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    O escritório do jornal ficava em uma das ruas mais movimentadas da capital, uma das partes mais antigas e importantes da cidade — uma área cheia de prédios antigos, ruas largas, vitrines mostrando os mais diversos produtos e o barulho constante de rodas de carruagem. Vendedores ambulantes gritavam ofertas com sotaques que Niko ainda não conhecia. Centenas de pessoas atravessam as ruas e as calçadas, formando filas espontâneas para cada destino.

    A dupla chegou em frente a um prédio. O letreiro de metal acima da porta exibia, em letras elegantes mas já desgastadas: Der Welch – Informação é Defesa. “Isso precisa de uma reforma”, pensou Niko.

    Niko hesitou por um segundo antes de empurrar a porta de madeira, ainda estava pensando se aquilo era mesmo uma boa ideia, mas Evelyn não esperou. Estendeu a mão e entrou de uma vez, com o sino pendurado na parede tilintando com força, anunciando a chegada da dupla.

    O interior do escritório era completamente caótico. Havia uma bagunça, mas ela fluía com uma espécie de ordem invisível. Funcionários andavam apressados segurando enormes pilhas de papel na mão, jornalistas rabiscavam apressadamente frases em folhas quadriculadas, trocavam xingamentos entre si e gritavam por revisão. Um homem subia as escadas com um caderno debaixo do braço, enquanto uma mulher ditava manchetes para uma secretária com a caneta já entortada de tanto uso.

    O som dos maquinários de impressão — enormes prensas de ferro que imprimiam as manchetes do dia — ecoava dos fundos do escritório, aumentando o sentimento de caos no cenário.

    O cheiro de tinta, café e papel queimado preenchia o ar, dando ao ambiente um perfume único — relativamente agradável. E, mesmo com todo o movimento, ninguém parecia particularmente interessado com a entrada dos dois. Estavam preocupados com coisas mais importantes.

    Niko olhou ao redor, sentindo-se um pouco deslocado. Aquele era o completo oposto do trabalho tranquilo que sempre sonhava. Aquela situação parecia mais caótica até mesmo que a batalha na mansão! Já Evelyn, por outro lado, se sentia perfeitamente em casa. Tinha um brilho nos olhos, como o olhar de quem vê um velho amigo depois de muito tempo.

    Ela caminhou com confiança até o balcão de atendimento, onde um homem gordo, bigodudo e de olhos depressivos folheava um maço de papéis amarelados. Vestia um colete cinza por cima de uma camisa branca que já teve dias melhores — ou, pelo menos, menos tinta.

    — Boa tarde! — disse Evelyn, apoiando o braço no balcão de madeira com um sorriso largo.

    O homem ergueu os olhos de má vontade, lentamente, como se levantar as pálpebras custasse energia vital. Seu rosto era de puro cansaço, como se tivesse passado a noite inteira revisando textos ao invés de dormir. Seu olhar dizia claramente: “Por favor, não me faça levantar

    — Hm? Ah… sim, sim. O que querem? — murmurou ele, passando a mão pelo bigode grosso.

    — A gente quer colocar um anúncio no jornal. — respondeu a elfa, animada.

    O atendente deu um forte suspiro e então assentiu, voltando os olhos aos papéis, como se fosse uma tarefa automática. Não parecia surpreso. Devia ser o centésimo pedido do dia.

    — O que vai ser dessa vez? Outra loja nova abrindo? Uma senhora procurando por seu gato perdido? Ou um comerciante querendo vender três caixotes de batatas?

    — Nada disso. — disse Evelyn, piscando. — Queremos contratar um… segurança.

    O homem piscou algumas vezes ainda encarando o papel, voltando seu olhar à elfa. Aquele com certeza não era um anúncio comum, naturalmente isso chamou sua atenção.

    — Um… segurança?

    — Isso mesmo. — Niko respondeu, cruzando os braços.

    O atendente bufou pesadamente, deixou os papéis de lado e puxou um um bloco de anotações e uma caneta que estavam no canto da mesa.

    — Certo… Digam o que querem que esteja no anúncio.

    Evelyn virou-se imediatamente para Niko com um sorriso travesso. Ele franziu a testa, antecipando o desastre que sairia da boca dela.

    — Tá bom, ouve essa: “Oportunidade Única! Você é forte, destemido e busca um desafio de verdade? Dois mercenários procuram por um segurança que não tenha medo do perigo! Se acha que está à altura, envie sua mensagem e prove seu valor!”. Aí a gente coloca nosso endereço de correspondência embaixo para receber as cartas.

    Niko passou a mão pelo rosto como se quisesse arrancar a própria vergonha à força.

    — Evelyn… isso parece uma propaganda de circo.

    — É pra ser chamativo! — ela rebateu, ofendida.

    O atendente ergueu as sobrancelhas e coçou o queixo.

    — Hm… Bom, certamente atrairia atenção.

    — Isso que me preocupa. — respondeu Niko, certeiro. — Eu quero que apareça alguém confiável e profissional. Vamos deixar mais discreto. Algo como: “Contrata-se segurança experiente para trabalho contínuo. Requisitos: discrição, lealdade e competência. Interessados, enviar resposta para o endereço abaixo.

    Evelyn fez uma careta como se tivesse mordido algo amargo, detestando a seriedade do anúncio.

    — Ugh… Que sem graça!

    — Mas evita que malucos e pessoas perigosas apareçam.

    — E também evita alguém com carisma.

    — Não precisamos de carisma, precisamos de segurança.

    O atendente, impaciente, tamborilou os dedos no balcão três vezes. Cada batida parecia um lembrete do tempo desperdiçado.

    — Não tenho o dia todo, então? Vão escolher o dramático ou o discreto?

    Evelyn bufou alto, revirando os olhos como se estivesse assinando sua própria derrota.

    — Tá bom, vai… pode ser o do Niko. Mas vai ser culpa sua se um careta aparecer na entrevista.

    — Prefiro isso do que um maluco que vai levar a gente à morte.

    O homem rabiscou o texto ditado por Niko com a caneta, terminou com um ponto final exagerado, e então estendeu a mão sem olhar para os dois.

    — Vinte e cinco Yzakels.

    Evelyn arregalou os olhos.

    — O quê?! Desde quando anúncio custa isso tudo?!

    — Desde sempre. — respondeu o atendente, com a calma de quem já deu essa resposta trinta vezes naquele dia. — O preço depende do espaço ocupado no jornal. Vocês querem que todos vejam, certo? Então custa mais.

    Niko resmungou algo ininteligível e puxou uma nota dobrada do bolso. Entregou ao homem, que guardou o dinheiro em uma caixa com indiferença.

    — O anúncio sai na edição de amanhã. Se tiverem sorte, alguém responde no mesmo dia.

    — Ótimo. — disse Evelyn, batendo as mãos. — Agora é só esperar.

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