Capítulo 87 - Por Que Está Se Matando?
A mente de Fenrir comemorou. Eu acertei o miserável, pensou.
Uma fumaça esverdeada se projetou ao redor quando a flecha azul atingiu Elchor e alguns moradores lançaram gritos assustados e olhos horrorizados para o palanque.
— Meu senhor! — Desmond exclamou caindo de joelhos com as mãos tremendo.
Fenrir esboçou um sorriso. Cedo demais.
Quando parte da fumaça se dissipou, a verdade se revelou.
Primeiro, um pedaço de carne despedaçado. Outrora parte de um escudo.
Em seguida, o escudo se transformando de volta em um braço despedaçado.
No entanto, a aberração estava intacta.
— Quase me esqueci de você — a criatura falou entredentes de forma mais ameaçadora.
Fenrir engoliu a saliva.
— Que Astaroth seja louvado! — Desmond gritou do outro lado.
— Agora não, Desmond! — vociferou Elchor.
A reação mudou o louvor para temor. E os moradores recuaram sem perceber.
— Vocês… — mirou Fenrir. — Conseguiram me irritar.
A criatura ofegava com os olhos transbordando ódio e fixos no inimigo. Um líquido vermelho escorria pelo braço despedaçado e pingava no chão do palanque.
O coração de Fenrir galopava. Suas mãos estremeciam junto com a sua coragem. Dizia a si mesmo para correr e se esconder no lugar mais desconhecido e longínquo dali.
Seus olhos procuraram Anayê atrás do palanque. Nenhum sinal. Será que ela estava morta? Engoliu seco ao imaginar. Se estivesse morta, ele estava sozinho. O que poderia fazer diante de uma aberração tão poderosa? Alguém o culparia por fugir para preservar a sua vida?
— Deus sem face… — Murmurou e deixou o ar sair pelas narinas. — Me dê coragem.
Fechou os punhos.
Por alguns segundos, aquele som predominou na praça. Os pingos de sangue da criatura na pedra do palanque.
Cling.
Cling.
E a respiração compassada do ceifador e da aberração.
E então a criatura atacou.
Seis espinhos rasgaram o ar.
O arco já estava nas mãos do ceifador.
E ele disparou.
Uma, duas, três vezes.
Três espinhos caíram, mas ainda sobraram três.
Fenrir aguardou o último instante.
Agora!, sua mente avisou e ele saltou para o lado. Ainda no ar, chamou seu arco e lançou outra flecha.
Mas Elchor sequer se deu ao trabalho de usar o escudo e esquivou para o lado como se não fosse nada.
Fenrir rolou e se colocou em pé. E mal tinha feito isso, o chão sob suas pernas se moveu, retendo seu equilíbrio. Mas o quê? Espinhos explodiram e ele pulou por instinto.
E não havia tempo para respirar.
Quando levantou os olhos, seis espinhos novos vinham em sua direção.
— Porcaria — murmurou consigo.
O arco surgiu na palma da mão e cuspiu três flechas. Porém, ainda sobraram três espinhos e um deles atingiu a perna do ceifador. A dor escalou para o cérebro imediatamente.
Fenrir caiu desajeitado nos barris. O impacto roubou o ar. O joelho e o cotovelo estalaram.
Levanta!
O chão voltou a estremecer e ele precisou mover os pés para se levantar.
Mas assim que se ergueu, três espinhos acertaram seu peito em cheio. O impacto o lançou para longe até atingir a parede de uma casa.
— Argh!
Sangue saiu de boca. Os pulmões se comprimiram no peito. As mãos enrijeceram.
Caiu de joelhos, mas as juntas doeram. Ele rangiu os dentes.
— Eu… não vou…
Rapidamente, pegou um frasco de fluido no bolso da calça e tomou o conteúdo azulado em um gole. O líquido queimou ao descer. Limpou a boca enquanto se colocava de pé. Ao mesmo tempo, fez o fluido dissolver o veneno em seu corpo.
Ele ofegava alto quando se levantou de novo, cambaleante.
Elchor voltara a seu comportamento original. Um sorriso de lábios fechados e um olhar de austeridade.
Ele sabe que já venceu, Fenrir pensou. Eu não tenho nenhuma chance de contra-atacar e se pudesse, como poderia ter força suficiente para destruir seu escudo?
— Desista, Fenrir! — Bretna exclamou. — Por favor, pare.
Ele franziu o cenho.
— Você não precisa fazer isso — Continuou. — Por que está se matando?
A pergunta foi pior do que o veneno. Fenrir travou fitando a jovem vestida de branco e seus olhos brilhantes. O que havia ali? Pena? Era o mesmo que ver os anciãos de seu vilarejo julgando-o no dia em que tinha sido obrigado a ir embora.
— Nós não queremos Elchor morto — Bretna ainda falava. — E nem você.
Fenrir observou os outros moradores ao redor daquela praça que se tornara um campo de batalha e não conseguiu encontrar uma resposta verdadeira o suficiente para a pergunta. Sim, ele sabia sobre as aberrações. Mas talvez a aberração do Ribeiral não fosse igual a Elchor.
Ele ainda observava quando a criatura se virou depressa e ergueu o braço bom que se transformou rapidamente em escudo e se colidiu com uma onda de vento cortante.
E, de repente, lá estava ela.
Anayê.
Olhos vermelhos. Mãos machucadas. Roupas levemente rasgadas e queimadas.
Mas viva.
Foi como se Fenrir tivesse tomado um copo de água após um dia inteiro de trabalho no sol escaldante. Ele esboçou um sorriso e ergueu a cabeça com esperança.
— Cuidado! — A ceifadora alertou.
Três espinhos avançaram contra Anayê e três contra Fenrir.
O ceifador firmou os pés.
— Eu abro espaço! — gritou.
Disparou três flechas, mas errou um dos espinhos que acertou-o no ombro. Ele rangeu os dentes, mas manteve os pés firmes. Ao mesmo tempo, Anayê rebatia os três projéteis com sua adaga e observou quando uma flecha de Fenrir voou contra Elchor.
Ele errou de propósito, a ceifadora concluiu, um pouco surpresa.
A criatura ergueu seu escudo quase tarde demais ao notar a audácia do ceifador. O choque a empurrou para trás e destruiu sua proteção.
— Maldição… — Elchor reclamou.
Mas então Anayê surgiu em sua frente.
Os olhos da aberração se arregalaram. Era tarde demais.
A adaga avançou certeira. Ultrapassou a carne e entrou no peito.
— Não! — Desmond exclamou levando as mãos à cabeça.
Bretna lançou uma expressão assustada para o palanque.
Fenrir ofegava, mas sua atenção permanecia fixada em Anayê.
E depois a praça caiu sob um silêncio pesado e desconfortável.
Os olhos vazios de Elchor caíram na ceifadora. Um filete de suor escorria pela testa dela ao lado de um hematoma de queimadura.
— Você… — a voz dele veio lenta, arrastada e difícil. — Não desiste nunca, não é?

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