Capítulo 69: Metralhadora
A dupla formada por Enji e Meiko partem para a zona de mata fechada, os espaços a serem trilhados, são apenas aqueles que as arvores e plantas permitem, aglomeradas de tal forma que atrasa caso siga outra caminho se não pela parte descoberta.
A região é familiar para Enji, e ele utiliza de sua experiência, vai na frente como guia, a procura de rastros, ele olha marcas e galhos quebrados, e pensa “Muita gente passou por aqui, os rastros são contraditórios’’.
— Ei eu estive pensando, esse lugar aqui é vasto, ela pode ter saído da área, não a possibilidade da gente ficar aqui até o fim do dia e não achar, e se expandirmos a área, aí serão dias, principalmente se ela estiver em movimento, estaremos lidando com a sorte nesse caso — questiona Meiko, sem certeza se quer prosseguir com a missão.
— O que? Não, eu já teria desistido se fosse o caso, é coisa rápida, estamos procurando um cadáver isso eu tenho certeza, perto de uma área perigosa, creio que uma toxina pode ter acometido os homens que vieram resgatar a garota, que a essa altura já deve estar em estado de putrefação — desenvolve Enji sobre sua teoria acerca do que deve ter acontecido, sua certeza convence seu aliado. — Temos que tomar cuidado agora para não sermos acometidos pela mesma toxina, acho que é alguma planta local ou algo que não deveria estar aqui.
— Mas eles foram atacados, um cadáver não machuca ninguém — aponta Meiko, que fica acautelado após refletir em uma busca por mais informações.
— Se fosse um ataque, ou obra de sequestradores, os seguranças voltariam feridos ou mortos, e não alucinados, a explicação mais lógica é essa, ela está morta, uma garota jovem, sozinha, em meio a mata, sem comida, sem água e sem experiência, ainda se fixando em um lugar específico, ou ela tem companhia, o que não é o caso, ou ela está morta. Todo corpo que não acha o que precisa, se move para achar, se não se movimenta é porque tem o que precisa ou não pode, se não pode está morto ou fadado a morte. E seria incapaz de acabar com homens preparados, não vamos levar a sério a história de fantasmas ou vamos? — Enji pergunta de forma retórica, convencido que sua explicação é o suficiente, para isso não fez questão de poupar palavras.
— O negativo é que o cheiro me desagrada, vou ter que ver o rosto! — Meiko é rápido em sua piada mórbida, destoando da forma séria e prolixa de Enji tratar qualquer situação em que ele se interesse.
— Não vamos demorar muito para achar, se remontarmos a possível trilha que ela pode ter feito, sabe, não há muitas opções por aqui, está região é de mata fechada, para entrar é preciso ter habilidade, o que resta são caminhos estreitos e rochosos por onde andar, e nós humanos como os bons animais que somos, os melhores, procuramos o caminho de menor resistência — explica Enji, a forma pragmática de sua fala quase esconde o seu entusiasmo, porém é perceptível o seu gosto por esclarecer o que está confuso.
— Então é possível nos esbarrarmos com Hinari no meio do caminho? Aquele panaca corre bem rápido, ele conseguiria cobrir mais área do que a gente — ressalta Meiko, em cada pergunta ele se mantém envolvido com a conversa, mesmo em sua maior parte sendo apenas um ouvinte.
— É, mas sabe quem vence em uma briga de um homem com uma pistola e outro com uma metralhadora? — Enji lança a charada.
— A metralhadora, óbvio — afirma Meiko, desta vez acha a pergunta leviana.
— O que acertar primeiro. Hinari atira para todos os lados, já nós meu amigo, miramos no alvo certo — afirma Enji, entregue a emoção do desafio, ele exalta a confiança na capacidade do trabalho deles dois juntos.
— Parece que você está gostando da competição.
— Eu apenas aceitei, bem, vamos manter o foco, aquele garoto que é o problema, ele é do tipo daqueles assistentes que arruma cada solução idiota, e o pior as vezes ele acerta — admite Enji e sorri, seu aspecto muda minutos alegres em meio a sobriedade.
