Notas de Aviso
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Capítulo 23. Dedos Dourados
— Longa prosa, amigo! Superou, e muito, a verborragia de nosso colega prateado. Agradeço pela apresentação do saudoso Wood.
— Não desmereço a crítica, senhor dos mortos. Por vezes, o espaço restrito de nossa capacidade cognitiva impede que a imaginação floresça.
— Não sou muito amigo das flores. Mas posso preparar o adubo para que as nutra, grande mestre das chamas.
— Só depois de descobrir o ponto certo de cozimento de suas órbitas, grandíssimo amigo.
— Eu gosto de flores.
— Certamente, todos apreciamos as pétalas, seja em sua florada, ou no precipitar da queda. Mas já que concedeu a estima, retribuo em favor da posse da palavra. Desvele-nos sua sabedoria, mestre das árvores.
— Claro, adoraria a oportunidade, e a recebo com agrado. Como o andarilho das marés indicou, alguém diverge do ato?
— Fique à vontade para nos propor a brisa, assim como balança as folhas das copas, senhor da floresta.
Enquanto refletia sobre as repartições burocráticas, Benk folheava outro de seus inseparáveis livros. O escriba pertencia ao departamento de decodificação e composição dos títulos de propriedade. Sua rotina? Compor documentos até atingir a maioridade, aos vinte anos, mas o costume era ser convidado a permanecer na função por tempo indeterminado. O que podia esperar do futuro? — um vínculo vitalício ao estigma burocrático?
Os escribas eram recrutados na tenra infância, instruídos nas artes manuais, domínio da escrita e da língua, cálculo básico e princípios administrativos. Penosa primeira etapa. Benk a superou em tempo recorde. Quantos anos, mesmo? Turnos… dezenove turnos, relembrou o rapaz.
Depois, segundo a necessidade, eram treinados em um ou mais dentre os diversos dialetos dos estados do reino, para que pudessem assumir a profissão assim que terminassem o percurso de aprendizado.
Benk, afoito, revelou sua capacidade linguística antes mesmo de somar seis anos.
— Pior escolha que fiz na vida — confessou a Pelk quando o amigo curioso o questionou.
Foi encaminhado, sem que pudesse recusar, para o trabalho — A boa e velha falta de mão de obra. Agora já era um artesão financeiro há mais de dez anos.
A rotina do rapaz oferecia pouca brecha para descanso. De todos os dias, nenhum era sagrado; todos deveriam ser preenchidos pela obediência e gratidão. Benk, um jovem escriba, órfão de afeto, credor do acolhimento, trabalhava na câmara forte — local reservado aos hábeis de mente e ligeiros na melodia burocrática de todo o reino.
Dinheiro. Tudo o que era prova de posse, traslado de valores e rubrica de veracidade passava pelas mãos dos escribas dourados, no coração do Estado-Maior de Palard — o centro governamental do reino antigo.
Em sua imaginação, cooptada pelos livros instrutores da biblioteca, o sentimento que pulsava ou transbordava, era a curiosidade. Mesmo no mecânico ritmo tabelião que moldava as letras, o que o despertava da letargia e o instigava era a busca pela magia que admirava e desejava, somada à sua natural impetuosidade.
— Ops! — O tinteiro dourado tombou, espalhando a cor sobre a mesa. O lenço sagaz absorveu o estrago; o supervisor, porém, inflou o peito em fúria.
— Benk!
E a memória latejou ao organizar as dezenas de vezes em que o limiar da ousadia sentira o talho nas costas.
Não era escravo, mas a ordem mágica não tinha por reputação a estima ou a dignidade de seus funcionários. Não fosse o lenço — uma pequena rebeldia estratégica de extravio que valia a represália —, que dirá o cilindro minúsculo acoplado no interior da pena, especialmente feito para abrigar a tinta mágica, nem que fosse uma gota sequer.
Ah, não comentei, mas os documentos oficiais deveriam ser escritos em dourado, sobre papel oficial feito a partir de árvores imbuídas de mana desde as sementes — que, ao fim e ao cabo, seriam transformadas em registros de posse escritos na língua central do Estado-Capital e no dialeto de origem do proprietário.
O papel era abundante; ninguém ligava quando uma folha ou outra mudava de endereço.
O sistema financeiro assim girava, comprovando o montante dos recursos ou a propriedade aferida na carta de posse de cada cidadão, não importando de qual estado fosse originário ou residente. Lembre-se bem — esse papel era especialmente confeccionado para que a tinta ali se adaptasse ao valor real do que era por ela afirmado, convertendo-o no valor cambial definitivo do Estado-Capital.
Cada estado tinha autonomia monetária, mas todos estavam submetidos à consagração e verificação em dupla via dos documentos burocráticos de propriedade. A falsificação? Os engenhosos arquitetos do sistema diriam: nunca. Qualquer tentativa revelava-se como um espelho em sua folha matriz, que não mentia.
Minha posse equivale ao conhecimento do banco central. Esse era o lema de nossa transparência e compromisso com a população de nosso próspero e belo reino. Ou assim rogava a propaganda.
Documentar manualmente cada folha-mãe e filha, para organizar a fidelidade material de cada proprietário, era a profissão dos dedos dourados.
…
— Quantas moedas já economizou, Benk? — Seu melhor amigo e companheiro de quarto, Pelkdoc, inquiriu.
