O caos não cedia, apenas mudava de forma.

    No convés, entre redes improvisadas e mantas coloridas estendidas como bandeiras, as culturas colidiam — e dançavam.

    Matthew estava encostado em um barril, braços cruzados, a expressão torta como quem mordera limão.

    — Se eles tocarem esse bendito tambor mais uma vez, eu juro que pulo no mar. — murmurou, olhando com desespero para o grupo de jovens Jïa que testavam ritmos em instrumentos que pareciam construídos com ossos e conchas.

    Ao lado dele, Madoc tentava uma conversa com dois adolescentes da tribo. Seu sorriso era largo, genuíno… e absolutamente perdido na tradução.

    — Rasul’ata? Isso quer dizer… boa tarde?

    — Rasul’ata é “maldição dos patos”, bobo. — respondeu um dos jovens, gargalhando.

    Madoc olhou para o outro, que apenas assentiu, cúmplice da zoeira. O gigante coçou a cabeça, confuso, mas acabou rindo junto.

    Nos fundos do navio, Panacéia equilibrava uma caixa transbordando de peças de bronze, engrenagens coloridas e parafusos soltos. O cenho franzido era uma nuvem prestes a desabar.

    — Isto aqui é minha oficina. Minha. — repetia, batendo a sandália no assoalho com a autoridade de uma imperatriz cercada de bárbaros. — Esses colchões, essas redes… alguém pendurou uma cortina de miçangas no meu torno!

    — É arte ritual — respondeu uma senhora Jïa, com a calma de quem já viu gerações nascerem e brigarem por menos. — Serve pra afastar a inveja.

    — E eu sirvo pra fabricar hélices, querida. Vai afastar a inveja lá no convés, por favor.

    Enquanto isso, o tempo, aquela entidade caprichosa, parecia correr com mais pressa na cozinha.

    A primeira luz da manhã ainda lambia as janelas embaçadas quando Vênus já estava de pé, os pés descalços sobre a madeira morna do convés inferior, as mãos mergulhadas até os punhos em uma bacia de massa teimosa que se agarrava aos dedos como um bicho faminto. O cheiro de fermento e alho pairava no ar, entrelaçado com o perfume de fumaça, suor e alguma erva desconhecida — o aroma de um navio vivo, abarrotado, pulsando.

    E cheio era pouco. A Semente do Caos parecia ter engolido um vilarejo inteiro.

    Havia crianças Jïa correndo nuas pelo corredor central, gargalhando e pingando mingau nos tapetes. Três velhos roncavam em uníssono na despensa, afundados em sacos de farinha como se fossem nuvens. Alguém estava cantando uma música sobre uma cabra apaixonada no porão. E as panelas… ah, as panelas.

    — Quem… pegou minha panela de ferro? — Vênus perguntou para o ar, com os olhos arregalados e a voz quase aguda.

    Silêncio.

    Depois, um “foi pra servir banho quente pro bebê!” veio de algum canto distante, como um tapa na paciência.

    Ela respirou fundo, os ombros tensos, o rabo se enrolando nervoso em torno da própria perna. Três vezes mais bocas do que o normal. O triplo de pratos, de demandas, de panelas sujas. E nenhum segundo de paz.

    Ela adorava cozinhar. Aquele era o lugar dela. O calor do forno, o ritmo da faca, a alquimia dos temperos — tudo isso lhe trazia paz. Mas a paz agora estava sendo esmagada por vozes, passos, risos e confusão.

    — Vênus! — gritou alguém da entrada. — Tem algo errado com o mingau!

    O quê que fizeram com o meu mingau? — ela perguntou, correndo até a travessa.

    A resposta veio em forma de dança.

    Uma dúzia de Jïa girava no convés superior, de braços dados, rindo com os olhos marejados, completamente fora de controle. Lucius tentava conter dois marinheiros que valsavam com um barril, enquanto Elena tocava flauta como se estivesse num festival de primavera.

    Ao lado da tigela, um punhado de folhas amassadas descansava como se nada tivesse acontecido.

    — Ervas de Eros… — Vênus sussurrou, pegando uma das folhas entre os dedos. — Quem colocou ervas de Eros no mingau?!

    — Achei que fosse hortelã. — confessou Echo, esgueirando-se pela porta, todo suado, segurando uma colher de pau quebrada.

    A dragão-de-komodo fechou os olhos por dois segundos longos, inspirando pelo nariz. Inspirando bem fundo. Porque se inspirasse mais fundo ainda, talvez pegasse fogo.

