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    Foi questão de um piscar de olhos.

    A risada zombeteira e vil de Elchor se transformou em um esgar, um ruído infame. Uma energia de cor roxa se elevou a partir de seu estômago, se expandindo rapidamente e engolindo Desmond e os moradores ajoelhados na frente da criatura. O chão tremeu sob os pés de Anayê como um prenúncio do que estava por vir. O corpo da aberração se desintegrou por completo, seguido pelo corpo de Desmond que desapareceu em um punhado de cinzas, sem que ele tivesse tempo para entender como ou que havia acontecido consigo. Os moradores mais próximos viram apenas o brilho roxo, depois o ar quente e, de repente, escuridão. Ao mesmo tempo, a parede do poço foi instantaneamente despedaçada sem sequer fazer barulho.

    Anayê prendeu a respiração.

    E tudo mudou de novo.

    A temperatura no palanque subiu, o ar desapareceu, os pulmões se comprimiram e uma fumaça branca subiu do chão de pedra marcando um círculo em volta de Elchor. E, imediatamente, uma coluna de fogo se ergueu ainda mais alta do que qualquer casa no vilarejo ocupando o lugar onde antes havia a fumaça branca.

    Foi também questão de um piscar de olhos.

    As chamas engoliram a energia roxa e consumiram tudo o que estava dentro do círculo.

    E tão rápido quanto surgira, a parede de fogo se extinguiu exibindo as cinzas dos mortos.

    O que se seguiu foi uma mistura de expressões de horror com gritos de terror e lamentação, ou semblantes aterrorizados em completo silêncio.

    — Não! — Bretna caiu de joelhos em prantos.

    Anayê franziu o cenho e seus olhos varreram o local até se depararem com uma figura atrás do palanque cheio de fumaça. Trajava um gibão preto amarrotado por cima de uma camisa cinza e laranja. Fios escassos de cabelos brancos na cabeça, mas uma porção avantajada na barba.

    Ele puxou as rédeas e seu cavalo avançou na direção da ceifadora. E, somente neste momento, os outros notaram a sua presença, exceto aqueles como Bretna que se consumiam em prantos e lamentações.

    Anayê não sabia o que devia fazer, esperar pelo estranho ou correr até os cavalos para salvar Fenrir. Antes mesmo de chegar em alguma conclusão, o estranho lançou um frasco do bolso para ela.

    A ceifadora agarrou o objeto e viu o líquido azulado pulsando dentro do vidro. Então levantou os olhos, notou o tapa-olho no recém-chegado e soube de quem se tratava. Heitor caolho, o ceifador procurado.

    Anayê, segurando o frasco, hesitou enquanto julgava o sujeito. Era um pouco difícil se concentrar com todo o barulho e murmúrios dos outros presentes.

    Heitor, por outro lado, estacionou a poucos metros dela com uma expressão tranquila e nada ameaçadora.

    A ceifadora travou a mandíbula com uma escolha impossível e sem tempo para analisar com mais cuidado. Colocou o corpo de Fenrir no chão com cuidado, destampou o frasco, conferiu o cheiro e depois despejou todo o conteúdo na boca do ceifador.

    Em seguida, se aproximou a mão das narinas e concluiu que ainda havia ar.

    — Ele ainda está vivo — disse Heitor com a voz firme.

    Anayê mirou o ceifador no cavalo. Era bem mais velho do que ela ou Fenrir, talvez da idade do mestre. Também não aparentava ser tão “criminoso” quanto no cartaz na beira da estalagem.

    Heitor não desviou o rosto, muito embora estivesse sendo alvo de inúmeros olhos naquele momento. Ele suspirou de maneira entediada, se inclinou sobre o cavalo e desmontou. Vasculhou uma bolsa na sela, desembrulhou um objeto que se revelou um pedaço de pão e caminhou até a garota.

    — Ele precisa de um pouco de energia natural também.

    Anayê não recebeu a comida de primeira, mas Heitor sequer pareceu incomodado.

    — Ei, Fenrir, consegue me ouvir? — Ela se debruçou e ergueu a cabeça do colega com cuidado. — Você precisa comer isso, tá bem?

    Nenhuma reação da parte de Fenrir. Ela aproximou um pedaço pequeno do pão e inseriu na boca dele. O maxilar não se mexeu.

    Anayê teve a atenção tomada por um instante quando Bretna se levantou, tropeçando e choramingando, correu até o palanque e se ajoelhou sobre as cinzas. A jovem agarrou um punhado nas mãos e manchou seu rosto, roupa e cabelo com desespero contido. Em seguida, emitiu um grito tão brutal que pareceu rasgar a praça inteira e, então, desmaiou.

