelyn. Agora, com Niko ali, erguer a espada se tornava seu maior fardo. Ela abriu a boca, com um esforço visível para evitar a escalada da violência.

    — Niko, você e Evelyn precisam sair da minha casa agora. Vão para o mais longe possível, se n-

    — Eu matei o Gregory. — interrompeu Niko, seco.

    Os olhos da Lady se arregalaram. A boca abriu levemente de surpresa. As chamas ao redor dela sumiram por um instante.

    O silêncio que se instalou foi absoluto. Até mesmo o crepitar distante das madeiras queimando pareceu se silenciar. O ar ficou mais denso, como se, por um instante, o próprio salão prendesse a respiração.

    Hyandra não piscou. Seu olho, antes duro, agora parecia vazio, fixo em Niko como se tentasse compreender o que ele acabou de dizer — e se recusando a aceitar.

    As mãos dela continuavam fechadas em torno da empunhadura da espada, mas os dedos começaram a tremer.

    Niko não desviou o olhar nem por um segundo. Mesmo com a tensão crescente nas extremidades do corpo, continuou de rosto firme. Ele esperava por algo — talvez um grito, talvez uma negação, até mesmo alguma lágrima. Mas nada veio. Hyandra apenas ficou ali. Estática.

    — …O quê? — murmurou a lady, com uma voz rouca, quase inaudível.

    — É isso mesmo. Se não quiser acabar como ele, é mel-

    Não conseguiu terminar a frase. As chamas ao redor de Hyandra de repente voltaram, se agitando com mais intensidade ainda, como se a Lady tivesse quebrado as correntes que mantinham as chamas presas. Sua mão apertou a empunhadura da espada com tanta força que o metal rangeu sob a pressão, como se prestes a se romper.

    A temperatura do salão disparou. Parecia que Hyandra ultrapassou os limites da própria Alma — como se algo dentro dela houvesse quebrado de vez.

    Ela não disse uma palavra. Não deu um passo. Apenas ficou ali, imóvel, encarando Niko com um olhar tão carregado de ódio que o ar ao redor parecia tremer com ele.

    Ela não fez perguntas. Não pediu explicações. Não hesitou. Em um único instante, o fogo de seu corpo se intensificou, consumindo o oxigênio ao seu redor. As chamas que saíam de sua Alma refletiam seu estado mental, a tempestade que rugia em seu peito — ódio, raiva, fúria.

    Evelyn sentiu a pele formigar. Niko, mesmo ferido e exausto, apertou a foice com força, preparando-se para qualquer coisa que acontecesse em seguida.

    Sem aviso, sem fala, Hyandra avançou com extrema velocidade. A espada riscando o chão, arrastando faíscas e criando brasas enquanto era trazia um golpe brutal em direção a Niko.

    Ele reagiu no último segundo, desviando para o lado, sentindo o calor infernal passando na lateral do corpo, queimando as pontas de seu manto. Ao mesmo tempo, Evelyn deslizou sobre o gelo que criava sob seus pés, tentando manter distância daquele demônio.

    Mas Hyandra não parava. Seu segundo golpe foi na vertical, dividindo o chão em um rastro de chamas. O mármore se rachou com pedaços de fogo voando por todo o salão. Evelyn contra-atacou, lançando estacas de gelo em direção à mulher, mas elas evaporam antes mesmo de tocar a pele da Lady. O calor vindo dela era absoluto. Infernal.

    Niko usou sua Alma, em um piscar, ele surgiu ao lado de Evelyn.

    — Ela enlouqueceu completamente! — gritou Evelyn, desviando por centímetros de mais um golpe — Por que você falou que matou o cara?!

    — Ela enlouqueceu completamente! — gritou Evelyn, desviando por centímetros de mais um golpe de fogo. — Por que você falou que matou o cara?!

    — Achei que ela ia ficar abalada. Triste ou assustada. Qualquer coisa que desse pra gente alguma vantagem emocional.

    — Por acaso parece que a gente tá com alguma vantagem agora?!

    Antes que pudessem discutir mais, Hyandra girou a espada. Um círculo de chamas surgiu no ar ao seu redor. O calor foi tão intenso que as tapeçarias das paredes pegaram fogo de imediato, espalhando as chamas por todos os cantos do cômodo. O salão, antes aberto e respirável, se transformava em um forno sufocante.

    Niko olhou ao redor, com os olhos arregalados. As colunas de sustentação começavam a trincar. O teto estava vibrando. A estrutura da mansão estava cedendo sob o calor implacável. Aquela batalha precisava acabar logo, se aquilo se prolongasse por mais alguns minutos, todos seriam enterrados vivos — ou carbonizados.

    Hyandra avançou outra vez, mirando dessa vez em Evelyn. A elfa tentou fugir, mas a Lady foi mais rápida. Com um golpe preciso, quebrou o gelo sob os pés da garota. Evelyn caiu de joelhos, escorregando. Antes que conseguisse reagir, a espada estava erguida acima de sua cabeça, pronta para o golpe final.

    Ela viu a morte nos olhos de Hyandra. Não era uma figura odiosa, nem sádica. Era um monstro frio, indiferente, de um único olho carmesim — uma carrasca silenciosa. A lâmina desceu, pronta para matar Evelyn. Mas então, Niko apareceu.

    Com um flash negro, surgiu ao lado da amiga e bloqueou o golpe com a foice. O impacto foi devastador. Niko foi arrastado para trás, o chão de mármore se partiu onde houve o golpe. Seu corpo parecia prestes a se despedaçar pelo calor e pela força do ataque.

