Já passava do meio-dia quando a tragédia chegou por inteiro à casa dos Ignivor. A notícia da morte do rei e da coroação do príncipe Ryota corria pelas ruas como fogo sobre palha seca, e dentro da mansão, ninguém mais andava, todos corriam.

    — Temos que sair da cidade — disse Eiko, com a voz embargada pela urgência. — Agora. Antes que fechem os portões.

      Akari concordou, pálida como as cortinas brancas balançando com o vento que atravessava a sala principal. Edward, ao lado da mãe, não disse nada. Apenas segurou sua espada ainda embainhada e apertou os punhos. Lianna também estava ali, com os olhos arregalados e as mãos trêmulas. Ela correu junto a Edward até o quarto dele, subindo as escadas antigas com pressa, como se o tempo lhes escorresse pelos calcanhares.

      Dentro do quarto, o rapaz puxou as malas, jogou-as sobre a cama e começou a empurrar roupas para dentro delas, sem pensar, sem escolher. Eles não tinham tempo para levar tudo. Lianna o ajudava, dobrando as roupas o melhor que podia, mas seus olhos se desviavam para os cantos do quarto, buscando qualquer coisa que pudessem esquecer.

      Foi então que ela se abaixou e, debaixo da cama, encontrou a caixa. Era de madeira escura, com o brasão da casa Ignivor esculpido na tampa. Era o presente deixado por Hiroshi antes de partir. Edward  congelou ao vê-la.

    — Eu… não posso — murmurou ele. — Isso me lembra o vovô. Eu… não consigo abrir agora.

      Lianna concordou, respeitando a dor que nascia nos olhos âmbar dele. Edward  segurou a caixa por um momento e depois a entregou a ela.

    — Fique com ela. Esconda. Guarde bem.

    — Eu vou — respondeu ela, firme.

      Edward  se aproximou. Suas mãos seguraram as dela com ternura, e os olhos dos dois se encontraram, cheios de medo e despedida.

    — Vá para a sua casa, Lia. Vá para a mansão Ferres. Agora.

    — Eu não quero te deixar, Ed…

    — Mas tem que ir — respondeu ele, engolindo a própria dor. — Eu… Vou para Fiamoria. Assim que puder, eu volto.

      Ela não respondeu. Apenas se jogou nos braços dele. O beijo foi rápido, mas desesperado. Como o último sopro de vida antes do silêncio da morte. Quando se separaram, Lianna correu. Os olhos marejados dela ficaram na memória de Edward  como uma cicatriz que ainda não doía, mas nunca iria sumir.

      Não demorou até que a casa Ignivor se tornasse silenciosa. Estavam todos disfarçados agora, vestidos como plebeus, com roupas surradas e rostos escondidos por capuzes. Carroças substituíram as carruagens. Em vez de estandartes, havia lonas rasgadas. Entre as carroças estavam servos leais e soldados disfarçados, dispostos a proteger a fuga com a própria vida.

      A capital estava inquieta. As ruas cheias. Mas os Ignivor se moviam como sombras entre os becos. Quando se aproximaram dos portões de saída da cidade, a tensão se fez palpável. Soldados revistavam cada carroça. Um deles, jovem e de olhar atento, franziu o cenho ao ver Akari, mesmo com o capuz cobrindo-lhe parte do rosto.

    — Espere um pouco… — disse ele, aproximando-se. — Essa mulher…

      O coração de Edward disparou. Akari baixou ainda mais a cabeça, mas era tarde demais. O soldado recuou um passo, arregalando os olhos.

    — Ela! Eu a reconheço! É Akari Ignivor!

    Antes que o alarme fosse dado, uma voz forte cortou o ar.

    O capitão Vance soltou um grito quando viu os olhos do guarda se arregalarem ao reconhecer Akari sob o capuz.
    — Eles nos descobriram! — bradou ele, puxando uma espada longa que estava oculta entre fardos de palha. — Pelo nome de Ignivor, preparem-se para lutar!

    — Edward, vá! Proteja sua mãe! — gritou Vance.

    — Eu posso lutar! — retrucou o rapaz, com os olhos flamejantes.

    — Você deve sobreviver! Vá!

