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    Evelyn se soltou na poltrona dando um longo suspiro, ficando de frente para Niko. As feridas de ambos ainda doíam — principalmente as de Niko —, embora a pior parte parecesse ser o cansaço que não passava nunca. Enquanto ela lidava com queimaduras superficiais e dores nas costas, ele estava coberto de curativos — no cotovelo, costelas e na panturrilha, além de que mantinha um pano coberto de gelo sobre a cabeça.

    — Ainda tá doendo? — perguntou a elfa, com o olhar cansado.

    — Bem menos que antes. Esses remédios fazem efeito rápido.

    — Essa é a beleza da medicina moderna. — Evelyn forçou um sorriso presunçoso.

    Haviam se passado horas desde a queda da mansão, mas eles ainda tentavam se recuperar do acontecimento. Aquela foi, sem sombra de dúvidas, a experiência mais intensa que já viveram — fisicamente e emocionalmente. E, naquele momento, tudo o que restava era o silêncio e a necessidade urgente de descanso, pelo menos por hora.

    — Desculpa… — murmurou Niko de repente, olhando para o chão. — Por ter falado pra Hyandra que eu matei o mordomo. Eu achei que… não achei que ela iria reagir daquele jeito.

    — Ei, tá tudo bem. — disse Evelyn, com sinceridade. — Você não tinha como saber. E, pra ser justa, ninguém imaginava o quão forte ela seria.

    Houve uma pausa breve. Então ela olhou para ele de novo.

    — Mas… você realmente matou o Gregory?

    Niko desviou o olhar, soltando um suspiro demorado. Aquele era um assunto que ele preferiria esquecer. A morte, para ele, era um peso, algo verdadeiramente desagradável, do tipo que sentia algo rastejar sobre suas costas quando mencionava o assunto. Ele nunca quis ser alguém que tirasse vidas, mesmo quando necessário. Mesmo quando justificado. Não importa a pessoa. Não importa a espécie.

    Mesmo não querendo conversar sobre o assunto, Niko pensou que enfrentar seria o melhor jeito de esquecer. Então, finalmente, soltou as palavras de sua mente.

    — Sim, eu… matei ele… — respondeu, com a voz baixa. — Eu não queria ter feito aquilo, só usei o Portal… e quando percebi, a foice já tava perfurando o peito dele. Eu não pensei, só agi.

    Evelyn o observou em silêncio por um momento. Depois balançou a cabeça.

    — Relaxa, maninho. Ele queria te matar. Você só se defendeu. Sua atitude foi legítima, não precisa ficar se lamentando por isso.

    Niko não respondeu. Mesmo com aquelas palavras, continuava não aceitando aquela lógica. Não se sentia como um guerreiro — muito menos como um juiz. Ele não era um deus para decidir quem morre e quem vive, independentemente dos motivos ou das circunstâncias. Ainda que aquilo fosse necessário para sobreviver, a culpa ainda pesava sobre ele.

    Ao tocar no assunto, algo veio à mente. Lembrou de algo que chamou sua curiosidade durante a morte de Gregory, que parecia como uma falha no mundo. Ele olhou para Evelyn, resolveu perguntar a ela sobre isso.

    — Quando o Gregory morreu… — começou, hesitante — vi o corpo dele se desfazer em partículas brancas. Como uma chuva de partículas brilhantes. Você sabe que tipo de espécie ou raça faz isso?

    Evelyn arqueou as sobrancelhas, surpresa.

    — Isso é estranho. — murmurou, inclinando-se na poltrona. — Eu nunca vi nada parecido. Quando uma pessoa morre, o corpo geralmente fica… sabe, morto. Só espíritos desaparecem desse jeito.

    — Então ele era um espírito?

    — Talvez… mas não faz sentido. Os espíritos não têm corpo sólido. E o Gregory parecia bem real. Tinha nada de translúcido ou etéreo.

    Niko ficou em silêncio, tentando formular algo com as informações que recebeu.

    — Então… se ele não era um espírito, mas também não era uma pessoa comum… o que ele era?

    Evelyn apenas deu de ombros, cruzando os braços.

    — Eu não sei.

    Essa resposta não era nada satisfatória. Aquilo não era só um mistério. Era uma lacuna. Uma falha no entendimento do mundo. E, por isso, mais uma pista que não poderiam seguir — ou talvez, poderiam sim.

    A sala ficou em silêncio por alguns instantes. Então Evelyn falou, quebrando a quietude do apartamento.

