Índice de Capítulo

    Mas, como tudo em sua vida, nada era perfeito ou permanente. Diversos desafios apareciam no seu caminho, tirando os pilares que sustentavam o seu chão e rachando as paredes que protegiam a sua casa. Mesmo assim, ele continuou acreditando, continuou seguindo em frente, lutando e, mais do que tudo, sobrevivendo.

    O Bibliotecario

    O sol se punha preguiçosamente sobre a estrada de pedra que levava a Mélia. Era o horário em que a cidade respirava seu último fôlego de movimento do dia; carroças de mercadores retornavam carregadas de menos mercadoria e mais moedas, lavradores apressavam o passo com as ferramentas nos ombros e, no alto da muralha, os vigias da tarde bocejavam esperando a troca de turno. Ali, a apenas alguns dias da capital, guardar os portões era um trabalho de contar cabeças e espantar o tédio. Foi entre uma contagem e outra que um dos soldados estreitou os olhos para o horizonte alaranjado, onde dez silhuetas encapuzadas, montadas e silenciosas, subiam a estrada na contramão de todos os que voltavam para casa.

    – Alto lá! — Do topo do muro, um soldado gritou ao grupo que se aproximava. — Retirem seus capuzes e se identifiquem! 

    O homem que liderava o grupo estendeu sua mão e em seu antebraço um símbolo com 6 asas carmesins cortadas por uma espada brilhou.

    — Arcadianos? Um, dois, três… dez deles? — contou o oficial. —  Pra que tanta gente…

    — Senhor, o que devemos fazer? — perguntou o soldado ao seu lado.

    — O que mais? Abram os portões!

    — Não era pra tirarem os capuzes?

    O oficial não precisou de mais do que uma olhada para calar o subordinado.

    — Sim… sim, senhor! 

    Lentamente, o grupo em cima de seus cavalos entrou para dentro da cidade. Passo a passo, os equinos carregando seus montadores passaram pelas ruas. A população da pequena cidade cochichava e teorizava sobre aquelas pessoas encapuzadas, mas não demorou muito para que as palavras do soldado passassem de seu amigo para toda a cidade. Amarrando os cavalos em um estábulo próximo, o grupo se separou: três foram a uma estalagem e os outros se direcionaram a um restaurante próximo.

    Mélia era o tipo de cidade que a capital gostava de exibir. As ruas principais eram calçadas de pedra clara e lampiões de runas acendiam um a um com o anoitecer, banhando as fachadas com uma luz morna que dispensava fogo. O cheiro de pão dividia o ar com o de especiarias da feira que fechava, crianças disputavam as últimas brincadeiras antes de serem chamadas para dentro e, na praça central, uma capela de Yan de vitrais impecáveis reluzia mais limpa que qualquer outro prédio ao redor. Até a muralha, vista por dentro, parecia mais um enfeite herdado de outros tempos do que uma necessidade; afinal, que perigo ousaria caminhar até tão perto do coração do Império? 

    Assim que se sentaram, um deles soltou um suspiro longo.

    ARRRRRRRR

    — O que foi, Fynn? — Perguntou Matheus.

    — Como o que foi… é muita pressão, agora entendi o porquê de a Lorena ter comandado que nos separássemos. Um grupo de 10 pessoas já está chamando tanta atenção, imagina se estivéssemos em 30.

    — Ei, não fale detalhes da missão tão alto, está ficando maluco? — Um outro homem na mesa chamou sua atenção.

    — Aliás… por que esses caras estão com a gente? — questionou.

    Após a reunião no quartel, Lorena havia comandado que o grupo se dividisse em três equipes. Essas equipes se reuniriam na fronteira de Prima Claustra. A ideia era de que, se fossem juntos, chamariam muita atenção e claramente a expedição seria alvo de questionamentos. Logo, para manter o caráter de confidencialidade, essa foi a única solução. No entanto…

    — Bem, não temos muito o que fazer, não é como se quiséssemos estar junto de vocês também, mas não faria sentido manter um grupo com sete pessoas e outros dois com respectivamente 14 e 12 pessoas… — Respondeu o homem.

    — Dito isso, fico feliz que seja você, Paris, ao menos é um rosto conhecido — disse Matheus.

    — Eu queria dizer o mesmo, Matheus, mas como pode você ter subordinados tão irritantes? 

    Fynn devolveu a provocação mostrando a língua.

    — Viu? Completamente deselegante! 

    O homem chamado Paris possuía cabelo cacheado médio, pele pálida e olhos verdes. Sem olheiras ou calos, ele não parecia ter muitos problemas no seu dia a dia.

