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Capítulo 22. A Luz que Desperta 13
Por um instante, os presentes aguardaram em expectativa. Jasper olhou para Wood. O Senhor Alguero, mais ao canto, acompanhado da própria família, fez o mesmo. O trinco da porta do templo inclinou. E de uma fresta, a porta rangente se escancarou.
O peso da pata robusta atingiu o chão e ecoou pelo interior do salão, suas unhas compridas e afiadas chocando-se contra o piso de pedra polida. Um massivo mamífero caminhou, indiferente aos gritos assustados, por mais agudos e desesperados que estes explodissem no ar.
O animal marrom amparava na boca o cabo de um instrumento, um machado. Acima de sua cabeça, sentado confortavelmente, o esquilo abraçava com suas pequenas patas um cinzel.
Bart sorria para os animais que avançavam salão adentro enquanto o pânico se instalava no coração de todos. Alguns buscaram refúgio inutilmente nas paredes, outros se agacharam atrás dos bancos. Jasper, por sua vez, habilmente saltou em cima do banco e, demonstrando equilíbrio profissional, pulou sobre os encostos de madeira, buscando se afastar. Já Alguero, amparando o corpo da esposa e da filha nos braços, apenas não acreditou no que estava presenciando.
Percebendo a escalada da situação, Wood bradou: — Acalmem-se! Eles não vão machucá-los.
Mas tão logo o urso estabeleceu-se no meio do corredor, quando um jovem, oportunamente e em ímpeto, correu para esgueirar-se porta afora, o impulso da fuga tornou-se arremesso, chocando-se contra o chão de peito aberto. Movimento esse que assustou o segundo urso, que caminhava no embalo do primeiro. Com a surpresa instalada, o animal marrom ergueu-se sobre as patas traseiras, bloqueando a passagem e redobrando os gritos angustiados que ensurdeciam o salão.
A noiva caminhou esvoaçando através do corredor, passou carinhosamente pelo amigo peludo, acariciando sua orelha e esquivando-se do garoto afoito ainda estatelado no chão. Roset abriu os braços e apertou a cintura ampla do mamífero à sua frente.
— Essa é Madalena, é uma boa menina — proclamou a mulher, abraçada à ursa que media quase o dobro de sua altura.
Sem conseguir mais se controlar, Roset começou a gargalhar enquanto observava a expressão de choque e desespero dos convidados.
— Aquele é o Bernardo — continuou entre risos —, e o pequeno é o Stok.
Infelizmente, a apresentação dos convidados silvestres não acalmou os ânimos revoltos; uma mulher gritou:
— Que absurdo! O que esses animais estão fazendo aqui? — perguntou perturbada, com a face vermelha de raiva, enquanto tentava acalmar a filha pequena aos prantos.
A noiva esticou a mão em direção ao garoto para ajudá-lo a se levantar. Ergueu-o e, assim que este estava de pé — a ursa agora com as quatro patas no chão —, indicou para que ele a tocasse. A cabeça maciça se abaixou para receber o contato.
A atmosfera estava pesada.
Roset, consciente do impacto causado, caminhou entre os presentes emanando um carisma entorpecente, olhando-os nos olhos e, um por um, acalentando-os para apaziguar o pânico que consumia a calma. Gradualmente, apesar dos protestos, de algumas palavras ríspidas ou eventuais insultos e grosserias, arrefeceu os ânimos, sempre sorrindo afetuosamente, enquanto orientava a todos que se sentassem. Wood seguiu o exemplo, tranquilizando os mais próximos.
Bart conversava normalmente com os sogros, que não haviam se abalado nem um pouco com a situação. E o sacerdote, que tinha fugido para o fundo do altar e se escondido entre os arranjos de flores que enfeitavam o local, foi convidado a se recompor pela noiva, quando esta se aproximou, para que dessem seguimento ao rito matrimonial.
— Olha só. Sua ideia quase arruinou o casamento — reclamou, em zombaria, Roset.
O lenhador fingiu contrariedade.
— E você negou completamente a ideia. Certo? — provocou o noivo.
Roset deu de ombros e suspirou, rindo baixo.
— Como posso negar o amor verdadeiro dos meninos?
— Ah, espero que não tenha problema, mas será que poderia conduzir o laço matrimonial de Bernardo e Madalena, senhor sacerdote? — perguntou Roset, com uma expressão doce entre os lábios vermelhos que sorriam.
