capítulo 14
O brilho do terceiro dia do festival iluminava o palácio com uma energia vibrante. Luzes douradas refletiam nas janelas de vidro lapidado, enquanto risos e música enchiam o ar. Era o auge do festival, e a festa de noivado era o ponto central da noite.
Algumas horas antes, a bordo do Semente do Caos, o clima era de tensão constante. Nix segurava um mapa do castelo sobre a mesa do convés. Suas mãos estavam firmes, mas havia um brilho inquieto em seus olhos – uma mistura de excitação e cautela. Ao seu redor, estavam Vênus, Panacéia, Mathew e Andréa. Lucius observava de pé, encostado no mastro principal, seus braços cruzados.
— Certo — começou Nix, a ponta de seu punhal traçando um caminho sinuoso pelo papel. — Vênus, Panacéia, Mathew e eu vamos entrar pela ala de serviço. Entramos como empregados contratados para a festa. Vênus vai cuidar da comida.
Andréa arqueou uma sobrancelha, claramente cética.
— E “cuidar da comida” significa exatamente…?
— Um toque especial nos canapés e nos vinhos. Nada mortal — explicou Vênus, com um sorriso sereno. — Apenas uma mistura de ervas do Chaga que induz a uma leve… euforia e sonolência. Os nobres ficarão alegres, desinibidos e notavelmente menos observadores.
— Mathew — continuou Nix, apontando para o homem-pássaro. — Você será nossos olhos e ouvidos. Da gávea, do castelo ou dos telhados, você monitora a movimentação dos guardas e nos avisa de qualquer mudança de rota ou reforços.
Mathew assentiu, seu olhar habitualmente brincalhão agora afiado e sério.
— Pô deixa capitã.
— Panacéia e eu faremos a limpeza — Nix prosseguiu. — Pequenos objetos de valor sumirão de maneira estratégica: broches, anéis, bolsinhas. O suficiente para criar um burburinho de acusações e distrair os guardas, mas não para causar um lockdown total.
Andréa esfregou as têmporas, tentando digerir o plano.
— Nix… Qual é o seu papel real nesse circo?
— Eu vou garantir que todos os olhos, especialmente os dos guardas mais chatos, estejam em qualquer lugar, menos na ala leste, onde os aposentos da noiva ficam, onde nosso cavaleiro branco irá regata-lá. — O sorriso de Nix se alargou. — Vou causar um incidente digno de uma lenda de taverna. Algo inofensivamente espetacular.
— Parece simples demais para dar errado, o que me preocupa ainda mais — resmungou Andréa.
— A simplicidade é a melhor camuflagem para o caos — retrucou Nix, guardando o mapa. — Todos sabem seus papeis. Lucius ficará com o navio pronto para uma partida rápida no canal atrás dos jardins. Qualquer problema, recuamos para o ponto de fuga.
A reunião se dissolveu. Enquanto os outros se preparavam, Lucius fez um sinal discreto para Nix, indicando que queria falar com ela a sós. Eles se afastaram em direção à popa, onde o céu começava a pintar-se de laranja e roxo.
— Há algo a mais me preocupando — disse Lucius, sua voz baixa.
Ele tirou de dentro de seu casaco uma adaga embainhada. A bainha era simples, de couro desgastado, mas havia uma energia opressiva emanando dela.
— Isto é para você.
Nix arqueou uma sobrancelha, curiosa.
— Presente de despedida? Não sou fã de ferro velho.
— É ferro santo — esclareceu Lucius, seu tom grave. — Roubado de um depósito imperial há muito tempo. Guardei para um dia necessário.
Nix esticou a mão para pegar a adaga, mas no instante em que seus dedos se aproximaram da bainha, uma dor aguda e repulsiva, como um choque gelado, percorreu sua mão. Ela recuou com um leve sibilo, sacudindo a mão.
— O que foi isso?
— O ferro santo suprime e repele magia ativa — explicou Lucius, observando-a atentamente. — A magia do Caos que corre em você é como um rio constante. A adaga tenta ‘apagá-lo’ no ponto de contato, e a reação é violenta. É por isso que guardas com este metal serão perigosos para você.
Nix franziu a testa, estudando a adaga com novo respeito.
— Então é inútil para mim.
— Não necessariamente — disse Lucius. — Tente novamente. Mas desta vez, não resista. Em vez de deixar sua magia circular livremente, concentre-a. Reúna-a longe da sua mão, no seu núcleo, ou até… transfira-a momentaneamente para outro lugar. Esgote a corrente no ponto de contato.Intrigada, Nix fechou os olhos por um momento. A energia caótica que sempre pulsava sob sua pele, um turbilhão familiar, começou a se mover conforme sua vontade. Ela a comprimiu, contendo-a no centro de seu peito, como se prendesse a respiração de uma força vital. Quando abriu os olhos, seu brilho habitual estava momentaneamente atenuado. Cautelosamente, ela estendeu a mão novamente.
Desta vez, não houve choque. Seus dedos fecharam-se com firmeza no cabo da adaga. Uma sensação de vazio frio percorreu seu braço, mas era suportável. Ela puxou a lâmina parcialmente para fora da bainha. O metal fosco e cinzento não refletia a luz do crepúsculo.
— Funcionou — ela murmurou, impressionada. — mas machuca…
— Funcionou — confirmou Lucius. — Mas é um exercício de força de vontade e concentração. Você não poderá mantê-la por muito tempo, e usar sua magia ativa enquanto a segura será… doloroso, para dizer o mínimo, mas deve ajudar.
Nix embainhou a adaga, sentindo o peso estranho e silencioso do objeto. A magia do Caos voltou a fluir por seus membros, um alívio quente após o frio mortal.
— Obrigada, Lucius… Como você…?
Ele a interrompeu.
— Agora, sobre aquele corte de cabelo. Você não pode entrar no palácio parecendo que foi atacada por corvos.
Nix revirou os olhos, mas um sorriso escapou.
— Cuide do plano, Imediato. Eu cuido do meu cabelo.
— Faça valer a pena, Capitã — ele disse, seu olhar sério. — Prometo que o navio estará lá!

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