Por motivos pessoais vamos recontar essa história… da metade e não do começo.

    O amanhecer em Spades era dourado, mas para Fallon, trazia apenas um novo dia de rotinas intermináveis. O templo estava em plena atividade com a chegada do festival das marés, onde os pescadores e navegantes iam até a igreja pedir a benção da Lua antes de partirem para o mar.

    Os acólitos e paladinos murmuravam orações e ajustavam decorações enquanto o som de sinos ecoava suavemente pelas paredes. Ela caminhava pelos corredores com passos leves, mas cada movimento era observado, cada gesto era analisado.

    O hábito branco impecável, que descia em cascatas de tecido puro, desde os sapatos delicadamente desenhados até o véu translúcido que parecia flutuar ao seu redor. Seus cabelos prateados, alinhados em um coque elaborado formado por argolas metálicas intrincadas, evocavam a imagem de uma lua cheia em sua plenitude.

    O olhar sereno e a postura ereta completavam uma figura que exalava elegância e uma perfeição quase celestial.

    — Santa Fallon, os aldeões trouxeram mais oferendas esta manhã. — Uma jovem acólita aproximou-se, carregando um cesto de flores e velas.— Deixe-as no altar principal. Eu irei abençoá-las mais tarde. — A mais velha ofereceu um sorriso suave.

    A acólita assentiu rapidamente, seus olhos brilhando de admiração, a platinada suspirou assim que a garota se afastou. Aqueles olhos, aquela reverência… nunca eram direcionados a ela, apenas ao que representava: a santa da Lua, a mulher escolhida pelo espírito da Lua para ser uma mediadora entre os cidadãos e o mar.

    Em Spades, um reino relativamente litorâneo, onde seu povo dependia principalmente do mar para a sobrevivência, a santa se tornava a figura mais influente de sua sociedade.

    O dia seguiu como todos os outros: bênçãos, orações, orientações para os acólitos mais jovens. Seus pés doíam! Berravam praticamente. Fallon sentou-se em uma pequena sala iluminada por vitrais, retirando os saltos desconfortáveis para massagear os calcanhares; mais difícil do que caminhar com eles era se ajoelhar.

    Se reclinando sobre o banco do templo, a platinada sentiu um serpentear conhecido sobre sua pele subindo pela perna, uma cobra albina de olhos bem rosados carregando uma mensagem em um pedaço de tecido amarrado em seu corpo.

    “Encontre-me ao entardecer, perto do portão leste. — D.” Ela leu as palavras novamente, o coração acelerando. Esse era seu pecado, um risco, um que ela estava disposta a correr.

    Quando o sol começou a se pôr, tingindo o céu com pinceladas de laranja e roxo, Fallon tomou sua decisão. O ar do templo, sempre carregado com incenso e um silêncio sufocante, parecia ainda mais pesado naquele dia. Cada passo que dava era cuidadosamente calculado, e a confiança em sua rotina era a única coisa que a mantinha firme.

    Ela conhecia os horários e os pontos cegos da vigilância no templo; anos de obediência cega haviam lhe ensinado mais do que os mestres imaginavam. Com a capa cerimonial envolvendo seus ombros e o capuz cobrindo os cabelos prateados, Fallon seguiu calmamente pelos corredores.

    Ao alcançar a torre leste, subiu as escadas espiraladas, o som de seus passos abafado pelo tapete grosso. A sala privada da Santa ficava no segundo andar, protegida por dois guardas. Ela parou por um momento, oferecendo um sorriso sereno e uma reverência controlada, como era esperado.

    — Boa noite, Santa Fallon. — Um dos guardas a cumprimentou, inclinando-se levemente.

    — Boa noite. — Sua voz saiu firme, mas doce, como uma melodia ensaiada.

    Assim que a porta se fechou atrás dela, o sorriso desapareceu de seu rosto. O silêncio absoluto da sala era interrompido apenas pelo leve estalar da madeira sob seus pés. Fallon moveu-se rapidamente para a estante de livros que ficava ao fundo, posicionada entre dois vitrais. Ela puxou o terceiro candelabro na prateleira inferior, e um clique ecoou. A estante deslizou levemente para o lado, revelando uma passagem oculta criada para sua proteção em casos de emergência.

    Empurrando a estante com mais força, o coração martelando no peito, um túnel escuro e estreito se abriu, mas ela não hesitou. Passos rápidos a levaram para longe da santidade do templo e em direção à escuridão que ela tanto ansiava. No meio do caminho, ela parou em um pequeno espaço onde havia escondido roupas simples, roubadas de Nix, sua irmã mais velha.

