Capítulo 24 - Vasculhando
As luminárias redondas no teto batiam um brilho dourado sobre a sala de paredes vermelhas enquanto os alunos deixavam o recinto.
Nervosismo, entusiasmo, foco e esperança — diferentes energias emanavam dos jovens que saíam pela porta, ansiosos pelo começo de suas jornadas na prestigiada Academia Shihai de Asahi.
Porém, Akemi continuava em sua bancada na área inferior da sala, e pensando nas instruções que recebera, segurou o peito, focado na missão inicial. “Tenho que arrumar algum jeito de terminar esse ano aqui, só assim poderei finalmente me tornar um militar áurico!” Ele levantou-se e, com passos ligeiros, subiu a escada rumo à porta. Todavia, no meio do caminho, avistou uma pessoa inesperada: à sua esquerda, Miya permanecia sentada em sua bancada, totalmente sozinha.
Balançando as pernas cruzadas e apoiando a cabeça no braço estendido sobre a mesa, a garota demonstrava impaciência. — Achei que você nunca fosse sair daquele lugar.
— Oh, você tá aqui! Bom dia! Eu só… — Akemi procurava uma justificativa, mas foi interrompido pelo instrutor atrás do púlpito.
— O que ainda estão fazendo aqui? — indagou Masaru, focado na leitura do livro.
— Não é nada, pai. Já estamos saindo — respondeu Miya, com uma inocência que não enganaria seu pai. Ela levantou-se e apontou para a porta com a cabeça, querendo que Akemi a seguisse.
— Antes disso — alertou Masaru —, lembre-se da nossa conversa, Hiromi. Não faça nenhuma besteira.
— Táááá… não precisa se preocupar, ficaremos bem — Miya fechou a porta assim que seu amigo passou, deixando o pai sozinho dentro da sala.
Para os jovens, apenas a estreita passagem retangular conduzia ao corredor curvo do andar circular. Eles seguiram em silêncio por alguns segundos.
“Miya age muito diferente com o pai, é como se não devesse nenhum respeito a ele. Não imaginava ela sendo assim. Tem coisa errada nisso.”
Enfim, os dois saíram pela passagem.
No entanto…
— AKEMI! VOCÊ CONSEGUIU ENTRAR! HAHAHAA! — Sho surgiu do nada, envolvendo o amigo num forte abraço genuinamente alegre. Sua irmã estava por perto, observando a cena com seu rosto envergonhado.
— Oh, olá! E-eu consegui, né? — disse Akemi, espremido — “A-gh! Assim ele vai me sufocar!”
Rapidamente Sho soltou o abraço, eufórico diante do amigo. — Não pude ver sua luta pois o meu guia chegou na hora. Então me conta! Você ganhou mesmo a luta!? E era contra um Miyazaki, não era!? Qual era o nome mesmo? Era… Nihara? Esse não é o da nossa turma? — A animação transformou-se num grande desentendimento aparente — e olhando bem essa daí… — Ele analisou a garota de olhos verdes e tentou ligar os pontos, mas sua mente não obteve respostas convincentes. — Por quê você saiu da sala junto dessa garota?
— Hehe — Akemi riu de olhos fechados e mão na nuca — é uma longa história.
Aparentemente, os irmãos desconfortavam Miya, não pela curiosidade deles, e sim, pela desconfiança perante qualquer desconhecido dela.
Sho buscava palavras, apontando discretamente para a menina que o estranhava. — Então… essa aí é a…
— O-olá…! Meu nome é Hiromi, Hiromi Miyazaki… prazer em… conhecê-los — Miya estendeu a mão receosa.
“Novamente está agindo estranho…”
Ansioso pelo reconhecimento de que estava interagindo com um membro da famosa família ígnea, Sho respondeu ao cumprimento. — Nossa, não imaginava falar com um Miyazaki tão cedo. Prazer. Essa aqui é a minha irmã — ele apontou para a parente, que tremendo, acenou timidamente após o cumprimento do irmão.
— O-ooi.
Tendo em vista a energia dos dois recém-conhecidos, Miya demonstrou mais empatia com um breve sorriso.
