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    [ Fragata asahiana rumo ao leste ]

    A travessia foi longa e tensa. No outro dia, a terra apareceu no horizonte.

    Algemada, Naomi foi trazida ao convés pela primeira vez desde a prisão. Os guardas a escoltavam com cuidado.

    O porto de Asahi surgia diante dela, uma cidade portuária extensa com telhados vermelhos e brancos que subiam pelos morros, templos com esculturas místicas nas colunas, e um castelo branco ao longe que dominava a paisagem.

    “Tão diferente de Meilí,” ela pensou, maravilhada apesar do medo. “Tão… organizado.”

    A fragata atracou lentamente, cordas foram lançadas, pranchas desceram, e então, Naomi viu a recepção.

    Dezenas de soldados asahianos formavam uma barreira no cais. Oficiais de uniformes elaborados esperavam com expressões fechadas, e à frente de todos, um homem de cinquenta e poucos anos, cabelos pretos presos em coque militar, trajando um uniforme branco com detalhes verdes e dourados que denunciavam a alta patente.

    Masaru apareceu ao lado de Naomi, tenso. — Aquele é Jin Ichikawa — murmurou — atual Comandante do Porto Oriental e General do Exército Asahiano. Ele… não é gentil.

    Mais que acostumada a lidar com pessoas cruéis, Naomi manteve-se tranquila.

    A Capitã Sanada desceu primeiro pela prancha, seguida por Yoshida e os estudantes sobreviventes.

    Já Naomi, empurrada pelos guardas, desceu a prancha com as pernas firmes, consciente de que todos os olhos estavam fixos nela.

    Quando pisou no cais, Jin aproximou-se.

    Ele a olhou de cima a baixo com olhos castanhos frios como pedra. — Esta é a meiliana?

    — Sim, senhor — confirmou Sanada.

    — Hmm… Sabiam que ela é filha da Imperatriz Ci’xi?

    A Princesa arregalou os olhos: como aquele militar sabia quem era sua mãe, se somente o Palácio ZhuRong conhecia seu parentesco imperial?

    A espadachim também assustou-se, mas conteve o espanto na reverência respeitosa. — Negativo, senhor.

    O General Ichikawa ignorou a negação, a jovem à sua frente o interessava mais. — Estamos diante de uma Princesa Imperial, e uma traidora da própria nação… e potencialmente, a maior ameaça à segurança de Asahi que já pisou em nosso solo.

    Masaru deu um passo à frente. — General, com todo respeito, ela nos salvou. Sem ela estaríamos mortos!

    — Entendo, jovem. Li o relatório. Mas isso não muda o fato de que ela é treinada desde criança em técnicas militares meilianas, portadora de uma aura eterna que poucos compreendem, e acima de tudo, uma incógnita política… — Jin voltou-se aos quatro soldados ao redor. — Levem-na à cela de contenção. Interrogatório amanhã ao amanhecer.

    No avanço dos militares, Masaru protestou. — General! Ela não é prisioneira de guerra! Ela é refugiada!

    — Isso será decidido pelos superiores. Não por você, garoto.

    Os soldados agarraram os braços de Naomi, que sem resistência, repassou confiança em seu olhar a Masaru.


    Seis horas haviam se passado desde a chegada ao Quartel General do Porto Oriental, e o ambiente que abrigava Naomi apresentava uma diferença brutal em relação à fragata.

    A cela de contenção era apertada, construída com pedras densas que absorviam qualquer resquício de calor e tornava o ar frio e pesado. Não havia aberturas que permitissem contato com o exterior. A única fonte de luz vinha de um lampião pendurado no teto, cuja chama fraca projetava sombras instáveis pelas paredes. No chão, um tatame fino servia como único suporte, insuficiente para conforto real, afinal, era um espaço feito para contenção, inibindo acolhimento.

