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    O bar continuava vivo. Não havia um único ponto que dominasse o ambiente, mas sim uma soma constante de pequenos elementos ocorrendo ao mesmo tempo. Copos tocando madeira, cadeiras se arrastando levemente, passos cruzando entre mesas, vozes sobrepostas que nunca terminavam uma conversa inteira antes de serem engolidas por outra.

    Nada daquilo era novo. Nada daquilo era estranho. Pelo contrário, era comum até demais. Mas, ainda assim, parecia distante. O som chegava abafado, como se tivesse que atravessar alguma coisa antes de alcançar o ponto onde ele estava. Como se não fosse feito para ele.

    Niko não se moveu. A testa ainda estava apoiada contra a madeira do balcão, com o peso do próprio corpo distribuído de forma descuidada, sem qualquer tentativa de conforto. O braço dobrado sob o rosto servia mais como obstáculo do que apoio, comprimindo a respiração. O ar entrava e saía curto, irregular, preso em um ritmo que não acompanhava nada ao redor. Ele não poderia se importar menos com isso.

    Ele não estava dormindo. Mas também não parecia exatamente acordado. O tempo não passava do jeito que deveria. Ou talvez passasse — só não havia nada que marcasse isso. Nenhum gesto, nenhum pensamento claro, nenhuma mudança. Era como se tivesse parado em um ponto específico e simplesmente ficado ali, enquanto o resto do mundo continuava sem precisar dele.

    Em algum momento uma sombra se aproximou pelo lado. Tsugumi inclinou levemente o corpo, aproximando o rosto com curiosidade quase descarada, os olhos atentos passando pelos detalhes como se estivesse analisando algo raro. Primeiro o cabelo, depois a linha do rosto parcialmente escondida, até finalmente parar nos chifres. Ficou ali por um segundo a mais do que o necessário.

    Ela esticou a mão com cuidado em direção a ele, os dedos se aproximando devagar, testando o espaço antes do toque, como se esperasse algum tipo de resposta no último instante. Quando finalmente encostou, foi leve — a ponta dos dedos roçando a superfície com curiosidade genuína… Nada. Nem um movimento. Nem um desvio mínimo.

    Tsugumi inclinou a cabeça para o lado, analisando melhor.

    — Ele nem reagiu.

    — Claro que não reagiu. — a voz de Brigitte veio logo depois, aproximando-se sem pressa, já com um meio sorriso formado como se tivesse entendido a situação antes mesmo de olhar diretamente. — Olha o estado dele.

    Ela parou ao lado, cruzando os braços por um instante enquanto avaliava a cena inteira. O corpo caído, o silêncio absoluto, a ausência completa de resposta… e, logo acima, os chifres.

    — Hm.

    O olhar de Tsugumi não saiu dali. Pelo contrário — pareceu se aprofundar, como se estivesse tentando resolver alguma coisa que não tinha nome. Então, de repente, os olhos dela se abriram um pouco mais e o corpo se endireitou levemente, uma lâmpada acendeu em sua mente.

    — Ah.

    A mão dela foi até a bolsa quase no mesmo instante, abrindo sem hesitação. O som leve de objetos se chocando veio de dentro enquanto ela mexia, afastando coisas sem muito cuidado até encontrar o que queria. Quando puxou a mão de volta, trouxe junto um pequeno monte de objetos vermelhos que tilintaram entre si ao se agruparem na palma da mão. Eram vários cornicellos.

    Ela ergueu a mão um pouco em direção de Brigitte, como se estivesse apresentando uma solução óbvia demais para precisar ser explicada.

    — Ouvi dizer que essas coisinhas trazem boa sorte e afasta energias ruins pra quem os carrega. — disse com um sorriso brotando no rosto. — Então se a gente amarrar vários deles nele ele se recupera dessa depressão rapidinho!

    Brigitte colocou a mão no queixo, depois olhou para a mão dela. Depois para os chifres. Depois voltou os olhos para os cornicellos. Deu uma pausa, como se estivesse pensando na sugestão. De repente, sua boca se abriu e um som de surpresa saiu dos lábios.

