Capítulo 201: Truco com o Diabo - parte III

A carta virada embaixo do deck era uma dama de ouros, o que transformava os valetes nas cartas mais fortes da mão.
As cartas de Renato? Um 4 de paus, terno de espadas e valete de copas. Ou seja, ele tinha uma manilha, finalmente! E era a segunda mais forte do jogo! E ainda tinha um terno sobrando.
Boa mão!
Mas uma boa não garante vitória.
Era necessário uma estratégia para tirar o máximo de pontos possível.
Ele olhou para Lúcifer, e o Diabo ainda tinha aquele mesmo sorrisinho neutro e tão repugnante que dava vontade de vomitar.
Deus, por outro lado, estava bocejando, como se estivesse entediado.
Renato não podia perder!
Tinha muita coisa em jogo.
Apostou demais para recuar agora.
Ele poderia iniciar já jogando sua manilha de copas, o que garantiria a primeira rodada. Ganhar a primeira era um excelente critério de desempate.
A menos que Satã tenha o zap. Nesse caso, jogar o valete seria o mesmo que jogá-lo no lixo, e seu terno sobrando significaria a mesma coisa que merda nenhuma.
“Droga! Não posso desperdiçar essa oportunidade!”
— Vai jogar ou não vai, Renato?
Satanás falou com a voz calma e aveludada, e lhe direcionou um olhar soberbo, como se já soubesse o resultado desse jogo.
O garoto escolheu uma estratégia simples.
A primeira carta que jogou foi o terno de espadas.
Isso garantiria um início contundente, e se Lúcifer tivesse alguma manilha, como o zap, ele provavelmente jogaria ela agora, o que tornaria seu valete invencível na próxima rodada; e se ele não tivesse manilha, o máximo que faria seria empatar, o que também garantiria vitória para Renato.
Ele até pensou em trucar.
Talvez devesse!
Ou não…
Lúcifer estava trucando toda hora.
Talvez fosse melhor deixar seu adversário pedir truco antes, para logo em seguida, Renato aumentar o valor da aposta com um alto e sonoro SEIS! Cheio de energia e desrespeito!
Lúcifer olhou o terno de Renato. Não era só uma carta de baralho que jazia sobre a mesa; era uma esperança tola. Uma vontade vã de lutar contra o inevitável.
O garoto não sabia, mas os ouvidos do Diabo estavam atentos, captando qualquer variação de batimentos cardíacos dele; suas narinas decifravam o medo saindo por seus poros junto do suor, e ele até conseguia perceber variações na voz. A adrenalina faz as cordas vocais se comprimirem, o que torna a fala subitamente mais aguda. E o que falar dos micro gestos? A forma que Renato segurava o baralho, as olhadas em volta, as encaradas tentando parecer confiante… tudo falava, gritava sobre a condição mental do garoto… e principalmente sobre suas cartas.
Nessa jogada mesmo, ele tinha ficado mais confiante do que antes. Era óbvio que tinha boas cartas nas mãos.
Qualquer jogador no lugar dele teria trucado. Se ele não trucou, é porque planejava retrucar pedindo seis, prevendo que Lúcifer iniciaria as apostas.
Satã não daria esse gostinho.
E pela primeira vez, o Diabo jogou uma mão valendo apenas um tento.
Ele pôs um terno de ouros sobre o terno de espadas do garoto, empatando a rodada. E tudo o que Renato pôde pensar na hora foi:
“Esse filho da puta tem o zap!”
Na rodada seguinte, cada um dos jogadores deveria mostrar sua maior carta, começando por Renato.
Tudo nele dizia para pedir truco antes de mostrar seu trunfo.
Mas aquele maldito… aquela confiança exacerbada diante dele, gritava sobre a possibilidade de derrota. Uma possibilidade que ele não poderia ignorar.
Renato nunca foi covarde, mas neste momento, seus nervos lhe corriam o cérebro.
Uma alma por uma alma.
Se perdesse, seria o fim de sua própria existência.
