Capítulo 14: Poços e fios
Mate…
Qabils. Inúmeros. Um exército de carruagens. Armados com lanças.
Proteja...
Um povo, seu povo, corre atrás de si. Dourados olhos desesperados clamando por misericórdia.
Abandone a carne.…
Sim. Não há motivo para permanecer com os grilhões. Não é mais um humano. Deixou de ser a muito tempo. Está livre da carne.
Vingue-nos…
O mundo dobra a sua vontade. A terra faminta devora os fracos. O mar indomável descansa sob o céu. O vento agressivo se acalma.
Torne-se...
Sobre a cabeça uma coroa. Na mão o arco.
A peste…
A tenda vermelha ainda o protege do Sol e dos ventos. Estica os braços, buscando a sensação de dobrar o mundo. Não. Aquilo é fruto das vozes. Não pode ceder. São somente pesadelos. Noite após noite. De novo e de novo. Não pode esquecer. Está na tenda. Sozinho. De novo.
Moshe…
As vozes clamam pelo seu nome. Precisa as ignorar. Elas arranham atrás de seus olhos, querem liberdade… Calem a boca. Por quê não se calam? Por quê não o deixam dormir?
Tu…
Sabes…
Teu…
Destino…
Silêncio.
Está observando o próprio reflexo na água. Quando se levantou? Os olhos abissais engolem o seu brilho dourado. A chama trêmula quer ceder. A escuridão já a infectou.
Abandone…
A…
Carne…
A língua permanece unida por uma linha branca. Perdeu a sensibilidade na ponta do membro. Nada de dor ou sabor vindo dela. Isso se repete nas cicatrizes espalhadas pelo corpo, não sente dor ou calor vindo delas. O que está se tornando?
Abandone a fraqueza...
Faz um mês desde o aviso de Yitro. Necessita de sua permissão para encontrar-se com Séfora. Sob a constante vigia, ambos se contentam com o silêncio. Aharon se revoltou, mas aconselhou a seguir as normas. Matí e Aftí se ofereceram para dialogar, Moshe recusou. Conquistará o respeitado de Yitro por mérito.
— Bom dia, príncipe — a luz azulada invade a tenda, claro, acompanhada de rostos familiares.
Muitos já começaram o dia sob a distante imagem da lua. A areia fria e o vento ameno não duraram por muito tempo. O Sol nascerá em duas horas. Tem trabalho a fazer. Apenas o suor poderá alterar sua imagem diante do patriarca. Então o céu azul presencia o príncipe exilado cavando a areia.
Humilhante…
Louvável...
Os calos recém-formados asseguram a posição da pá. A ferramenta feita do fêmur de um velho dromedário, perfura a areia. Um pequeno montante é jogado para a esquerda. A ferramenta perfura novamente a areia. Outro montante é jogado a direita.
O nobre camponês…
O rei enlamaçado….
As vozes zunem como moscas destoantes.
Não ignore seu dever…
Quando o Sol atinge seu pico no céu, Moshe alcança quatro metros de profundidade. O cabelo e barba estão dominados por grãos amarelados. As mãos são tomadas por bolhas. Nada de descanso. Infelizmente ainda há muito trabalho. Talvez dois metros ou mais dez.
Inútil…
Sente a água, os grandes braços que inundam o subterrâneo. Porém não pode manipulá-la. Não enquanto estiver presa debaixo da terra. Selada por um sádico.
Patético…
Precisa fazer isso. Eles precisam disso.
Deplorável…
Ao velar os corpos deixados por Sagol, tentou deixar cada pessoa em sua respectiva vila. Porém eles recusaram. Sem exceção. Cada ivrit e europhi se negaram a voltar à própria casa, estenderem tendas e dividiram telhados. Somente para permanecer junto ao libertador, ao homem que depositam sua esperança. Cada alma quer estar junto a Moshe.
Justo…
Não tardou para falta de água os afligir obrigando muitos a percorrer horas no deserto para saciar a sede. É inaceitável. Se é água que falta, ele tem o dever de os saciar.