    — Clementine. Ahti. O cliente misterioso. E agora a Hyandra. Todas essas pessoas tinham alguma conexão com a investigação de certa forma, e algumas até mesmo sabiam algo sobre sua antiga vida… E todas elas morreram.

    Niko abaixou a cabeça. Ele já havia pensado naquilo, mas ouvir em voz alta tornou tudo ainda pior. O garoto engoliu seco por conta do nervosismo.

    — Isso não pode ser coincidência. — sussurrou.

    Evelyn assentiu, pensativa.

    — Parece que alguém está eliminando as pistas da investi- não, sobre seu passado. Quem é essa ou essas pessoas e o que elas querem com você?

    Niko raciocinou por um segundo, relembrando a luta e o olhar intenso de Hyandra, que parecia querer dizer algo a ele sobre o que quer que estivesse acontecendo lá.

    — Eu não sei. Mas, se for verdade, significa que esse algo ou alguém por trás disso tudo já está vários passos à nossa frente.

    O silêncio dominou completamente o apartamento. Evelyn tamborilou os dedos no apoio de madeira da poltrona, inquieta. O peso da situação em que se meteram finalmente pesou sobre eles.

    Naquele instante, a garota se lembrou das palavras da Lady durante a luta. Palavras que inicialmente ela relevou, mas agora em seu apartamento viu o quão preocupantes eram.

    — Durante a luta, a Hyandra disse algo sobre “ser uma amostra do que a gente iria enfrentar caso não fugíssemos da mansão”. Acha que ela tava falando a verdade? Que a gente corre perigo e vamos enfrentar pessoas tão fortes quanto ela no futuro?

    Niko cruzou os braços, abaixando o olhar. Ele não queria acreditar que aquilo fosse verdade, mas os fatos estavam todos ali — espalhados diante deles como peças de um quebra-cabeça incompleto.

    — Se ela estava tentando nos assustar, conseguiu. Mas… do jeito que falou, não parecia um blefe. — ele suspirou, passando a mão pelo rosto, limpando a água que escorria do pano úmido. — E considerando que todas as pessoas envolvidas nessa investigação morreram, talvez ela estivesse mesmo tentando nos avisar.

    Pensar naquilo não importava agora, Hyandra estava morta e nenhum dos dois podia conversar com cadáveres. Eles não poderiam tirar nada dela assim.

    Evelyn estalou a língua, se recostando na poltrona com um olhar irritado, de braços cruzados.

    — Isso tá ficando cada vez pior. Se já era ruim ter um inimigo desconhecido no escuro, agora a gente sabe que esse inimigo tem força suficiente para mandar gente no nível da Hyandra atrás de você.

    O silêncio novamente tomou conta do apartamento. O barulho do relógio na parede e o som distante da rua eram as únicas coisas que preenchiam o vazio do lugar. Então, Evelyn estalou os dedos, como se tivesse a solução para o problema que estavam enfrentando.

    — A gente precisa de reforço.

    Niko a olhou, confuso.

    — Como assim?

    — Um segurança. — disse ela, com a voz firme. — Eu já tava pensando nisso antes, mas agora tenho certeza. A gente pode ser forte, mas mesmo assim quase morremos duas vezes em menos de vinte e quatro horas. Se a gente continuar nesse ritmo, não vai demorar até sermos os próximos corpos da lista.

    — E onde a gente vai arrumar um segurança confiável? — rebateu ele, cético.

    Evelyn deu um sorriso certeiro, como se só estivesse esperando por aquela pergunta.

    — No jornal.

    Niko piscou.

    — No jornal?

    — Sim, oras. A gente coloca um anúncio, vê quem aparece e escolhe o melhor que aparecer. Simples assim.

    — E se aparecer um maluco?

    — A gente faz uma entrevista primeiro, né? — Evelyn revirou os olhos. — Confia em mim, vai dar certo.

    Niko suspirou. Ele não gostava da ideia de colocar mais pessoas em risco, mas também não via outra alternativa melhor.

    — Tá bom. Vamos colocar esse anúncio.

    Evelyn deu um tapinha no braço da poltrona e se levantou com energia renovada. Pegou o casaco no móvel e pendurou-o nos ombros com um só movimento.

    — Perfeito. Vamos garantir que o próximo desgraçado que tentar nos matar tenha um pouco mais de trabalho.

    Niko se levantou devagar, ainda sentindo o corpo reclamar a cada movimento. E então os dois saíram do apartamento, prontos para encontrar o próximo aliado.

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