No único momento privado e pessoal, o menino de cabelos curtos, ornado por lentes vítreas em armação de cobre, ao apagar das luzes do dormitório, remoeu o amargo passado. Quem mandou dar com a língua nos dentes e demonstrar sua capacidade leitora? Não havia texto ou dialeto que ele não pudesse compreender.
Homens de barba e pele enrugada sentiram a oportunidade de recrutar o bastardo. Muitos dos quais, fiéis adoradores de milagres e crentes no potencial a ser-lhe usurpado. Sim, quem melhor para ser escriba que um poliglota por natureza?
— Dez de ouro, quinze de prata e setenta de bronze. — Sua voz baixa apresentava uma ponta de orgulho e um oceano de frustração. Cem moedas de bronze equivaliam a uma de prata que, por sua vez — a cada cem —, se equiparava a uma de ouro. Alguns estados praticavam a política da meia moeda, dobrando assim as somas. O cunho do metal, técnica complexa e metalúrgica, não estava ao alcance de Benk. Mas quem sabe conseguisse quebrar a segurança das cartas de posse proprietárias?
— Pelk, estamos presos aqui — reclamava Benk, em puro ressentimento. Ele tinha dores estomacais constantes devido à agonia cotidiana. Acordar, comer, seguir rumo ao forte, sentar na cadeira e transcrever as runas, os dados e os números de todo o reino, em especial do Estado de Norgta, pois poucos escribas eram capacitados para decodificar o idioma local. “Maldito fim de mundo.” Era o que diria um típico morador das cidades do Estado de Palard.
Benk quebrava a cabeça sobre como reproduzir com fidedignidade absoluta os selos rúnicos, um conjunto de ideogramas gravados no verso dos documentos que aplicavam ao papel as configurações mágicas que regiam a revolucionária empreitada contábil e financeira. Circuitos mágicos. Era como o artesão os compreendia.
Vamos por partes. Eram duas vias conectadas pelo vínculo mágico, uma para o banco central de Palard, outra para a posse e manejo do requerente. Os escribas deveriam, folha a folha, vinculá-las ao reproduzir as runas e a adequada composição das informações do proprietário, conectando assim as declarações gêmeas.
Em cada troca de recursos, os interessados deveriam visitar a casa da moeda local, utilizar uma das orbes ali disponíveis, e sob testemunho e registro do tabelião em função, declarar com clareza o acordo firmado. Assim, ambos os certificados de propriedade atualizavam-se, e o documento matriz, arquivado no banco central do reino, refletia e registrava a transação realizada.
No cofre de cada estado, os recursos materiais eram guardados: metais preciosos de lastro comum. No centro monetário do reino, as escrituras de posse matriz eram organizadas, registradas e atualizadas de forma automática e simultânea, conforme os proprietários trocavam, sacavam ou depositavam novas quantias de recursos nas casas da moeda local.
— Benk — sussurrava Pelk.
— Acho que é impossível falsificar uma escritura, talvez devêssemos desistir, ou tentar outro caminho.
— Não — respondeu o escriba, com firmeza na voz.
— As runas não são um problema. Já decantei a tinta necessária; descobri a brecha para vincular uma carta de posse à nossa propriedade. Falta pouco, Pelk. Ou deseja passar as próximas décadas nesse poço de fezes?
Benk tentava ler. Um dos poucos privilégios dos dedos dourados era o acesso à biblioteca do secto mágico — quer dizer, ao seu primeiro nível de um total de cinco — e não queria desperdiçar a única luz disponível, que emanava da distante torre norte, que aparentemente ainda era utilizada por alguns dos magos tabeliões cumprindo hora extra.
A tinta embebida no lenço gotejava lentamente dentro de um pequeno frasco de vidro, uma engenhosa técnica que envolvia evaporar aguarrás em essência de óleo vegetal de noz, preenchendo um tubo no qual o tecido umedecido estava amarrado, absorvendo o vapor para depois, gradualmente, expelir pequenas gotas douradas.
Quem mandou os fiscais subestimarem os procedimentos de segurança! A mente turva de quem convivia banalmente com o dourado mágico esquecia-se de sua natureza de valor inestimável.
A tinta continha propriedades condutoras. O segredo de sua composição era guardado a sete chaves pelo secto administrativo de alto escalão no setor da moeda real.
— Só precisamos de um conversor de mana! Com isso, se tudo correr bem, podemos fraudar a porcaria da carta de posse, amigo. Já temos quase tudo o que precisamos, logo estaremos livres. Acredite.
— Tem certeza, Benk? Uma vez dedos dourados, sempre dedos dourados. Não sei se conseguimos mesmo desaparecer no mundo.
— Ah! — exclamou o rapaz, retirando os óculos.
— Com recursos, é claro que conseguimos, e não estamos fazendo nada que já não façam. Não que nossa palavra tenha algum valor, mas sabe bem que os números nas transações oficiais do reino não batem. Em breve descubro qual runa foi calibrada para isso — disse Benk.
Pelk divagou por um instante devido ao sono. — O problema é invadir a biblioteca dos níveis inferiores; as runas originais devem estar lá!
Benk fechou o livro sem esperanças de progredir na leitura. — Acho que não. Tenho quase certeza de que os grimórios não estão armazenados ali. Mas, primeiro, precisamos do conversor de mana. Sem ele, não podemos fazer nada.
— Melhor dormir, Benk, amanhã conversamos sobre isso.

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