Capítulo 258: Roupa Nova
Assim que viu a mudança no rosto de Yu Sheng, Aileen enfiou a cabeça na frente dele na mesma hora. Bastou bater o olho na tela para saber o que estava acontecendo. A bonequinha levantou o rosto, com um olhar de quem adorava ver o circo pegar fogo: “Eita! Como é que se diz… se você não vai ver o amigo virtual, ele vem ver você…”
Yu Sheng não tinha tempo para lidar com o sarcasmo da boneca agora. Ele olhava para a mensagem na tela estalando a língua, preocupado pra caramba: “Vou te contar, estou com um pressentimento ruim, muito ruim…”
“A sua Intuição Espiritual apitou?”
“Isso não, mas talvez ele esteja fora de alcance”, disse Yu Sheng, com uma expressão séria e conflituosa. “Ou pode ser só eu pensando demais. As coisas no mundo não são necessariamente tão coincidentes assim, não é…”
“Aí eu só posso concordar, afinal, você está tão preocupado”, Aileen sentou-se na mesa de pernas cruzadas, observando Yu Sheng com curiosidade. “E como você vai responder? Arranjar uma desculpa para não se encontrarem? De qualquer forma, não é uma relação tão íntima assim. Ou você simplesmente abre uma porta, vai sobreviver na natureza de um planeta no fim do mundo por alguns dias e diz que saiu a trabalho. Porque, se realmente for uma coincidência tão grande assim, vai ser muito constrangedor na hora.”
“Falar é fácil. Ir sobreviver na natureza de um planeta no fim do mundo é pior do que encarar logo um amigo virtual armado com uma faca”, Yu Sheng lançou um olhar furioso para a boneca e tomou coragem. “Ah, se é pra encontrar, a gente encontra, e daí? Além de talvez não ser tudo isso, se for mesmo uma coincidência tão grande, melhor ainda, assim eu não preciso ficar com isso na cabeça no futuro.”
Enquanto falava, ele respondeu à mensagem no Comunicações da Fronteira: “Claro, ter alguém que entende do assunto para conversar é ótimo. Mas onde vamos nos encontrar? Precisa de um endereço? O lugar onde moro é meio isolado, pessoas normais não conseguem achar…”
Em poucos instantes, Nietu Siqian enviou uma resposta: “Sem problemas. Tenho certa amizade com a Agência de Operações Especiais. Quando meu discípulo chegar, peço a eles que ajudem a organizar. Apenas aguarde notícias.”
Após trocarem mais algumas mensagens, Yu Sheng abaixou o celular e soltou um longo suspiro.
Sentiu uma sensação de desejo realizado, de grande iluminação.
A bonequinha se aproximou, segurou o rosto de Yu Sheng olhando para todos os lados e, depois de um bom tempo, soltou: “Você tem um desastre sangrento no seu destino!”
“Eu sangro dia sim, dia não, isso nem conta mais como desastre”, Yu Sheng esticou a mão e afastou as duas patinhas de Aileen. Pegou o pequeno vestido recém-costurada em cima da mesa e estendeu para ela: “Experimenta. Deixei as costas um pouco mais folgadas, tirei as partes coladas com cola quente e costurei de novo com linha. Agora deve ser como usar uma roupa normal, não vai te incomodar.”
“Ah, ah, beleza!” Aileen ficou feliz no mesmo instante e, abraçando o vestido, pulou da mesa. “Eu vou me tro… troc… ah, não tem lugar para trocar de roupa no sótão, vou ter que descer.”
“Pra que tanto esforço”, Yu Sheng puxou de lado uma grande caixa de papelão que antes era usada para guardar tralhas, colocou-a de pé no chão. “É só trocar aqui dentro. Deixa a lateral virada para lá, não tem luz lá dentro.”
“Ah, então você não pode espiar!”
Yu Sheng abanou as mãos, resignado.
A boneca entrou na caixa para se trocar. Depois de um leve som de farfalhar, Aileen, agora vestindo seu vestido novo roxo, saiu dali com um enorme sorriso no rosto e deu uma voltinha animada na frente de Yu Sheng: “Ficou linda?”
“Ficou, ficou. Já tinha visto da última vez, caiu super bem”, elogiou Yu Sheng casualmente. “Ainda está pinicando?”
“Não está mais!” disse Aileen animada, escalando a perna de Yu Sheng para voltar à mesa. “Você tem jeito para a coisa. Quem sabe no futuro você não vira um mestre de marionetes profissional?”