    Hyandra não recuou. Girou a lâmina e atacou novamente. Niko desviou no momento exato, mas a espada passou perto demais, cortando suas costelas de raspão, queimando sua pele. A pele ardeu com força, mas ele não parou. Com um movimento rápido, contra-atacou — sua lâmina cortou o ombro da mulher, mas ela nem sequer sentiu. O golpe não foi o suficiente para sequer feri-la. Niko engoliu seco, recuando por instinto.

    Evelyn aproveitou a brecha. Fez várias estacas de gelo surgirem ao redor dos pés de Hyandra, tentando prendê-la. Mas bastou uma nova explosão de calor para que tudo ao seu redor fosse vaporizado.

    O teto começou a estalar. As vigas queimadas começaram a ceder. A mansão rangia, como se estivesse gritando por socorro. Tudo estava prestes a desabar.

    — Niko! — gritou Evelyn. — O teto vai cair!

    Mesmo com o anúncio a Lady não reagiu. Seus olhos estavam fixos em Niko. A expressão era vazia, mas seu corpo ardia em fúria. Ela ergueu a espada mais uma vez, um último golpe destruidor prestes a ser lançado, movido por dor e vingança.

    Mas o destino interveio. As vigas acima dela cederam com um estrondo. O teto inteiro, enfraquecido pelo calor, finalmente desabou. Hyandra ergueu os olhos no último segundo. E então, tudo caiu em cima dela.

    O salão foi engolido por uma nuvem de fumaça e poeira. As chamas foram engolidas pelos escombros. Poeira, fogo e fumaça tomaram conta do ar. A Lady foi enterrada pela própria casa, diante dos olhos de Niko.

    As cortinas queimavam. Os móveis estavam sendo consumidos. O teto ruía de pouco em pouco, engolido pelo fogo. O ar estava irrespirável, pesado e sufocante, repleto de fuligem e calor. Evelyn tossiu forte, cobrindo a boca com o braço. Niko, imóvel, ainda paralisado com o que aconteceu na sua frente.

    O teto ameaçava se desmoronar a qualquer instante. Eles precisavam sair dali agora.

    — A saída… — disse Evelyn entre tosses, os olhos ardendo. Olhou ao redor e viu a porta da entrada bloqueada pelos destroços.

    Olhou para o outro lado e avistou uma saída improvisada. Sem hesitar, agarrou Niko pelo pulso.

    — A janela!

    Ambos correram, desviando das vigas que caiam do teto e do fogo que tentava os consumir. Quando estavam a poucos metros da vidraça, um pedaço inteiro de madeira desabou diante deles em um estrondo. A queda elevou poeira e brasas. Um fragmento atingiu Evelyn de raspão, rasgando parte da lateral de seu casaco e arrancando dela um grunhido involuntário.

    A janela estava próxima. Com o braço cobrindo o rosto, lançou uma rajada de gelo contra a vidraça. O impacto estilhaçou o vidro em mil pedaços. Pela primeira vez em minutos, o ar frio da noite penetrou no inferno que os cercava.

    Evelyn foi a primeira a saltar. Aterrissou com força no jardim coberto de neve, ajoelhada e ofegante, sentindo finalmente o ar fresco de novo. Niko veio logo depois, caindo com um baque amortecido e rolando pela neve antes de parar, arfando com força.

    Atrás deles, a mansão estalou uma última vez, e então, desabou. O teto ruiu, as paredes colapsaram, e uma explosão de chamas iluminou a noite como um sol morrendo. A fumaça subiu alto, tingindo as nuvens de preto.

    Sentados na neve, os dois apenas ficaram olhando a destruição em silêncio. Por um tempo, o som da madeira crepitando e do vento carregando a neve foi tudo que se pôde escutar.

    Evelyn, ainda sentada, sem tirar os olhos do fogo, murmurou:

    — A gente definitivamente nunca mais vai ser convidado pra um jantar.

    Niko soltou um suspiro longo, exausto.

    — Esse foi, sem dúvida, o pior encontro da minha vida. — completou ela.

    Ele a olhou de lado.

    — Você considera isso um encontro?

    — Quando envolve perseguição, fogo e uma casa desabando… com certeza. — respondeu ela, rindo com o nariz.

    Evelyn passou a mão no rosto suado e então parou. Tocou o bolso da calça, depois o do casaco, até que no fim, começou a apalpar toda sua roupa com muita pressa, revirando os tecidos que tinha com a expressão mudando em segundos.

    — Não… não, não, não… — murmurou.

    — O quê? — Niko perguntou, ainda meio tonto.

    — O cheque. — ela respondeu, sem emoção, se deixando cair no chão. — O maldito cheque da missão. Tava no meu bolso. Acho que ele caiu quando fui atingida pelos destroços.

    Evelyn deu um grande suspiro, com as mãos cobrindo o rosto. Niko ficou em silêncio por um segundo, sentou devagar, ainda tentando entender o que havia acabado de acontecer.

    — E agora? — perguntou ele. — O que a gente faz?

    Evelyn não respondeu de imediato, ainda estava abalada por perder cinquenta mil Yzakels. Mas, no fim, não havia nada que pudesse ser feito quanto a isso. Cruzou os braços atrás da cabeça, com os olhos voltados para as estrelas, tentando pensar em outra coisa.

    — Boa pergunta.

    Os dois apenas ficaram ali, observando a mansão desaparecer entre as chamas — junto de qualquer informação que poderiam ter extraído de Hyandra. O que quer que tivesse sido perdido lá dentro, estava enterrado agora. Para sempre.

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