    Rapidamente, livrou-se das vestes cerimoniais, os tecidos bordados caindo ao chão em um som surdo. Vestiu a calça larga e a camisa de botões desgastada que ainda carregavam o cheiro de maresia. Por fim, puxou o capuz de uma capa surrada e ajeitou as botas grandes, um pouco largas para seus pés.

    O túnel levava a uma saída discreta, escondida atrás de uma fileira de árvores antigas que circundavam o portão leste. Suas vestes emergiram na penumbra, onde as sombras das copas entrelaçadas cobriam as ruas estreitas. O ar da noite era fresco e carregava o cheiro de sal e madeira envelhecida. Ela respirou fundo, sentindo uma pontada de liberdade que fazia seu coração acelerar.

    Ali, à sombra das árvores, Fallon não era a Santa da Lua. Era apenas uma mulher fugindo de suas correntes, mesmo que por poucas horas. Lá estava ele! O amado da Santa encostado em uma das árvores, a luz do crepúsculo pintando seus cabelos escuros com tons dourados suaves. Sua longa cauda de naga, com escamas brilhando como obsidiana sob a luz, estava enrolada ao redor do tronco, como uma serpente em descanso.

    Ele parecia tranquilo, mas seus olhos esmeralda, vivos e atentos, varriam o ambiente, captando cada movimento com a precisão de um predador silencioso.

    — Pensei que não viria. — Ele sorriu levemente ao vê-la.— E eu pensei que você era melhor em se esconder. — Ela tentou soar firme, mas o sorriso que escapou revelou sua felicidade em vê-lo.

    Ele descruzou os braços e se moveu até ela, com um movimento a cauda se transformou suavemente em pernas humanas uma naturalidade que Fallon sempre achou fascinante. Seus passos eram silenciosos, como se o chão sob ele fosse cúmplice de sua presença. Quando ele parou diante dela, pegou suas mãos com uma gentileza tão inesperada para alguém de aparência predatória.

    — Como você está?

    Ela hesitou. Durante o caminho até lá, tinha planejado uma resposta breve, controlada. Mas diante dele, as barreiras se desfaziam, como sempre.

    — Estou cansada. — As palavras escaparam em uma sussurrada. — Tudo parece… maior do que eu. — Seus olhos baixaram, o peso das responsabilidades voltando a se fazer sentir.

    Ela tentou disfarçar com um suspiro, mas ele viu. Ele sempre percebeu.

    Ele ficou em silêncio por um instante, mas em vez de responder, delicadamente a puxou para seus braços. O gesto era firme, mas reconfortante, como se o próprio ato de segurá-la fosse suficiente para protegê-la de tudo que a assombrava. Ali, com a cabeça relacionada contra seu peito, o mundo se dissipou. Por alguns momentos, só havia o som de seus corações batendo juntos, em uma sincronia que pertencia apenas a eles.

    — Você não precisa carregar isso sozinha.

    — Mas não posso fugir disso. — Ela se afastou um pouco, seus olhos tristes. — Meu papel… meu dever… eles nunca vão me deixar ir.

    Os olhos dele resistiram por um momento, como se o pensamento de sua prisão silenciosa o ferisse tanto quanto a ela. Ainda assim, quando falou, sua voz era um sussurro firme e cheio de verdade.

    — Um dia, meu amor. Um dia você será livre. — Draven segurou seu rosto com gentileza, os olhos fixos nos dela.

    Uma promessa serena. Ele segurou o rosto dela com uma ternura que parecia quase contraditória à intensidade de seus olhos esmeralda. E, naquele instante, enquanto o crepúsculo dava lugar à noite, a mais velha permitiu-se acreditar que talvez ele estivesse certo. Que talvez, um dia, ela pudesse ser apenas Fallon, e não a Santa da Lua.

    — Você já pensou em como seria viver em outro lugar?

    — Outro lugar? Como onde?

    — Talvez… uma ilha deserta. — Fallon sorriu, o olhar perdido no céu. — Só nós dois. Sem templos, sem guildas, sem responsabilidades.

    — Parece tentador. Mas você sabe que não sobreviveríamos muito tempo sem comida ou abrigo decente, certo? — Ele riu baixo, um som caloroso e despreocupado.