“Você tem cada ideia. Eu tenho bastante consciência das minhas próprias habilidades. Já é um grande feito conseguir consertar as suas coisas de vez em quando e improvisar um corpo usável”, respondeu Yu Sheng distraidamente. “Se eu fosse mestre de marionetes de verdade, ia morrer de fome.”
Aileen pensou um pouco e logo pulou para outro assunto: “A propósito, aquele Nietu não-sei-o-quê te falou quando o discípulo dele vem?”
“Disse que leva pelo menos uns cinco ou seis dias. Não só porque o caminho é longo, mas também porque precisa resolver as papeladas”, Yu Sheng respondeu balançando as mãos. “Eu também nunca fiz viagens longas e muito menos vivi fora do Limiar, então não entendo bem como é o processo deles. Mas, pelo que parece, é bem problemático para um ‘forasteiro’ vir até a Cidade-Limite.”
“Afinal de contas, é o Limiar… O lugar com o nível de segurança mais alto de todo o universo provavelmente é aqui.”
Nos dois dias seguintes, Yu Sheng finalmente teve alguns momentos mais tranquilos, ou pelo menos, dias sem imprevistos.
O “amigo virtual” do outro lado do mar de estrelas ainda estava a caminho, lidando com os trâmites. A Agência de Operações Especiais não enviou nenhuma nova informação recente. Aquele quarto no final do corredor do segundo andar estava sossegado por enquanto. Nenhum Domínio Anômalo resolveu abrir as portas na rua do nada, e nenhuma Entidade enfiou a cabeça na cozinha da Rua Wutong, 66.
Hu Li levava uma vida tranquila: comia até ficar cheia, esperava a próxima refeição e, quando não tinha nada para fazer, pedia a Yu Sheng para escovar suas caudas. Aileen, por sua vez, vivia cheia de espírito de luta todos os dias, presa num ciclo de “brigar com gente idiota na internet — ter a conta banida — ter a conta desbloqueada — brigar com gente idiota na internet”. De vez em quando, ficava viciada em algum minidrama idiota ou em programas de auditório de baixo orçamento. Sua vida também podia ser considerada bem corrida.
Yu Sheng finalmente terminou de enrolar e escreveu a história que já estava atrasada há um bom tempo. Dessa vez, o protagonista de sua história não andava mais de moto. Apesar da moto ser muito legal, ele tomou a difícil decisão de trocar o veículo do protagonista por uma alpaca.
O editor responsável obviamente ficou em choque. Mas o que foi mais chocante ainda é que ele aprovou o manuscrito mesmo assim. Isso fez Yu Sheng até suspeitar, por um momento, de que a frase “atrasar a entrega aumenta a chance de aprovação” talvez fosse verdadeira. E ele já decidiu que da próxima vez tentaria colocar o protagonista andando num tuk-tuk…
E do outro lado, naquele vale, as crianças de “Contos de Fadas” também viviam tranquilamente, e todas as coisas estavam gradualmente entrando nos eixos.
A equipe de engenharia de apoio já havia ido embora, e Chapeuzinho Vermelho liderava um grupo de superestudantes do ensino médio assumindo os trabalhos de construção do lar dali em diante.
Na verdade, no dia em que o engenheiro Sun foi embora, ele ficou bem contrariado. Achava que, por ser adulto, deveria ser responsável até o fim e não podia deixar a “reconstrução do lar” nas mãos de um bando de crianças pela metade. Mas esse seu pensamento ingênuo foi deixado parcialmente de lado ao ver a “Associação Real de Pedreiros” invocada pelo Rei. E depois de presenciar a eficiência daqueles sete Titãs do Trovão de força colossal empilhando pedras para construir casas, a outra metade do seu ressentimento também sumiu.
Depois de confirmar que tudo no vale estava no caminho certo, Yu Sheng se preparou para concluir algo que já planejava há tempos:
Abrir uma porta de teletransporte extra e estável no centro da vila, ligada ao mundo exterior.
Afinal, a Chapeuzinho Vermelho e os outros não podiam ficar trancados no vale para sempre; eles sempre teriam a necessidade de sair no dia a dia. Os funcionários do Conselho, representados pela Professora Su, também precisavam de um fim de expediente todos os dias. Atualmente, sempre que queriam entrar ou sair, precisavam pedir a Yu Sheng que abrisse uma porta ou usar o caminho fixo da plataforma de teletransporte e sair pelo porão da Rua Wutong, 66. Claramente, nenhuma das duas opções era sustentável a longo prazo.