Enquanto o tempo passa, Hinari e Cob escalaram o monte até o seu topo, um local que de longe parece plano mas o terreno é acidentado, esburacado onde é natural ter poças de água, mas é fácil de se andar e chegar até o seu pico. O pico do monte oferece uma visão panorâmica que favorece a dupla, então lá do alto Cob pega seu par de binóculos e começa a observar o ambiente de longe.
— Vejo os rastros deixados na mata pelos seguranças do Senhor Tapakats que a natureza ainda não deu jeito de simplesmente apagar, foi pouco tempo, galhos quebrados, passagens cortadas, eles não deviam conhecer muito o local, devem ter parado numa das trilhas que a garota seguiu, talvez pelo riacho — explica Cob, enquanto ganha melhor visão do ambiente para tecer suas análises.
— Subir aqui para ter visão foi uma ideia boa, o preocupante é que vamos ter que ser rápidos na hora de descer — comenta Hinari.
— Não se preocupe com isso, o Enji e o Meiko estão caminhando bem devagar, posso ver daqui, não se comparam a sua velocidade! — afirma Cob, novamente faz questão de exaltar Ghoda.
— Mas eles ainda podem jogar sujo para me atrasar, até mesmo eu posso ser superado se vacilar — admite Hinari, sem subestimar seus oponentes.
— Ghoda, sua humildade sempre me impressiona! — Cob dispara outro elogio, e logo depois de forma repentina salta e afasta os binóculos de si por conta do susto. — Oh espere, o que é aquilo, o vulto de algo se movendo rápido!
— Só um? Então será um alvo fácil para Enji e Meiko.
— Pode ser, se fosse sequestro, suspeitaria de um grupo, só que o vulto não parecia de uma menina, Ghoda, pode haver outras pessoas interessadas na mesma coisa que nós por aqui, o lugar está interditado, sem turistas, quem poderia ser? — indaga Cob, o garoto começa a ficar assustado.
— A Cob, só tem um jeito de descobrir, mas logo o perderemos de vista, subir aqui pode ter sido um tiro na culatra sem ter uma forma de descer rápido para garantir que o que nos interessa não escape de nossa vista — alega Hinari, se vendo sem opções.
— O que? Quem disse que eu atrasaria meu amigo! Eu já tinha um plano para isso!
Animado, Cob tira a bolsa de suas costas, a abre para revelar que dentro dela havia outra bolsa dentro dela que vinha acoplada junto de um colete.
— O que é isso? — questiona Hinari, sem reconhecer o que o garoto mostra.
— Um paraquedas e um colete para nós dois percorremos o ar junto enquanto eu mantenho os olhos nos rastros!
Hinari para por um momento encarando Cob, processando a ideia.
— Isso é uma ideia genial! VAMOS PULAR DO MORRO EM UMA PERSEGUIÇÃO DE PARAQUEDAS! — comemora Hinari, a ideia inusitada de seu parceiro, o deixa muito animado.
Hinari coloca o paraquedas, e Cob fica junto dele graças ao colete. Hinari salta do morro, o impulso é o suficiente para os lançar a metros de distáncia do topo, então o paraquedas é aberto quando se ganha velocidade mais antes de ultrapassar a altitude do morro, enquanto Hinari mantém o controle da direção, Cob fica com os binóculos e aponta onde se deve ir, agindo como guia.
Olhando para o céu Enji e Meiko estranham o movimento dos dois, e acham inusitado, Enji fica a observa por um tempo maior, incrédulo com a estrátegia, não sabe o que pensar da situação, se foi um metódo inteligente ou apenas uma ideia estúpida em sua visão, já Meiko vira seu rosto em direção ao que seus ouvidos captam.
— Agora as coisas começam a ficar complicadas para a gente?
— O que? Estou certo que eles estão indo no caminho errado — afirma Enji despreocupado. — Eles vão demarar cerca de seis minutos para chegar onde estamos.
— É, o estranho é que ouvi alguém correndo igual o Hinari, o que é estranho porque ele está no céu agora — observa Meiko, reconhece o som por ter passado horas ouvindo.
Confiando nos sentidos de Meiko, Enji fica preocupado, decide se concentrar, utiliza de seu foco no som, e mesmo baixo consegue reconhecer a semelhança, assim confirma a contradição.