Akemi remeteu sobre a não confiança dela em alunos e instrutores da ASA, então, chamou-a para que contasse sua história com Sho. — Miya.
— M-MIYA!!!??? — Os irmãos exclamaram simultaneamente, afastando-se e suspeitando.
Akemi não sacou a bomba que havia soltado. — O quê foi? — Porém, bastou um tempo desalinhado para o entendimento seguido de vexame — a-ah, não! Não é nada disso, pessoal!
— Você já conhece ela? E por que você a chamou assim!? — interrogou Sho, curioso.
— É… é que… — Akemi entrou em parafusos. “Que bola fora! Como explico isso agora!?” — Contudo, achou uma saída — é que vocês não me deixaram terminar! Só temos o luxo de chamá-la pelo sobrenome, certo!? Enfim, Miyazaki! — Akemi apoiou firmemente uma mão no ombro da amiga, surpreendendo-a — você não parecia tão à vontade com eles, deixe-me apresentá-los! Esse é Sho, gente boa e um dos meus primeiros amigos! Por favor, confie nele! Ele não possui uma aura tão poderosa e por isso não causará mal a ninguém!
— Ein? — A apresentação desajeitou Sho.
Já Miya entusiasmou-se. — Ooooh! Um de seus primeiros amigos!? Então vocês devem se conhecer há muito tempo!
Akemi sussurrou ao nada. — Hm, não é bem assim…
— G-gente — a acanhada irmã de Sho tomou o foco de todos — p-perdoem-me por não me apresentar direito… meu nome é Aruni Yamamoto, e mesmo que eu tenha feito uma excursão há uns dias por aqui, não consegui prestar muita atenção porque eu estava muito nervosa. Então e-
— Fique tranquila! — Confiante, Miya aproximou-se de Aruni, segurando-a pelos ombros e deixando a coitada extremamente corada com o toque.
— E-e-EEEEEEEEH!!!???
— Sei onde há o mapa da ASA, podemos olhá-lo juntos!
[ Térreo do edifício principal da ASA, às 9h40 da manhã. ]
Passando pelo grande tapete vermelho circular do térreo e acompanhado por Miya, Aruni e Sho, Akemi aproximou-se da bancada onde a recepcionista estava.
Ali, também havia mais dois integrantes da turma: Mayumi Sanada, concentrada num extenso pergaminho dourado, e Teruo Kenzo, ajustando os óculos brilhantemente coloridos para a leitura de um folheto prateado.
Com o quarteto recém-chegado próximo à bancada, Miya tomou a frente. — Bom dia, é Yui, né? Poderia me conceder um mapa da academia, por favor?
Fria e desalmada como sempre, a recepcionista entregou uma folha a quem solicitou.
Akemi, Sho e Aruni juntaram-se para que observasse o mapa daquela que o segurava como um tesouro.
— Beleza! Estamos no térreo deste prédio! À nossa direita estão os campos de treinamento, à esquerda tem quadras esportivas… hmmm, essas árvores… — A animação de Miya virava dúvida enquanto a floresta desenhada atrás do prédio principal era analisada.
— Oh! Tem águas termais aqui?! — exclamou Sho — não tinham me mostrado isso na minha guia! Fascinante!
— O que é isso? — indagou Akemi, apontando para o desenho de pequenos pontos brancos rodeados por um caminho de brita.
— São as marcações para quando entrarmos em forma — explicou Miya.
— Forma? — perguntou Aruni, curiosa.
— Entrar em forma significa nos alinharmos em fileiras ou colunas organizadas, prontos para marchar ou para receber instruções. Essas marcações ajudam a garantir que todos saibam onde ficar, mantendo tudo organizado e simétrico.
A explicação chateou e assustou a desinformada.
— Jura? Em Hoshizora não tinha essas coisas. Não quero participar disso.
— Se acalme, só usaremos em momentos importantes. Não é difícil, você irá bem.
Segurando o queixo, Akemi calculava mentalmente. — Hmmm, considerando que estas marcações estão em seis por quatro, totalizando vinte e quatro formações com quinze bolinhas em cada… quantos alunos têm aqui? Deixa eu pensar…
— Exatamente trezentos e sessenta — concluiu a voz suave de um garoto.