    Encolhida no canto e ainda algemada, Naomi mantinha os joelhos próximos ao peito; os braços envolvendo as próprias pernas preservavam algum calor ou segurança. A mente trabalhava contra; pensamentos se acumulavam sem ordem e conduziam sempre ao mesmo destino inevitável.

    A possibilidade de execução era apenas uma das faces daquele medo, havia alternativas piores, lentas, e cruéis.

    A garota conhecia bem o funcionamento de interrogatórios imperiais, e sabia que Asahi, apesar de suas diferenças, não abriria mão de métodos eficazes quando o assunto fosse extração de informação. Seu conhecimento sobre Meilí, sobre a Imperatriz e sobre técnicas áuricas tornava sua existência valiosa demais para que fosse ignorada, e perigosa demais para que fosse poupada com facilidade.

    Entretanto, a meiliana que só viveu dentro de um palácio vulcânico cresceu com uma perspectiva totalmente limitada sobre o que acontecia no mundo. As guerras, as razões e as verdades estavam todas rasas em sua mente, e como suas primeiras impressões sempre foram sobre a brutalidade de seus conterrâneos em prol de um poder maior, ela imaginava Asahi — terra pequena comparada a Meilí — como uma nação que somente agia em defesa.

    A pergunta era: Naomi acreditava corretamente que sua terra sempre foi a vilã da história?

    Na verdade, a resposta não viria somente dela. Era apenas uma garota confusa, extremamente poderosa, que desde o nascimento, foi exposta à injustiças, treinos, e poucos momentos de bons aprendizados com aqueles que realmente cuidavam e cultivavam bondade no coração da jovem…

    O som da porta sendo aberta anunciou que um homem infamiliar entrou pela porta de ferro da cela fechada. Era adulto, com traços firmes, comportamento controlado, e um uniforme cinza característico de oficiais de inteligência. Seus óculos finos refletiam a luz do lampião enquanto observava o ambiente com atenção.

    Em suas mãos, um caderno fino e uma leve cadeira de madeira.

    Diferente de uma rigidez militar explícita, aquele homem apresentava um outro nível, mais analítico, silencioso, e concentrado em sua abordagem.

    Sem pressa, ele tomou o assento da cadeira que trouxe e abriu o caderno com anotações preparadas.

    O olhar percorreu Naomi como se estivesse diante de algo raro digno de estudo minucioso. As informações contidas sobre ela eram extensas e altamente sigilosas: a origem como filha secreta da Imperatriz Viúva Ci’xi, o treinamento iniciado ainda na infância e a criação de uma técnica própria que fundia movimento e combate em um nível considerado inovador, tudo registrado, analisado, e questionado.

    A ausência inicial de respostas por parte de Naomi não o incomodou. As perguntas seguiam com naturalidade, acostumadas à extração de informações mesmo diante do silêncio.

    A questão central não demorou: o motivo da traição.

    Nos registros de Asahi, aquele era o ponto crítico. Uma guerreira meiliana daquele nível não abandonaria sua origem sem razão concreta, e qualquer justificativa apresentada precisaria de uma avaliação cuidadosa.

    Naomi adiou a fala, a influência de Masaru era evidente naquela demora.

    Ela estruturou sua explicação de forma clara, dizendo que sua mãe representava um ideal oposto ao que acreditava; enquanto a Imperatriz via poder como instrumento de destruição e domínio, seu pai havia lhe ensinado outra perspectiva: uma relação com as chamas baseada em equilíbrio, proteção e respeito à vida. Tal divergência, cultivada ao longo dos anos, intensificou-se até o ponto final: o contato direto com soldados meilianos capturando civis asahianos para escravidão, a cena que não permitiu neutralidade.

    A escolha feita naquele instante custou tudo: posição, identidade, futuro. Ainda assim, não havia outra opção possível, em sua cabeça, o silêncio custaria mais caro ao seu coração.

    A resposta oferecida não buscava convencimento; expressava apenas convicção.

    O homem, no entanto, não demonstrou qualquer inclinação e seguiu sem questionamentos. Sua postura controlada não admitia decisões baseadas somente em princípios morais.