    Quase nesse momento, Fenrir soltou um longo e barulhento suspiro. Anayê se virou e viu que ele mastigava, bem lentamente, mesmo sem abrir os olhos.

    — Ele vai precisar descansar — disse Heitor. — Por que não usamos uma dessas casas? Acho que nenhum morador vai… se incomodar por enquanto.

    Anayê assentiu.

    ***

    — Vocês deram sorte — comentou Heitor quando a ceifadora entrou no cômodo. — Aberrações com veneno são um inferno de matar.

    Ele estava sentado numa cadeira com as pernas cruzadas e apontou outra cadeira para ela. Além disso, o cômodo possuía uma singela lareira que Heitor acendera, uma janela, uma mesa de madeira e uma prateleira com alguns itens de cozinha como frascos, pratos, copos e colheres.

    Anayê se sentou, mas não relaxou.

    — Você é o…

    — Heitor caolho — ele interrompeu com uma pequena mesura. — Apesar de eu não gostar muito do apelido. Mas, fazer o quê? Não dá pra controlar como colocam você num cartaz de procurado.  E você seria?

    — Anayê. Das colinas verdes.

    — Ora, muito prazer em conhecê-la Anayê das colinas verdes. Como vai aquele velho de bengala?

    O rosto dela mostrou surpresa.

    — Conhece o mestre?

    — Humpf. É mais fácil perguntar quem não conhece. Ele deve ter treinado a maior parte dos ceifadores restantes nos reinos livres.

    Agora Anayê conseguia observá-lo melhor, inclusive, a esquisita cicatriz cruzando a parte esquerda do rosto.

    — Ele treinou você também?

    Heitor concordou com a cabeça, o que fez Anayê questionar outra vez sobre a idade do mestre novamente.

    — E quem é a bela adormecida? — o ceifador apontou com o queixo para o quarto onde Fenrir descansava.

    — Fenrir do Ribeiral — ela baixou os olhos. — Ele… salvou a minha vida.

    — Ora, então fez um ótimo trabalho.

    As sobrancelhas dela se ergueram.

    — Muito rude?

    Ela não respondeu.

    Heitor descruzou as pernas, se levantou e trouxe da mesa um prato com queijo, pão e um pedaço de carne.

    — Também vai te fazer bem recuperar a energia. Pela aparência desse lugar, não imaginei encontrar comida boa.

    Anayê segurou o prato em silêncio por um momento, ainda que o estômago tenha roncado com o cheiro da carne.

    Heitor se dirigiu à janela e espiou pelas frestas de madeira.

    — É melhor comer logo — a voz perdeu o tom descontraído. — Não sei quanto tempo até o motim começar.

    — Motim? — a ceifadora estreitou os olhos.

    — Talvez esperem a jovem de branco recuperar as forças.

    — Do que você está falando? — ela inquiriu.

    Heitor virou parcialmente o rosto.

    — Vocês mataram o benfeitor deles.

    Ele fez um gesto de aspas com os dedos quando falou benfeitor.

    — Acha que vai sair impune?

    Anayê balançou a cabeça, contrariada.

    — Nós… Matamos uma aberração — disse, quase irritada. — Um manipulador que se aproveitava da vulnerabilidade e ignorância desse povo.

    Heitor riu, baixo e sem humor, e o som deixou a ceifadora mais brava.

    — Isso não tem graça — ela reclamou.

    Ele a fitou por um longo instante com curiosidade.

    — Ah… agora entendi — comentou, quase como se tivesse descoberto um segredo. — Você é novata.

    — O que quer dizer?

    — Sim, é uma novata — Heitor estalou os dedos.

    A lareira crepitou quando ele se sentou.

    — Tá nos seus olhos. — Apontou para ela. — A vontade de fogo de derrotar aberrações e libertar as pessoas. — Sorriu, perspicaz. — Até me lembrei de mim quando comecei com exatamente a mesma… inocência.

    Ele se inclinou a cadeira, entrelaçou os dedos e mirou a ceifadora.

    — Vou te dar o melhor conselho que gostaria de ter no meu início — Fez uma pausa proposital. — Todas as pessoas querem ser livres e, algumas querem ser livres, inclusive, para fazer o mal.

    A lareira projetou uma sombra no rosto de Heitor. Anayê, boquiaberta, se mexeu de leve na cadeira.

    — E você vai descobrir isso da pior maneira possível em breve.

    — Você acha que os moradores vão…

    Ele voltou a recostar na cadeira.

    — Se prepare, Anayê — a voz ficou séria. — Faça a sua prece ao Deus sem face.

    A lareira estalou outra vez.

    — Se ele atender o seu pedido, talvez a gente não precise matar mais ninguém antes do dia raiar.

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