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    [ Um ano depois – 1903 ]

    Em kimonos calorosos, Masaru e Naomi estavam no dojo recém implantado na residência, um salão amplo com piso de madeira polida onde ela treinava diariamente. Ele a observava praticando as formas animais com chamas, a arte da guerra.

    Quando a técnica terminou no último golpe, Masaru aproximou-se. — Preciso te perguntar algo — informou, nervoso de uma forma nunca vista.

    — O que foi?

    Ele respirou fundo. — Minha família tem pressionado. Querem que eu me case para gerar uma filha e colocá-la na disputa do matriarcado. Já chegaram a sugerir candidatas.

    Naomi sentiu o coração esvaziando. As pernas perderam força, e um leve tremor balançou suas íris verdes.

    Não existia dúvida sobre seu amor por Masaru.

    Mas, no fundo, após anos sob cuidado e proteção, sustentava-se a ideia de que tudo ensinado por ele vinha apenas de um senso de retribuição. Cozinhar, cuidar da casa, receber encomendas, lidar com civis… todas as práticas distantes da realidade de uma princesa imperial foram aprendidas para a melhora na rotina monótona e sensação de liberdade.

    O amor verdadeiro nunca foi antes sentido pela meiliana, que diante dele, falhava na direção.

    Masaru conduzia cada ensinamento com a mesma seriedade de sempre. Havia nele a marca de uma criação rígida: disciplina constante, emoções contidas e controle acima de tudo.

    Naomi o desejava, mas a timidez erguia barreiras que nunca cediam; do outro lado, Masaru mantinha postura culta e profissional, sem jamais cruzar os limites de uma amizade equilibrada, onde ambos aprendiam um com o outro.

    Às vezes, existiam momentos de breves brincadeiras onde ambos se divertiam, mas no final, sempre acabava com Masaru retornando aos estudos acadêmicos e Naomi terminando os afazeres da casa.

    A possibilidade amarga foi aceita pela garota: talvez Masaru nunca tivesse sido destinado a ela.

    — Entendo… Sua família com certeza conhece as melhores mulheres para a progressão de sua linhagem.

    — Negativo, recusei todas.

    A revelação caiu como uma bomba de esperança para a garota.

    — Por quê?

    Com a seriedade permanente, Masaru tocou na ponte dos óculos com o rosto ficando vermelho. — Só existe uma pessoa que quero ao meu lado. Alguém que compartilha meus ideais, sonhos, e medos — ele pegou a mão dela. — Naomi, me aceitaria como seu homem?

    Naomi olhou para as mãos entrelaçadas. Pensou no um ano de confiança construída, nas conversas noturnas, nos sonhos compartilhados sobre mudar o mundo.

    E percebeu que desde sempre, suas decisões valeram a pena.

    — Sim! — respondeu, sorrindo. — Eu aceito.

    *artezinha promocional 😊*

    O casamento aconteceu numa cerimônia tradicional no Templo Miyazaki.

    Naomi vestiu um shiromuku branco puro, o rosto coberto por um tsunokakushi escondia os “chifres do ciúme”.

    Masaru trajava um montsuki negro formal com o brasão Miyazaki nas costas.

    A família inteira compareceu, trinta e sete membros, desde a matriarca de cinquenta anos até as crianças pequenas.

    De fato, a família ígnea raramente aceitaria um integrante estrangeiro em sua linhagem, inclusive uma rival. Todavia, aos Miyazaki, a força estava acima de qualquer origem, e Naomi, provara que tinha o necessário… 

    Quando o sacerdote declarou a união completa, Naomi oficialmente abandonou o último vestígio de Huo’ying e tornou-se Miyazaki.


    A matriarca da época, Sachiko Miyazaki, era uma mulher de cinquenta anos, com cabelos e olhos negros afiados que nunca perdiam detalhes. Ela comandava a família com mão de ferro, exigindo obediência e lealdade total ao governo asahiano.

    Naomi a via em reuniões familiares, discutindo estratégias militares, planejando campanhas expansionistas, falando casualmente sobre “sacrifícios necessários” que significavam civis mortos.

    Não demorou muito para que a meiliana percebesse que estava diante de uma cópia de sua mãe. Ou seja, ela novamente se via nas rédeas de uma soberana ígnea disposta ao sacrifício de qualquer um por poder.

    Uma decisão foi tomada.


    Em uma noite na mesa do quintal de sua residência, Naomi expressou-se a Masaru: — Preciso me tornar matriarca.

    A xícara quase escapou da mão do Miyazaki. — Agora?

    — É a única forma. Sachiko serve cegamente ao governo e segue perpetuando caos em territórios vizinhos. Se eu assumir o controle da família, posso mudar isso. Posso redirecionar os Miyazaki e fazê-los proteger ao invés de conquistar.

    Masaru pousou a xícara no pires, preocupado. — Sei de sua força, mas desafiar a matriarca significa enfrentar a áurica ígnea mais forte de Asahi em um duelo até a morte ou rendição absoluta. Você é muito nova, mal alcançou a maioridade. E… você sabe dos requisitos, certo?

    — Bom, você nunca me falou sobre, só das regras de combate quando assistimos.

