Capítulo 71 - Um Novo Integrante
Os escuros grãos de café caíram no moedor com um som abafado. Uma mão pálida girou a manivela com movimentos firmes, e a resistência dos grãos foi se rendendo, transformando-se em pó. Espalhou o café no coador de pano de maneira uniforme, respirando fundo enquanto o aroma amargo e doce se espalhava no ar.
Com cuidado, ele despejou a água quente. O líquido escuro começou a pingar na caneca de cerâmica, produzindo pequenos sons que preenchiam a cozinha silenciosa. O vapor subiu para o teto, aquecendo o ambiente frio da manhã e embaçando parte da vidraça da janela à sua frente.
Niko pegou a caneca, colocou dois cubos de açúcar e deu um gole pequeno, testando a temperatura e o sabor. Doce, amargo e quente o suficiente para acordá-lo por dentro.
Atrás dele, jogada como uma vítima de guerra no sofá da sala, Evelyn dormia de bruços. O rosto estava meio esmagado contra a almofada, e um cobertor jogado por cima dela de qualquer jeito — como se alguém tivesse tentado ajudá-la a se aquecer e desistido no meio. Uma perna pendia fora do sofá, balançando inconscientemente de um lado para o outro. A visão era quase cômica. Mas Niko não sorriu.
Ainda com a caneca nas mãos, ele olhou pela janela. As ruas estavam vazias, exceto por uma carroça solitária e o som distante de sinos de igreja. O mundo parecia um reflexo do clima gélido da manhã, congelado, quase sem movimentos.
Um ruído interrompeu seus pensamentos: o som de metal batendo na porta. Ele se virou. Uma pilha de envelopes escorregava pela abertura da caixa de correio, tombando no chão de madeira.
Niko permaneceu onde estava, imóvel. Deu mais um gole. Esperou que Evelyn tivesse alguma reação… Nada. A elfa continuava imóvel no sofá.
Bateu o fundo da caneca na mesa de jantar, alto o suficiente para ecoar pela sala e acordar Evelyn… Nada.
— Evelyn. — chamou, sem levantar o tom.
A elfa murmurou algo incompreensível e afundou ainda mais o rosto na almofada, como se pretendesse dormir para sempre.
— As cartas chegaram.
— Ugh… — o som saiu arrastado, abafado pela almofada. — Pega pra mim.
— Você tá mais perto.
— Mas aqui tá tão confortável… Faz esse favor para mim, por favor.
— Não.
Evelyn soltou um bocejo ruidoso e, com toda a energia de um lenhador embriagado, virou-se de barriga pra cima, esfregando os olhos com as duas mãos.
— Por que você tem que ser tão teimoso?
— Olha quem fala.
Após mais um resmungo existencial, ela aceitou seu destino e começou a se arrastar para fora do sofá. Ainda com os olhos semicerrados, andou até a porta, com passos lentos e pesados, parecendo que iria cair a qualquer momento.
A garota bebeu tanto álcool no jantar de ontem que ficou completamente bêbada e acabou dormindo no sofá. Nem mesmo tirou a própria prótese da perna.
Ela pegou a pilha de cartas e começou a folheá-las sem nem prestar atenção. O rosto ainda dizia: eu quero voltar a dormir.
— Anúncio de uma loja nova… propaganda de restaurante… um boleto que eu definitivamente não vou abrir agora… — ela jogou esse último envelope para trás sem olhar. Caiu em um canto da sala, esquecido junto de outros envelopes ainda fechados.
— Você sabe que vai ter que pagar isso de qualquer jeito.
— Isso é um problema pro meu “eu” do futuro… Uhm?
Foi então que um envelope diferente chamou sua atenção. O papel era mais grosso que os outros, com bordas detalhadas em dourado. O endereço de correspondência estava escrito em tinta escura. A caligrafia era limpa e firme, sem menção aos seus nomes.
Ao mesmo tempo, Niko soltou um leve suspiro e terminou o café.
— Ei, acho que temos uma resposta. — disse ela, erguendo a carta.
Isso foi o suficiente para despertar a curiosidade de Niko. Ele se aproximou da garota, pegou o envelope das mãos dela e observou o lacre de cera vermelha. Rompeu-o com cuidado, desdobrando o papel.