Honrado…
És...
Abre e fecha às mãos. Está vivo. Sente o sangue fluir assim como o grande Rio sob o deserto. Lembra-se das histórias que, em uma era distante, essas areias estavam submersas por quilômetros de água. A vida foi abundante. Próspera. Cada ramificação poderia saciar a sede de centenas, não, saciaria milhares. Talvez milhões. Mas…
Ó…
Deve continuar cavando e cavando. Deve saciar a sede para um povo que clama por um…
Rei…
Não. Não é. Não pode ser tal figura. Deve pagar pelos pecados. É um assassino. É um monstro.
Erga-se…
— Nada de tratamento hoje? — Aharon oferece pão e água.
— Nã… não… — areia é jogada para cima — não precisa.
Não pode parar de trabalhar. Deve continuar e continuar.
— Os pesadelos pararam ou…
— Estou bem — o pão, quente e macio, mal sacia a fome. — Os pesadelos me deixam alerta. Desperto. Pronto
Aharon se senta mais próximo ao grande buraco que o amigo cava sem pausa. É uma visão deplorável. Abaixo dos olhos há bolsões negros, piores que o abismo cobrindo a íris dourada. A palidez cobre o corpo, o Sol é pouco eficaz em lhe dar uma cor mais vívida. A perda de peso o faz parecer um fantoche de Sagol.
— Como quiser… príncipe.
Compreende o quanto ele rejeita o título, entretanto deve o portar. O merece. Não, não. Só há um título à altura de sua imagem. Libertador. Independente de odiá-lo ou não, é um fato. Todos aqueles retirados das garras de Sagol enxergam isso. Ele é o nosso libertador. Aquele que virá e quebrará os grilhões. Aquele que esmagará Otige.
— Quantos poços mais irá cavar? — ele necessita de ajuda, de alguém. — Creio que já fez o sufici…
— Não, não irei parar até cada família esquecer a sede. Somente pararei quando a fartura preencher cada um deles.
A chama ainda habita seu olhar, porém sem tanto vigor. Demanda uma companhia que Aharon teme não poder suprir. Só existe um ser com luz suficiente para isso. infelizmente Yitro, precipitadamente, confinou o brilho do céu.
— Mas eu escutei algo interessante — no entanto, é possível amolecer o coração do patriarca. — Essas terras na realidade pertencem a um nobre importante. Um qabil, cerca de duas semanas de viagem. Se partimos amanhã prova…
— Não quero me envolver com nenhum nobre, chega de conflitos — a areia torna-se úmida. — Fariam mal a qualquer um aqui. Essa gente não merece passar por mais agonia.
Aharon sorri, uma resposta esperada. Afinal, um líder protege seu povo. É uma pena sua falta de autocompreensão. Carece de confiança e visão. Talvez seja a escuridão das vozes, a mesma penumbra que possui as vias de Aharon. Ainda assim, esse abismo tornou-se fundamental para a sobrevivência de ambos.
— Não é estranho essas vilas não terem um qabil? Um senhor para esta multidão perdida. Todos são ivrits ou europhis. Um alvo fácil para saqueadores. Me surpreende Sagol ser o primeiro a os atacar, não concorda?
— Então… — por fim a água surgiu sob seus pés e o elevou até Aharon.
— Essas são terras de algum nobre, muito poderoso aliás — Moshe, bebe um pouco da água desenterrada, doce como mel. — Como sabe, seria imprudente irritar alguém como ele e não saber seu título. Imagina se ele decide passear por suas terras e te encontra cavando buracos.
Durante todo esse mês renegou o título de inaválido. Perder um membro não o tornaria inútil. As crianças não oferecem resistência a novas amizades e rapidamente espalham histórias. Após ganhar a confiança dos pequenos, os seus pais e os anciões foram os próximos.
— Temos que sair daqui — os pés tocam a areia. — Ir o mais longe possível.
