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Capítulo 21. A Luz que Desperta 12
Bart andava de um lado para o outro; Roset estava sentada, ainda abalada por tudo o que acontecera. Algumas horas após a tormenta, aos poucos, o mundo parecia ter voltado ao normal.
Wood estava sozinho em sua cabana, refletindo sobre as palavras que Medelin havia lhe proferido à beira do rio.
“Esses sonhos não devem ser apenas delírios, Wood. Parecem representar uma conexão, um vínculo; é quase certo que é um efeito mágico… visões. Como se estivesse no corpo de outra pessoa? Paralisado? Observa um homem, um prisioneiro, um cárcere e, por vezes, pessoas que realizam experimentos?… eles fizeram o que com ele? Isso é doentio demais… Então esses sonhos são insistentes, o assombram constantemente por toda a sua vida?… Não, infelizmente não sei como ajudar, Wood. Mas alguém certamente sabe… sim, pessoas como eu, mas diferentes; acho que cada um tem habilidades particulares… não, não conheço ninguém, e não sei explicar. Sou assim, pra mim, esse é o normal, Wood… perdão por não conseguir ajudá-lo”.
Deitado, com os olhos fechados, concentrou-se nos eventos recentes. O que aconteceu com ela? A luz pairava acima dele, próxima ao teto, como sempre. Mas, pela primeira vez em sua vida, ela havia se expressado daquele jeito. O que era aquele semblante reptiliano? Quem era? Aquilo não saía de sua cabeça, assim como a angústia que pesava em seu interior, apertando-lhe o peito. Uma nostalgia sem nome ou forma, um vazio não preenchido que trazia um gosto amargo na boca.
Depois aquela visão. Não foi um sonho; ele estava completamente desperto. As mãos sombrias, o homem de olhar desafiador, o céu carmesim. O mesmo céu que os assombrara, a ele e a Roset, há pouco tempo. A tormenta.
Tantas perguntas que ninguém podia responder. Às quais não podia, não conseguia mais ignorar. Mas o que eu posso fazer?
No fundo, Wood não apenas sabia, mas sentia ser inevitável; ele precisava fazer alguma coisa. O homem, a sombra ou o semblante luminoso, alguém deveria ter a resposta, ou ao menos a pergunta certa.
…
— O que vai fazer? — perguntou Bart, inquieto e irritado pela resolução do filho.
— Não sei, mas preciso buscar respostas, descobrir o que é tudo isso — afirmou Wood, desviando os olhos; ele não conseguia encarar o pai.
— Bart — chamou Roset, tentando acalmá-lo, embora ela mesma não concordasse completamente com a decisão do rapaz.
— Sair a esmo pelo mundo. Ótima ideia, realmente brilhante. Pense bem, Wood! — reclamou o lenhador.
— O que mais posso fazer? — replicou o Rubro, fechando a cara. — Eu preciso descobrir quem são essas pessoas e por que estão na minha cabeça, o que é tudo isso. Você não entende?
— Não, eu não entendo! — confessou o pai, balançando as mãos pelo ar.
— Na cidade tem um homem que é irmão de um mago — argumentou Medelin, tentando ajudar. — Talvez ele saiba de alguma coisa.
— É um começo, obrigado, Roset — agradeceu Wood.
— Mago, e magos lá são confiáveis? — retrucou Bart, com a voz cortante.
— O Rei é um mago — disse o filho. — Ou agora não confia mais no Rei?
O rosto de Bart enrubesceu. O Rei Dragão, o grande governante, a figura que ele mais respeitava em toda sua vida.
— O Rei? O grande Rei. Ele é um cavaleiro, um cavaleiro Dragão! — afirmou o lenhador, com reverência na voz.
Wood sabia que Bart era um órfão, que seus pais, imigrantes do estado de Loabek, faleceram em um acidente de barco no rio Kenski quando ele era apenas uma criança, deixando-o desamparado. Que o Rei Palard, em pessoa, ordenou ao representante de Golgdon, estado onde habitavam, que amparasse e instruísse num ofício todos os órfãos do estado. O homem cultivava uma gratidão gigantesca por um Rei que nunca conhecera pessoalmente.
— Quem sabe eu encontre o Rei em minha jornada — provocou Wood. — Posso até prosear sobre meu bom pai com ele — disse, sorrindo e incentivando a imaginação de Bart.
— Olha o respeito, Wood — repreendeu o lenhador, que, apesar da teimosia, deixou-se afetar pela insinuação do filho e arrefeceu o semblante.
— Se for mesmo fazer isso, Wood — disse Roset, concentrando-se no rosto do Rubro. — É melhor se preparar bem! O mundo é perigoso — alertou a mulher.