Não haveria mais Renato, apenas um fantoche de Lúcifer.
O suor que escorreu de suas mãos impregnou nas cartas, e as fez colar umas nas outras.
Sentindo ódio de si mesmo, ele pegou o valete de copas e pôs na mesa.
Tentou forçar um sorriso confiante. Isso ainda significava alguma coisa!
O Diabo riu.
— Já que está com tanto medo assim, Renato, por que não colocamos ainda mais tempero nessa mão? Eu só mostro a minha se for valendo truco!
— Desgraçado! — Renato não conseguiu segurar a boca.
Ele com certeza tem o zap!
Renato se sentiu um idiota. Foi completamente fisgado mais uma vez.
Ou não…
Uma lembrança cruzou sua cabeça, repentinamente, como um flash.
Na primeira vez que desceu à Sala do Jogo, ele viu uma coisa interessante.
“Não foi na época em que lutei contra o Mercenário Possuído pela primeira vez?” pensou.
O garoto ficou todo machucado, e enquanto experimentava o coma no hospital, sua alma desceu até os confins do universo e presenciou um jogo de cartas cósmico.
E foi ali que ele percebeu uma coisa: o Diabo truca sem zap!
É o pai da mentira. É claro que o blefe, para ele, seria tão comum quanto respirar!
Em alguns momentos da vida do homem, ele precisa decidir, e Renato decidiu.
Se for para morrer, para perder a alma, para se ferrar mais do que ele já se ferrou, que assim seja! Mas se for para vencer, que a vitória seja linda!
E o garoto olhou no fundo dos olhos do Diabo, e sem um pingo de medo, disse:
— Seis, filho da puta!
O sorriso que Lúcifer abriu foi grande, mas o de Deus foi ainda maior.
— E então, Samael, o garoto tá te desafiando… — Na voz do criador, havia um toque de deboche que, para Lucifer, soou como veneno.
Um tipo de som grave, gutural, veio do fundo da garganta de Lúcifer, como um rosnado bestial. Mas ele logo se recompôs. Deu de ombros.
— Sabia, Renato, que eu consigo ver suas cartas através do reflexo em suas pupilas? Posso sentir o cheiro de medo no seu suor. Eu sei que pensa que pode ganhar, mas não pode. Se quer perder assim tão rápido, então por que não apostamos nove?
Deus gargalhou.
— É assim que eu gosto! Um jogo animado!
Renato pensou por um momento.
— Fodeu!
Se a afirmação de seu adversário for verdade, nunca houve a menor chance de vitória!
Mas por que ele diria? Por que revelaria para Renato sua maior arma para vencer? Para se gabar? Para brincar com a presa? Não. O Diabo é viciado em jogo. Ele quer vencer, tanto quanto Renato. Talvez até mais!
Em outras palavras, contar aquilo seria apenas mais uma estratégia.
Ele queria intimidar. Queria que Renato sentisse medo…
“Ele quer que eu recue” pensou o garoto. “E se ele quer que eu recue, então talvez não tenha uma mão tão boa assim!”
Na sua cabeça veio a voz de Hiro perguntando: “Você é um homem ou é um rato?”
E só pelo desaforo, Renato bateu com as duas mãos na mesa violentamente, deixando fluir por seu peito aquele ímpeto troglodita dos jogos de truco, e gritou do fundo da garganta o “DOZE” mais alto que conseguiu.
Nesse momento, ele tinha deixado de lado totalmente a estratégia. Apostar tudo desse jeito, com a clara possibilidade de perder, era loucura. Ou talvez fosse apenas truco.
Deus encarava seu primeiro arcanjo com olhos vidrados. Estava interessadíssimo na resposta de seu filho.
O Rei do Inferno recuaria, enfim? Ou era orgulhoso demais?
O garoto estava tão nervoso há tão pouco tempo! De onde tirou tanta confiança?
Nem mesmo o Criador estava compreendendo o jogo do rapaz.
