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    [ Noite no Distrito Miyazaki, Toryu, Capital de Asahi ]

    A casa de Masaru era modesta comparada às mansões familiares.

    Dois andares, telhado tradicional vermelho, um pequeno jardim interno com cerejeiras e um poço de pedra. Ele morava sozinho desde que completara dezoito anos, tradição para jovens que buscavam independência antes do casamento.

    Naomi chegou tarde da noite, escoltada por dois guardas Miyazaki, que levando as algemas áuricas embora, deixaram a garota à porta e partiram. Os cabelos longos, metade superior preta e inferior vermelha, estavam limpos e arrumados. A túnica branca era leve, mas escondia perfeitamente as curvas do corpo.

    Masaru, vestido em seu kimono esverdeado, a recebeu com um sorriso cansado. — Bem-vinda ao seu novo lar.

    O interior era simples, mas acolhedor, finalmente longe dos recintos privados nos quais Naomi vivera. Tatames limpos, paredes de papel de arroz, uma pequena cozinha ao fundo e uma sala de estar com almofadas ao redor de uma mesa baixa relaxavam a mente carregada dos jovens.

    — Preparei um quarto para você — disse Masaru, conduzindo-a escada acima. — É pequeno, mas tem privacidade.

    O quarto tinha uma cama no canto, uma pequena janela com vista para o jardim, e prateleiras vazias.

    Sentindo a maciez da cama e o cheio de incenso no ar, Naomi percebeu que estava em um lugar de paz. — Obrigada.

    Masaru escorou no batente da porta. — Sei que não é um palácio, e também imagino o quão as coisas estejam complicadas agora, mas prometi proteger-te, e vou cumprir. Aqui, você estará segura.

    Naomi assentiu, incapaz de mais palavras. Quando o Miyazaki saiu, ela se sentou na cama e olhou pela janela. As cerejeiras balançavam gentilmente ao vento noturno, e pela primeira vez desde a traição, Naomi sentiu algo próximo à paz.


    [ Seis meses depois ]

    A adaptação foi lenta.

    Naomi aprendeu os costumes asahianos com dedicação obsessiva, estudando durante horas, perguntando a Masaru durante as refeições, lendo obras tradicionais até o cansar dos olhos.

    Aos poucos, as conversas ficaram mais fluidas. As barreiras culturais caíram, e com elas, as histórias eram melhor compartilhadas. Naomi contou sobre o palácio, sobre Ci’xi, sobre o pai dançarino, sobre os anos de treino brutal e solidão.

    Masaru contou sobre a família Miyazaki, sobre a estrutura matriarcal, pressão como futuro membro do governo, e crimes que suspeitava mas não comprovava com facilidade.

    — Asahi não é perfeito — admitiu em certa noite, enquanto bebiam chá no jardim. — Cometemos atrocidades, escondemos verdades, e os governos de grande parte do mundo, não são tão diferentes.

    — Então por que serve Asahi?

    — Porque ainda tenho esperança. Creio que o mundo pode ser mudado de dentro pra fora. Mas sozinho, eu não consigo.

    Naomi apertou a xícara entre as mãos. — Eu também quero isso. Mudar o sistema. Proteger os inocentes. Cansei de assistir pessoas sofrerem injustamente, cansei de ver aqueles que amava serem exilados. Minha mãe é uma tirana… e queria moldar-me à sua imagem. Foram poucos, mas houve quem me mostrasse o caminho da bondade. Gente que me fez enxergar que tudo aquilo estava errado. Eu preciso salvar o meu povo das garras daquela mulher que só enxerga poder… mas agora penso que ainda há muito a ser feito até eu chegar lá.

    — Você é poderosa. Receio seu potencial — brincou.

    — Ainda carrego o remorso de ter traído o lugar onde nasci. Apesar de toda a devastação que causaram, nunca desejei retribuir na mesma moeda. Meu objetivo não é espalhar o caos, é contê-lo. Mas talvez chegue o momento em que meus ideais não sejam suficientes quando tudo sair do controle. Mesmo assim, quero crescer e aprender o bastante para um dia libertar o mundo da dor sem precisar criá-la no caminho.

