CAPÍTULO XXIII: MITOLOGIA (2/3)
Noah já tinha noção do que ele queria, já que seu principal objetivo era recuperar o colar que Giulia e André haviam lhe dado, então tinha que saber como usar aquele fragmento, por isso buscou no sumário pelos deuses com poderes elétricos sem nem hesitar, nem ao menos parou por um único instante para ver os outros. Os que mais lhe interessaram foram os menos conhecidos: a deusa Oiá, que controlava tempestades, e apesar de não ser só uma deusa com poderes elétricos, ela controlava o tempo com dança e controlava a energia da mesma forma, criando uma corrente que usava em seu chicote; o outro deus, que foi um rei quando vivo, é Perun, no qual controlava o seu fragmento através de ferramentas que o auxiliavam; e, por fim, dos deuses poucos conhecidos que lhe interessaram, a Fulgora, que havia sido esquecida, assim como muitos outros deuses, mas era habilidosa. Apesar de ser considerada fraca, ela conduzia os raios de uma forma majestosa, atraindo-os até ela como se fosse um para-raios ambulante. Ela lançava raios de seus dedos, era rápida e capaz de moldar os raios a seu favor.
Levou quase uma hora até que todos tivessem terminado e então entregaram as folhas à Kelly, para que ela analisasse os trabalhos e desse uma resposta a eles no dia seguinte.
– Bem, turma, como atrasamos o nosso cronograma, não sobrou muito tempo para continuar hoje, então vou mesclar parte da aula enquanto estivermos treinando. Vou aproveitar que uma parte é sobre o treino para falar enquanto praticamos. Agora só falta um minuto para às oito, então já vou liberá-los. Bom café para todos.
No café, eles comeram um sanduíche de ovo bem recheado e tomaram um delicioso suco natural de laranja, gelado e sem açúcar. Tudo enquanto eles conversavam sobre a aula e jogavam dominó.
– Seria muito irado poder virar outra criatura igual acontece nos folclores – comentou Sophia, mostrando a imagem do Boto cor de rosa encantado.
– Não temos nenhum registro de que isso realmente é real, os únicos fragmentos que foram registrados até hoje são os relacionados aos elementos da natureza – explicou Kevin.
– Não seja um estraga prazeres – disse ela, levemente.
– Eu não nego que seria incrível se isso fosse possível, mas não adianta sonhar com algo impossível de acontecer.
– Chaaato!!! – zombou.
– Será que é impossível mesmo? Até alguns meses atrás, eu nem imaginava que tudo isso que estou vivendo fosse possível – disse Noah, não duvidando de nada.
– Se algum dia algo assim for encontrado, isso mudaria tudo e seria medonho, prefiro que a metamorfose continue sendo apenas um mito. Mas claro, levando em conta que a nossa existência faz parte da natureza, é uma possibilidade – complementou Kevin.
– Então algo assim é possível? – questionou Noah, surpreso.
– Teoricamente falando, sim – confirmou Kevin. – Mas mais importante do que isso é o que nós vamos fazer quando chegar a hora de escolher um fragmento.
– O que mais combina com o meu estilo é o fogo, algo intenso que possa impulsionar as minhas habilidades – disse Sophia, mexendo as suas mãos como se estivesse a lançar fogo.
– Eu prefiro algo mais discreto e difícil de ver. Controlar o ar combina muito mais com o meu estilo – disse Kevin, sentindo a brisa que entrava pela porta.
– Isso combina perfeitamente com o seu jeito frio e calculista. Quem te vê com essa cara fina, nem imagina o quão assustador você pode ser – comentou Sophia, tirando sarro dele.
– Posso dizer o mesmo sobre a sua escolha, um poder de fogo combina perfeitamente com esse seu rabo em chamas – retrucou, fazendo Noah rir.
– Agora eu vou ter as orelhas também. E você, Noah? Tá aí rindo, mas não disse qual é a sua escolha.
– Algo relacionado à eletricidade.
– Tem algum motivo para isso? – perguntou Sophia, insatisfeita com uma resposta tão simples.
– Nada demais, eu apenas gosto da ideia de controlar a eletricidade, é uma habilidade versátil, tem um poder destrutivo parecido com o fogo e é ágil parecido com o vento.
– Chatooo… Não quero um Kevin dois na minha vida – disse Sophia, entediada.
– Você não vai pensar isso depois que levar uma surra de mim – desafiou Noah.
– Nem em um bilhão de anos você conseguiria me vencer, eu treino com fragmentos desde que era pequena, a minha força e meu controle são muito melhores do que o seu – disse ela, se achando.
– Dizer isso depois de perder para mim na frente de todos não é muito convincente – disse Kevin, para desanimá-la.
– Você não ganhou de mim, foi só um erro de cálculos, em uma luta de verdade você nunca me venceria.
– Estratégias fazem parte de um combate. Essa desculpinha não vale de nada – disse Kevin, zombando dela.
– Você sempre diz isso, mas nunca conseguiu me vencer em nenhum jogo. Ganhei de novo. E então, desistem?
– É impossível vencê-la… alguém tão sortudo assim não deveria existir – disse Noah, largando a única peça que tinha na mesa. – Se jogar todo dia na loteria é capaz de vencer sempre.
– Eu não preciso de dinheiro, acho a vida mais divertida do jeito que está.
– Não precisa ficar com o dinheiro, é só dar ele para mim.
– Até parece que eu faria isso, você gastaria tudo no mesmo ano.
– Se você ganhasse todas as vezes eu não precisaria guardar nada.
– Você viraria uma pessoa inútil, então não.
– Olha só quem está virando o Kevin dois agora.
– Ao invés de ficarem me usando para se xingarem, vamos guardar as peças… Daqui a pouco o intervalo vai acabar – avisou Kevin, inconformado por ser usado como um referência de chatice. – Eu não quero ter que fazer cem flexões por chegar atrasado.
Às nove horas, todos já estavam prontos para o treinamento, usando equipamentos de proteção individual para o combate e com os ouvidos bem atentos a tudo o que a Kelly lhes falava, e, como sempre, ela estava fazendo alguns movimentos enquanto falava. Contudo, dessa vez, eram diferentes do comum, geralmente ela tinha algo em mãos, ou parecia dar golpes certeiros enquanto lutava contra a sombra. Porém, agora ela parecia estar somente dançando, não tinha uma força aplicada em seus movimentos. Apesar de serem parecidos com os movimentos de luta que treinavam diariamente, eram movimentos rápidos e leves.
– Alguém consegue adivinhar qual será o foco do nosso treinamento hoje? – perguntou Kelly, parecendo estar bem relaxada.
– Agilidade – chutou um aluno.
– Também, mas isso é algo que se encaixa em todos os treinos que tivemos até então – respondeu. – Já esses treinamentos que teremos a partir de hoje terão um foco em especial no controle sobre o seu próprio corpo. Vocês terão que treinar ao ponto de se conhecerem melhor do que nunca e se superarem ainda mais, para assim vocês se tornarem capazes de manter o equilíbrio, tanto físico quanto mental, além disso, é a base dos movimentos que usamos para controlar os elementos – explicou.
– Será igual aos treinos do filme, Rinha de Criança? – perguntou Sophia, imitando o golpe da garça.
– Se quiser, eu boto você para limpar, organizar e pintar a minha casa, aí você me diz se isso fez alguma diferença para você – gozou Kelly.
– Não, obrigada – disse ficando quieta.

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