    — Respira, Vênus. — ela disse a si mesma, em voz baixa, com os dentes cerrados. — Você ama cozinhar. Ama cuidar. Ama ver todo mundo bem alimentado.

    Um garoto passou correndo por ela, arrastando um gato com uma fita amarrada no rabo. Vênus nem sabia que tinham um gato a bordo. Alguém gritava por mais farinha. Outro pedia ajuda com um bolo que pegou fogo.

    O caldo fervia, e não era só na panela.

    — Mas eu juro pelos Sete Céus, mais um copo derramado, mais um prato de mingau alucinógeno, mais uma bendita colher de pau quebrada… — ela murmurava, cada vez mais aguda — …e eu VOU EXPLODIR.

    A colher em sua mão rachou ao meio.

    Vênus ficou olhando para o cabo por um instante, como se ele fosse o responsável por tudo: a bagunça, o barulho, o calor insuportável, o cheiro agridoce de suor, especiarias e maresia que se entranhava até nos ossos.

    Respirou fundo.

    Limpou as mãos no avental manchado e girou os ombros como uma general que aceitava o campo de batalha. A cozinha era só o começo.

    — Certo. Hora de impor ordem nesse caos.

    Subiu as escadas com um olhar que queimava, decidida a restaurar a sanidade de um navio que mais parecia uma feira encantada prestes a pegar fogo.

    Mas assim que seus pés tocaram o convés, o caos a engoliu como uma onda.

    Pessoas falavam alto, uma criança chorava, alguém gritava por água, alguém discutia sobre o uso de uma rede — e, no meio de tudo, lá estava Nix.

    A capitã cruzava o convés com a expressão dura de quem carregava o mundo nas costas, parando a cada passo para resolver disputas, consolar uma criança, realocar um ancião, impedir uma briga.

    Seu cabelo estava preso de qualquer jeito, os olhos fundos, e a camisa desalinhada indicava que havia dormido — se é que dormira — de qualquer maneira. Uma vez, Vênus a vira cochilando em pé, encostada no leme, com os dedos ainda marcando o mapa do dia seguinte.

    E agora ali estava, mais uma vez, negociando espaço debaixo da escada com uma senhora Jïa e um Madoc cabisbaixo.

    — Capitã, não podemos pôr ninguém ali. Tem mofo. — dizia ele, preocupado.

    — Não tem outro lugar, Madoc. Coloca mais uma manta, o resto a gente resolve amanhã.

    Vênus franziu o cenho.

    Mais tarde, tentou se aproximar. Encontrou Nix sentada no deque superior, observando o mar escuro, com as pernas cruzadas e uma maçã meio comida na mão.

    — Tá tudo bem?

    — Tá sim. — respondeu a capitã, com um sorriso automático.

    — Quando foi a última vez que você dormiu?

    — Agora há pouco. — Ela mordeu a maçã e olhou pro horizonte, fingindo distração.

    Vênus reparou nos olhos semicerrados, na maneira como Nix mantinha o queixo erguido com teimosia, como se não permitir-se descansar fosse uma prova de força.

    — Você precisa comer. Dormir. Não dá pra liderar assim.

    — Eu sei. — respondeu, já se levantando. — Preciso ver se resolveram o problema do banheiro. E depois a divisão da água. E depois…

    O corpo de Nix caiu de lado com um baque surdo, a maçã rolando do colo até os pés de Vênus, que chegou tarde demais para ampará-la. Não houve grito, nem alarde. Só o som de alguém finalmente cedendo.

    Foi Lucius quem a carregou até a enfermaria improvisada. As mãos firmes, o semblante inabalável, mas os olhos — aqueles olhos sempre atentos — deixavam escapar uma preocupação silenciosa.

    — Ela só desmaiou? — perguntou Vênus, aflita.

    — Exaustão. — respondeu ele. — Nada que algumas horas de descanso resolveriam… se ela aceitasse descansar.

    Mas Nix não descansou.

    — Tá tudo pegando fogo lá fora? — murmurou, rouca.

    — Ainda não — respondeu Lucius, sem conseguir esconder o cansaço. — Mas estamos chegando lá.

    Um silêncio breve. Depois, ela riu. Um riso seco, rouco, sem humor.

    — Acho que fracassei.

    — Não. — Lucius se aproximou, ajoelhando ao lado da cama. — Você só… tentou fazer tudo sozinha. Como sempre.