    No fim, Masaru identificou-se perfeitamente com os discursos. — Então… talvez, possamos fazer isso juntos.

    Sob as cerejeiras em flor, uma parceria nasceu.


    [ Meses depois ]

    A família Miyazaki cobrava constantemente. Queriam que Naomi ensinasse suas técnicas, que revelasse os segredos da chama eterna nunca antes vista por eles e treinasse os jovens Miyazaki na arte marcial. Definitivamente, eles não ligavam para a origem da técnica, e sim, para a posse dela.

    Naomi resistiu no início, mas Masaru a convenceu de que se ela assim fizesse, ganharia influência e respeito, e com tais vantagens, receberia o poder suficiente para que mudasse o sistema de dentro.

    A aceitação foi relutante…

    Os treinamentos com os jovens Miyazaki tiveram início numa tarde de outono. O salão central permanecia amplo, e o chão polido refletia tons quentes vindos das lanternas penduradas. Estudantes formavam semicírculos disciplinados, idades variadas entre o início da adolescência e o limiar da vida adulta portavam a mesma chama herdada. Em todos os treinos, relatos sussurrados enalteciam a presença da estrangeira que reduzira uma fragata rival inteira a cinzas.

    As formas animais recriadas de maneira externa eram apresentadas uma a uma com rigor técnico e sensibilidade rara, avançando os ensinamentos em camadas que nunca eram despejadas de uma vez, pois os fragmentos em princípios exigiam assimilação.

    Com as técnicas de Naomi, os Miyazaki entendiam que a chama era mais do que só uma ferramenta, sentindo a diferença ainda nas primeiras tentativas.

    Quando golpes falhavam por excesso de ímpeto ou fraquejavam por hesitação, a meiliana corrigia posturas com toques breves, ajustava respirações com gestos, e recomendava alinhamento entre mente e movimento.

    A comparação com os métodos tradicionais tornou-se evidente com o passar dos dias. Enquanto o antigo treinamento dos Miyazaki priorizava volume de chamas e demonstrações de força, o novo método introduzido exigia disciplina monástica1.

    Os efeitos apareciam com uma rapidez que surpreendia até os mais experientes. Impactos ganhavam densidade, chamas respondiam com maior intensidade, ataques alcançavam velocidades que antes pareciam inalcançáveis para aqueles níveis. Porém, o que mais chamou atenção não foi apenas a eficiência, mas a estética do combate. Os movimentos adquiriam uma qualidade que transformava confronto em uma expressão refinada da guerra, algo que prendia a atenção dos observadores.

    Onde apenas existia força, criou-se a harmonia…

    Três meses bastaram para que aqueles estudantes ultrapassassem colegas que acumulavam anos de prática nos métodos antigos. A evolução gerou entusiasmo, mas também plantou inquietação. A origem daquele avanço dominou as conversas discretas nos corredores e nos intervalos.

    Mesmo com resultados visíveis, Naomi manteve reservas rígidas. Os fundamentos mais profundos permaneceram ocultos. Sua fusão completa com o fogo não surgiu em nenhuma demonstração, pois tal capacidade permanecia fora de seu controle.

    Somente as manifestações avançadas que davam forma a criaturas flamejantes que lutariam ao lado do usuário eram citadas, entretanto, nenhum aluno replicava por falta de habilidade, caso que intrigava os adultos, e principalmente, os superiores.

    Fora do dojo, Naomi presenciou reuniões familiares onde estratégias militares e decisões que afetavam inúmeras vidas eram tratadas como simples movimentos táticos. A trivialidade com que mascaravam consequências brutais com termos suaves e aceitavam perdas humanas de forma trágica deixava marcas profundas na percepção da estrangeira, que aos poucos, visualizava uma figura do passado em outra soberana que sacrificaria qualquer peça em nome de um objetivo maior.

    A matriarca da época, Sachiko Miyazaki, uma mulher elegante de cinquenta anos com cabelos e olhos negros afiados que nunca perdiam detalhes, comandava a família com mão de ferro, exigindo obediência e lealdade total ao governo asahiano.