      A carroça da frente disparou. Edward, Akari e Eiko estavam nela. Atrás deles, gritos, metal se chocando, e o som de cavalos em disparada.

      Os soldados disfarçados saltaram das carroças como lobos despertos de um pesadelo. Em segundos, as espadas foram sacadas, lanças erguidas e escudos formaram um arco de defesa improvisado diante da multidão que começava a se afastar, gritando. Os homens da capital ainda hesitavam, atônitos com a súbita virada, mas logo as ordens vieram.

    — Submetam-nos! Eles estão traindo a coroa!

      Homens em armaduras reluzentes desceram dos degraus da muralha com lanças em riste, outros cavaleiros viam de dentro da cidade montados em corcéis de guerra que bufavam como demônios famintos.

      Vance cravou os calcanhares no chão de terra batida e assumiu a linha de frente. Seu escudo exibia o brasão da família Ignivor — uma Fênix Flamejante .
    — Eles não vão passar por nós! — rugiu ele.

    O choque foi brutal.

      Lanças bateram contra escudos com um som oco e metálico, espadas faiscaram ao colidir com armaduras. Um dos guardas de Vance, Edric, enfiou sua lança nas costelas de um cavaleiro, fazendo-o tombar do cavalo, gritando de dor. Mas logo outro veio e atravessou Edric com uma estocada reta no abdômen.

      A linha dos Ignivor resistiu, mas a cada minuto mais cavaleiros da capital se somavam ao cerco. Eram apenas cinquenta contra o dobro, e ainda assim lutavam como cem. Um dos soldados da casa Ignivor teve o braço decepado por um machado, e mesmo sangrando, ainda agarrou a perna do oponente e o derrubou, mordendo sua garganta como um cão desesperado.

      Vance rodopiava sua lâmina com precisão letal, abrindo gargantas, partindo joelhos, esmagando narizes com o escudo. Mas até ele sabia que o tempo era tudo o que podiam conquistar. Cada segundo valia uma vida.
    — Protejam a família! — gritou ele.

    A carroça dos Ignivor já havia cruzado o portão externo, disparando estrada afora.

      Uma saraivada de flechas caiu sobre os defensores. Dois guardas caíram, crivados, mas um deles ainda teve forças para se erguer e enfiar sua espada no chão, apoiando-se nela como uma estaca para impedir um cavalo de passar.

      Sangue escorria pelos paralelepípedos da estrada. Homens gritavam, cavalos relinchavam, armas tilintavam como sinos de guerra. O cheiro de ferro, suor e morte enchia o ar.

      Vance parou por um momento, arfando. Seu escudo estava rachado, sua armadura amassada no ombro. Sangue escorria de um corte em sua bochecha. Quando viu mais cavaleiros contornando a lateral, entendeu que era o fim.

    — Queimem em nossos nomes! — bradou, e lançou-se contra o inimigo mais próximo.

      O cavaleiro da capital contra-atacou com um golpe diagonal. Vance aparou, contra-atacou e fincou sua espada no ventre do homem. Outro o atingiu no flanco. Ele caiu de joelhos, mas ainda assim cortou os tendões do cavalo mais próximo, fazendo a besta e o cavaleiro ruírem ao chão. Antes que pudesse se erguer, uma lâmina cravou-se em seu peito. Ele tombou.

     Quando o último dos guardas Ignivor caiu, mais de cem corpos cobriam o chão dos portões da capital. Sangue corria como rio. Mas a família escapara. O sacrifício estava completo.

      A carroça sacudia desgovernada pela estrada de terra, coberta pela poeira que os cascos dos cavalos deixavam para trás. Akari segurava Eiko nos braços, tentando mantê-la firme enquanto os gritos e sons da batalha na cidade ficavam para trás como ecos distantes. Os servos fiéis conduziam os animais o mais rápido que podiam, mas não eram cavaleiros. Não tinham treinamento militar. Estavam fugindo. E eles sabiam que estavam sendo caçados.

    Edward  estava em pé na traseira da carroça, com os olhos fixos no horizonte atrás deles.
    — Três cavaleiros… — murmurou, apertando os punhos. — Eles estão se aproximando rápido.