    A hipótese de infiltração foi apresentada. Para ele, o sacrifício de uma fragata e de centenas de soldados seria sim justificável dentro de um plano maior organizado pela Terra do Fogo. A ideia de que aquela garota estivesse sendo utilizada como peça estratégica não era descartada com facilidade.

    Naomi reagiu de forma calma. A lógica apresentada, em sua visão, se sustentava diante da caótica realidade política de Meilí. Impressionantemente, a Imperatriz Ci’xi arriscaria o recurso valioso de sua própria herdeira em uma missão de batalha. Considerando a relação pessoal entre as duas, marcada por rejeição e desprezo, Naomi não se via como peça preciosa aos olhos da mãe, mas como uma falha a ser corrigida ou descartada. 

    A missão que recebeu tinha um propósito implícito: provar valor ou desaparecer.

    Porém, qual fora o verdadeiro propósito de Ci’xi quando arriscou a própria vida para que se envolvesse com um não nobre e desse à luz um áurico sem igual? A criação oculta de um herdeiro à margem das leis do império contrariava tudo o que se esperava de uma concubina eternamente ligada ao imperador, mulher que jamais poderia se relacionar com outro homem, muito menos com alguém de fora do palácio.

    Então, por que ela fez aquilo, e quais seriam as consequências dado que sua cria tornou-se traidora?

    Entendendo que não teria mais volta e que havia escolhido o abandono de tudo, a jovem perdeu a postura. O orgulho da decisão desapareceu, restando apenas a aceitação. As lágrimas que surgiram naquele momento confirmavam a ruptura definitiva.

    O homem registrou cada detalhe, e ao final, fechou o caderno; a verificação das informações seria conduzida por meio de fontes em Meilí, um processo que levaria tempo. Até lá, Naomi permaneceria sob custódia máxima, sem concessões.

    Antes da retirada, uma última questão foi levantada. O interesse do jovem estagiário Masaru Miyazaki em protegê-la não passara despercebido. Para um observador externo, aquilo fugia do padrão esperado, especialmente levando em conta que o jovem era um estagiário que corajosamente enfrentou shihais de alta patente encarregados pela proteção da fragata de exploração.

    A resposta de Naomi foi simples e direta: Masaru não a enxergava como arma ou inimiga.

    A observação foi recebida com um aceno de compreensão, mais como registro do que concordância. Em seguida, o homem deixou a cela, e a porta foi fechada.

    Naomi permaneceu no mesmo lugar. Ainda havia incerteza e medo, mas daquela conversa, um pequeno ponto de estabilidade surgiu:

    Uma referência externa representada por um jovem sarcástico que, mesmo dentro de um sistema punitivo, protegeu uma guerreira previamente tratada como inimiga, fazia uma grande diferença naquele espaço isolado, o suficiente para que o desespero não dominasse outra vez.

    Masaru Miyazaki se tornava uma pessoa importante para o coração da princesa meiliana.


    [ Dias depois no Palácio ZhuRong ]

    As notícias chegaram no palácio através de um navio de resgate que recuperou alguns dos meilianos sobreviventes. Sustentações improvisadas e suplementos limitados os mantiveram vivos por dias.

    Ci’xi estava furiosa.

    Uma fragata destruída; soldados mortos ou desaparecidos; e a Princesa Huo’ying, desaparecida.

    O brasão imperial fora encontrado no convés da fragata asahiana e submetido à recém-incorporada técnica de coleta de impressões digitais em papel por vapor de iodo. O procedimento confirmou a presença da jovem, mas não revelou seu destino.

    Ci’xi declarou oficialmente que a filha morreu em um combate heroico contra os invasores asahianos, mas os espiões reportaram sussurros diferentes nos corredores do palácio. Alguns diziam que a princesa traíra, outros, que fora capturada… Poucos acreditavam na versão oficial.


