Índice de Capítulo

    Era quente.


    Era tão quente que, se um dia reclamou do calor, teria pedido perdão ao inferno. Ele nunca esteve um lugar tão maldito quanto aquele. Além disso, como se risse dele, a lembrança de querer algo emocionante em sua vida havia retornado.

    Se isso era a definição de Chamado à Aventura, o universo realmente estava zombando dele.

    “Essa merda não é o Saara.”

    Não era o Atacama, nem o Caláari. Ele viu muitos documentários no Discovery Channel para saber que, não importa em que lugar do mundo estivesse, era impossível ter um maldito braquiossauro mordiscando uma árvore.

    Você não leu errado. Um braquiossauro estava, seguramente, a dez ou quinze metros de distância do nosso amigo, que se escondia em uma moita. O animal, com sua pele de couro sem pelos, enrugada na região do estômago, esticava o pescoço de girafa e comia as folhas de uma acácia.

    “Que merda.”

    Como isso foi acontecer?

    Ele estava voltando para casa. Eram dez e duas da noite, e sua moto deslizava pelas ruas de Manaus. Ele parou no cruzamento, esperando o sinal abrir.

    — Ainda bem que essa disciplina acabou — disse ele, com um suspiro. — Não aguentava mais esse velho falando da vida dele.

    O que mais ele esperava? Velhos eram velhos, independentemente de quantos PhDs eles tinham. Eles gostavam de falar da própria vida, de listar seus troféus. Aquele bastardo falava dos dez mil reais como se todo mundo, de algum jeito, fosse conseguir um também.

    — Como se eu fosse acreditar nisso… 

    Ninguém prosperava honestamente no Brasil. Ele até suspeitava que, em qualquer parte do mundo, era impossível ganhar muito dinheiro sem se sujar.

    Quando o sinal brilhou em verde, ele passou a marcha, acelerou e… 

    Puff!

    Em outro mundo, em cima de uma bis.

    Ele, por ser fascinado por séries como Largados e Pelados, Barry Grylls e Mundo Animal, sabia que não era uma boa ideia acelerar um motor no meio de um ambiente inabitado. Ele girou a chave, desligando a moto.

    Ele a arrastou até uma moita, a escondendo ali e suspirou. Quando pensou que deveria refletir o que diabos estava acontecendo, deu de cara com o braquiossauro. Por isso estava ali, acocado.

    “Certo. Estamos num deserto. Isso aqui com certeza é outro mundo. Eu não estou sonhando, pois estava voltando da faculdade. Também não é um efeito alucinógeno, porque eu nem tenho dinheiro pra um baseado. Isso, definitivamente, é a vida real.”

    Não importava de que jeito visse a situação, ele realmente estava vivo em um deserto.

    “Essa merda com certeza é um braquiossauro. Sendo esse um mundo paralelo, devo estar no Jurássico Superior desse mundo.”

    Há aproximadamente 140 milhões de anos da civilização.

    “Não podia ser pior, né?”

    Ele era o único humano entre os dinossauros.

    “Eram dois continentes, certo? Tô chutando que essa seja uma Terra de um universo alternativo. Provavelmente houve uma pangeia, que se separou em dois continentes. Eu devo estar na Gondwana…?”

    Seu conhecimento não era tão profundo assim.

    “De qualquer forma…”

    Com o pouco que sabia, uma coisa estava começando a preocupá-lo.

    “T-rex…”

    Ele franziu a testa.

    “O T-rex é do Cretáceo, certo? O Jurássico foi uns bons milhões de anos antes dele…”

    — Hah… Hahaha!

    Ele se viu forçado a esfregar a mão no rosto.

    “Não preciso me preocupar com isso, então.”

    Quando ele estava para relaxar… 

    — Moço, perdão. Mil perdões. Sério, o erro foi nosso.

    — Hã?! — berrou o rapaz, assustado.

    Atrás dele, uma mulher de pele morena e cabelos ondulados, vestindo uma armadura cinza e justa ao corpo, num estilo retro-futurista e luzinhas piscantes, o observava com atenção.

