Índice de Capítulo

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    A temperatura aumentava a cada instante em que Cassian e Rossander se encaravam, cada um liberando tudo o que tinham.

    O fogo que cobria o corpo de Cassian como uma armadura de mana que se estendia até uma asa em suas costas esquerda também tomou a lâmina de sua espada com cabo de uma águia entalhada, seu ARGUEM.

    A definição de seu próprio poder agora estava refletindo em seu corpo físico além do punho da espada.

    Rossander por sua vez mantinha sua aura respondendo aquela quantidade inimaginável de mana para alguém tão jovem. Sem dúvidas ele sabia que a mana de Cassian superava a dele, mas ele também sentia a inexperiência, a
    hesitação, o medo de perder o controle.

    Ele podia ler aquilo tudo apenas fazendo sua mana colidir com a de Cassian.

    Eles não tinham mais o que falar um para o outro. E o combate de verdade se deu ao início.

    Cassian avançou, voando baixo sobre o solo a uma velocidade absurda que reverberou em um estrondo que percorreu toda a arena e chegou até às arquibancadas.

    Rossander não se preocupou em manter a pose, se esquivou o melhor que pôde, saltando quase cinco metros para cima.

    — Magia Esgrimista! — Ross recitou — Invocação dos Espadachins Fantasmas!

    Cassian não recuou nem mesmo um passo, ele alçou voo e seguiu como um cometa incandescentes na direção de Rossander.

    Mas algo chamou sua atenção.

    Várias presenças novas haviam surgido no ambiente, mesmo ele não vendo ninguém mais ali além deles, Helick e a Pantera.

    Ele sentia que ao seu redor havia diversas presenças. Embora não pudesse vê-las, sentia o rastro gélido, similar ao Corte Fantasma de
    Rossander, mas com uma densidade diferente.

    ​Enquanto voava em direção a Ross, que ainda pairava no ar, Cassian detectou uma dessas
    formas à sua frente e desferiu um golpe instintivo com a espada. O arco flamejante que se formou cortou apenas o vazio, não encontrando resistência. No entanto, o fantasma invisível avançou através das chamas e tocou seu ombro esquerdo.

    ​O sangue esguichou no mesmo instante, evaporando sob o calor intenso que cercava
    o corpo de Cassian.

    ​— O que foi isso?! — ele deixou escapar, os dentes cerrados.

    ​Não havia tempo para reflexão. Mais presenças o cercavam, fechando o cerco. Uma
    delas avançou contra seu flanco esquerdo; Cassian reagiu rápido, interceptando
    o ataque com a lâmina à frente do corpo. Foi inútil. O espectro transpassou o aço como se fosse fumaça e tocou seu peito nu.

    ​Cassian grunhiu de dor. Mais um corte profundo, mais sangue derramado. E, agora, três
    novas presenças invisíveis convergiam em sua direção.

    ​— Droga! — Cassian xingou, batendo a asa com força para subir aos céus, tentando
    desesperadamente se distanciar daquelas formas. — Como vou lidar com isso?!

    ​— Você simplesmente não pode — Rossander respondeu lá de baixo, a voz calma e
    absoluta. — Cada um dos Cortes Fantasmas que usei anteriormente serviu como um
    ponto de invocação para meus Espadachins Fantasmas. Você não pode vê-los e,
    mesmo que possa senti-los, é inútil: eles são imunes a técnicas físicas e só se
    materializam no instante em que atacam.

    ​Rossander o observou ganhar altitude, mas não se moveu.

    ​— E não adianta subir aos céus. Eles são fantasmas, Cassian… eles também voam.

    A fala de Rossander agiu como um detonador. No segundo seguinte, o céu acima da arena transformou-se em um campo de batalha invisível.

    ​Cassian projetou-se para trás, a asa de fogo batendo com força total, transformando-o
    em um rastro de luz dourada. Mas os fantasmas eram insistentes. Eles não tinham peso, não sofriam arrasto; eram apenas vetores de mana pura movendo-se no vácuo. Embora invisíveis, a velocidade deles criava distorções ópticas, como se o próprio ar estivesse sendo rasgado, deixando rastros de calor reverso,
    gélidos e trêmulos, no rastro do príncipe.

    ​Cassian mergulhou em um parafuso vertical, costurando o ar entre as árvores espessas espalhadas por toda parte. Ele não precisava vê-los, o rastro de frio que se aproximava de
    suas costas era o seu radar. No último milésimo de segundo, antes que a primeira presença o tocasse, Cassian guinou violentamente para a direita, usando o ARGUEM para criar uma barreira de chamas que serviu de pivô.

    ​O fantasma, incapaz de desviar a tempo em sua perseguição linear, transpassou a barreira de fogo. No momento em que seu corpo espectral tocou a árvore que Cassian acabara de evitar, um corte limpo, horizontal e absoluto atravessou o corpo de madeira gigante. O som foi um estalo seco, seguido pelo estrondo da parte superior deslizando e despencando.

    ​Cassian, agora pairando de ponta-cabeça, observou com olhos aguçados. O rastro de gélido que representava aquele fantasma desapareceu no ar assim que a árvore atingiu o
    chão.

    ​“Eles desaparecem após o impacto!”, o pensamento brilhou como um raio. “Eles
    só têm um propósito. Uma vez que se materializam e tocam algo, a energia se
    exaure.”

    ​Uma sorriso feroz surgiu no rosto de Cassian, mesmo que manchado pelo suor e sangue. Ele não precisava mais fugir. Ele precisava caçar alvos para eles.