    [ Dias depois ]

    Masaru obteve permissão de visita na cela de Naomi. Sua mãe, Matriarca da Família Miyazaki, facilitou-lhe o acesso após sucessivos pedidos. Apesar do poder demonstrado pela meiliana, a matriarca não via risco naquela visita, pois em parte, pouco lhe importava a própria existência do filho.

    — Naomi, tenho uma proposta — disse Masaru, sem rodeios. — Os Miyazaki aceitaram te abrigar.

    A ideia abriu a mente da garota, que assustada, reagiu com atraso. — O quê?

    — Somos parte das grandes famílias nobres de Asahi. Somos influentes, poderosos, e… interessados em você.

    A última descrição tirou uma suspeita. A meiliana recuou com cautela.

    — Ei, não pense errado. Não temos interesse em te machucar. Descobrimos em exames e relatos que tens um tipo único de aura eterna, e sua arte marcial, os Miyazaki acham que você pode tornar parte de nós, nos ensinar, fortalecer, e em troca, te daremos uma vida digna de uma princesa.

    A náusea e o desespero voltou em Naomi.

    — Não quero ser uma princesa…

    — Prefere permanecer encarcerada?

    — Não! Eu entendo por que estou aqui, e estou pronta para arcar com as consequências do que a minha nação causou a vocês. E, no fim… nunca aceitaria sair daqui apenas para ser usada novamente como pretendem.

    — Você está correta sobre ser utilizada — confirmou Masaru, sincero — porém há uma diferença. Se você vier sob proteção dos Miyazaki, ganhará status legal. Não será mais prisioneira e se tornará refugiada sob custódia familiar. Terá direitos, liberdade relativa, e tempo.

    — Tempo para quê?

    — Para decidir quem quer ser livremente como pessoa, não prisioneira ou arma.

    A resposta fez sentido, mas outra dúvida surgiu.

    — Por que veio me oferecer isso?

    — Porque fui eu quem se ofereceu para tirar você desta cela e assumir sua guarda em minha casa.

    — S-sua casa!?

    — Positivo. Estou morando sozinho atualmente, e no período em que me encontro na ASA como estagiário investigativo, apenas analisarei papéis e raramente sairei para reuniões. Posso mantê-la segura e acompanhada.  

    — … A-ah, m-mas por quê!? O-o que você ganha com isso!?

    — Consegui convencê-los com a promessa de que você transmitirá suas técnicas marciais ígneas à minha família. Não se preocupe, não permitirei que a tratem como instrumento, e isso nem será difícil dado que a querem em plenas condições; quanto mais adaptada estiver, melhor poderá ensinar — Masaru manteve o olhar firme. — Mas não encare isso como garantia. Se não quiser falar, não falaremos. Não a forçarei a nada, e vou protegê-la de qualquer um que tente.

    De repente, o jovem sorriu fracamente.

    — E quanto ao que eu ganho… honestamente? Nada. Talvez só problemas. Minha família pressiona, a ASA me vigia… e você vai precisar confiar em mim dentro de um sistema corrupto.

    — Por que faz isso? — perguntou Naomi, genuinamente confusa — por que arrisca tanto por mim?

    Masaru ajeitou os óculos olhando para o céu, levemente constrangido. — Quando destruiu aquela fragata, notei em você alguém escolhendo o certo mesmo quando tudo custava, e pensei… se existe uma pessoa no mundo que deseja o fim dos crimes de guerra prestes a ser injustamente executada, o mínimo que poderia fazer era arriscar a minha imagem para retribuir a proteção.

    De certo modo, a explicação soou vaga. Pareceu uma meia verdade improvisada para que o motivo completo permanecesse em segredo.

    Entretanto, serviu para que Naomi se alegrasse.

    — Eu aceito.

    O sentimento positivo contagiou Masaru. — Ótimo. Vou providenciar os documentos.

    A partir dali, Naomi finalmente encontraria seus melhores momentos de paz e liberdade…

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