— Não, não, NÃO! — gritos e mais gritos. — SAIAM! SAIAM!

    As pequenas garotinhas têm pesadelos recorrentes. Dizem ver espíritos ensanguentados vagando e amaldiçoando nomes indecifráveis. O dom de interagir com o outro lado tem seus custos. É a quinta noite onde o silêncio é rasgado por surtos, também é a quinta noite de Moshe desde que acordou no acampamento. Yitro revelou que ele dormiu durante três dias. Revelou não somente essa vergonha, como também a maior de todas. 

    — Por favor… me ajuda… — escutá-las o obriga a se imaginar se contorcendo na cama. — Alguém… 

    Por três dias agonizou. Seu corpo se tornou um templo maldito. O corpo se retorceu e expeliu o licor negro da morte. Na primeira oportunidade todas essas almas tentaram assumir o controle. Se não fosse por uma das filhas de Yitro alguém teria se machucado. Que patético. Machucaria quem o salvou do deserto. A ideia de continuar respirando o perturba cada vez mais. É questão de tempo para fraquejar. Questão de tempo para matar novamente.  

    — Se ficar doente me sentirei responsável — o tom familiar o surpreende. — Quer comer um pouco?

    Aharon parte o pão em dois, o sorriso não acoberta os hematomas. É um milagre conseguir se mover. Ele tentou defender essa família, se não fosse por ele talvez…

    — Não me recordo do príncipe ter a mente tão distante — ele se senta. — Na realidade lembro de como não conseguia ficar em silêncio e parado. — ele grunhiu de dor, involuntariamente cobriu seu tórax. 

    Moshe lembra vagamente de curá-lo. Verdade é que qualquer feito das almas é corrupto. O poder da vida e da morte não pertence a nada terreno. Não deveria pertencer a ninguém.

    — Precisamos partir — Moshe morde o pão seco. — Amanhã ou depois.

    — Para onde?

    — Longe, o mais distante possível. Até que nossos olhos vejam o oceano. Não. Até que não nenhum grão de areia ocupe nossa vista — outra mordida é feita, vazia. — Vamos pedir alguns suprimentos e partir. Caso neguem podemos esperar até nós aproximarmos de uma cidade. Nossa presença é incômoda.

    A última frase é falsa. Somente Moshe é indesejado. Permaneceu atento durante sua estadia, sabe a causa raiz da perturbação das mais novas. É ele. As almas dentro de si corrompem o ambiente. Sua presença atraí o infortúnio. Onde seu corpo repousar essa praga irá se espalhar.

    — Essa gente, essa família, precisa de você. Desde aquele dia que os protegeu dos bandidos ou como consegue sentir água próxima — o sorriso em sua feição é radiante. — Por que não viajamos com eles? Podemos ser úteis e continuar despistando Ozymandias. Podemos viver, não precisa se culpar por causa de uma noite. 

    Cada palavra dele é absurda. Os ladrões foram um simples acaso e não só foram embora por causa de seus olhos. Dois pontos dourados cercados pela escuridão densa. Eles viram a monstruosidade atrás do véu. 

    — Desculpa Aharon, não tenho o direito de esquecer tudo o que ocorreu. Pelo contrário, devo recordar cada vida que ceifei. Dia após dia eu devo buscar ser perdoado. Não irei julgar se querer estabelecer uma vida com eles. Casar, ter filhos… — Moshe finalmente encara seu amigo, sua expressão é amarga. O rosto se enruga impedindo as lágrimas se libertarem. 

    — Não deixe essa chance escapar. Não quero… — ele engole o restante dás palavras e sai. 

    Moshe permaneceu imóvel pelos segundos posteriores. Sente como se atravessasse uma faca nele. Porém não entende a dor do amigo. Outra mordida é feita, a fim de esquecer tudo que está acontecendo. Ao abrir novamente a boca, nota o próprio sangue pingando sobre a manta. É vermelho como suas lembranças borradas. Um sentimento o perturba, a dor e como ela o abandonou em pequenos momentos. Claro, ainda sente o corpo cansado. Sente cada queda no deserto. Mas nesses pequenos cortes, ela é inexistente. 

