Capítulo 130: Desejos
Descemos então os degraus de madeira do santuário, dando lugar às pessoas da fila que se preparavam para rezar também.
O som das moedas caindo, palmas e risadas ficavam para trás conforme nos distanciamos de lá e seguíamos para a barraca dos bilhetes da sorte.
Aqueles meus pensamentos sobre… a confissão ainda continuavam na cabeça, mas eles iam desvanecendo conforme o barulho do nosso grupo crescia, especialmente por causa da voz do Seiji.
— E aí? — Seiji começou, esfregando as mãos para aquecê-las enquanto caminhávamos. — O que cada um pediu!? Eu só falo no fim!
Akira foi logo o primeiro. Ele inflou o peito e bateu nele, soltando um sorriso orgulhoso.
— Eu? Ahem. Pedi logo a melhor coisa possível! — ele declarou. Até parecia que ele tinha plena confiança de que seu desejo se realizaria. — Pedi para Yukari aceitar minha futura confissão!
Eu e Takeshi trocamos um breve olhar, surpresos com aquilo.
— Oho… — murmurei.
— Que idiota — Takeshi soltou uma risada.
Akira parou de rir e se aproximou dele com uma cara cheia de raiva.
— Hã!? Quem que você tá chamando de idiota!? — Akira apertou o pescoço dele de leve.
Parecia que ele realmente não fazia ideia, ou talvez ele só tivesse se esquecido.
— Ei, ei! — Takeshi deu alguns tapas no braço para ele parar, le então suspirou. — Você sabe que ela se forma daqui alguns meses, né?
— Pois é, esse vai ser o último semestre antes da faculdade — Aiko completou.
Aquelas palavras… eram como se o frio tivesse ficado tão forte que congelou ele.
Ele realmente não se movia.
— Hã…? — ele disse, completamente em choque.
Eu não consegui evitar uma risada ao ver aquela reação.
— Ei… por que ninguém me falou disso…? — ele completou, depois de se agachar e colocar a cabeça entre as pernas, quase choramingando.
O grupo caiu na risada ao mesmo tempo.
— Como você ia se confessar pra ela se nem sabia disso!? — Seiji explodiu na risada, colocando a mão na barriga.
— Inacreditável… — Rintarou murmurou.
Enquanto o grupo terminava de rir, Aiko foi a próxima.
— Eu quero ganhar mais competições, obviamente! — Ela voltou ao assunto, orgulhosa do pedido. — Quero o topo de tudo!
— Eu quero melhorar minhas notas em matemática — Takeshi disse, arrumando o casaco que Akira tinha bagunçado. — Só que quero tentar sozinho também…
“Hm… isso é bom.”
— Ler mais livros e estudar para o terceiro ano — Rintarou disse com a calma de sempre.
— Que chato… — Akira murmurou, depois de se levantar.
Bem, era o esperado de alguém como o Rintarou…
— E você, Seiji? — perguntei, meio curioso.
O tom dele mudou no mesmo instante, a risada tinha cessado e dado um pequeno sorriso diferente do habitual. Ele parecia ter olhado para o céu acima do santuário.
— Eu quero passar das eliminatórias com o clube e chegar no nacional de futebol. É o meu último ano pra valer nisso.
“…..”
Fiquei surpreso no mesmo segundo, era raro ver Seiji falando algo seriamente. No meio de tanta brincadeira, havia uma determinação real ali, que notei, naquele olhar que encarava o céu.
Os nacionais não era qualquer evento, era o que todo atleta almejava.
Era o topo do topo, onde apenas os melhores de todo o país participavam.
E era realmente difícil ter que competir por uma pequena vaga, e eu já sabia disso por conta dela.
Yuki.
Mas ao ver aquela determinação e seriedade no olhar dele, um pequeno sorriso surgiu no canto do meu rosto.
Mas, no mesmo segundo, os olhares do grupo pareciam terem se voltado para mim.
— Tá, tá, e você? — Seiji passou os braços ao redor do meu pescoço, mudando de tom instantaneamente. — Conta pra gente logo!
Eu meio que… travei.
Meu estômago deu um nó só de imaginar eu dizendo que pedi coragem para me confessar para a Yuki.
Sem chance! Sem chance mesmo.
“Ah… pensa rápido!”
— Eu…
Qualquer coisa funcionaria, provavelmente. Eu precisava pensar em algo o mais rápido possível.
— Eu… pedi…
Os olhares deles se intensificaram, e eu tentava desviar o olhar.
— Eu… — comecei, gaguejando. — Eu pedi… saúde e felicidade…
Eu realmente não sabia o motivo.
O motivo de que quando aquelas palavras saíram, era como se eles tivessem pausado. Parecia que até as conversas das pessoas na fila tivessem cessado. Hein? Estranhamente, também não escutava nenhuma palma nem sino tocando no santuário.
Comecei a sentir o suor frio escorrer pelo meu rosto.
Tinha sido óbvio demais? Era tão claro assim que era uma mentira?
— Saúde? Felicidade? — Akira repetiu. — Você tá falando sério? Tipo… sério mesmo?
Ah, eu realmente não sabia mentir.
Eu cocei a bochecha, meio envergonhado.
— S-sim… é o básico, né?
— Básico!? Isso é pior ainda que o pedido do Rintarou! — Seiji bagunçou minha cabeça.
— Que genérico, Shin… — Takeshi murmurou rindo.
— Devia ter pedido algo grandioso! Como… ganhar uma competição! — Aiko completou.
“Já sabia que ia dizer isso…”
Mas a verdade era que, mesmo se eu tivesse pedido só aquilo, já estaria de bom tamanho.
Eu já era grato o suficiente por tudo que tinha acontecido no ano passado.
— É que… eu não preciso de muito mais que isso — retruquei, tentando parecer convincente, mas não parecia funcionar muito.
Seiji soltou mais uma risada e então tirou o braço ao redor dos meus ombros.
— Ah, qual é! Você devia ter pedido para ganhar mais um concurso nacional, que nem a Aiko falou! — ele disse, enquanto o grupo então começava a caminhar.
Concurso?
“Concurso Nacional…”
Que motivo eu tinha em entrar em mais um?
A única razão que eu tinha competido no Concurso de Inverno da Editora Kousei foi por causa da aposta com Ryuuji. E bem, no momento, eu estava ocupado com meu novo manuscrito que Shihei e eu conversamos sobre.
Ainda faltava muita coisa para acontecer nele, mas já começava a tomar forma.
Mesmo que lentamente.
“Hm…”
Caminhamos em direção à barraca dos bilhetes da sorte e dos amuletos. Enquanto as cores da loja de madeira enchia minha visão e o grupo discutia sobre quem tiraria a “Grande Sorte”, eu olhei para o céu levemente nublado do primeiro dia do ano.
E suspirei.
Mais um ano havia começado.
E eu me perguntava o que ele guardava para mim.

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