Chronos - O Enforcado
— Que fome… e que frio… — murmurou o jovem, com fumaça branca saindo da boca pelo ar gélido. Ele abraçava o próprio estômago, tentando conter o vazio no estômago que doía como uma agulha no abdômen.
O garoto de chifres de cervo teve uma breve jornada desde o início do dia. As primeiras horas foram marcadas pelo silêncio, a neve e por decisões guiadas pelo instinto.
Ele havia retornado àquela parte densa da floresta após sentir uma imensa fome — afinal, não comia há horas. No caminho por qualquer tipo de alimento, foi até uma caverna escura, onde hesitou entrar após ouvir um som abafado que gelou todo o corpo. Seu braço esquerdo estava completamente rígido e a pele queimando de frio, completamente congelada após ter tentado capturar um peixe — sem sucesso.
— Será que vou encontrar algo pra comer logo? Faz horas que acordei… nem sei quando foi a última vez que… co-…
As palavras morreram na sua garganta. Seus olhos, de escleras negras com a noite e as íris brancas como a lua, contraíram-se imediatamente. A poucos metros de distância, balançando suavemente sob um grande pinheiro, estava uma silhueta.
Era uma mulher de orelhas pontudas. Ela tinha cabelos grisalhos que se camuflavam no branco do ambiente, junto do casado claro, o cachecol negro era o ponto mais nitido dela. Ao redor do pescoço, havia um acessório que não parecia usual: uma corda grossa. Os pés pairavam alto sobre a neve intocada. Sua expressão era morta, não havia luz em seus olhos. Tudo que se podia ouvir naquele ambiente, era o balanço rítmico daquele corpo.
O garoto sentiu um estalo em sua mente. A curiosidade que sentiu ao acordar, aquele desejo de descobrir mais sobre os animais, a natureza, o mundo e tudo o que ele podia oferecer, foi substituído por uma percepção esmagadora: a vida, naquele lugar, era frágil e descartável.
Ele caminhou até a árvore, com os passos pesados afundando na neve. Com um movimento mecânico, ele fincou a foice que carregava no tronco da árvore para se apoiar. Com a mão trêmula, sacou uma de suas facas e cortou a corda. O corpo da garota caiu no chão, sem peso, como uma boneca de pano. Caiu também, de pé, retirando a foice do tronco e andando em direção à mulher.
Ele verificou o pulso, tocou o rosto gélido da desconhecida, buscando qualquer sinal de que ela estivesse viva, nem que fosse apenas um único suspiro ou batimento cardíaco… Nada. Ela já estava morta há algum tempo.
O jovem permaneceu em silêncio por alguns longos segundos, ajoelhado na neve ao lado do cadáver. Ele não chorou. O vazio em si próprio parecia ter encontrado um reflexo no vazio daquele olhar azul sem vida. Ele apenas soltou um suspiro longo, uma nuvem de vapor que se dissipou rapidamente.
— Descanse em paz. — sussurrou ele, com uma voz desprovida de qualquer emoção.
Ele se levantou, deixando o corpo para trás sem olhar uma segunda vez. Continuou andando por mais alguns minutos, no frio. Com frio. Sozinho. Com o vazio.
Alguns metros adiante, seus olhos agora captaram um objeto de cor vibrante no meio do branco: uma fruta arroxeada, pendurada no alto de uma árvore. A visão daquele fruto, contrastando com a monotonia da neve, trouxe uma lembrança imediata que ele odiava.
Um ponto de interrogação surgiu na sua cabeça por dois segundos. Não havia razão ou sentido uma fruta daquelas existir ali. Era muito chamativa. Mesmo assim, o aroma doce que emanava dela era a parte mais sedutora do alimento, um perfume forte e hipnotizante. Tanto forte que fez os seus questionamentos sumirem da mente.
Com um esforço rápido, fincou a lâmina no tronco áspero, usando de apoio para escalar a árvore. Quando finalmente alcançou o galho, ele colheu a fruta no mesmo instante.
De volta no chão, com a foice já nas costas, aproximou a bela fruta em sua boca. O primeiro pedaço foi uma explosão de doçura. Por um segundo, o sabor era divino, o melhor que ele conseguia imaginar ter provado em toda a sua vida — uma vida que, para ele, tinha menos de um dia. A cada mordida, o prazer parecia anestesiar a imagem da garota enforcada que ainda o perturbava.
No entanto, assim que engoliu o quinto pedaço, o mundo pareceu girar e girar violentamente. A doçura da fruta se transformou em um amargor químico insuportável, que subiu pela garganta em uma forte queimação. Sentiu uma pontada aguda forte na barriga, como se mil agulhas estivessem sendo fincadas em seu estômago.
A dor colossal fez ele se dobrar por inteiro, com o ar fugindo dos pulmões ao passar dos segundos agonizantes. Imediatamente, caiu para trás, chocando contra a neve dura. O seu corpo começou a sofrer espasmos enquanto vomitava o conteúdo do estômago de forma violenta, manchando a neve de um roxo doentio. O suor frio se misturava com os flocos de neve no solo.
Lutando para manter os olhos abertos, ele viu as copas das árvores dançarem em um ritmo caótico contra o céu azul. O seu braço esquerdo, já sem vida, parecia agora espalhar a sua dormência para o resto do corpo. A consciência dele começou a se esvair, ele tentou agarrar um punhado de neve, mas os seus dedos apenas tremeram antes de relaxarem por completo.
Bem ali, no chão gélido, o silêncio da floresta voltou a reinar, quebrado apenas pela respiração falha do garoto que, tendo acabado de se encontrar com a morte nos olhos de uma mulher, pareceu ter espalhado a sua própria. Ele finalmente fechou os olhos, entregando-se a uma escuridão profunda e tóxica.
O silêncio que se seguiu não durou muito. Através do nevoeiro de sua consciência flutuante, pode ouvir um som abafado de neve sendo esmagada no solo. Algo grande se aproximava dele. Um ser enorme, maior do que qualquer coisa que tenha visto hoje, parou sobre o seu corpo imóvel. Era uma criatura peluda e branca, cujo focinho se aproximou do rosto pálido do garoto.
O monstro o cheirou. Suas narinas captaram o aroma de sua carne, mas, logo em seguida, sentiu o cheiro químico do veneno arroxeado que manchava a neve. Com um grunhido de desinteresse, o predador deu as costas, deixando para trás aquele ser de chifres. Talvez tenha feito isso por pena. Talvez nojo. Desinteresse. Tanto faz. Aquela dor ainda o corroía. Ele desmaiou novamente.
Minutos ou horas ou dias depois, outros passos surgiram. Dessa vez, esses eram mais leves, mais rítmicos, mais calculados.
— Ah, você tá aí… — uma voz feminina ecoou na clareira.
O garoto não conseguia abrir os olhos, mas sentiu uma bota pressionar seu ombro, virando-o de costas. Em sua visão periférica e borrada, ele viu apenas um vulto: uma silhueta alta, envolta em roupas militares escuras que pareciam se camuflar na noite, com cabelos igualmente escuros que balançavam ao vento. Ela se abaixou, mas não para ajudá-lo. Apenas o observou com curiosidade e atenção, como se quisesse ter certeza de que viu o “alvo” correto.
— Que estado deplorável você está… Mesmo assim, ainda está vivo. — ela soltou um suspiro rápido. — Meu empregador só disse para coletar o seu corpo, não importando o estado.
Ela o agarrou pelo colarinho do manto negro, arrastando o seu corpo imovel pela neve como se fosse algo qualquer. Ele sentiu o mundo balançar e, mais uma vez, a escuridão o apagou por completo.

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