Satanás curvou os lábios num sorriso discreto, sem mostrar nenhum dente. Os olhos, exalavam confiança. Mas ele piscou e desviou o olhar.
Renato podia jurar que viu sua pálpebra tremendo num tique nervoso.
Então, o Pai da Mentira pôs sua carta sobre a mesa, com a face virada para baixo. O maldito estava correndo da aposta! Ele não tinha o zap mesmo. O sorriso soberbo falhou.
— Sua vez de dar carta.
O garoto, tomado por alegria e esperança renovados, pegou o deck e o embaralhou. “Realmente” pensou o garoto, “trucar toda hora era uma boa forma de intimidação, mas também um bom atalho para a derrota.”
Deus olhou para o garoto com curiosidade.
— De onde tirou tamanha coragem? Tamanha… fé?
— Eu não sei — respondeu ele.
Renato deu as cartas.
Esperou Lúcifer olhar as cartas que tinha recebido e, notando um leve tremor nos cílios dele, o garoto não pensou duas vezes.
— Truco!
Um rosnado ferino escapou da garganta do Diabo, e fumaça saiu de suas narinas na hora em que ele devolveu as cartas à mesa.
A estratégia, a partir desse momento, seria simples: Renato tinha 10 tentos contra 2 de Lúcifer. Ele poderia escolher quais mãos jogar, e ele escolheria apenas aquelas em que estivesse bem. Em algum momento, deveria vir alguma coisa boa. Ele tinha muitas mãos para correr. As probabilidades estavam a seu favor.
As mãos seguintes se seguiram da seguinte forma: Lúcifer trucava, talvez aproveitando-se de uma boa mão; ou apenas blefando; mas Renato não aceitava. Não precisava se desesperar. Era o Diabo quem tinha que correr atrás do prejuízo.
Dessa forma, ele deu alguns tentos ao adversário. Porém, depois de 4 mãos jogadas onde o garoto correu, enquanto Lúcifer pensava que tinha recuperado o controle, na quinta, o destino o abençoou com uma mão praticamente invencível: duas manilhas, de espadas e copas.
E, como estava fazendo, Satanás trucou. E Renato finalmente aceitou, para a surpresa de seu adversário.
Vencer essa mão não foi difícil, principalmente sendo o pé da mão.
Lúcifer, imediatamente jogou o zap, garantindo a primeira rodada. Porém, seu terno sobrando não teve chances contra o copas, e nem seu duque fez alguma cócega contra o espadilha.
O Diabo trucava mesmo sem o…
— Eu ganhei! Eu ganhei! Puta merda, eu ganhei!
Como pactos não podem ser quebrados, Satã precisou obedecer a promessa.
E com um estalar de seus dedos, uma luz muito forte brilhou sobre a mesa, e da luz surgiu um rolo de pergaminho, pena e tinteiro.
Lúcifer escreveu alguma coisa em língua enoquiana e, em seguida, furou o dedo com a ponta da pena e deixou cair sobre o papel do pergaminho uma gota de seu sangue.
— Tome isso, garoto. Apresente este documento a Syrach. Terá a alma de sua garota volta.
Renato assentiu.
— Obrigado, ãh… — Renato ficou em dúvida sobre como deveria chamar as duas entidades. — Vossas excelências? — disse ele, meio inseguro.
Lúcifer e Deus não reagiram e apenas permaneceram em silêncio.
Renato deu as costas, mas antes de sair, disse:
— Sua filha Baalat tá sentindo sua falta. E Angélica tá visivelmente sobrecarregada com tudo.
Depois que Renato se retirou, Lúcifer fez surgir, de uma bola de luz, um copo de uísque.
Bebeu um gole e respirou fundo.
— Não vai me zuar por ter perdido?
— Não — respondeu Deus.
— Sabe, eu achei mesmo que ele estava blefando naquela mão. Tudo nele apontava pra isso.
Deus riu e deu de ombros.
— Sabe de uma coisa, meu filho? Eu também achei.

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