A carta dizia:
“Prezados,
Li seu anúncio no jornal e acredito que sou a pessoa certa para a vaga. Sou experiente em combate, destemida e disposta a enfrentar qualquer desafio. Caso queiram me conhecer, estarei na Praça Stolsky ao meio-dia. Estarei usando um chapéu vermelho para fácil identificação.
Atenciosamente,
— Brigitte d’Alzen.”
Niko leu tudo em voz alta. Quando terminou, Evelyn levantou uma sobrancelha.
— “Experiente em combate”, “destemida”, “disposta a enfrentar qualquer desafio”… Parece que alguém pegou a ideia do nosso anúncio, hein?
— Acha que é uma esquisitona?
— Sempre existe a chance. Mas às vezes é disso que a gente precisa.
Niko dobrou a carta e suspirou fundo. Mesmo com um pé atrás sobre continuar com a ideia de contratar um segurança, resolveu dar uma chance e conhecer a pessoa que se ofereceu como funcionária deles.
— Praça Stolsky, meio-dia… — murmurou ele.
— Eu gosto da energia dessa tal de Brigitte. — disse Evelyn, já voltando pro sofá. — Ela pareceu bem confiante de si. Isso promete.
— Promete o quê?
— No mínimo… entretenimento.
***
O som das rodas da carroça ecoava pelas ruas movimentadas da capital, mesclando-se com o trote dos cavalos. A manhã já acabava, a cidade estava completamente despertada, com pessoas andando apressadamente pelas calçadas, mercadores chamando por clientes e crianças saindo da escola, voltando para casa.
Niko estava sentado na lateral de madeira do veículo, observando a paisagem urbana com atenção. Já Evelyn, ao seu lado, terminava de prender os cabelos grisalhos com um laço negro, tudo isso com um pedaço de pão na boca — o mesmo pão que havia comprado na esquina ao saírem do apartamento.
— Está empolgado? — perguntou ela, com a voz abafada pela massa do pão.
— Não exatamente. — respondeu Niko, seco. — Acho que isso vai ser uma perda de tempo.
— Você é muito negativo. Isso pode ser divertido até.
— Você considerou a possibilidade de ser uma armadilha?
Evelyn mastigou com mais força. Engoliu o pedaço de pão e deu de ombros.
— Consideramos agora que tudo pode ser uma armadilha?
— Depois do que aconteceu com a gente? Sim.
Ela não discutiu. Soltou apenas um suspiro carregado, aceitando que, dessa vez, o pessimismo de Niko fazia sentido. Qualquer coisa que fizessem a partir de agora poderia estar com a vida em risco, isso é um fato.
A carroça balançou ao parar ao lado da Praça Stolsky, um dos maiores e mais charmosos espaços abertos do distrito.
O chão era todo de pedras claras, cuidadosamente mantidas, e o espaço era cercado por árvores altas que ainda guardavam restos de neve nos galhos. No centro, uma fonte de três níveis, com estátuas jorrando água em todos os cantos, cercada por pombos e crianças que jogavam pedrinhas e moedas na água.
Evelyn desceu primeiro. Guardou Aguro em seu frasco, colocou a mão sobre a vista e girou a cabeça em busca de algum sinal.
— Ok, agora… onde está nossa candidata?
Niko desceu em seguida, ajeitando a gola do casaco. Seus olhos percorreram o espaço com precisão. A praça não estava lotada, mas havia movimento suficiente para dificultar a busca. Foi então que lembrou de algo que poderia facilitar a procura.
O garoto puxou a carta do bolso e releu rapidamente.
— “Estarei usando um chapéu vermelho para fácil identificação.”
— Certo, chapéu vermelho. Assim facilita bastante.
A dupla começou a caminhar pelo local, olhando para todos os lados. Evelyn acenava educadamente para vendedores. Niko analisava cada rosto com a frieza de quem já esperava o pior.
Foi então que ele viu. Perto de um carrinho de pretzels, de costas para eles, estava uma jovem. O chapéu vermelho chamava atenção de longe — era vibrante, se destacando do cinza e branco ao redor. Seus cabelos escuros e cacheados escapavam das laterais. Ela vestia uma jaqueta grossa, calças ajustadas e botas de viajante. Nas costas, uma lança longa estava presa por alças de couro.
— Acho que é ela. — disse Niko, dando um leve toque no ombro de Evelyn e indicando com o queixo.