— Mas temos que agir com cautela, como pode observar, estamos ilesos e… —Aharon experimenta a água do poço — hidratados.
Entendeu rapidamente as demandas de todos. Rapidamente absorveu toda a história de dor para si. Compreendeu quem é o senhor das terras e o que fez a essa gente. Aharon pediu que deixassem tais informações ocultas, Moshe iria descobrir no momento certo. Onde sua necessidade da luz o pressionasse a liderar. Esse momento é agora.
— Nobres que comercializam escravos são piores do que você sequer imagina — o príncipe larga a pá na areia — Devemos alertar a todos e sair, fugir.
Ele parte para a própria tenda. As vozes sussurram e sussurram. Cavou inútilmente poços enquanto um nobre juntou recursos. Eles sabiam? Devem estar cercados. Por quê não sabia de tal fato?
— Não fique assim antes mesmo de saber o nome dele — Aharon segue o amigo em ritmo lento, sabe que ele não o abandonaria e que o ouvirá querendo ou não. — E, claro, seu companheiro aqui já conseguiu. Yatush, a mosca do deserto. Não foi nada fácil tirar essa informação dos habitantes dos vilarejos, muitos nunca o viram ou simplesmente o temem a ponto de não conseguir o trair.
Verme…
— Yatush — soa familiar. — Sim, o conheço.
Verme…
Verme…
Verme…
A língua se contorce ao pronunciar tal nome. O homem temido pelos necessitados e rejeitado pelos abastados. Um feito impressionante. Poucos são os ricos que geram repulsa nos nobres, afinal são da mesma espécie. Ainda mais um qabil, porém ele não era só mais um dono de escravos. Há muitos senhores de escravos nos corredores do palácio. Vendedor, essa sim é uma raça mais rara. Não um vendedor, mas o maior vendedor de escravos.
Yatush é a mosca branca do ramo, o mais influente e repulsivo de sua espécie. Possui controle das rotas comerciais na terra e no mar, seus cavalos cruzam o deserto, seus navios ligam continentes. O que requer muitos recursos, nada que prata e ouro não conquistem. Homens confiáveis e habilidosos para adentrar terras estrangeiras. Equipamentos para transportar inúmeros homens e mulheres com vida. Influência em inúmeros reinos e províncias. Independentemente do que necessite, ele possui tudo.
— Sagol — Moshe pontuou. — Como Yatush deixaria Sagol destruir seus… escravos… tão livremente?
— Ozymandias não é o faraó, reencarnação do deus Sol, senhor das areias e alguns outros títulos inúteis? — Moshe parou, para agrado de Aharon ofegante. — O que o impediria de comprar, ou melhor, tomar esses escravos? Talvez até estas terras sejam unicamente dele.
O…
Faraó…
Deve…
Morrer...
Durante um mês residiram nas terras do maior comerciante de escravos de Otige. Yatush não irá os poupar. Sagol escapou entre seus dedos, Ozymandias deve ter ciência sobre os acontecimentos, ele mobilizará tropas cedo ou tarde. Estavam preparados para fugir caso isso ocorresse. Porém não terão essa oportunidade com Yatush. É um milagre estarem vivos.
— Esse lugar não tem salvação, será uma chacina.
— Moshe, eu também estou assustado, mas e essas pessoas? Vamos deixá-las à própria sorte?
É uma jogada arriscada e Aharon tem plena noção disso. Tanto Yatush quanto Ozymandias poderiam ter os atacado de surpresa. Obviamente estava preparada para essa variável. Pequenos grupos eram constantemente mandados a fim de averiguar o entorno do acampamento com a desculpa de buscarem mais água.
— Podemos levar conosco, peregrinar. Yitro não se importaria em guiar essas pessoas… — a cicatriz na língua volta a incomodá-lo — eu espero.
— Para onde Moshe? Uma vila cheia de qabils? Outro território de escravos? Uma vila qualquer que, com muita sorte, nos aceite? —o tom de ambos atraí a atenção de dezenas de olhos. — Essa gente precisa de você.