Todos reconheceram que a resposta vinha de Teruo Kenzo, que analisando seu folheto, ajeitou a lateral dos óculos reluzentes quando notou-se alvo de quatro olhares. Por perto, Mayumi continuava analisando o extenso papel em mãos, harmoniosa com o silêncio e o foco.
— Olha só, você parece muito inteligente — elogiou Miya, sarcástica.
— É uma conta simples, dava pra fazê-la quando o instrutor explicou sobre o andar das salas.
— Ele está certo, também calculei naquela hora — afirmou Sho — mas onde está toda essa gente?
— Aprimorando suas habilidades em outras áreas — revelou Mayumi, sem que desviasse da leitura — só as turmas F estão aqui a essas horas. Shihais não perdem o tempo dedicado à melhoria, diferente de certas classes — sua frase final afiou uma pontada de desprezo.
— Mas só há nós aqui, onde está o resto da turma? — questionou Akemi.
— Refeitório — informou Teruo.
— Refeitório! — Toda a timidez de Aruni se foi em instantes.
— Quer ir lá? — perguntou Sho à sua irmã.
— Claro! Estou faminta!
— Ótima ideia! Os outros vêm com a gente?
Akemi animou-se pela possibilidade de entrosamento com o resto da turma. — É óbvi-
— Na verdade! — Miya interferiu com as mãos para trás e balançando na ponta dos pés — eu e ele temos que ir a outro lugar. Posteriormente vamos ao refeitório.
— Como assim em outro luga- AI! — Uma ombrada no braço apenas aumentou a confusão do rapaz, que olhando para quem lhe desferiu um leve golpe, foi respondido com uma breve piscada e um sorriso. “O-o que ela quer agora!?”
— … Tuuuudo bem, Aruni e eu vamos na frente. Nos vemos mais tarde… — Enquanto saia de vista com sua irmã, Sho virou o rosto e lançou um sinal de positivo e uma piscada para seu amigo.
“Só me faltava… aquele tá imaginando coisa”, reclamou Akemi, pensando que explicações nenhumas o salvariam daquela possível especulação de casal. Entretanto, quando os dois parentes saíram do prédio principal, Miya pegou em sua mão e o puxou com uma força sobrenatural para fora do prédio.
— Vem comigo!
“Ah! De novo não…!”
[ Exterior do edifício principal da ASA, às 9h45 da manhã. ]
Pelos gramados, Miya conduzia em direção aos fundos da ASA, onde uma abundância de pinheiros e pássaros brilhantes agitavam-se suavemente ao vento.
— Cuidado pra não tropeçar nas tocas dos esquilos-da-terra1, eles viram feras se você estragar a casinha deles. Tá vendo? Aquele alí tá olhando estranho. Não olhe de volta.
— Tô tomando cuidado… mas é que… Ah-g! — Akemi foi atingido na nuca por algo pequeno — qual é? Ele me tacou uma pedra!?
— Avisei pra não devolver o olhar.
— Mas eu não olhei… Arg, que se dane! Tu tá me levando pra onde?
— Não confia em mim?
— Eu confio… mais ou menos.
— A gente tem uma promessa, sabia?
— Tá bom, confio plenamente! — Akemi manteve a calma, seguindo os passos da sua guia…
Finalmente, os jovens entraram cautelosamente na “floresta” escondida nos fundos da ASA.
O cheiro de pinho e terra molhada tomava o ambiente. O exterior distanciava-se, abafado pelas grossas camadas de pinheiros altos e densos que serviam como sentinelas para ninhos de aves pequenas. Não havia uma clareira no local, o que dificultava a passagem de quem enfrentasse a travessia. Todavia, pequenos raios de sol encontravam caminhos inesperados, iluminando arbustos floridos escondidos entre as árvores e o gramado cheio de folhas derrubadas.
Enquanto caminhavam mais a fundo, o chão macio e coberto de folhas de pinheiro amortecia os passos dos jovens.
— Pode me dizer logo o porquê de estarmos entrando aqui?