    A percepção amadureceu em Naomi até que uma decisão fosse tomada. No entanto, antes que qualquer ação fosse tomada, questionamentos apareceram:

    Durante uma sessão de intensidade elevada de treinamentos aos jovens Miyazaki, o fluxo da prática sofreu uma interrupção. Um dos estudantes mais velhos, cansado, cessou os movimentos. O restante do grupo acompanhou a pausa, formando um silêncio que se espalhou pelo salão.

    A dúvida que surgiu naquele momento acendeu no peito de todos: o tempo necessário para que atingissem o domínio completo das chamas.

    Mas a resposta não veio leve.

    Naomi expôs a realidade: renúncia de inúmeros aspectos prazerosos da vida somados a décadas de disciplina absoluta que definiam o caminho de um verdadeiro Mestre do Fogo.

    A reação foi imediata: surpresa, incredulidade, e um traço de desânimo em poucos.

    A explicação da estrangeira seguiu firme: poucos meilianos conquistaram aquele título, e para que o atingissem, abdicaram de ao menos quarenta anos de dedicação contínua. Como sua nova técnica surgira como ramificação posterior à tradicional da Terra do Fogo, ela desconhecia quanto tempo adicional seria necessário até que alguém chegasse no mesmo patamar.

    Naquele ponto, as informações desafiadoras trouxeram a presença de Sachiko no centro da cena. Sua aproximação, obrigando reverências dos jovens, tinha uma intenção clara: quebra de segredos.

    Entendendo que o tempo mínimo de dedicação dos Mestres do Fogo somaria décadas, a idade e nível de poder de Naomi não se justificaria apenas com esforço comum. 

    A menção ao episódio da fragata levantou mistérios sobre a meiliana: a transformação completa em fogo, a destruição em escala massiva, a imagem de uma entidade que deixou de ser humana por instantes de guerra. A exigência implícita por um veredito plausível pairou no ambiente.

    A resposta apontou para herança sanguínea de um áurico especial; já o evento descrito na batalha naval foi definido como colapso provocado por emoções extremas, inibindo qualquer ideia de controle ou noção perante a forma ígnea: medo, raiva e desespero convergiram num único ponto e romperam limites que o corpo não sustentava plenamente. Cataclisma áurico.

    A análise silenciosa da matriarca revelou algo além de curiosidade: um olhar apertado e discreto reconheceu sinais sutis.

    Em conclusão, todos compreenderam que aquela estrangeira possuía um sangue raro e valioso, e que apenas por meio dele aquela forma de fogo seria alcançável, nem que fosse por um herdeiro.

    A partir daquele momento, mudanças surgiram pelo Distrito Miyazaki.

    As primeiras propostas apareceram poucos dias depois. Jovens da família, influenciados por interesses próprios ou direcionados por expectativas maiores, se aproximavam de Naomi com intenções claras. Ofertas variadas foram apresentadas, desde promessas modestas até demonstrações exageradas de status e riqueza. Casas, recursos, privilégios e garantias de posição dentro da família foram colocados como incentivos.

    Toda proposta era recusada.

    A decisão inabalável de Naomi combatia o número crescente de tentativas que transformaram o assunto em tema constante dentro da família. Comentários circulavam com frequência e levantavam hipóteses sobre motivações ocultas. Alguns apontaram orgulho excessivo e expectativas irreais enquanto, secretamente, havia quem imaginasse a possibilidade de uma escolha já definida.

    Apesar das tantas especulações, nenhuma confirmação direta ocorreu.

    Naomi seguia sua rotina sem alterações aparentes. Os afazeres da casa mantinham a ordem pela manhã, as tutorias seguiam pelo fim das tardes com o mesmo rigor, e ao final de cada dia, o retorno à residência reencontrava estabilidade longe das estruturas rígidas do clã.

    Sachiko, por outro lado, seguia inquieta. Reuniões privadas com conselheiros resultavam em orientações claras. Investigação, questionamentos, extração de informações. Durante os treinos, perguntas de familiares surgiam disfarçadas de curiosidade inocente. Naomi respondia todas com calma, sempre dentro de limites seguros. Nada além do necessário era revelado.

    Todavia, a estrangeira guardava em seu coração um segredo ligado a apenas um homem, e mal imaginava que se aproximava do momento em que seus desejos se realizariam…

    1. adjetivo relativo à vida dos monges ou próprio deles[]
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