    — Chega, vocês dois…

    — Mas…

    — Melhor do que isso, por que você não apresenta formalmente os dois novatos que te acompanham? — disse Matheus.

    — Certo… vocês dois, se apresentem.

    Primeiramente, a mulher falou um pouco ansiosa, mas pausadamente.

    — Ah… meu nome é… Karen… eu sou uma… Vinculadora… minha especialização são zonas.

    — Oh! — Selene, que estava ouvindo, exclamou. — Outra vinculadora! Meu nome é Selene! 

    — Ah… senhorita Selene, eu sei seu nome… estava assistindo suas partidas do torneio… a senhorita foi bem legal…

    — Oh, eu tenho uma fã, escutou isso, Li! — gabou-se — Ela disse que eu fui muito legal!

    Karen era uma jovem, possuía tatuagens de círculos e faixas azuis pelo seu corpo. Sua estatura era baixa como a de Selene e seu cabelo era branco.

    — Quanto a mim, meu nome é Mali…

    — O nome dele é Malik, ele é tipo meu cão vigia — interrompeu-o Li.

    — Ei, seu canalha, como pode dizer isso! 

    — Mas não se preocupe, ele é bem obediente se você lhe der um doce de vez em quando.

    — Ahh… Senhor Paris, por favor, faça alguma coisa quanto a essa peste.

    Paris, de mãos atadas, sorriu nervosamente; afinal, Li era da mesma patente que ele e mais forte, visto que, ainda como um novato, Jihan havia chegado à final do torneio de nível de Líder de Equipe.

    — Aliás, Paris, tem algo em que você se enganou — disse Matheus. — Pode não parecer, mas minha equipe não é gerida muito bem na base da subordinação… inclusive…

    — Que barulheira é essa, vocês não sabem não chamar atenção? — perguntou Glória, que estava entrando no estabelecimento com Lisa e Hans ao seu lado. 

    Li, que não percebeu ela falando, continuava a irritar Malik, enquanto Hans foi pedir cadeiras para o garçom.

    TOC

    E, sem perceber, tomou um cascudo da mulher.

    — Aí… quem!

    Mas, ao virar-se e dar de cara com Glória, ele se calou.

    — Oh… me pareceu que você ia reclamar agora há pouco… algo errado, Jihan? — perguntou a latina com um sorriso amedrontador em seu rosto.

    — Não, senhora…

    — Então, comporte-se.

    — Sim, senhora.

    “Ela não é só uma novata?” pensou Paris. “Bem, se até o Sirius está agindo assim, vou ficar calado.” Malik, no entanto, não teve a mesma sagacidade.

    — Olha só para você, estava agora há pouco me zoando e está sendo corrigido por uma novata! — gargalhou.

    PFFFFF

    Matheus e Selene, que estavam tomando água, cuspiram-na de volta na mesa.

    — Oh… — Glória posicionou a mão no ombro de Malik e virou-se para Li, que estava suando frio. — Ouviu isso, Li…

    Jihan, no entanto, não ousou encará-la nos olhos. Ao sentir a pressão aumentando sobre seu ombro e a atitude do homem que deveria ser seu superior direto de nem mesmo levantar a cabeça, Malik pensou que talvez tivesse cometido um erro. Instintivamente, ele se virou na direção de Paris, que, logicamente, desviou o olhar para baixo, deixando seu subordinado sozinho.

    “Até você…”

    — O que foi, Malik, por que você está calado? — perguntou Glória friamente. — Você estava tão risonho agora há pouco…

    — Me desculpe…

    O homem queria olhá-la nos olhos, mas seus instintos lhe diziam para não fazê-lo. Tudo que podê dizer foram essas duas palavras.

    PFF

    Repentinamente, Matheus soltou uma leve risada de nariz. Vendo isso, Glória parou por um instante.

    — Hm? — estranhou Li. “Ela parou?” pensou.

    — Perdeu a graça — disse Glória. — Enfim, só vim entregar-lhes suas chaves dos quartos. Estou sem fome no momento, então vou tomar um banho e descansar.

    — Posso ficar com a senhora? — Perguntou Lisa. 

    — Ei, já falei para não me chamar… ah, que seja, claro, pode vir. 

    Lisa, que havia se sentado, levantou-se e foi com a mulher. Após ambas saírem, um clima um pouco ameno ficou na mesa. Fynn, no entanto, não se deixou abalar.

    — Eu quero comer porco — interrompeu o silêncio.

    — Bem, vamos pedir alguma coisa para Glória e para a Lisa também — disse Matheus. — Depois de descansarem, tenho certeza de que ficarão com fome.

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