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    O sorriso dele não diminuiu. Pelo contrário — ganhou um traço mais animado, como se alguma lembrança tivesse encaixado perfeitamente naquele momento.

    — Ah, é verdade… — ele começou, passando a mão pelo cabelo. — Teve uma vez, lá no sul, ainda em Kyndral, perto do desfiladeiro de Karsen…

    Evelyn soltou um pequeno “hm” pelo nariz, já reconhecendo o padrão. Aquele tipo de situação já ocorreu dezenas de vezes entre os dois, até mesmo uma simples ida na padaria se tornava uma história digna de ser contada. Isso já era comum para a elfa — principalmente quando ainda participava do grupo.

    — Lá vem história. — murmurou, virando os olhos, mas sorrindo.

    — Não, não, você vai gostar dessa. — Gabe continuou, ignorando completamente. — A gente tava escoltando um comerciante que jurava que não precisava de proteção, mas que o chefe de carga insistiu que a gente seguisse ele…

    Enquanto ele falava, as mãos já começavam a acompanhar a narrativa épica — claramente exagerando nas proporções, distâncias e no perigo da aventura.

    — …até que aparecerem uns oito caras armados até os dentes, saindo do nada!

    — Na verdade eram cinco caras. — corrigiu Matteo, seco, olhando de relance.

    Gabe nem hesitou. Claramente eram oito e sua memória — e orgulho — nunca o enganaria.

    — Puff, até parece, eram oito.

    — Cinco.

    — Oito.

    — Cinco!

    — Oito!

    A troca começou a ganhar um ritmo próprio, rápido demais pra ter qualquer chance de resolução. Nenhum dos dois realmente tentava convencer o outro — já estavam presos no simples ato de não ceder. Evelyn soltou um riso pelo nariz, virando levemente o rosto. Eles não haviam mudado nada desde quando se conheceram. Jakob soltou um riso baixo. Se algo não colocasse um fim nessa disputa boba, eles continuariam assim até de manhã.

    — Pareciam ser oito mesmo.

    — Obrigado, Jakob. — Gabe deu um olhar por cima para Matteo, que estava de olhos pequenos, aborrecido. — Pelo menos ALGUÉM não tem problemas de memória.

    Matteo estreitou os olhos… e, sem dizer nada, mostrou a língua para aquele metido, mentiroso e sofista.

    — Enfim, o ponto é que, quando a gente…

    A conversa começou a se dissolver ali. Não porque perdeu importância, mas porque deixou de ser central — aquilo já havia acontecido centenas de vezes e duas pessoas ali não estavam interessadas na história. Os sons do bar voltaram a crescer ao redor, preenchendo os espaços entre as falas.

    Tsugumi ainda observava Brigitte com atenção quase total, como se estivesse analisando cada detalhe sem esforço para esconder. A luminar ainda estava ouvindo a história — nem um pouco exagerada — de Gabe. Mas o homem contava histórias tão mal que até mesmo Brigitte não conseguia ficar interessada naquilo.

    — Então… — começou, inclinando levemente a cabeça. — como você conheceu a Evelyn?

    Brigitte olhou de relance para a garota-gato, demorando um segundo para perceber que ela estava tentando puxar papo. Quando finalmente percebeu, soltou um pequeno sopro pelo nariz e virou o rosto, já formando um sorriso.

    — Ah, eu conheci ela no trabalho.

    — Que trabalho? — perguntou, virando a cabeça.

    O sorriso de Brigitte aumentou de leve. Ela girou o corpo completamente na direção de Tsugumi, agora engajada de verdade na conversa.

    — De segurança. — respondeu, simples a princípio, antes de continuar. — Conheci a Evelyn quando tava me contratando como segurança. A gente precisava ir investigar uma fazenda.

    Os olhos dela ganharam mais brilho conforme falava, o tom ficando mais animado.

