Capitulo 16: Expedição
— Imbecil — o xingamento de Áfti escapa por um suspiro. — Como pode ser tão ingênuo?
— Não seja tão duro — Matí o consola. — Ele é gentil com todos, só isso.
— Gentil? Você acha que ele só é gentil? Ele quer se matar por essa gente — ambos estão sobre um único dromedário. — Eles não merecem tal sacrifício. Nada fizeram para ajudar Moshe. Somente pedem, pedem e pedem cada vez mais.
— Ficou mesmo irritado com essas pessoas? Pensei que fosse porque ele largou a Séfora para liderar uma expedição — ela ri e puxa as bochechas do europhis irritado. — Eu acho muito mais grave abandonar uma mulher que te ama do que ajudar um bando de ingratos.
— O que ocorre entre eles não me diz respeito — irritado, ele a retribuí puxando suas bochechas. — Nem deveria te interessar. E até onde sei, Yitro é contra essa união.
— Não fica assim, não é como se o que um velho fala virasse lei — os braços magros o envolvem. — Se anima um pouquinho, nós vamos aproveitar uma longa folga após essa expedição. Prometo não te largar um segundo, então trate de voltar são e salvo.
O sussurro lascivo e o beijo no pescoço não foram o suficiente para mudar a expressão de Aftí. Os olhos esmeralda passam de indivíduo a indivíduo. Todos importunando Moshe com futilidades. Cada um deles querendo aumentar o fardo daquele que chamam de libertador com os próprios erros. Independente do quanto amplifique a visão, só enxerga vermes famintos.
— Eles têm água, comida e abrigo — diz acariciando os braços de Matí que envolvem seu corpo. — Foram libertos de Sagol e mesmo assim não teve um dia que não clamaram pela ajuda dele. Moshe abdicou da comida para ajudá-los. Ele…
O silêncio se instaurou. São reclamações inúteis. Matí está correta, não deveria se preocupar. Afinal, Moshe está escolhendo ajudá-los. Mas não precisa de seu dom para enxergar a fadiga afligindo o amigo. Como um homem que só serviu poderia ajudar um homem tão nobre?
— Perdão — beija as mãos de sua amada. — Eu vou voltar antes que sinta minha falta.
Se limitaram a sentir o calor um do outro, estendendo os segundos. A respiração dela em sua nuca. A pressão gentil das mãos calejadas. O suor cada vez em maior quantidade.
— Eu te amo — ela desce da montaria, o deixando com os próprios pensamentos. — Vou contar as estrelas te esperando.
Tão bela se foi, queria que ela permanecesse. Desejou tê-la por mais alguns segundos. Talvez assim a mente poderia ficar limpa, sem os malditos questionamentos. Como o plano de Moshe. Estão contando com um milagre para não morrerem. É risível de tão estupi… Não. Não deve questionar Moshe. Ele salvou muito mais que sua vida. Está em eterno débito com o ivrit. Se aquele homem o mandar morrer, morrerá feliz.
— Droga — levanta os olhos buscando alguma paz.
O Sol já está forte, não que seja uma novidade. Será uma longa viagem. Água é o único mantimento em abundância. A comida foi rigidamente dividida. Nenhum grão sobressalente, o suficiente para chegar até o destino. Ficarão à mercê do próprio sucesso. Caso tenham êxito terão suprimentos para o percurso de volta e um povo será saciado. Em contrapartida, o fracasso matará a todos.
— Eu preciso vê-lo — longe dos europhis, Moshe confronta Ainateb
— Não perturbe o descanso de meu pai — A primogênita de Yitro impede a entrada na tenda. — Faça o que bem entender, apenas não nos envolva.
A sua frente há uma tenda branca, refletindo os raios do Sol como um espelho. Selada a dias. Dentro dela está Yitro e o restante de suas filhas. Somente eles têm direito de entrar e sair.
É também onde Séfora, após Moshe rejeitar sua companhia, voltou a se isolar.
— Somente quero alguém para me guiar no deserto — os olhos negros pouco a pouco tentam apagam o dourado de sua íris. — Não faça por mim, faça isso por eles. Só quero trazer alimento a essa gente. Por favor, eu não vou conseguir sem o conhecimento de sua família.