    — …Isso é genial.

    — Eu sei, hehehehe. — respondeu Tsugumi, já começando a separar os cordões com rapidez prática. 

    No fundo, aquilo não tinha surgido de nenhum impulso nobre ou de uma análise profunda da situação. Era, antes de tudo, uma oportunidade perfeita demais pra ignorar. Parte dela só queria ver como ele ficaria com os chifres enfeitados. Mas havia também uma pequena expectativa silenciosa de que aquilo pudesse fazer… alguma coisa. Nem que fosse arrancar dele qualquer reação.

    No instante seguinte, sem ao menos reconsiderar a ideia, as duas começaram a prender os talismãs nos chifres do albocerno. O primeiro foi preso com facilidade. O cordão deu uma volta firme ao redor da base do chifre, ajustado com um puxão curto até ficar estável. O pequeno objeto ficou pendurado, balançando levemente, capturando a luz ao girar. Nenhuma reação. O segundo veio logo depois. E o terceiro. E o quarto. O quinto…

    Mais afastada, Evelyn acompanhava a cena em silêncio, o olhar passando de uma para outra, depois descendo até o estado imóvel de Niko. O canto da boca subiu de leve, quase involuntário, antes de ela soltar um pequeno sopro pelo nariz.

    Ah… essas duas…”, pensou a elfa.

    Quando perceberam, os amuletos finalmente acabaram. Niko estava parecendo um enfeite ambulante de festival — os chifres agora carregados de cornicellos que se acumulavam em camadas irregulares, criando um conjunto caótico de vermelho brilhoso.

    — Agora sim! — disse Brigitte, soltando o último cordão e dando um passo para trás.

    Tsugumi fez o mesmo, inclinando a cabeça para analisar o resultado final com mais distância.

    — Uhmm… Ficou bom.

    — Ficou ótimo!

    — Vai ficar melhor ainda quando ele levantar. — completou Tsugumi, cruzando os braços, claramente satisfeita com o próprio trabalho.

    — É. — Brigitte assentiu. — Aí vai dar pra ver direito.

    As duas ficaram ali por um instante, como se esperassem exatamente isso acontecer. Nada aconteceu. O corpo de Niko não mudou. Nem um centímetro. Nem mesmo um músculo.

    — …

    — …

    Tsugumi piscou uma vez, depois outra, inclinando levemente o corpo pra frente, como se isso fosse acelerar o processo.

    — …Parece que ele não tá melhorando.

    Brigitte não respondeu de imediato. Cruzou os braços, olhando para o resultado com uma expressão mais analítica agora, como se estivesse reconsiderando algo que antes parecia óbvio.

    — Não é… instantâneo. — disse por fim, com naturalidade. — Esses negócios não funcionam assim.

    — Ah.

    — Tem toda uma questão de intenção, tempo… essas coisas. — ela deu de ombros. — Não é tipo “amarrou, resolveu”.

    Tsugumi assentiu devagar, absorvendo a informação, embora claramente não tivesse pensado em nada disso antes.

    — Entendi…

    O silêncio voltou por um segundo.

    — Mesmo assim, ficou bom.

    — Ficou.

    — Ei! — gritou, uma voz de trás, cortando a pequena bolha que as duas tinham criado. Não foi alta o suficiente pra chamar o bar inteiro, mas teve peso o bastante pra atingir exatamente quem precisava. Era Gabe.

    — Vocês duas vão transformar o cara num altar ou vão deixar ele em paz?

    Tsugumi virou o rosto primeiro, sem parecer nem um pouco constrangida.

    — A gente já terminou.

    — Já deu o que tinha que dar. — completou Brigitte, dando um último olhar para o resultado antes de simplesmente se afastar.

    Sem resistência ou insistência, as duas recuaram, deixando o espaço livre outra vez. O bar seguiu como antes. Nada mudou. Tudo permaneceu constante, inclusive ele. Niko continuou ali, exatamente como estava. Ao lado dele, somente restava Gwen.

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