    — Ah, mas você é um assassino lendário — retrucou ela, com um toque de provocação na voz. — O grande Draven! A escama de prata da guilda dos assassinos. Tenho certeza de que saberia construir um abrigo e caçar.

    — E o que você faria enquanto eu estivesse caçando, Santa Fallon?

    — Eu? — Ela colocou a mão no peito, em um gesto exagerado de inocência. — Eu seria a responsável por supervisionar.

    — Supervisora, hein? Isso soa como uma desculpa para não fazer nada. — Ele gargalhou, sentando-se para encará-la.

    — Não nada. — Fallon deu de ombros, tentando manter a seriedade, mas o sorriso entregava sua diversão. — Eu cuidaria de coisas importantes. Como… encontrar conchas bonitas para decorar o abrigo.

    — Conchas bonitas. Claro, é essencial para a sobrevivência.

    — Exatamente. — Ela sorriu, olhando para ele com um brilho brincalhão nos olhos. — Além disso, não precisa ser uma ilha deserta. Podemos ir para qualquer lugar, contanto que seja longe daqui. Talvez… uma pequena vila no interior.

    — Uma vila?

    — Sim. — Fallon inclinou a cabeça, sonhadora. — Eu poderia abrir uma loja de ervas, ajudar as pessoas com curas simples. E você… — Ela parou, os olhos brilhando com uma provocação contida.

    — Eu o quê?

    — Você seria o meu ajudante, claro.

    — Ah, então o grande assassino Draven agora é um ajudante? — Draven fingiu indignação, mas o sorriso traía sua diversão.

    — Não qualquer ajudante — ela corrigiu, o riso ainda em sua voz. — Meu ajudante pessoal.

    — Acho que poderia aceitar isso. Mas só porque gosto da dona da loja.

    Fallon corou levemente, desviando o olhar, mas não conseguiu conter o sorriso. Eles ficaram em silêncio por um momento, o som distante das ondas preenchendo o espaço entre eles.

    — Sabe, meu céu — disse Draven, sua voz mais suave agora. — Não importa onde seja. Desde que você esteja lá, eu estarei bem.

    Ela olhou para ele, o coração acelerando com sinceridade em sua voz. Com um sorriso tímido, ela sussurrou:

    — Então acho que já temos nosso plano.

    — É um bom plano. — Draven assentiu, o sorriso nos lábios agora mais suave, mas cheio de promessas.

    E ali, sob as estrelas, eles se permitiram sonhar com um futuro que, por um breve momento, parecia possível… Até que o som distante de sinos a fez lembrar do tempo.

    — Preciso ir…

    — Se precisar de mim, estarei aqui. Sempre. — Draven segurou sua mão por mais um instante. Ela sorriu, mas não respondeu.

    Com um último olhar, ela desapareceu de volta pelas sombras, tomou o mesmo caminho pelo que saiu, fechou a passagem e esperou.Ao retornar ao templo, descendo a torre, Fallon encontrou a atmosfera ainda mais tensa do que o normal. Os acólitos estavam reunidos em murmúrios, e o Mestre do Templo a aguardava na sala principal, com uma expressão que ela não conseguiu decifrar.

    — Santa Fallon. — Ele inclinou a cabeça respeitosamente. — Recebemos uma mensagem do palácio.

    — Do palácio? — Ela franziu o cenho.

    O Mestre estendeu um pergaminho lacrado com o selo real. Ela pegou o documento com as mãos trêmulas, sentindo o peso da atenção de todos ao seu redor.

    “Por ordem de Sua Majestade, o Rei de Spades, é com grande honra que anunciamos a união do Segundo Príncipe, Duque Solon de Demir, e de Santa Fallon, em um matrimônio que simbolizará a paz e a união entre a fé e a coroa.”

    As palavras pareciam flutuar diante de seus olhos, difíceis de processar.

    — É uma grande honra — disse o Mestre do Templo, sua voz calma, mas firme. — E um chamado que você não pode ignorar.

    Fallon engoliu em seco, sentindo o peso do papel em suas mãos. Ela não respondeu, apenas assentiu e deixou a sala, seus passos ecoando pelos corredores vazios.De volta ao seu quarto, ela fechou a porta e encostou-se nela, respirando fundo. A realidade estava se fechando ao seu redor, como correntes invisíveis.Ela olhou pela pequena janela, onde a lua começava a aparecer no céu.

    “Um casamento pelo bem do reino”, pensou, as palavras soando vazias.

    — Nix, onde você está agora? — murmurou para o mar pensativa.

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