    Ela virou o rosto para ele. Os olhos estavam vermelhos, mas havia ali uma chama. Uma fagulha. Como se algo dentro dela tivesse despertado no limite.

    — Eu senti o navio. Quando desmaiei… ouvi ele sussurrar. Como da outra vez.

    Lucius a encarou, atento.

    — A árvore?

    — Mais que isso. É como se ele estivesse tentando me ajudar, mas eu estava ocupada demais para escutar.

    Ela se sentou com esforço, os cabelos colando na testa.

    — Me ajuda. A gente precisa tentar uma coisa.


    Lá fora, o caos ainda reinava: crianças choravam, adultos discutiam, até os animais estavam inquietos. Vênus, ao ver Nix reaparecer, tentou protestar, mas a capitã ergueu a mão. Os olhos agora estavam firmes, brilhando de um jeito diferente.

    Ela e Lucius caminharam até a antiga porta do depósito. A madeira parecia… mais viva. Pulsava, quase imperceptivelmente.

    — O que vocês estão fazendo? — perguntou Vênus, aproximando-se.

    — Tentando ouvir o que o navio tem a dizer — respondeu Nix.

    Lucius passou a mão pela superfície da porta, como se buscasse algo escondido entre as fibras da madeira. Nix estendeu a mão. A maçaneta estava morna. Com um gesto cuidadoso, ela girou a chave.

    A porta se abriu com um suspiro.

    Atrás dela… havia um quarto. Idêntico ao antigo depósito. Mesmas paredes, mesma luz. Mas vazio. E quando Lucius entrou o espaço havia mudado, uma cama confortável e uma janela com vista para o mar, tudo o que lucius queria naquele momento.

    — Isso não é feitiço comum — murmurou ele. — É o navio se moldando.

    Nix respirou fundo.

    — É como um casulo. Cada pessoa que abrir essa porta encontrará um espaço só seu. Uma dimensão de bolso — feita para acolher, proteger, refletir.

    Vênus olhou desconfiada, depois encantada. O navio havia ouvido. E respondido.

    Mas só porque alguém o escutou primeiro.

    Com a ajuda de Lucius — cuja ligação silenciosa com os segredos da embarcação parecia crescer a cada dia — e a conexão entre a semente, a capitã e a própria vontade do Semente do Caos, haviam encontrado uma saída.

    Não perfeita. Mas possível.

    — Cada um vai ter seu canto, seu silêncio — disse Nix. — Talvez, enfim, consigam respirar.

    E pela primeira vez em dias, o caos pareceu diminuir.

    Agora, só faltava ensinar um por um a abrir a porta certa.

    E isso… eles fariam juntos.


    Mais tarde, quando a correria cedeu lugar ao silêncio e os primeiros dormiam embalados pelas novas dimensões, Vênus girou a maçaneta da porta com as mãos ainda cheias de farinha.

    O que encontrou do outro lado fez seu coração dar um salto quieto no peito.

    Era uma cozinha.

    Não qualquer cozinha — era sua. Ampla, limpa, iluminada por luz âmbar, como se o entardecer ali nunca acabasse. As prateleiras exibiam potes perfeitamente rotulados, especiarias raras e frescas, penduradas como pequenos talismãs coloridos.

    No centro, uma mesa redonda com cadeiras suficientes para todos. Para Madoc, Panacéia, Matthew, Lucius, Nix…

    Ela passou os dedos pela madeira da mesa, e teve que piscar rápido para conter a onda quente que subia pelos olhos.

    O navio entendia.

    E a abraçava de volta.


    Naquela noite, o Semente do Caos vibrou suavemente, um som grave e tranquilo, como um suspiro de alívio.

    As tensões se dissolviam como sal em caldo quente.

    Vênus preparou o jantar mais bonito desde que partiram: arroz perfumado, legumes dourados, um ensopado espesso que parecia aquecer a alma. Serviu com mãos firmes e olhos atentos, depositando em cada prato não só comida, mas cuidado.

    E quando olhou Nix de longe — exausta, mas sorrindo para uma criança adormecida no colo de Panacéia — sentiu o peito apertar.

    Prometeu a si mesma, em silêncio:

    Enquanto eu estiver aqui, ela não vai cair. Nem que eu tenha que segurá-la com as duas mãos e os dentes.

    Ninguém ouviu essa promessa.

    Mas o navio… talvez ele tenha escutado.

    E sorrido.

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