— É bem parecido, como cascos batendo no chão, só existe outra idiota que eu conheço capaz de executar essa movimentação!
Mustank não dá tempo para Enji reagir, ele salta em sua frente e gira ficando de costas numa posição desfavorável, mas que dá suporte ao seu ataque.
— Vamos ver se me acha idiota depois de levar um coice! — diz Mustank enquanto executa o golpe assinatura de seu estilo de luta.
Um chute executado de costas, igual a um coice de cavalo utiliza o impulso do corpo que é projetado para frente enquanto direção oposta a sola do pé que é lançada na direção contrária, nesse caso em direção a Enji, que reage contraindo seu corpo em busca de resistir ao ataque, os seus braços vem em direção ao golpe, mais não chegam a tempo para o defender. O peito de Enji acaba por ser o alvo acertado, o impacto o faz desabar no chão com dificuldades de respirar, sua pele fica avermelhada e logo vem a tosse.
— Olha até que é mais resistente que seu parceiro, eu já esperei que o Enji fosse uma farsa! — Mustank faz provocação enquanto se aproxima despreocupado por se sentir superior.
— Maldito, mirou no meu plexo, você se gaba mais só pode fazer isso porque Hinari te contou sobre minha luta com ele! — Enji se levanta do chão, ainda com dificuldades na respiração.
— Pode deixar ele não é de nada, o movimento dos pés e a postura é igual a de Hinari — analisa Meiko, e logo depois dá um sorriso malicioso, seu olhar tem um brilho no fundo anormal. — Só que você é mais lento assim fica mais fácil de telegrafar!
— Pode vir! — diz Mustank, seus olhos não conseguem esconder o medo que sente ao ver o Nephli se aproximar.
Em uma ação a tônica do duelo muda, quem toma o controle é Meiko, se torna o agressor e tudo por conta de seu mero olhar que aterroriza Mustank, isto quebra a postura saltitante. Enji não fica parado e já se levanta a espera do pior ele respira fundo, e pensa “Eu não vou perder tempo por isso, olhando dá onde o Mustank veio, dá para entender que caminho ele traçou, uma opção a menos, ah, acertei!” sorri empolgado, mas quando vê que os outros dois podem o perceber, volta a sua feição mais séria e pensa “Vou conter meu entusiasmo’’.
Quem não se contém é Meiko que levanta sua mão aberta em preparação para o ataque, Enji percebe que Mustank está em perigo e decide interferir. Meiko ataca com a palma da mão aberta, então Enji, em busca de evitar uma tragédia, bate a cabeça dele contra a mão de Meiko, o que faz Enji cair no chão, o som é terrível para os presentes, é como metal se chocando. Mas nada de grave acontece, pois logo Enji se levanta com um pequeno arranhão na testa, sangue escorre mas a ferida é superficial.
— Que imprudente, eu arrancaria a cabeça de qualquer um, mas você não é qualquer um, que testa dura! — comenta Meiko, apesar de repreender Enji, o exalta por estar surpreso com sua resistência.
— Eu não quero vocês no meu caminho, Hinari precisa ser protegido! — afirma Mustank, mesmo tendo que ser protegido tenta demonstrar autoridade, por não querer sentir a ferida deixada em seu ego, ao ver os dois em sua frente não controla o pensamento, e os mede por sua métrica assim conclui que para si “eles são superiores”.
— Tá vendo ele com a gente? Nos separamos em grupos para achar a garota — esclarece Enji.
— É . . . é. — Mustank ao perceber o que aconteceu fica envergonhado e coça a cabeça. — Eu devia ter pensado nisso antes.
— Não há problema, porque eu já achei ela! — diz Enji com convicção. — Vá avisar Hinari, nós vamos dar conta do recado.
O relutante Mustank concorda ao ver que Enji e Meiko vão juntos até a área de entrada para a escalada do monte. O primo de Hinari se sente mau por ter concordado, o mesmo lembra do que foi contado sobre a garota, e pensa “Ela é uma vítima, devia ter nos contado, mas, melhor não arriscar e os deixar a executar.’’

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