— Shhhh, fala baixo…! — sussurrou Miya, agachando-se e sinalizando para que fosse seguida por entre as árvores — sinto que há algo errado aqui, não faz sentido uma área tão densa num quartel. Temos que investigar, venha sem fazer muito barulho!
Mesmo relutante, o rapaz seguiu as ordens. — Depois de passarmos mais de um minuto andando nessa floresta você quer se agachar só agora? Tu é maluca!?
— Talvez?
— Para de brincar! Sei que não tem guardas espalhados, mas tenho certeza de que seremos descobertos!
— Aff, você é pessimista, ein? Não gosta da adrenalina de tentar descobertas? Apenas siga a emoção.
“Por que ela quer ir atrás de coisas sem sentido? E que papo é esse de adrenalina? Ela acha que somos detetives!?” Altamente inseguro, o garoto implorou: — Tô falando sério! Por favor, me escuta! Você viu o que o Jin Ichikawa consegue fazer. Se ele descobrir, estamos fudi-
Pemmmm!
De repente, um som metálico ressoou do chão.
Akemi sentiu um arrepio percorrendo toda a coluna, pois pisou em algo que naturalmente não estaria naquele ambiente; abalado, ele fechou os olhos. — Ai, desculpa. Eu estraguei tudo! Eu mereço o caminho da morte.
Contudo, a garota surpreendeu-se quando virou o rosto e decifrou o que era pisado. — Woah! Você encontrou uma escotilha!
Akemi olhou para os próprios pés. “Eu… encontrei?”
No solo, viu-se uma escotilha redonda parcialmente ocultada por folhas caídas.
— Bom trabalho, amigo! Sabia que precisava de você! Toca aqui!
Ainda agachado com sua companheira, Akemi, embora se sentisse malogrado, respondeu ao rápido toque entre as palmas de mãos.
— Hihihi, vejo que você será o meu amuleto da sorte.
— E-eu? Eu não fiz nada!
— Pois então abra isso pra gente, vamos ver o que tem dentro!
— Tem certeza de que quer fazer isso? Ainda dá pra…
— Dá pra abrir logo essa coisa!?
— Tá! Tá bom!
Akemi puxou a alça da escotilha com uma mão, porém, a tampa resistiu.
“Ué?”
A outra alternativa foi o uso das duas mãos.
“Noooossa! Que negócio pesado!”
O esforço não moveu a tampa um centímetro sequer.
“Ah, não acredito que vou passar essa vergonha! Uuuuuuugh! Vaaaamoooos!”
— Ei, pode deixar comigo — Miya empurrou Akemi para o lado com um sorriso simpático, e com uma só mão, ergueu a tampa da escotilha como se não houvesse peso algum.
“Ah.”
— Aaah! Hehe, então, eu só tava brincando pra descontrair, não é como se-
— Shhhh, mantenha o silêncio! Venha, vamos ver o que tem dentro.
Uma abertura circular da escotilha levava à uma passagem estreita na vertical onde barras de ferro horizontais alinhadas na parede formavam uma escada rumo ao desconhecido.
— Tá pronto? — perguntou Miya, repassando coragem ao comparsa.
— Sinceramente, não.
— Eu vou na frente, você vem depois.
Ambos desceram pelas barras iluminadas pelos feixes de luz solar filtrados pelas árvores.
Alcançado o solo frio, um local mal iluminado mostrou-se à frente, onde ao longo de uma fileira espaçada em ambas as paredes, defeituosas lâmpadas verticais e cilíndricas clareavam parcialmente o caminho com seu brilho oscilante.
A brisa fria que escapava das grades de ventilação na base das paredes provocava calafrios.
“Um túnel subterrâneo? Bizaaarro!” analisou Akemi, buscando abrigo quando se aproximou de Miya. — Ei, esse lugar é macabro! Onde a gente se meteu!?
— Não tenho a mínima ideia. Fique pela retaguarda e tome cuidado…

- ((esquilos-da-terra eram criaturas de porte maior que o comum, cuja pelagem trazia tons terrosos e crostas rochosas nas costas. Seus poderes permitiam abertura de túneis com extrema rapidez para o armazenamento de comida e tremores leves quando ameaçados.[↩]

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