— Mais do que essa montanha? — zombou o rapaz.
Medelin riu, sem conseguir contra-argumentar o questionamento do enteado.
— Você conhece esse homem da cidade, Roset? — perguntou Wood, ajeitando-se na cadeira.
— Não — respondeu ela, refletindo. — Mas sei quem é. Acho que posso convidá-lo pro casamento. — afirmou Medelin, deixando escapar a ideia súbita.
— Que noivado rápido esse, hein — provocou o Rubro.
E, de fato, Roset compartilhava a morada e a rotina com eles há apenas duas semanas, mas sentiam que a mulher sempre estivera ali; não conseguiam mais imaginar aquela casa sem a presença resplandecente da jovem. E, claro, dos animais selvagens que agora frequentavam a região sem qualquer cerimônia.
Medelin abaixou o rosto e estendeu a mão em direção a Bart, requisitando que a tocasse. O homem estava em pé, ao seu lado, e concedeu à vontade da esposa.
— Não consigo resistir a esse rosto barbado e másculo — confessou Medelin, flertando com os dedos do homem que se entrelaçavam entre os seus.
…
No templo lunar, prédio de belo acabamento, a luz penetrava pelos vitrais coloridos. A cerimônia começaria em breve; os noivos estavam sentados perto do altar à espera do sacerdote, que estava atrasado.
Bart vestia sua melhor camisa vermelha, calças grossas reforçadas em couro e as boas e velhas botas desgastadas de sempre. Roset usava um lindo vestido vermelho, ornado com bordados florais verdes e amarelos, mangas curtas e decote aberto; os cabelos castanhos reluziam ondulantes amarrados sobre a parte de trás da cabeça em um semicoque, deixando as mechas deslizarem sobre sua nuca. Estava radiante, e não conseguia parar de sorrir.
Wood, em seu melhor colete de couro, demonstrava grande empolgação e expectativa. Estava ao lado do senhor Stuart Cross, um homem de barba rala e baixa estatura; o pai de Roset usava uma camisa branca de linho e tentava, com esforço, conter a emoção que seus olhos confessavam.
— Sua filha mais velha vai se casar — comentou empolgada a senhora Olivia Cross Medelin, mãe de Roset, contendo as lágrimas. Era uma bela mulher de meia-idade, alta e encorpada, muito parecida com a filha ao sorrir e nas vestes deslumbrantes que usava, confeccionadas por suas próprias mãos, assim como as de Roset.
— Nossa pequena Rosa — respondeu o homem com a voz embargada.
Apertando a mão do pai, uma jovem da metade da altura de Wood vibrava no vestido branco-neve de renda.
— Logo eu caso também — disse a menina, competindo com a irmã mais velha.
Eram uma família realmente simpática de comerciantes de cerâmica, tecido e utensílios de metal.
Os convidados, e mesmo os curiosos, conversavam animados à espera do evento. Casamentos são festas subsidiadas pela administração local, assim como velórios, e as pessoas da cidade se reuniam para felicitar ou consolar os envolvidos. Dentre eles estava Jasper, o irmão do mago, que educadamente aceitou o convite de Roset e compareceu à cerimônia.
Wood aproximou-se do homem, que ao perceber o rapaz, assustou-se um pouco. A pele negra de Wood se destacava em uma cidade onde todos eram brancos.
— Você é o Rubro, filho de Bart, o noivo da montanha? — perguntou Jasper, puxando assunto.
Wood estendeu a mão ao homem. — Isso mesmo! — confirmou.
— Roset comentou sobre você — disse Wood. — Jasper, certo? O canoeiro, irmão de um mago?
— Sim, é assim que costumam me chamar — confessou Jasper, já acostumado, apesar de frustrado, com a inegável conexão que possuía com o irmão. — Ao menos agora, me chamam pelo nome — comentou ele.
O rapaz deduziu a situação.
— Me chamam de Rubro, ou de filho da forja, o rapaz da montanha, mas meu nome é Wood Steel.
A perspicácia da fala de Wood atingiu o canoeiro.
— Perdão, Wood. Não sabia o seu nome — desculpou-se imediatamente Jasper, constrangido pela própria indelicadeza e percebendo o que fizera.
Com uma gentil e acolhedora expressão, o rapaz sorriu. — Não se preocupe, não me importo com isso — apaziguou ele, batendo com a mão esquerda no ombro de Jasper, com empatia e cumplicidade.
— Deve ter muita história pra contar sobre você e seu irmão, não? — Wood introduziu a conversa que lhe importava.