      O vento soprou forte quando o primeiro deles chegou a distância de ataque. Um homem com armadura prateada e elmo sem insígnias ergueu a espada acima da cabeça.

    Edward  ergueu a mão, e o ar ao redor dele tremeluziu com calor.
    — Ignis Lancea!. — murmurou.

      Uma rajada de chamas em forma de lança disparou de sua palma, cortando o ar como um cometa escarlate. O impacto foi direto. O cavaleiro explodiu em chamas, o grito sendo abafado pelo rugido do fogo. Ele caiu do cavalo, o corpo carbonizado antes mesmo de tocar o chão.

      O segundo veio logo atrás, desviando do rastro de cinzas do companheiro. Em um movimento ágil, saltou do cavalo e aterrissou na carroça, espada em punho. Edward  se virou a tempo de bloquear o primeiro golpe com o próprio braço revestido em fogo mágico, mas sentiu a força do impacto.

    — Saia da minha frente! — gritou Edward, com os olhos brilhando em âmbar flamejante.

      Com um salto, ele girou o corpo e, usando a sua adaga presa à cintura, cortou horizontalmente. O aço incandescente encontrou carne e osso. A cabeça do inimigo voou para fora da carroça, o sangue jorrando como um jato quente no ar.

    Mas então veio o terceiro.

      Ele não buscava Edward. Mirou direto no cavalo da frente. Com uma precisão cruel, cravou a lança no pescoço do animal, que caiu com um guincho agonizante. A carroça perdeu o equilíbrio e tombou para o lado.

    Edward  tentou agarrar sua mãe e avó, mas tudo virou caos — madeira estalando, gritos, poeira. Ele rolou na terra e se ergueu com dificuldade, tossindo.

    — Mãe?! Vó?!

      Akari e Eiko estavam caídas a alguns metros, se mexendo, mas feridas. E à frente dele, desmontando de seu cavalo com frieza, o terceiro cavaleiro caminhava, com a lança agora trocada por uma espada curta e um olhar vazio de piedade.

    Edward  se pôs entre ele e sua família.

    — Você não vai tocar nelas. — disse ele, os olhos ardendo como brasas.

      O cavaleiro avançou. Edward  desviou da primeira estocada e contra-atacou com uma labareda giratória que explodiu ao contato. Mas o homem era mais rápido do que os outros. Mesmo com parte da armadura chamuscada, continuou lutando, impiedoso, brutal. A espada dele raspou o ombro de Edward, abrindo um corte fundo.

    Edward  recuou, ofegante.

    — Calma… concentra… — sussurrou.

      Quando o cavaleiro tentou golpeá-lo novamente, Edward  invocou um círculo de fogo aos pés do inimigo. As chamas subiram como cobras famintas, queimando-lhe as pernas. O homem gritou, mas antes que pudesse reagir, Edward  pulou, girou no ar e cravou sua lâmina ardente no crânio do inimigo, dividindo-lhe a cabeça em duas.

    O corpo tombou.

    Edward  caiu de joelhos, suando, tremendo. Quando olhou para trás, viu Akari tentando se erguer, o rosto sujo de terra e sangue.
    — Ed… cuidado…

    Ele se virou.

    Dois novos cavaleiros se aproximavam a galope. Mas não eram da guarda real.

    Eram aventureiros. Capas de couro, armaduras leves, olhos famintos. Um deles sorria com os dentes manchados.
    — Olha só o garotinho valente… queimando cavaleiros reais. Vai dar uma boa recompensa pela cabeça, não vai?

    Edward  se levantou devagar, o fogo brotando de suas mãos novamente.
    Seu olhar era de fúria pura.

    — Venham, então.

      E ali, no meio da estrada ensanguentada, entre a fumaça da carroça tombada e os corpos queimados, ele se preparou para mais uma batalha.

    Regras dos Comentários:

    • ‣ Seja respeitoso e gentil com os outros leitores.
    • ‣ Evite spoilers do capítulo ou da história.
    • ‣ Comentários ofensivos serão removidos.
    AVALIE ESTE CONTEÚDO
    Avaliação: 0% (0 votos)

    Nota