    — Sou Costela Marques Velasquez, patrulheira da STF. Nós enfrentamos uma ameaça cósmica que, de alguma forma, afetou a conexão entre os mundos do multiverso. 

    — Certo…?

    “Que… PORRA É ESSA?!”

    — E aí?

    — Bem, a Terra A-3 foi destruída, e o único a sair vivo dela foi o Nathan Yago Dias. Esse moleque é perigoso, não importa de qual mundo ele seja… 

    — Nathan…?

    Quem diabos é Nathan?

    — Você não o conhece?

    — Não — respondeu o rapaz, balançando a cabeça com mais intensidade do que gostaria. 

    — Sério…? — Ela parecia incrédula. Ela arregalou os olhos por um momento, e depois voltou a ficar séria. — Entendo. Então vocês não são amigos, nesse mundo… 

    — Espera, do que você está falando?

    — Nada que te afete diretamente, pelo visto. Bom, você foi invocado pela corte do Rei Vear III, daqui a 140 milhões de anos. Porém… — Ela fez uma expressão engraçada, como se tivesse derrubado arroz no chão. — Houve essa luta, né, então… a conexão foi desestabilizada, e você parou no período Jurássico Superior deste mundo.

    Se isso fosse uma webnovel, com certeza seria um primeiro capítulo bem diferente. Não que ele fosse passar dele, pois a premissa era simplesmente imbecil. No entanto, como isso era a vida dele, o garoto deixou os ombros caírem e esperou que ela continuasse.

    Ela mordeu o lábio inferior.

    — Vou te enviar para o ano de 1645, bem no meio do salão real de Elyndor, o reino que faz fronteira com o continente demoníaco. Aguarde alguns segun… 

    — Calma, calma, calma. Pera lá — Ela inclinou a cabeça, confusa. Ele coçou a testa. — Continente demoníaco?

    — Sim, isso mesmo — afirmou ela, como se dissesse “o que tem de mais nisso?”.

    — Não, sério, repita isso que você disse.

    — Vou te enviar para o salão real de Elyndor, onde os magos da corte realizaram o Ritual de Invocação do Herói, que era onde você realmente devia estar e… 

    — Não isso!

    — Ah, certo — riu ela, como se tivesse cometido um erro bobo. — Elyndor faz fronteira com o continente demoníaco.

    — Isso, para bem aí — ele estendeu os braços, com as palmas abertas. — Você tá me dizendo que, daqui a 140 milhões de anos, humanos e demônios vão dividir o mesmo mundo.

    — Sim?

    — E os demônios vão ter um reino?

    — Sim?

    — E os humanos farão fronteira com ele?

    — Exatamente.

    — Vai se foder.

    Ele se levantou, saindo da moita.

    — Sério, vai se foder.

    — Ei, espera! — a mulher se desesperou, correndo atrás dele. — Para onde você está indo?

    — Moça, me perdoe, mas isso é demais pra mim — confessou ele, a boca tentando sorrir. — Você diz ser do Supremo Tribunal Federal, e que enfrentou uma ameaça capaz de abalar o multiverso, que um rei me invocou e eu fiz não apenas uma viagem interdimensional, mas espaço-temporal para o passado? Sinceramente, com todo respeito? Vai se foder.

    — Supremo tribu… ei, eu sou do STF!

    — Sim, então o seu problema é o banco master, não eu.

    — Ei! — ela o agarrou pelo braço. 

    Ele já estava ficando cansado dela.

    — Não é isso que STF significa.

    — Significa o quê, então? — perguntou ele, em tom de desafio.

    Ela franziu o cenho. Era como se ela estivesse diante de uma pessoa incrivelmente burra, ou apenas ignorante. Ela suspirou e disse, com naturalidade na voz:

    — STF é Space-Time Force.

    — Ah… 

    Ele abriu a boca.

    — Ah, ah… 

    — “Ah”? 

    — Ah, ah… ahahahaha — ele levou o punho à boca. — AahahahaahaHAAHAHAHAHA!

    Ele tossiu e cuspiu no chão.

    — É, vai se foder.

    E continuou andando.

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