Capítulo 154 | Nova Arcádia(2)
— Bem. Você está mesmo enorme garoto. — Tentou cortar a tensão. — Seus braços estão quase tão grossos quanto os meus dedos agora.
Teseu não pode deixar de sorrir largamente.
— E você parece um pouco menos mau encarado com essa cabeleira aí.
Theo levou a mão ao curto cabelo e o afagou, então emoldurou o próprio maxilar onde penteou a barba bem alinhada para baixo.
— Ha- já não resta nada do escravo de um ano atrás. Agora sou um General, acredita?
Teseu fitou o amigo de cima abaixo mais uma vez, e seu sorriso se tornou orgulhoso.
— Eu sempre acreditei.
Theo correu os olhos pelas roupas rasgadas do garoto, pela couraça danificada, sem uma das ombreiras e parou na lâmina gasta presa à sua cintura. Balançou a cabeça de forma negativa.
— Isso aí já não serve para mais nada além de aumentar o seu peso, e essa espada certamente viu dias melhores. Vou arranjar equipamentos novos para todos vocês.
Plutarco levantou a mão livre e sacudiu a cabeça.
— Eu dispenso. Pessoas como eu precisam de liberdade de movimento para escrever e fugir, e o peso do metal atrapalha as duas coisas.
“Escrever e fugir?” Teseu franziu o cenho.
— Eu percebi. — Theo mediu a figura esguia e desarmada do escriba. — Os braços finos não aguentariam o peso de um elmo de bronze, de qualquer forma.
Plutarco abriu a boca, ofendido, mas desistiu de formular uma resposta.
Licaão soltou uma lufada de ar pesada. O rei cruzou os braços e bateu o pé no chão repetidas vezes. A sua impaciência contaminou a pausa na conversa.
— Terminamos as saudações? — Licaão olhou de Theo para Calixto. — Eu não vim até aqui para assistir a reencontros comoventes.
O grupo deixou a arena de treinamento para trás e seguiu por uma alameda de colunas quebradas. O caminho desaguou num pátio menor, pavimentado com lajes de mármore escuro. Um homem esguio e de postura reta discursava para três habitantes que seguravam tábuas de cera e pergaminhos.
Calixto apontou para ele.
— E ali está Lycomedes, a Mão de Nova Arcádia.
Plutarco ajeitou a tira de couro de sua bolsa e abriu um sorriso aliviado.
— Um intelectual entre brutos. Finalmente alguém capaz de debater administração em vez de táticas de esfaqueamento.
Teseu ignorou o comentário do escriba e estreitou os olhos na direção do administrador. A manga esquerda da túnica de Lycomedes pendia vazia, amarrada em um nó cego na altura do ombro. O olhar de Teseu desceu para a mão direita do homem. Seis dedos longos e firmes seguravam um estilete de bronze. Uma placa de couro no peito de Lycomedes exibia o entalhe exato de uma mão com seis dedos.
O rapaz se aproximou e tardou a ser percebido pelo homem que tão logo o viu, estreitou os olhos.
— Garoto… E-eu não acredito…
Teseu sorriu amplamente, sincero e contente. Ele estendeu a mão para o antigo companheiro de labuta e foi recebido com um aperto que o puxou para um abraço sincero.
— Quão contente me fazes neste momento! — Lycomedes tinha os olhos brilhosos e genuinamente emocionados.
Afastou o rapaz e mais uma vez o inspecionou em silêncio. Os músculos, o rosto forte, os ferimentos. A história jazia contada aos seus olhos.
— Como cresceu…
— O que aconteceu com o seu braço esquerdo? — Teseu perguntou.
Lycomedes sorriu e se virou para trás. Dispensou os três aprendizes com um aceno e virou-se para os recém-chegados.
— Eu o arranquei.
Plutarco travou no lugar. A boca do escriba se abriu em choque. O assombro durou apenas um segundo e logo deu lugar a uma curiosidade voraz. Ele mergulhou a pena no tinteiro pendurado ao cinto.

— Arrancou o próprio braço? Pelos deuses. Eu preciso dos detalhes dessa história agora mesmo. Como e por que você realizou um feito desses sem sangrar até a morte?
— Eu farei questão de te contar essa história pessoalmente mais tarde, homem das palavras. — Calixto interveio e assumiu a frente do grupo.
Lycomedes estreitou o olhar para a colega, parecia um pouco desconfiado de suas intenções.
— A ala médica fica no quarteirão seguinte.
Licaão deu um passo para o lado e afastou-se da formação. Seus olhos estavam fixos na encosta superior da montanha onde as ruínas do palácio principal desafiavam a gravidade sobre um penhasco abrupto.
— Que perda de tempo. — Bufou. — Eu vou descer às ruínas do palácio. Minha espada jaz sob aqueles escombros e eu não tardarei a recuperá-la.
— O palácio? — Calixto cruzou os braços. — Minha equipe de batedores vasculhou cada centímetro da base daquela encosta. Não existe caminho para o topo.
Teseu examinou a colina ao longe, seus olhos a varreram de cima a baixo.
Lycomedes assentiu e deu um passo à frente.
— As escadarias reais sofreram soterramentos há centenas de anos. A erosão e os tremores destruíram o acesso principal. Hoje, o palácio é uma ilha de pedra no céu. O único modo de subir é por meio de uma escalada de mais de dois mil côvados por rocha viva e instável.
Licaão encarou-o com desprezo.
— Eu sou o Rei deste domínio, aleijado. Escalarei a montanha com as mãos nuas se for necessário.
Calixto franziu o cenho violentamente, sua mão alcançou a própria cintura onde uma lâmina jazia escondida.
— Espere. — Teseu deu um passo à frente, ciente das intenções da colega e soltou um gemido baixo ao pressionar a ferida.
Trocaram olhares, os dois, ele parecia suplicar por paciência. A mulher se voltou para Lycomedes que balançou a cabeça sutilmente com um olhar de admoestação.
Ele não se mostrava afetado pela ofensa. Calixto bufou e cruzou os braços mais uma vez.
Teseu suspirou e se voltou para o impaciente colega com uma careta de dor.
— Com a ajuda dos meus poderes, nós alcançaremos o topo juntos. Eu posso abrir um caminho, mas não nesse estado.
Licaão desviou o olhar para o palácio distante e depois para o rapaz ferido. O silêncio durou o tempo de três respirações lentas. Estalou a língua contra o céu da boca.
— Pois bem. — Licaão virou as costas para a colina. — Eu esperarei sua melhora, garoto. Mas não abuse da minha paciência. O sangue dos deuses não se derramará sozinho.
Lycomedes e Calixto franziram o cenho ao se entreolhar.“O sangue dos deuses?” Seus pensamentos quase ecoaram.

Regras dos Comentários:
Para receber notificações por e-mail quando seu comentário for respondido, ative o sininho ao lado do botão de Publicar Comentário.