Ainateb estava errada. Os olhos dourados se iluminam como nunca vira. Não há abismo que consiga os consumir. Uma chama aberrante, insana, queima e continuará queimando. A euqone encara essa determinação com desdém. Afinal sente a malícia vinda de seu espírito.
Dentre as irmãs, é a menos conectada com o plano imaterial. E mesmo ela sente o cheiro pútrido vindo de sua alma. Instintivamente sabe que ele não só carrega uma terrível doença, ele é a doença.
Como pode Séfora suportar este moribundo por tanto tempo?
— Me dê um motivo para confiar em ti? — Ainateb herdou os olhos cinzentos e sem vida do pai. — O que me faria aceitar um pedido tão insano quanto o seu? — esses olhos no patriarca, dão um ar sábio. — Até onde me recordo, você permanece tendo um divida conosco. Não o contrário — nela se tornaram arrogantes.
O cabelo branco é o mais curto dentre as filhas, não ultrapassando os lábios. As marcas de expressão ficam mais aparentes quando está irritada. O deserto não foi piedoso com sua beleza. Mesmo sendo apenas um ano mais velha que Séfora, não atinge um quinto de seu resplendor.
— É cega? Olhe ao redor, realmente não quer fazer nada? Deixar tantos morrer? Quer ver tudo definhar porque você ficou de braços cruzados? — o desdém dá lugar a surpresa. — Irei encarar Yatush com ou sem vocês. Posso falhar, mas não ficarei aqui vendo todos morrendo.
Os inúmeros pares de olhos já cercam o local. Dezenas para não dizer centenas. Sem armas ou faces ameaçadoras. Não há nada que indique que irão se utilizar da violência. Céus. São gente do campo, um mês atrás eram escravos. Claro que estão desesperados em ter alguma resposta. Um milagre.
— Certo — hesitou e suspirou —, irei com você.
Não pode arriscar que descubram sobre o atual estado de Yitro. Isso destruiria a frágil ordem atual. Uma crise tem grandes chances de transformar esses seres acuados em animais violentos.
— Sou muito grato — o ivrit se curva. — Muito obrigado.
O povo ao seu redor comemora. Seu libertador conquistou outra euqone. Terão não só a força da carne como a sabedoria dos espíritos. Sim, a vitória é iminente. Logo estarão cercados por banquetes. Logo seus irmãos também desfrutarão da mesma liberdade e fartura.
— Porém com uma condição — o silêncio se instaurou. — Liderarei essa expedição, não quero minhas ordens sendo questionadas por ninguém. Principalmente você — Moshe permanece curvado em silêncio. — Iremos até lá para negociar com Yatush e retornaremos com suprimentos.
O Libertador não poderia aceitar algo assim. Não, impossível. Ser subjugado por uma mulher insolente. Uma euqone não tem permissão de falar assim com o Libertador. Uma estrangeira não pode se portar assim com o Libertador.
— Como ordenar, Ainateb.
Então a raiva do povo se esvaiu e todos ali se entristeceram ao ver seu libertador servindo outrem. Servindo sem questionamentos. Engolindo o orgulho. Assim como todos seus antepassados fizeram, o libertador não é tão diferente de tantos outros ivrits.
Estão prontos para partir. Devem sair rapidamente para voltarem antes da comida se esgotar. Moshe, observando de seu dromedário, se culpa por deixar Matí e Aharon. Ambos terão que apaziguar os ímpetos de um povo faminto.
— Eu voltarei — foram as únicas palavras que teve força para dizer.
O povo ovacionou o ivrit de olhos negros. Mesmo muitos duvidando da capacidade de os liderar.
Gritaram até a silhueta do salvador sumir entre as dunas. Mas os murmúrios só pararam na chegada da Lua.
Naquele dia esqueceram-se da fome. Menos as mães que viam pouco a pouco o leite materno secar de seus corpos.
Dançaram por toda a noite. Porém inúmeros se negaram a desperdiçar energia por um líder fraco.
Finalmente a esperança vinha e mostrava a face para os escravos. Talvez não morressem de fome se permanecessem escravos.
Afinal, seria Moshe o verdadeiro Libertador ou mais um homem destinado ao fracasso?

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