Enquanto percorria o caminho de volta pelas ruas de Spades, cada passo parecia uma luta contra o próprio corpo. Fallon não era apenas mais uma missão. Ela era sua âncora no mundo, o único ponto de luz em uma vida construída sobre sombras. Ele se lembrou do peso da cabeça dela em seu ombro, das risadas roubadas na escuridão, da promessa de um futuro que agora se desfazia como fumaça. Ela não era apenas a Santa da Lua; ela era o motivo pelo qual ele ainda acreditava que redenção era possível.

    Os sinos do templo ressoaram como um golpe no ar, marcando a meia-noite. O som profundo ecoou pelo salão principal, onde ele a encontrou. Não diante do vitral, mas em pé no centro do vazio, de frente para o grande símbolo da deusa lunar, como se estivesse se despedindo.

    Ela se virou antes que ele dissesse qualquer coisa. Seu rosto estava lívido à luz prateada, mas seus olhos, dois sóis dourados, queimavam com uma clareza que ele nunca vira.

    — Draven. — O nome dela saiu como uma afirmação, não um questionamento. Ela já sabia que ele viria.

    — Fallon. O que está acontecendo? O que você vai fazer? — Sua voz soou áspera, a urgência superando a cautela.

    Ela tomou um fôlego profundo, e quando falou, cada palavra era pesada, deliberada, como se tivesse sido esculpida no mais profundo de sua alma.

    — Eles não estão pedindo um casamento, Draven. Estão ordenando um sepultamento. Vão enterrar a mulher que eu sou e erguer no lugar um símbolo, um objeto de estado. Minha vontade, meus sonhos, meu corpo… tudo será propriedade deles. Do reino, do templo, dele. — Seus lábios tremeram, mas sua voz não quebrou. — Eu não sou um terreno a ser conquistado. Não sou um tributo a ser pago. Sou uma pessoa.

    Ela deu um passo à frente, a luz da lua iluminando as marcas de cansaço sob seus olhos, mas também uma feroz determinação.

    — Eu passei a vida toda obedecendo. Aprendi a silenciar meus pensamentos, a amortecer meus desejos, a me encolher para caber no molde que fizeram para mim. E por quê? Por um dever que me foi imposto antes mesmo que eu pudesse compreendê-lo? Por um deus que só me concede silêncio quando clamo por respostas? — Ela ergueu as mãos, vazias. — Não tenho mais nada a dar a eles. Só me resta o que sou por dentro. E se eu permitir que tirem isso, serei um fantasma. Vou definhar nesta gaiola dourada até que sobre apenas a casca que eles tanto desejam.

    Draven sentiu as palavras dela como golpes físicos. Era mais do que medo; era a descoberta brutal de uma verdade há muito sufocada.

    — Então, o que você quer? — Ele perguntou, sua voz um sussurro rouco.

    Ela fechou a distância entre eles, erguendo a mão para tocar seu rosto. Seus dedos estavam frios, mas o olhar que ela lançou sobre ele era incandescente.

    — Eu quero viver, Draven. Quero escolher. Quero errar. Quero sentir o sol e o sal sem que alguém me diga que é impróprio. Quero lutar, cair, me levantar. — Seus olhos se encheram de lágrimas, mas ela não as deixou cair. — E mais do que tudo… eu te quero. Eu te amo. Não como um refúgio secreto ou um pecado escondido. Te amo como se escolhe o ar para respirar. É simples, é vital, e é meu. É a única escolhe que foi inteiramente minha em toda a minha vida.

    A declaração, tão direta e poderosa, tirou o fôlego de Draven. Não era mais uma confidência na sombra; era um manifesto.

    — E é por te amar que eu preciso ir, — ela continuou, a voz agora carregada de uma dor aguda. — Minha irmã… Nix… ela vai me levar para o Mar de Caos…

    Ele deu um passo à frente, tocando suavemente o rosto dela, os dedos acariciando a pele fria. Fallon fechou os olhos por um instante, como se aquele gesto pudesse oferecer algum consolo. Para Draven, aquele momento era um grito silencioso: o medo ainda estava ali, mas a decisão dela estava tomada.

    O templo ao redor parecia congelado no tempo, mas na mente de Draven, outra noite tomava forma, um momento que nunca conseguira esquecer.

    Draven se esgueirava pelas sombras do templo, tão silencioso quanto um espectro. Conhecia cada ponto cego, cada fresta entre as paredes de pedra onde ninguém o notaria. Era uma habilidade que ele vinha aperfeiçoando desde que começou a visitar Fallon. Ela sempre estava lá, no segundo andar da torre da Santa, com o rosto escondendo o cansaço de suas obrigações, mas iluminado pelo breve alívio de suas conversas.

    Naquela noite, porém, algo parecia errado. O silêncio habitual do templo fora substituído por murmúrios agitados e passos apressados. Draven se escondeu atrás de uma coluna, tentando entender o que estava acontecendo.

    E então, ele a viu.