Logo cedo naquele dia, Yu Sheng levou Aileen e Hu Li para o vale.
Perto da área dos alojamentos temporários da vila, eles viram o canteiro de obras a todo vapor.
Uma grande fundação já havia terminado de “crescer”. Um grupo de “artesãos do reino”, vestidos como se tivessem saído de um livro de histórias, mediam o chão e faziam marcações com movimentos robóticos como os de marionetes, mas sem cometer um único erro. Branca de Neve e alguns “pais” pareciam discutir o planejamento das futuras construções na beira do canteiro de obras. Aqueles Titãs do Trovão que haviam sido invocados estavam empilhando blocos imensos de material de construção nos locais designados como se estivessem brincando com blocos de montar. Os materiais de construção vinham das grandes árvores da Floresta Negra, das rochas gigantes dos castelos distantes e da grande quantidade de concreto e vergalhões que a Agência de Operações Especiais enviara anteriormente.
Yu Sheng também viu um gigante usando uma armadura de aço sentado na beirada do canteiro. Ele segurava um tronco de árvore numa das mãos e usava uma “espada curta” na outra para esculpi-lo vagarosamente, parecendo estar apontando um lápis. Ele o observou por um longo tempo até se dar conta de que o “graveto” que o gigante estava esculpindo era a porra de uma viga…
Havia mais algumas vigas já prontas ao lado do gigante.
Uma voz soou ao lado de Yu Sheng: “Eu ouvi o ‘Rei’ dizer que essa madeira pré-processada não pode ser usada de imediato. Ela tem que ser seca, desidratada e depois carbonizada na superfície, o que normalmente demora bastante tempo. Então eles precisam primeiro construir uma estufa de secagem. Tem um dos Titãs que a Branca de Neve invocou que sabe brincar com fogo e pode entrar lá para acelerar o processo. Mas o controle precisa ser preciso… Só de ouvir já dá dor de cabeça. Mesmo assim, ele insistiu dizendo que isso dava uma sensação de conquista…”
Quando Yu Sheng virou a cabeça, viu que Rapunzel estava ao seu lado, olhando na mesma direção do canteiro de obras.
A garota virou o rosto com um sorriso radiante: “Irmão, veio procurar a Chapeuzinho?”
Yu Sheng piscou, surpreso: “Como você sabe?”
“Tem uma aura de quem veio resolver coisa séria rondando você…”
Yu Sheng: “?”
Rapunzel arreganhou os dentes, virou-se para a direção da vila e abriu a garganta: “Chapeuzinho… Irmã Chapeuzinho!”
Logo em seguida, Yu Sheng viu uma silhueta correndo para fora da vila, cercada por vultos de lobos. Num piscar de olhos, ela já estava perto: “Pra que esse berreiro! Não sabe mandar mensagem, não?”
Rapunzel apontou com o dedo: “O meu irmão está te procurando.”
Yu Sheng cumprimentou Chapeuzinho Vermelho com um sorriso e, em seguida, sua expressão travou.
A garota diante dele estava vestindo roupas diferentes hoje.
Ela não usava seu icônico casaco vermelho, mas sim um casaco grosso de cor azul e branca. O estilo do casaco era simples e o corte era folgado. No peito, havia uma linha bordada: Ensino Médio XX…
Yu Sheng: “…”
Chapeuzinho Vermelho percebeu o olhar fixo nela, abaixou a cabeça para dar uma olhada, e quando levantou o rosto de novo, deu um sorriso resplandecente: “E aí? É o meu uniforme escolar~~~”
Yu Sheng pensou por um instante, sem dizer nada.
Aileen, por outro lado, foi direto ao ponto: “Sendo sincera, é bem feio.”
“É, é feio mesmo, haha”, Chapeuzinho Vermelho riu alegremente. “Mas às vezes dá vontade de vestir — afinal, antes eu tinha que usar aquele casaco vermelho quase todos os dias. Se eu trocasse de roupa por um dia, no dia seguinte minhas unhas já começavam a ficar afiadas… Agora eu não tenho mais medo disso.”
Enquanto falava, ela deu uma voltinha.
“É, de fato, é bem feio”, ela comentou, toda feliz.

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