    — …não temam o dom dado a vocês, pois somente vocês podem usá-los — Yitro conforta as filhas.

    Moshe decide observar a Lua, sua frieza deveria o confortar nesses momentos. Se lembra quando frequentemente a observava do palácio. Raramente sozinho, Aftí e Marí sempre lhe fizeram companhia. Conversavam sobre como seria viajar pelos desertos. Desbravar reinos perdidos. Sentir o vento livre.

    “Não, tenha piedade” o arrependimento o consome. 

    Foram tantos implorando por somente mais uma oportunidade de viver. A imagem dos corpos e do sangue ainda o enoja. As faces paralisadas em horror. Os olhos vazios e perdidos. Os grunhidos que antecipam a morte. A sensação de quebrar algo com as mãos. 

    Se lembra de absolutamente tudo

    Não queria matar. 

    Mentira…

    Todas aquelas pessoas eram inocentes

    “Seu Ivrit de merda”. Sempre soube que faria algo assim”. “Deveríamos ter te matado no dia em que pisou nesse palácio”

    Essas palavras não lhe são familiares?

    Quantos realmente eram inocentes?

    A morte não deve ser imposta por ninguém…

    Adraug era como eles e você o quis morto…

    Hipócrita…

    Seu coração clamou por vingança após presenciar o passado…

    Eu deveria ter morrido lá. 

    Covarde…

    Ao fechar os olhos viu corpos implorando pela vida. Viu o reflexo com olhos negros o observando. Uma casca banhada em sangue. Ao abrir somente o vazio e o silêncio da penumbra restam junto a Lua, o julgando como o demônio que é. A noite, desesperada como os gritos que a preenchem, arrasta os segundos para o primeiro raio solar. Obviamente, Moshe estava desperto para presenciar o Sol expulsar a escuridão. As pupilas letárgicas não se importam com a claridade abrupta. 

    — Lhe avisei sobre a falta de conforto — Yitro diz ao sair de sua tenda. — Imagino que dormir ao relento não faz parte da sua natureza nobre, assim como longas viagens sem rumo. 

    Moshe não tem força para respondê-lo. O cansaço escureceu sua mente. Pelo quinto dia seguido não sonha. Somente é perturbado nos poucos momentos de segurança.

    — Desperte logo, temos muito trabalho a fazer — o patriarca não afrouxa suas ordens. — Coma algo para tirar esse rosto abatido.

    Ele oferece uma xícara cheia de leite recém aquecido. A fogueira deve ter sido acesa entre os pequenos cochilos que trouxeram a vaga sensação de conforto. Aceita a xícara. O líquido viscoso fecha a garganta até finalmente chegar ao estômago, fechar os olhos e fingir que é vinho ajuda a ignorar o gosto azedo. 

    — Dizem que um bom leite junto ao Sol forte, fortalecem as barbas de um homem — ele termina sua segunda xícara enquanto coça sua longa barba branca. — Talvez você ainda cultive uma barba tão bela quanto a minha.

    A manchas amarelas ao redor dos lábios e espalhadas pelas extremidades enojam aquele que viveu ao redor de faces lisas. Os dedos passam pelo rosto horrorizado imaginando ter aquele amontoado de pelo sobre o rosto. Pequenos pêlos são perceptíveis, o mesmo ocorre na cabeça. Logo o tempo apagará a nobreza em seu corpo.

    — Não se preocupe. Tenho certeza de que logo não terá tempo para pensar na própria barba ou sequer no cabelo — o gosto azedo teima em o deixar desperto. — A graça de nosso deus, Yuhiwohi, cairá em ti. Será forte como o impacto de uma flecha é suave como o cair da água. 

    Não é uma má escolha de palavras. Não há como recusar ajuda divina, afinal Shammala deve o odiar agora. Cometeu inúmeros pecados sob a luz dele, sob os olhos do grande deus Sol. Necessita da proteção de outro Deus. Mesmo esse cuja face é desconhecida. Esse cujo povo é condenado a servir e sofrer. 

    — Não é bom divagar enquanto alguém está falando contigo — Yitro agora está o segurando pelos ombros, ele é forte. — Vamos nos divertir um pouco, estou cansado de ser um velho sentado.