Perfeito, essa luz irá resplandecer de cada cidadão. Ele será obrigado a cumprir seu papel e realizar seu primeiro movimento rumo a libertação.
— Eu… eu não… eu não…
Há tantos olhos o encarando. Em cada um deles existe uma chama, esperança. Tão trêmula, aguardando somente um abrigo. Aguardando a chama sobrevivente do abismo. Aguardando o libertador.
— Eu… não posso ser… esse…. esse…. — abre e fecha as mãos. — Sal…
— Vamos pensar em alguma coisa — Aharon apoia em seu ombro. — Vamos descansar, já abriu poços demais hoje.
Um empurrão e ele conseguirá levantar o peso do mundo
A Lua brilha no céu, o frio a acompanha. Os pés de Séfora sentem os panos da tenda. Yitro, patriarca da família, está sentado a sua frente. As costas nuas guardam histórias de honra e desonra, amor e ódio.
— Perdão — ela curvou a cabeça ao pai.
Sua segunda filha busca pequenos fios transparentes, especialmente os rompidos. Ao encontrar duas pontas, as une. Sangue. Caso as pontas não se correspondam, a alma rejeita e aflige o corpo.
— Não é justo colocar meu fardo em ti — limpa o sangue expelido da garganta.
A cada erro o patriarca vomita sangue. A cada acerto garante mais alguns dias de sobrevida. Um processo lento, doloroso e incerto. Infelizmente não há outra alternativa. Precisa viver. Só mais um pouco.
— Peço perdão por tratar Moshe como, bom… um estrangeiro criminoso — duas pontas se unem anestesiando os antigos erros. — Sei que é um homem justo, porém o que habita dentro dele me preocupa…
Os fios são a alma. Diferente de outros povos, os euqones são formados por linhas. Séfora é uma das poucas que consegue enxergar essa diferença. Com o passar dos dias os fios se desgastam e se rompem. Quando o último se romper, o euqone abandonará a carne e se unirá ao céu.
— Aquelas almas se uniram pelo ódio, pelo desejo de vingar uma injustiça. Vi inúmeros casos assim ocorrem. No entanto Moshe é uma anoma… — mais sangue é expelido. — Os espíritos vingativos são como piche e a alma dele aos poucos se une a esse amálgama. Temo pela saúde da mente. Alguém sobrecarregado como ele irá colapsar cedo ou tar… — outro erro é cometido por Séfora.
As mãos da garota tremem. Pobrezinha. Yitro sabe que ela não erra propositalmente. É um trabalho árduo e impossível de se fazer sem experiência. O egoísta é ele que implora a sua filha para ajudá-lo a ganhar alguns dias a mais no plano material.
— Reconheço a força dele. Poucos seriam capazes de sacrificar o próprio orgulho para ajudar uma causa — Yitro respira fundo, sente cada ferimento que a vida terrena deixou em seu corpo.
— Então você va…
— Devo ter certeza sobre o amálgama. Se a corrupção puder ser impedida ou ele se demonstrar forte suficiente para a assimilação, então eu irei dar minha benção a vocês.
— Certo… — o tom falho atinge o cerne de Yitro.
Sua filha está o mantendo vivo e mesmo assim se nega a deixá-la alcançar a felicidade. Sente-se um monstro sem escrúpulos. Orgulhoso demais para admitir a fraqueza. Ganancioso demais para abrir mão de seu tesouro. A verdade é que está com medo do que ocorrerá após sua morte.
— Se… se você o ama, cuide bem de Moshe quando ele provar seu valor… — a garganta expele a frase como se fossem espinhos. — Entenda que eu só quero te ver bem.
O pai finalmente se vira. O rosto da filha está encharcado de lágrimas. Uma parte delas é de felicidade, afinal seu pai legitimou seu amor. Mas a maioria é de tristeza. Ela sabe que não terá a companhia do homem mais importante de sua vida por muito tempo.
Aos poucos os fios tornam-se mais e mais quebradiços

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