— Parece promissora. — ela sorriu, ajeitando o laço no cabelo. — Vamos lá.
Aproximaram-se sem pressa. Quando estavam a poucos metros de distância, Evelyn tossiu alto, chamando a atenção da jovem.
A garota virou-se na mesma hora. Sua pele era escura como aço polido. A cor de seus olhos era um violeta vibrante e cheio de energia, que contrastava diretamente com o olhar desconfiado de Niko. Assim que os viu, seu rosto se iluminou em um sorriso quase infantil.
— Ah! Vocês que são os meus contratantes?!
A garota tinha um sotaque chamativo e exótico. O “R” era mais vibrante e possuía uma entonação mais “musical”, com um ritmo mais solto e vogais um pouco mais longas que o normal.
— Suponho que sim. Você deve ser Brigitte. — disse Niko, cauteloso.
A jovem se ergueu em um pulo. Bateu o punho contra o peito com orgulho, fez uma leve reverência com a cabeça, com as tranças sendo afetadas pela gravidade.
— Isso mesmo! Brigitte d’Alzen, re- quero dizer, guerreira de Alzen!
— Você não é daqui, então. — comentou Evelyn.
— Siu seniur! — respondeu Brigitte, com um aceno animado. — Eu sou de Luminara, vim a Kyndral buscando aventuras e desafios! Meu sonho é me tornar uma grande heroína do meu país. E, bem… quando li o anúncio, pensei: “Ora! Esse parece um excelente primeiro passo!” — concluiu, com um sorriso no rosto.
Niko cruzou os braços, seus olhos analisavam a garota com ceticismo.
— Você veio até aqui porque acha que vai viver grandes aventuras. O que me garante que não vai sair correndo no primeiro sinal de perigo enquanto nos acompanha?
Brigitte bateu o pé no chão e endireitou a postura, quase ofendida.
— Eu não fujo de desafios! Eu enfrento qualquer coisa que me lancem!
— Grande promessa. Tem alguma experiência real de combate?
— Mas é claro! Eu treinei desde criança na minha vila!
— E… — Niko hesitou por um segundo. — já matou alguém?
O sorriso de Brigitte murchou por um instante. Ela respirou fundo, desviou o olhar.
— Eu nunca precisei fazer isso. — disse, mas manteve o olhar firme ao final, como se quisesse dizer: estou pronta para aprender, se for preciso.
Niko cruzou os braços, forçando a vista, ainda em dúvida das capacidades da garota.
— Lutar em treinamento e lutar pra sobreviver são coisas diferentes. — disse ele, firme.
Brigitte finalmente parou de sorrir por completo. Suou frio, mordendo os lábios discretamente. Será que aquele comentário significava que já estava fora da seleção? Aquela entrevista foi tão rápida…
— Então me deixem provar meu valor. — disse com firmeza, elevando o queixo. — Deixem-me fazer um teste!
Evelyn deu um passo à frente, com um brilho divertido nos olhos.
— Acho justo. O que acha, Niko?
Niko pensou por um segundo. Brigitte ainda parecia inexperiente, mas o tipo de coragem que ela mostrava… não era tão comum quanto parecia. Um teste era um ótimo jeito de descobrir se ela estava apta a se juntar ao grupo.
— Pode ser. Se conseguir passar no teste, podemos conversar sobre o trabalho.
— Oh, siu! Plan bêrcias! Vocês não vão se arrepender! — disse a garota, voltando a sorrir e juntando as mãos perto da cabeça.
— Vamos ver. — disse Niko.
— Certo! Qual será a primeira prova? — perguntou ela, fazendo uma pose de como estivesse preparada para tudo.
O albocerno não havia planejado aquilo, não tinha a menor ideia do que poderia dar de teste a Brigitte. Foi então que uma ideia veio à sua mente. Uma simples prova de habilidades com alguns testes, envolvendo velocidade, força e outros aspectos.
— A prova consiste em alguns testes de habilidade para ver se você está apta mesmo para esse trabalho. Tudo bem?
— Tudo certo! Qual vai ser o primeiro teste?
— Que tal uma corrida. — sugeriu Evelyn, com o braço esticado.
— Uma corrida? Sim, sim, ótimo, perfeito! — disse Brigitte com um brilho em seus olhos ametistas.
— Tudo bem, então. O primeiro teste será uma corrida.
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