    Como todo dia desde que se abrigou com eles, o povo de Euqone, levou as cabras para comer. Vê-las buscar comida sob a areia, as costelas marcando a pele, o pêlo crespo, a fraqueza nos cascos é aterrorizante. Somente em oásis ou perto de rios os pobres animais conseguem comer bem. Nunca lhe faltou uma fruta sob a bandeja prateada. Água em seu cálice. Algo tão banal como grama não poderia faltar, claro que não, o príncipe tinha um jardim imenso. Colorido. Vivo.

    — É livre para correr neste deserto. É livre para ir em qualquer cidade destas terras. Agarre cada grão de areia e chame-o de seu — Moshe limpa os olhos com receio de ser outra peça de sua mente. — Se desejar corra, porém entenda que está doente. Seu espírito está envenenado. Se acha que não podemos ajudar e que é uma ameaça, corra e não olhe para trás.

    Fuja…

    Precisamos ir…

    Fuja… 

    Aqui é perigoso…

    Fuja…

    — Me perdoe, eu não posso… Eu… Eu… Sou um homem horrível…

    — Não. É um homem perdido na própria alma. Minha filha percebeu isso quando lhe encontrou perdido no deserto. A afinidade dela com os espíritos é o meu orgulho. O motivo para dia após dia eu enfrentar essas areias é somente me provar digno de tal benção. O motivo de continuar vivo é somente pelas minhas filhas — sua mão busca a minha, um contrato feito sobre nossa honra. — Pela honra de meus antepassados, deixe-me te curar teu espírito.

    — Eu… — Curar? — Yitro, eu…

    Não estamos doentes Moshe…

    Tentar nos retirar…

    É inútil…

    — Eu….

    Afinal…

    Somos o que somos...

    — Eu não posso mais — o corpo se curva para frente. — Me deixe na próxima cidade, eu não quero causar mais problemas

    Assassino…

    É isso que você nos chama…

    Correto?

    — Sou muito grato por cuidar de mim, mas não posso abusar de sua bondade

    Tem vergonha de o encarar. Afinal, está negando ajuda de um sábio. No entanto, o silêncio força o jovem a erguer sua cabeça e ver o senhor com a mão ainda estendida.

    — Moshe, meu filho, não há motivo para sentir tamanha agonia sozinho. Não há motivo para negar a cura. Não tenha medo de machucar ou de se machucar, se não nunca terá a oportunidade de curar. Sorria conosco. Divida a mesa conosco. Seja não somente um viajante ou um convidado. Seja parte de nossa família — olhos opacos encaram os seus dourados. — Só podemos lhe ajudar caso você escolha confiar em nós. Estenda sua mão e eu irei segura-la. Levante-se e eu o deixarei ir. 

    Fuja…

    Mate…

    Fuja…

    Levante-se…

    Fuja…

    Moshe, príncipe ilegítimo de Otige, assassino, fugitivo, um simples Ivrit assustado agarra a mão de Yitro. Está assustado. Sabe como é perigoso para todos ao redor. Mas não sabe andar no deserto. Não sabe quais plantas pode comer. Não sabe onde descansar. Sua ignorância o assusta. Deseja viver.

    — Certo, ótimo, perfeito! — Yitro o levanta e beija seu rosto. — Agora destrua a expressão de aflição do rosto. Tire o pó dos ombros e ajude meus tesouros a desmontar as tendas — Yitro espanta a angústia com um tapa forte em suas costas. — Sem corpo mole. 

    Não muito longe estão as sete filhas do homem que acolheu um assassino. Ainateb, a mais velha, é quem organiza os trabalhos no acampamento. Yitro já está muito velho e, assim como o corpo, a mente está definhando dia após dia. Ada, Adira e Euqaj têm pouca diferença de idade para a mais velha. São elas que fazem a maior parte do trabalho. Aniramad e Jerusa são muito novas para realizar qualquer serviço braçal. Também são as únicas que ainda sofrem com visões a noite. E claro Sefora, a mulher que segurou sua mão durante os delírios. Segunda mais velha e a única que não possui visão. Guiada pelos espíritos é como a chamam. 

