Índice de Capítulo

    A mente de Fenrir comemorou. Eu acertei o miserável, pensou.

    Uma fumaça esverdeada se projetou ao redor quando a flecha azul atingiu Elchor e alguns moradores lançaram gritos assustados e olhos horrorizados para o palanque.

    — Meu senhor! — Desmond exclamou caindo de joelhos com as mãos tremendo.

    Fenrir esboçou um sorriso. Cedo demais.

    Quando parte da fumaça se dissipou, a verdade se revelou. 

    Primeiro, um pedaço de carne despedaçado. Outrora parte de um escudo.

    Em seguida, o escudo se transformando de volta em um braço despedaçado.

    No entanto, a aberração estava intacta.

    — Quase me esqueci de você — a criatura falou entredentes de forma mais ameaçadora.

    Fenrir engoliu a saliva.

    — Que Astaroth seja louvado! — Desmond gritou do outro lado.

    — Agora não, Desmond! — vociferou Elchor.

    A reação mudou o louvor para temor. E os moradores recuaram sem perceber.

    — Vocês… — mirou Fenrir. — Conseguiram me irritar.

    A criatura ofegava com os olhos transbordando ódio e fixos no inimigo. Um líquido vermelho escorria pelo braço despedaçado e pingava no chão do palanque.

    O coração de Fenrir galopava. Suas mãos estremeciam junto com a sua coragem. Dizia a si mesmo para correr e se esconder no lugar mais desconhecido e longínquo dali.

    Seus olhos procuraram Anayê atrás do palanque. Nenhum sinal. Será que ela estava morta? Engoliu seco ao imaginar. Se estivesse morta, ele estava sozinho. O que poderia fazer diante de uma aberração tão poderosa? Alguém o culparia por fugir para preservar a sua vida?

    — Deus sem face… — Murmurou e deixou o ar sair pelas narinas. — Me dê coragem.

    Fechou os punhos.

    Por alguns segundos, aquele som predominou na praça. Os pingos de sangue da criatura na pedra do palanque.

    Cling.

    Cling.

    E a respiração compassada do ceifador e da aberração.

    E então a criatura atacou.

    Seis espinhos rasgaram o ar.

    O arco já estava nas mãos do ceifador.

    E ele disparou.

    Uma, duas, três vezes.

    Três espinhos caíram, mas ainda sobraram três.

    Fenrir aguardou o último instante. 

    Agora!, sua mente avisou e ele saltou para o lado. Ainda no ar, chamou seu arco e lançou outra flecha.

    Mas Elchor sequer se deu ao trabalho de usar o escudo e esquivou para o lado como se não fosse nada.

    Fenrir rolou e se colocou em pé. E mal tinha feito isso, o chão sob suas pernas se moveu, retendo seu equilíbrio. Mas o quê? Espinhos explodiram e ele pulou por instinto.

    E não havia tempo para respirar.

    Quando levantou os olhos, seis espinhos novos vinham em sua direção.

    — Porcaria — murmurou consigo.

    O arco surgiu na palma da mão e cuspiu três flechas. Porém, ainda sobraram três espinhos e um deles atingiu a perna do ceifador. A dor escalou para o cérebro imediatamente.

    Fenrir caiu desajeitado nos barris. O impacto roubou o ar. O joelho e o cotovelo estalaram.

    Levanta!

    O chão voltou a estremecer e ele precisou mover os pés para se levantar.

    Mas assim que se ergueu, três espinhos acertaram seu peito em cheio. O impacto o lançou para longe até atingir a parede de uma casa.

    — Argh!

    Sangue saiu de boca. Os pulmões se comprimiram no peito. As mãos enrijeceram.

    Caiu de joelhos, mas as juntas doeram. Ele rangiu os dentes.

    — Eu… não vou…

    Rapidamente, pegou um frasco de fluido no bolso da calça e tomou o conteúdo azulado em um gole. O líquido queimou ao descer. Limpou a boca enquanto se colocava de pé. Ao mesmo tempo, fez o fluido dissolver o veneno em seu corpo.

    Ele ofegava alto quando se levantou de novo, cambaleante.

    Elchor voltara a seu comportamento original. Um sorriso de lábios fechados e um olhar de austeridade.

    Ele sabe que já venceu, Fenrir pensou. Eu não tenho nenhuma chance de contra-atacar e se pudesse, como poderia ter força suficiente para destruir seu escudo?

    — Desista, Fenrir! — Bretna exclamou. — Por favor, pare.

    Ele franziu o cenho.

    — Você não precisa fazer isso — Continuou. — Por que está se matando?

    A pergunta foi pior do que o veneno. Fenrir travou fitando a jovem vestida de branco e seus olhos brilhantes. O que havia ali? Pena? Era o mesmo que ver os anciãos de seu vilarejo julgando-o no dia em que tinha sido obrigado a ir embora.

    — Nós não queremos Elchor morto — Bretna ainda falava. — E nem você.

    Fenrir observou os outros moradores ao redor daquela praça que se tornara um campo de batalha e não conseguiu encontrar uma resposta verdadeira o suficiente para a pergunta. Sim, ele sabia sobre as aberrações. Mas talvez a aberração do Ribeiral não fosse igual a Elchor.

    Ele ainda observava quando a criatura se virou depressa e ergueu o braço bom que se transformou rapidamente em escudo e se colidiu com uma onda de vento cortante.

    E, de repente, lá estava ela.

    Anayê.

    Olhos vermelhos. Mãos machucadas. Roupas levemente rasgadas e queimadas. 

    Mas viva.

    Foi como se Fenrir tivesse tomado um copo de água após um dia inteiro de trabalho no sol escaldante. Ele esboçou um sorriso e ergueu a cabeça com esperança.

    — Cuidado! — A ceifadora alertou.

    Três espinhos avançaram contra Anayê e três contra Fenrir.

    O ceifador firmou os pés.

    — Eu abro espaço! — gritou.

    Disparou três flechas, mas errou um dos espinhos que acertou-o no ombro. Ele rangeu os dentes, mas manteve os pés firmes. Ao mesmo tempo, Anayê rebatia os três projéteis com sua adaga e observou quando uma flecha de Fenrir voou contra Elchor.

    Ele errou de propósito, a ceifadora concluiu, um pouco surpresa.

    A criatura ergueu seu escudo quase tarde demais ao notar a audácia do ceifador. O choque a empurrou para trás e destruiu sua proteção.

    — Maldição… — Elchor reclamou.

    Mas então Anayê surgiu em sua frente.

    Os olhos da aberração se arregalaram. Era tarde demais.

    A adaga avançou certeira. Ultrapassou a carne e entrou no peito.

    — Não! — Desmond exclamou levando as mãos à cabeça.

    Bretna lançou uma expressão assustada para o palanque.

    Fenrir ofegava, mas sua atenção permanecia fixada em Anayê.

    E depois a praça caiu sob um silêncio pesado e desconfortável.

    Os olhos vazios de Elchor caíram na ceifadora. Um filete de suor escorria pela testa dela ao lado de um hematoma de queimadura.

    — Você… — a voz dele veio lenta, arrastada e difícil. — Não desiste nunca, não é?

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