    As grandes portas do templo foram abertas com um estrondo, quase saindo dos eixos. Uma figura imponente, com asas negras de dragão, surgiu contra a luz da lua. Ela tinha os cabelos negros desalinhados, olhos que brilhavam como turquesas em chamas, e um sorriso travesso que parecia zombar de toda a autoridade do lugar.

    — Nixoria! — gritou o mestre do templo, apontando para ela. — Como ousa profanar este lugar sagrado?

    Nix, sentada com desdém no ombro da grande estátua da Deusa da Lua, ergueu uma sobrancelha.

    — Faz tanto tempo que ninguém me chama pelo nome completo, espera profanar? — ela repetiu, sua voz carregada de sarcasmo. — Eu diria que estou decorando. Essa estátua precisava de um pouco de caos para parecer mais interessante.

    Os paladinos avançaram com armas em punho, mas ela apenas abriu as asas, criando uma rajada de vento que os fez recuar.

    Draven observava tudo, escondido, sem acreditar no que via. Quem era aquela garota? Ela parecia uma tempestade encarnada, sem medo de nada nem de ninguém.

    Então ele ouviu a voz de Fallon.

    — Nix?

    Ele olhou para cima e viu Fallon na janela do segundo andar da torre. Seu rosto estava pálido, magro, seus olhos fundos. Ela havia sido presa em jejum de novo, mas havia algo mais: uma felicidade genuína acompanhada de um sorriso largo.

    — Fallon! — Nix gritou, o sorriso desaparecendo. — O que eles fizeram com você?

    Antes que qualquer um pudesse reagir, Fallon subiu no parapeito da janela.

    — Fallon, não! — Draven gritou, saindo de seu esconderijo.

    — Não seja louca! — Nix berrou, estendendo as asas como se já soubesse o que estava prestes a acontecer.

    Fallon pulou.

    Por um momento, o tempo pareceu parar. Draven sentiu o coração subir à garganta, incapaz de desviar o olhar. Mas antes que Fallon pudesse atingir o chão, Nix voou. Suas asas bateram com força, impulsionando-a para frente, e ela agarrou Fallon no ar, segurando-a firmemente enquanto pousava com a graça de uma predadora.

    — Você está maluca? — Nix perguntou, a voz trêmula de alívio e raiva enquanto colocava Fallon no chão.

    — Eu sabia que você me pegaria. — Fallon sorriu, abraçando a irmã.

    Nix segurou o rosto de Fallon, analisando-a como se quisesse garantir que ela estava inteira.

    — Nunca mais! Estamos indo embora. Agora.

    Antes que qualquer um pudesse impedi-las, Nix segurou Fallon e alçou voo novamente, desaparecendo na escuridão.

    Nix não era apenas uma foragida; era uma força da natureza que já provara ser a única capaz de arrancar Fallon das garras deste destino. Se Fallon confiava nela para uma fuga tão perigosa, se ela estava disposta a enfrentar o Mar de Caos, então o plano, por mais louco que parecesse, era uma saída real.

    Ele deu um passo à frente, tocando suavemente o rosto dela, os dedos acariciando a pele fria. Fallon fechou os olhos por um instante, como se aquele gesto pudesse oferecer algum consolo.

    — Você entende, não é? — ela sussurrou, suas palavras uma mistura de súplica e afirmação. — Não é apenas fugir de algo. É fugir para algo. Para uma chance. Para uma vida. Com você.

    Para Draven, aquele momento era um grito silencioso. O medo pelo perigo que ela enfrentaria ainda estava ali, um nó de gelo em suas entranhas. Mas a decisão dela estava tomada, e a coragem dela era contagiosa. E a memória de Nix, daquela noite, era a prova de que o impossível poderia ser alcançado.

    — O Semente do Caos… — ele repetiu, a voz baixa. — Quando?

    — Não sei, ainda não contei pra Nix que eu decidi. — Os olhos de Fallon brilharam com lágrimas presas. — Mas eu não vou se você não estiver comigo. Não desta vez. Não sem você.

    Draven olhou para ela, para essa mulher que era tanto santidade quanto tempestade, e viu todos os seus próprios sonhos adormecidos refletidos em seus olhos. A loja de ervas, a ilha deserta, a vida simples. Tudo estava do outro lado desse salto no escuro.

    A escolha já não era mais uma escolha. Era um chamado ao sangue, mais forte do que qualquer juramento à guilda.

    — Onde eu preciso estar? — ele perguntou, sua voz finalmente firme, a decisão apagando qualquer vestígio de dúvida.

    O sorriso que se abriu no rosto de Fallon foi como o primeiro raio de sol após uma noite infinita. Era tudo a resposta que ele precisava. Agora, ele não só a ajudaria a fugir; ele se juntaria a Nix. Ele se tornaria parte do plano para salvar a Santa da Lua, porque salvá-la significava salvar a mulher que amava, e salvar a si mesmo de um futuro vazio sem ela.

    A guilda, o Conselheiro, a missão de assassinato… tudo desmoronou em sua mente, substituído por um novo propósito: alcançar aquele navio, enfrentar o Mar de Caos, e proteger, com sua própria lâmina, o futuro que Fallon estava corajosamente escolhendo.

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