    — Para desafiar o matriarcado, a candidata precisa ter uma filha com sangue Miyazaki. É uma tradição que simboliza de forma legítima que a candidata é uma verdadeira mãe na família. Sem isso, o desafio nem é aceito.

    Naomi calou-se, e com um leve susto, compreendeu. Seu rosto inteiro queimou em vermelho. — V-você quer dizer que… que nós… que eu preciso… — ela não sabia como formularia a frase, seu corpo agitado escancarava seu constrangimento sob a irritação. — M-Masaru!

    — É o protocolo — respondeu, sério como sempre, mas a orelha esquerda estava minimamente incandescente. — A matriarca precisa fazer juz ao nome. E como você é a desafiante, precisa provar que tem um herdeiro antes do duelo.

    Naomi cobriu o rosto com as mãos. — I-isso é… você poderia ter mencionado isso antes.

    — Li todos os registros familiares com você. O capítulo sobre sucessão matriarcal estava bem claro.

    — EU IGNOREI AQUELA PARTE!

    Masaru tossiu. — Bem… não devia.

    O silêncio constrangido voltou.

    As cigarras cantavam ao longe. O vento balançava as cerejeiras, e a jovem permanecia vermelha e evitando contato visual perante os olhares sérios de seu amado.

    Quando Naomi finalmente devolveu o olhar, revelou determinação apesar da vergonha. — Pois bem… quanto tempo temos?

    — O desafio precisa ser anunciado com antecedência, e a candidata precisa apresentar a filha antes da cerimônia. Então, tecnicamente, o tempo da gestação somado aos meses de preparo, quase um ano inteiro.

    — Um ano? — refletiu Naomi, retraída, apertando as mãos entre as coxas.

    — Sim.

    — E nós… precisamos…

    — Sim…

    Masaru observava o jeito acanhado de Naomi. Como ela fora uma princesa privada, sua mente foi blindada contra todo tipo de ato carnal, e certamente, tal condição exigiria paciência e compreensão.

    Por sorte, o marido sobrava nas qualidades necessárias.

    Ele se levantou da mesa, e lentamente, abraçou sua jovem esposa por trás. A reação dela foi um olhar curioso, aqueles toques eram mais reservados do que pareciam, mas aconteciam. — Fique tranquila, meu bem. Faremos tudo juntos, como sempre fizemos. Jamais irei te abandonar.

    Com ternura, Naomi acariciou a mão que a envolvia e recostou a cabeça em no peito do amado. — Prometo te proteger, e também, proteger nossa futura família.

    Sob as cerejeiras em flor e a noite estrelada, um amoroso acordo foi selado.


    Naomi estava grávida.

    A confirmação veio em casa, através de uma senhora contratada, uma parteira de sessenta anos com mãos experientes e olhos gentis que examinou Naomi e declarou com certeza absoluta: — Duas luas. É uma menina saudável.

    Masaru, que esperava do lado de fora, quase desmaiou de alívio quando ouviu…

    A notícia espalhada pela família Miyazaki teve reações mistas.

    Alguns ficaram empolgados, finalmente uma candidata forte ao matriarcado. Outros ficaram desconfiados com uma estrangeira desejando ser a próxima líder…

    Durante um jantar familiar na Mansão de Chamas, Sachiko Miyazaki, a matriarca atual da época e mãe de Masaru, recebeu a notícia com um sorriso frio. “Então a refugiada finalmente decidiu desafiar minha liderança”, pensou, encarando Naomi distraída do outro lado da mesa longa. “Já derrotei inúmeras mulheres que ousaram me contestar. Gloreio a coragem delas, mas esta em questão me passa uma energia diferente. Talvez ela tenha muito mais do que só confiança…” O rosto abaixou e o sorriso cresceu. “Mal posso esperar…”


    [ Seis meses depois ]

    O nascimento de Hiromi aconteceu numa tarde de primavera na residência de Naomi, que entrou em trabalho de parto ao amanhecer. Masaru ficou ao lado durante as doze horas seguintes, segurando a mão dela, enxugando o suor, sussurrando encorajamentos.

    Quando o choro do bebê surgiu, lágrimas finas caíram de ambos.

    A parteira limpou a recém-nascida e a colocou nos braços de Naomi. — Uma menina — anunciou, sorrindo. — Saudável e forte.

    Naomi olhou para a filha, que em seu colo, terminou com o choro.

    Então, os pais a contemplaram.

    Cabelos negros e poucos fios vermelhos. Olhos fechados. Pele rosada. Pequena, frágil, mas perfeita.

    — Oi — sussurrou Naomi, emocionada. — Eu sou sua mãe.

    Masaru se inclinou, acariciando gentilmente a cabeça da filha. — E eu sou seu pai. Bem-vinda ao mundo, pequena…

    Durante os três dias seguintes, eles debateram nomes. Masaru sugeria nomes tradicionais. Naomi propunha nomes que continham significados de esperança.

    Mas nenhum parecia certo.

    Até a terceira noite, quando Naomi segurava a filha perto da janela, observando a lua cheia. 

    — Hiromi — disse de repente.

    Masaru olhou. — Hiromi?

    — “Beleza abundante” — traduziu, sorrindo. — Será ela quem trará a beleza a um mundo que precisa tanto dela.

    Masaru pensou por um momento. — Hiromi Miyazaki… Perfeito.

    A filha foi nomeada…

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