    — Heh… no fim, o Niko e a Evelyn precisavam da ajuda da grande heroína Brigitte d’Alzen Akitna. — disse, pousando no final da frase, apontando o polegar para o próprio peito com confiança quase automática.

    Tsugumi abriu um sorriso na mesma hora, entrando no clima sem esforço. Agora era a vez de contar a sua história.

    — Eu conheci a Evelyn numa missão no mar de Saqiien. — disse, começando a gesticular. — A gente tava protegendo um barco de uns piratas…

    Ela soltou um pequeno riso pelo nariz.

    — Foi ali que a gente se conheceu também.

    O olhar dela voltou pra Brigitte logo em seguida, descendo por um instante antes de subir de novo, mais atento.

    — Espera…

    Um passo mais perto.

    — Você tem mesmo… uma Alma da família Akitna?

    Brigitte estufou o peito no mesmo instante, como se aquela pergunta fosse praticamente um convite.

    — Tenho sim. Eu sei que isso é algo incrível vindo de uma pessoa mais incrível ainda. — terminou, fechando um dos olhos e colocando a palma da mão sobre o peito.

    A reação veio na hora. Tsugumi nunca havia visto alguém daquela família em sua vida. Aquele era um momento de grande importância para a garota.

    — Caramba! — Tsugumi murmurou, os olhos praticamente brilhando agora. — Haha! Eu também tenho uma Alma, da família Zamiro. Mas sabe algo mais impressionante ainda? Eu tenho a Bênção da Velocidade Real! Hahaha! 

    Ela cruzou os braços logo depois, erguendo levemente o queixo. Não era agressivo — mas claramente era um desafio. O tipo de coisa que não precisava ser dito diretamente se reconhcer. Brigitte inclinou a cabeça de leve, analisando.

    — Velocidade Real, é? Isso é impressionante…

    Houve um pequeno intervalo. Em meio disso, Tsugumi somente assentiu, convencida da vitória.

    — Huhum.

    Porém, no intranet seguinte, Brigitte sorriu e disse:

    — Que pena que eu tenho a Bênção da Velocidade Mundial! Hahaha!

    — É o quê?! — Tsugumi arregalou os olhos.

    — Uhum.

    — Isso é… muito mais raro que a minha Benção.

    — Eu sei.

    Tsugumi ficou em silêncio por um instante, o olhar agora completamente focado, como se estivesse recalculando alguma coisa dentro da própria cabeça. Segundo a Definição de Argirópola, a Classe Mundial é o maior nível de Bençãos existente. Isso significava que a Benção de Brigitte era pelo menos cem vezes mais poderosa que a sua — embora ela precise de uma quantidade absurda de Alma para utilizar o poder em 100%.

    Tsugumi ficou em silêncio por mais um segundo, depois soltou o ar preso no pulsão pela boca.

    — …Eu desisto. — murmurou, balançando a cabeça com um riso curto. — Você é completamente injusta.

    — Huhum! — respondeu a luminar, mais orgulhosa do que nunca.

    O clima entre as duas já não tinha mais nenhuma tensão — só uma leve rivalidade divertida, daquelas que nascem rápido demais pra serem levadas a sério.

    — Ei!

    A voz de Gabe cortou a conversa no meio, chamando a atenção de volta para ele. Ele já estava de pé, com uma das mãos apoiadas no balcão.

    — Já que vocês duas viraram melhores amigas em cinco minutos… — continuou, com um sorriso torto — vamos fazer isso direito.

    Ele levantou uma garrafa levemente acima da cabeça, como se estivesse apresentando um troféu.

    — Uma rodada por minha conta!

    — Ah é. Esqueci de te perguntar qual é seu nome. — disse Brigitte.

    A garota-gato demorou um segundo para responder, ainda engolindo o álcool da boca.

    — É mesmo. — respondeu, colocando o copo de volta no balcão. — Meu nome é Tsugumi. Pode me chamar de Tsu.

    — Prazer Tsu. Meu nome é Brigitte.

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