…
O lenhador ainda estava inconformado com a decisão do filho. Apesar de não ser tolo a ponto de imaginar que poderia prender o jovem sob seus cuidados indefinidamente, não estava preparado para deixá-lo à própria sorte em um mundo imprevisível como o que habitavam.
Wood já tinha dezessete anos e era quase um adulto, um artesão promissor com um futuro seguro e garantido. Arriscar-se em uma jornada não fazia sentido. Bart não entendia o quanto o rapaz estava angustiado devido aos sonhos, muitos dos quais o conteúdo não revelava a ninguém, e à figura que vislumbrou em meio à luz. As palavras, as explicações; ele não podia entrar na cabeça do jovem para sentir, para encarar o turbilhão de emoções que a cada dia pesavam mais.
Roset compreendia melhor; apesar de conhecer o enteado há pouco tempo, ela vislumbrava a exaustão emocional, a prisão que o enredava e desgastava aos poucos. Não conseguia ajudá-lo; o máximo que poderia fazer era submetê-lo gradualmente à sua vontade, mas ela não desejava isso.
Chegou a hora de partir. Após coletar informações na cidade de Honkenski, conversar com Jasper, e refletir demoradamente sobre como deveria proceder, Wood elaborou o esboço de um plano na mente. Precisava ir até Forload, a capital de Golgdon, estado onde habitavam. Era necessário encontrar um meio de cruzar as fronteiras das demais províncias, e apenas na capital poderia conseguir os atributos para iniciar sua jornada.
Algumas profissões tinham trânsito facilitado entre os estados, como religiosos, comerciantes e diplomatas. Também era possível requisitar um visto de entrada para assuntos pessoais, como turismo ou, por vezes, até concessão de cidadania e moradia. Cada método exigia um procedimento e gerava um resultado particular, mas Wood almejava apenas a liberdade para se locomover, sem se preocupar com amarras burocráticas ou deveres e vínculos colaterais. Além disso, não dispunha dos recursos para requisitar certas regalias; financeiramente, mal somava três moedas de ouro. No fim, o único caminho que permitia o que desejava era o alistamento militar.
Wood acordou cedo, como sempre, mas dessa vez sua aurora estava preenchida pela ansiedade. Em sua cabeça, aturdida por perguntas, o eco nebuloso da imagem do prisioneiro morto lhe embrulhava o estômago. Segundo os fragmentos do tecido onírico, homens vestidos em túnicas negras, sussurrando palavras poéticas indistintas frente aos gritos imobilizados; experimentos incompreensíveis: o calor, as fissuras na pele, a desfiguração do corpo impotente, torturas que nenhum humano jamais merecia receber em hipótese alguma.
O Rubro amarrava as botas enquanto reforçava a resolução de seguir por um horizonte inexplorado, preenchia a mochila com roupas, alimentos e objetos que acreditava serem úteis, ao mesmo tempo em que escutava o coração ritmar a adrenalina do desconhecido.
O velho e pequeno machado de mão, o cantil de chá de finsy e as economias involuntárias que nunca teve a oportunidade de gastar. Respirou o ar da floresta que revestia a montanha que o abraçava desde sua primeira memória de infância.
Do lado de fora, preparou a correia, a sela e atou seu bom e velho companheiro Cavam ao arreio para guiá-lo uma vez mais com a carroça. Em sincronia com o nascer do sol, Bart e Roset saíram da casa principal para acompanhar o filho até a cidade.
O semblante triste do pai atingiu com força sua convicção, mas ele não se deixou abalar.
— Eu volto — prometeu ao velho, reafirmando o que havia dito em sua última conversa.
— Vai mesmo pra capital, Wood? — perguntou Roset, já sabendo a resposta.
— Jasper vai me levar pelo rio até a vila de Bolkem, de lá, é só seguir pela estrada sul até Forload — confirmou o Rubro.
Bart estava mudo, concentrando-se na descida escarpada da estrada da montanha.
— E meu irmão, como está? — perguntou Wood, forçando o pai a sair da concha.
Roset riu, levemente encabulada. O lenhador tentou manter a postura, mas cedeu à provocação do filho.
— Vão roubar a sua cabana se não voltar logo — ameaçou o homem.
— Que roubem, mas antes vão ter que tomar ela dos ursos — retrucou o filho.
E de fato, o casal pardo sondava a cabana de Wood desde o recente casório, que ficou marcado na comunidade como o casamento mais selvagem da história da cidade. O casamento do urso.

https://youtu.be/IpuVceksVrE (um vídeo de agradecimento… mas não se preocupe, a história continua rsrs, só queria agradecer mesmo ^^)

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