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    — Bem. Você está mesmo enorme garoto. —  Tentou cortar a tensão. — Seus braços estão quase tão grossos quanto os meus dedos agora.

    Teseu não pode deixar de sorrir largamente.

    — E você parece um pouco menos mau encarado com essa cabeleira aí.

    Theo levou a mão ao curto cabelo e o afagou, então emoldurou o próprio maxilar onde penteou a barba bem alinhada para baixo.

    — Ha- já não resta nada do escravo de um ano atrás. Agora sou um General, acredita?

    Teseu fitou o amigo de cima abaixo mais uma vez, e seu sorriso se tornou orgulhoso.

    — Eu sempre acreditei.

    Theo correu os olhos pelas roupas rasgadas do garoto, pela couraça danificada, sem uma das ombreiras e parou na lâmina gasta presa à sua cintura. Balançou a cabeça de forma negativa.

    — Isso aí já não serve para mais nada além de aumentar o seu peso, e essa espada certamente viu dias melhores. Vou arranjar equipamentos novos para todos vocês.

    Plutarco levantou a mão livre e sacudiu a cabeça.

    — Eu dispenso. Pessoas como eu precisam de liberdade de movimento para escrever e fugir, e o peso do metal atrapalha as duas coisas.

    “Escrever e fugir?” Teseu franziu o cenho.

    — Eu percebi. — Theo mediu a figura esguia e desarmada do escriba. — Os braços finos não aguentariam o peso de um elmo de bronze, de qualquer forma.

    Plutarco abriu a boca, ofendido, mas desistiu de formular uma resposta.

    Licaão soltou uma lufada de ar pesada. O rei cruzou os braços e bateu o pé no chão repetidas vezes. A sua impaciência contaminou a pausa na conversa.

    — Terminamos as saudações? — Licaão olhou de Theo para Calixto. — Eu não vim até aqui para assistir a reencontros comoventes.

    O grupo deixou a arena de treinamento para trás e seguiu por uma alameda de colunas quebradas. O caminho desaguou num pátio menor, pavimentado com lajes de mármore escuro. Um homem esguio e de postura reta discursava para três habitantes que seguravam tábuas de cera e pergaminhos.

    Calixto apontou para ele.

    — E ali está Lycomedes, a Mão de Nova Arcádia.

    Plutarco ajeitou a tira de couro de sua bolsa e abriu um sorriso aliviado.

    — Um intelectual entre brutos. Finalmente alguém capaz de debater administração em vez de táticas de esfaqueamento.

    Teseu ignorou o comentário do escriba e estreitou os olhos na direção do administrador. A manga esquerda da túnica de Lycomedes pendia vazia, amarrada em um nó cego na altura do ombro. O olhar de Teseu desceu para a mão direita do homem. Seis dedos longos e firmes seguravam um estilete de bronze. Uma placa de couro no peito de Lycomedes exibia o entalhe exato de uma mão com seis dedos.

    O rapaz se aproximou e tardou a ser percebido pelo homem que tão logo o viu, estreitou os olhos.

    — Garoto… E-eu não acredito…

    Teseu sorriu amplamente, sincero e contente. Ele estendeu a mão para o antigo companheiro de labuta e foi recebido com um aperto que o puxou para um abraço sincero.

    — Quão contente me fazes neste momento! — Lycomedes tinha os olhos brilhosos e genuinamente emocionados.

    Afastou o rapaz e mais uma vez o inspecionou em silêncio. Os músculos, o rosto forte, os ferimentos. A história jazia contada aos seus olhos.

    — Como cresceu…

    — O que aconteceu com o seu braço esquerdo? — Teseu perguntou.

    Lycomedes sorriu e se virou para trás. Dispensou os três aprendizes com um aceno e virou-se para os recém-chegados.

    — Eu o arranquei.

    Plutarco travou no lugar. A boca do escriba se abriu em choque. O assombro durou apenas um segundo e logo deu lugar a uma curiosidade voraz. Ele mergulhou a pena no tinteiro pendurado ao cinto.

    — Arrancou o próprio braço? Pelos deuses. Eu preciso dos detalhes dessa história agora mesmo. Como e por que você realizou um feito desses sem sangrar até a morte?

    — Eu farei questão de te contar essa história pessoalmente mais tarde, homem das palavras. — Calixto interveio e assumiu a frente do grupo.

    Lycomedes estreitou o olhar para a colega, parecia um pouco desconfiado de suas intenções.

    — A ala médica fica no quarteirão seguinte.

    Licaão deu um passo para o lado e afastou-se da formação. Seus olhos estavam fixos na encosta superior da montanha onde as ruínas do palácio principal desafiavam a gravidade sobre um penhasco abrupto. 

    — Que perda de tempo. — Bufou. — Eu vou descer às ruínas do palácio. Minha espada jaz sob aqueles escombros e eu não tardarei a recuperá-la.

    — O palácio? — Calixto cruzou os braços. — Minha equipe de batedores vasculhou cada centímetro da base daquela encosta. Não existe caminho para o topo.

    Teseu examinou a colina ao longe, seus olhos a varreram de cima a baixo.

    Lycomedes assentiu e deu um passo à frente.

    — As escadarias reais sofreram soterramentos há centenas de anos. A erosão e os tremores destruíram o acesso principal. Hoje, o palácio é uma ilha de pedra no céu. O único modo de subir é por meio de uma escalada de mais de dois mil côvados por rocha viva e instável.

    Licaão encarou-o com desprezo.

    — Eu sou o Rei deste domínio, aleijado. Escalarei a montanha com as mãos nuas se for necessário.

    Calixto franziu o cenho violentamente, sua mão alcançou a própria cintura onde uma lâmina jazia escondida.

    — Espere. — Teseu deu um passo à frente, ciente das intenções da colega e soltou um gemido baixo ao pressionar a ferida.

    Trocaram olhares, os dois, ele parecia suplicar por paciência. A mulher se voltou para Lycomedes que balançou a cabeça sutilmente com um olhar de admoestação.

    Ele não se mostrava afetado pela ofensa. Calixto bufou e cruzou os braços mais uma vez.

    Teseu suspirou e se voltou para o impaciente colega com uma careta de dor.

    — Com a ajuda dos meus poderes, nós alcançaremos o topo juntos. Eu posso abrir um caminho, mas não nesse estado.

    Licaão desviou o olhar para o palácio distante e depois para o rapaz ferido. O silêncio durou o tempo de três respirações lentas. Estalou a língua contra o céu da boca.

    — Pois bem. — Licaão virou as costas para a colina. — Eu esperarei sua melhora, garoto. Mas não abuse da minha paciência. O sangue dos deuses não se derramará sozinho.

    Lycomedes e Calixto franziram o cenho ao se entreolhar.“O sangue dos deuses?” Seus pensamentos quase ecoaram.

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