    Ela…

    Não tem que se preocupar com nada. Pode caminhar sem peso. Pode viver sem o medo de se sujar de sangue novamente.

    Ela tem que morrer…

    Não. Não. Não. Não. Calem a boca. Fiquem em silêncio. 

    A mate…

    Silencie-a…

    Calem a boca. Fiquem quietos. 

    Covarde

    Silêncio. 

    Mate-a...

    Silêncio. 

    Você irá os destruir

    Silêncio. 

    Suas mãos mancharam este deserto...

    Silêncio. 

    As últimas seis maldições precisam ser rogadas

    Silêncio. Silêncio. Silêncio. Silêncio.

    — Aconteceu algo? — então o silêncio finalmente veio, aquelas milhões de vozes angustiadas sumiram. — Seus olhos parecem… tristes.

    Moshe, ajoelhado, encara as dunas. O rosto paralisado em dor impede as lagrimas de caírem. A sua frente, Sefora surge bloqueando o Sol. Suas pequenas mãos cobrem as bochechas do Ivrit. Um calor acolhedor.

    Mas…

    Moshe vê somente sangue. Sim. Não pode se esquecer disso. É um assassino. Genocida. Um homem cujo coração está mergulhado em sangue inocente. Um homem destinado a ruína. Destinado a causar a ruína. 

    — Aconteceu algo, garoto? — agora cabras o cercam, é claro, Yitro.

    Ele observa sua filha segurando a mão de Moshe com afinco. A sua expressão, sempre serena, carrega uma lágrima. Os lábios ressecados soltam palavras de conforto. 

    — Vamos andar um pouco, aqui há pouca grama para as pequeninas — ele coloca seu chapéu de palha sobre a cabeça nu do homem que despertou interesse de sua filha. — Deixe que elas desmontem as tendas. Séfora, o acompanhe até seu espírito se acalmar.

    — Farei como mandar, pai — não há hesitação em seu rosto. 

    Então Moshe é guiado pelo deserto. Diferente do primeiro dia, uma pequena mão o guia. Seus passos são sem ritmo. Os pés descalços flutuam sobre a areia. A pele branca reflete toda luz. O cabelo desliza pela brisa. Suas pálpebras permanecem fechadas todas as vezes que ela se vira e “observa” Moshe. 

    Mate-a…

    As vozes parecem mais distantes 

    É uma armadilha…

    Mais fracas

    Fuja…

    Desesperadas 

    Se liberte….

    Moshe permanece em silêncio. Estão ficando cada vez mais próximos das tendas. A cada passo a areia perde o peso. 

    — Eu sei que algo ruim reside em seu peito, uma dor afiada cravada entre seus pulmões — Séfora o agracia com sua doce voz — Essa dor me é familiar.

    Ele é uma ameaça…

    Não importa o que todas as almas vingativas digam. Mal as escuta. Não enquanto observa a mulher à sua frente. O corpo esguio é realçado pelo seu vestido branco. 

    — É tão linda— tapa a boca após o suspiro. 

    Observando ao redor percebe estar cercado por todas as filhas e Aharon, esse que sorri enquanto se apoia em uma bengala improvisada. 

    — Obrigada — Séfora responde com o rosto enrubescido.

    Hoje Moshe trabalhou sem sentir o Sol. Sorriu como um bêbado. Cantou como um músico. Dançou livremente como um pássaro. E claro, pelo primeiro dia desde sua chegada, dividiu a mesa com a família. Comeu a mesma comida e partilhou memórias. Pela primeira noite desde a primeira maldição rogada contra Otige, dormiu sem a perturbação das almas. Dormiu com uma tenda sobre sua cabeça.

    — Obrigado por nos aceitar, príncipe — claro, a tenda é partilhada com Yitro e Aharon.

    O patriarca não deixaria seu bem mais precioso exposto a dois homens tão facilmente. 

    — Não sou mais um príncipe e sou eu quem devo lhe agradecer. Tenho uma dívida eterna contigo.

    E então as noites se tornaram silenciosas e as manhãs agitadas. 

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