    ​Ele acelerou novamente, não para cima, mas para baixo, em direção ao miolo da
    floresta. Desta vez, cinco rastros de distorção óptica o perseguiam, convergindo como dedos de uma mão invisível pronta para rasgá-lo.

    ​Cassian teceu um padrão caótico entre os troncos grossos. Ele usava velocidade e
    manobras agressivas, parando e acelerando em ângulos impossíveis, forçando os fantasmas a um jogo de reflexo em alta velocidade. Ele desceu rente ao solo, levantando uma nuvem de poeira incandescentes com o calor de sua mana, cobrindo sua própria rota.

    ​No centro da floresta, Cassian encontrou algo que seria seu alvo: um pedregulho rochoso
    de granito negro. Ele avançou direto para ele, acelerando ao máximo. Os cinco fantasmas, agora a centímetros de suas costas, preparavam-se para a materialização simultânea.

    ​No instante final, em uma manobra que desafiava a física, Cassian bateu a asa de
    fogo violentamente contra o solo, liberando uma torrente de fogo expressiva e potente, projetando-se para cima em um ângulo de noventa graus, quase raspando a superfície da rocha.

    ​Os cinco Espadachins Fantasmas não conseguiram reagir. Eles transpassaram o espaço que Cassian ocupara um décimo de segundo antes e colidiram com o granito negro.

    ​O grito nas arquibancadas revelava que o espetáculo visual havia sido memorável. O pedregulho gigante foi fatiado como manteiga. Cinco cortes colossais, transversais e
    paralelos, surgiram instantaneamente na pedra. O granito negro emitiu um gemido metálico antes de se fragmentar em blocos simétricos que desmoronaram com um
    som ensurdecedor.

    ​Lá do alto, envolto em sua aura incandescente, Cassian respirava arquejante, observando as cinco distorções gélidas desaparecerem do ar, uma por uma, após o cumprimento de seus ataques. A tática havia funcionado.

    Rossander observou os destroços de granito caírem, mantendo um sorriso de canto, quase entediado.

    — Então você sabe desviar… — Rossander deu um passo à frente, girando a espada pálida com uma facilidade irritante. — Mas e atacar?
    Será que consegue, ou o príncipe herdeiro só sabe fugir? Seu pai exagerou quando espalhou pelos quatro cantos do continente que você seria aquele que o superaria? Que seria um rei ainda melhor do que ele?

    ​Aquelas palavras atingiram Cassian com um peso que ele não esperava. Por trás da
    armadura translúcida de fogo, o coração do príncipe vacilou. Ele sempre guardara para si, no recanto mais obscuro de sua mente, a convicção de que era um erro. Por anos, sabotara o próprio destino e agira de forma rebelde, esperando que o pai desistisse dele. Na sua cabeça, ele não era o orgulho do rei; era seu maior desgosto, uma vergonha que a coroa tentava esconder.

    ​Ouvir que o pai, na verdade, depositava tamanha esperança nele diante do mundo não
    trouxe conforto.

    Não.

    Trouxe uma fúria desesperada. Ele se sentiu exposto, como se a provocação de Rossander tivesse arrancado a pele de suas velhas cicatrizes.

    ​Ele olhou de relance para Helick. O irmão estava pálido, a mana sendo drenada de forma alarmante para conter a Pantera-Chicote. O tempo estava acabando, e o peso da expectativa do pai misturava-se ao pânico de falhar no plano que ele mesmo havia elaborado e colocado tantas vidas a depender dele.

    ​Cassian não tinha mais espaço para hesitar. Ele precisava calar aquela voz. Precisava
    provar que Rossander estava errado, ou talvez, provar para si mesmo que o pai não era um louco por acreditar nele.

    ​Como Rossander não havia disparado novos cortes e os fantasmas anteriores tinham
    sumido, Cassian viu a abertura que tanto desejava.

    — Vou encerrar isso agora! — rugiu o príncipe.

    Ele mergulhou dos céus como um meteoro, a asa de fogo impulsionando seu corpo em uma trajetória retilínea e devastadora na direção de
    Rossander. O chão sob os pés do inimigo começou a trincar apenas com a pressão
    do ar. Rossander, por sua vez, não recuou. Ele firmou os pés e cruzou sua espada pálida à frente do peito, em uma guarda perfeita, preparando-se para o impacto colossal que viria.

    Cassian desferiu o golpe vertical com toda a força de seu braço e o peso de sua mana. A lâmina do ARGUEM desceu como um raio de sol… e não encontrou nada.

    O choque que deveria ter ocorrido simplesmente não existiu.

    A espada de Cassian atravessou o corpo de Rossander como se cortasse uma névoa
    fria. No milésimo de segundo em que o corpo de Cassian transpassou a imagem do
    adversário, um frio lancinante rasgou seu peito.

    O príncipe cambaleou para frente, o impulso o levando a tropeçar enquanto o sangue quente jorrava de um novo e profundo corte
    transversal em seu tronco. Ele parou, arquejante, e olhou para trás com os olhos arregalados.

    A figura de Rossander que ele acabara de “atacar” tremeluziu e se desfez em fumaça gélida, revelando-se apenas um rastro de mana vazia.

    Não era o Rossander real. Era um Espadachim Fantasma que havia tomado a forma do mestre.

    — Regra número um de um duelo contra mim, Cassian… — A voz de Rossander veio de um ponto completamente diferente da arena, calma e carregada de escárnio. — Nunca confie no que seus olhos veem quando o campo de
    batalha pertence a um fantasma.

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