Jasper fitou o chão por um breve instante, suspirou e ergueu os olhos.
— Não muita, ele foi levado embora quando eu era criança.
— Isso é comum quando as crianças despertam, não é? — perguntou Wood.
O canoeiro ajeitou a camisa de algodão branco, sentindo a textura do tecido com os dedos.
— Não sei se já ouviu a história. Ele explodiu o próprio braço e três casas ao lado da nossa. Quatro pessoas morreram — relatou o homem com amargura na voz.
Wood percebeu a delicadeza do assunto. Magos eram imprevisíveis; muitos morriam ainda na infância.
— Que terrível — comentou o Rubro, um pouco constrangido por invadir a privacidade do homem.
Mas sem conseguir controlar as memórias que fluíam, Jasper continuou a história.
— O que me lembro bem foi o pavor que senti; ele estava sofrendo, ensanguentado e assustado. Eu não conseguia parar de chorar. Minha mãe estava paralisada, coitada.
— Foi um acidente? — questionou o rapaz, sentindo o estômago pesar.
— Meu pai queria matar meu irmão. Sabe? Mas minha mãe o impediu. Meu irmão, o Jimfh, não tinha nem dez anos na época. Prenderam ele; depois uma ordem de cavalaria o levou embora. Nunca mais o vi na minha vida — lamentou Jasper, que agora já passava dos quarenta anos.
— Ele nunca voltou? Não sabe onde está? — perguntou Wood, sem saber o que dizer.
Jasper olhou para Wood e, com tristeza, confessou:
— Não sei o que aconteceu com ele, mas acredito que esteja vivo — afirmou, com sincera esperança, o canoeiro, e continuou:
— A única coisa que sei é que a sede da ordem dos magos fica no estado de Ecala Moon, na margem oeste do grande lago Julg. Talvez ele esteja por lá. Em algum lugar daquele país.
Ecala Moon, pensou Wood. — Nunca tentou ir lá? — perguntou o rapaz.
Jasper franziu a testa, consternado.
— É um estado hostil e distante. Não sou comerciante, nem caçador de bestas. — O canoeiro, que nunca havia saído em uma jornada ao encalço do irmão, sentia que era tarde demais. A desistência era um assunto que o incomodava.
O sacerdote, vestindo uma túnica cerimonial lilás de rica qualidade, adentrou o templo em passos ligeiros, fingindo que a pontualidade não era importante.
Bart e Roset levantaram-se para receber o homem, que cumprimentou-os com amabilidade, subiu os degraus do púlpito e chamou a atenção dos presentes, para que ouvissem o que tinha a dizer.
— Bem-vindos, estimados habitantes de Honkenski. Agradeço a presença de todos nesse magnífico dia de festejo e união. Viemos aqui, hoje, celebrar o amor de…
— Bart e Roset — sussurrou a noiva, que estava próxima ao clérigo.
— Bart e Roset — completou o homem de fé.
— Peço aos pais da noiva que se aproximem.
O senhor Cross e sua esposa, Olivia, aproximaram-se do altar.
Munido de um bastão dourado, o sacerdote consagrou os familiares com movimentos circulares abrangentes, enquanto recitava versos de respeito.
— …sagrado sol, que a luz enaltece o jardim da vida; estimado Rei, nosso pai, sois o guia de nosso destino, zelai por nós, súditos de vossa graça. Que o abismo nos conceda o nascimento e a morte…
— Ainda não entendo essa mistura de tradições. É até ofensivo — reclamou Jasper.
Religião não era o forte de Wood, que só conhecia superficialmente os preceitos de uma ou duas delas. Bart também não possuía nenhum vínculo, apesar de estimar a figura do grande Rei.
— … que o fruto prospere e as sementes germinem no berço dos dragões — completou em reverência o chefe da cerimônia.
— Segue algum credo? — perguntou Wood ao canoeiro.
— Louvo o sagrado Abismo, a morada divina e tecelão de nossa existência — disse, com deferência na voz, Jasper.
— Concedem a prosperidade, a alegria e a proteção de sua amada filha ao homem que aqui a acolhe? — perguntou o clérigo ao casal Cross.
— Agora vai ficar interessante — sussurrou Wood.
— O protetor de Roset é mestre de qual ofício? — inquiriu o sacerdote.
Bart se aprumou, orgulhoso.
— Sou lenhador, mestre marceneiro e chefe carpinteiro — pronunciou, subindo ao altar.
— Tragam aqui o machado e o… — começou o sacerdote.
— Cinzel — completou Bart.
— Cinzel — disse o mestre de cerimônia.

Bart

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