O sol mal tinha nascido no horizonte quando os irmãos Ignivor se separaram diante dos portões da mansão. O pátio de pedra ecoava os cascos dos cavalos e o som das ferraduras era como o rufar de tambores de guerra.

      Sayuri montava um corcel preto, veloz e disciplinado. Carregava consigo apenas uma mochila com provisões, duas adagas presas ao cinto e um pergaminho com o mapa das dunas de Vharad. O calor da região nordeste de Imperion, próxima ao deserto de Zarephion em Aethernia.

      Já Haruki e Hizuke seguiram rumo ao sul, para Alderan. Tinham um objetivo: encontrar a salamandra solar antes que o dia se encerrasse.

      Sayuri cavalgava como se o vento estivesse ao  seu lado. A estrada de terra seca se estendia em curvas tortuosas, ladeada por colinas escaldantes e campos onde poucas árvores ousavam crescer. Os cascos do cavalo erguiam pequenas nuvens de poeira avermelhada, que grudavam em sua pele e roupas.

    Ela não parava. Sabia que, se o tempo se voltasse contra ela, toda sua família pereceria sob as garras do Duque Tanaka.

      Ao meio-dia, como previra, chegou ao antigo Templo do Sol. O santuário estava em ruínas, mas ainda havia vida entre os destroços: curandeiros, eremitas e velhos boticários que cultivavam plantas em estufas de vidro e madeira. Com ouro e com autoridade, Sayuri conseguiu o que precisava: um pequeno feixe de folhas de Yvalen, cuidadosamente embaladas em pano grosso e seladas com cera.

    Ela agradeceu, montou de novo e voltou para a estrada.

    Enquanto isso a estrada até Alderan era longa, mas segura.

    — Você acha mesmo que alguém venderia sangue de salamandra solar? — perguntou Hizuke, ainda cético, enquanto cavalgavam entre as colinas do sul.

    — Essa cidade vive do comércio de partes de monstros. Dizem que até ferrões de manticora já venderam ali. Se alguém capturou uma salamandra… vai vender. Sempre vendem — disse Haruki, sem tirar os olhos da estrada.

    Alderan apareceu no horizonte no final da tarde — uma cidade grande, de casas baixas, com uma feirinha coberta de lonas estendidas e estalagens barulhentas. O cheiro de carne seca, suor e especiarias enchia o ar.

    — Vamos direto ao mercado — disse Hizuke.

      Foram guiados até um barracão escondido entre tavernas. Lá, um velho comerciante de olhos opacos e dentes dourados os recebeu com cautela.

    — Sangue de salamandra solar? Difícil… perigoso… caro — disse ele, coçando a barba.

    — Quanto? — perguntou Haruki.

    O velho sorriu. E disse o preço. Era uma fortuna.
    — 300 moedas de Eldros — disse o velho

    Haruki pagou sem hesitar.

    O frasco foi entregue envolto em pano grosso, com a recomendação de manter em local fresco.

      O amanhecer ainda não havia dissipado completamente a escuridão quando o Duque Saito Tanaka atravessou os corredores silenciosos do castelo. Seu passo era firme, ritmado, e seus olhos refletiam um brilho frio de determinação. Atrás das grandes portas esculpidas em carvalho negro, o Rei Ryoma Rivenhart definhava em sua cama, pálido e frágil como uma vela prestes a se apagar.

      O cheiro de ervas amargas impregnava o quarto, tentando mascarar o inevitável. O soberano, outrora um homem robusto e imponente, agora não passava de um espectro, seu corpo imóvel, incapaz de se levantar ou mesmo falar com clareza.

    O duque parou ao lado da cama e suspirou, cruzando os braços.

    – Sabe, meu rei, eu o admirei no passado – disse ele, sua voz baixa e melodiosa, quase gentil. 
    – Você sempre foi um homem de honra… mas honra não governa um reino.

    Os olhos do rei, agora opacos e sem brilho, o encararam, sem conseguir responder.

    Tanaka sorriu de leve, ajeitando as mangas de seu manto escuro.

    – Você foi ingênuo, Ryoma. Acreditou que poderia manter a paz para sempre. Que poderia confiar nos seus preciosos Ignivor, cegando-se para o fato de que uma família tão poderosa nunca seria leal a ninguém além de si mesma.

    O silêncio do rei era absoluto, mas seu olhar transmitia algo próximo ao desprezo.

    O duque se inclinou levemente, observando-o com curiosidade.

    – Você ainda me culpa pela morte de minha filha, não é?

    Ryoma piscou lentamente.

    Tanaka sorriu.

    – Eu também a amava. Mas ao contrário de você, eu soube aceitar a realidade. Ela se foi.

    O duque deslizou uma das mãos até a almofada de veludo ao lado do rei.

    – Sei que hoje cedo os Ignivor correram para encontrar uma cura – continuou ele, com falsa melancolia.
     – Mas não chegarão a tempo.

    O rei tentou mover os dedos, uma última tentativa de resistência. Foi inútil.

      Tanaka pegou a almofada e, com um olhar sereno, colocou-a sobre o rosto de Ryoma, pressionando com firmeza.

    O rei estremeceu, lutando contra sua própria fraqueza. Mas não havia força em seu corpo.

    Não demorou.

    Quando a vida deixou o corpo do rei, Tanaka removeu a almofada e ajeitou os lençóis com cuidado. Observou o cadáver por um momento antes de erguer-se e abrir a porta.

    Os guardas do lado de fora endireitaram a postura ao vê-lo.

    – O rei… se foi – anunciou ele, a voz carregada de uma tristeza ensaiada. – Chamem o Conselho. Imperion não pode ficar sem governante.

    O Conselho da Coroa

      A Sala do Conselho era um salão circular de pedra escura, com um teto arqueado sustentado por colunas entalhadas com símbolos antigos do reino. Uma grande mesa oval ocupava o centro, e ao redor dela, os membros do Conselho Real estavam reunidos.

    Lorde Terz Eliot, Ministro da Guerra, um homem veterano com uma cicatriz que cruzava o rosto.

    Lady Mirianne Falcrest, Ministra das Finanças, uma mulher de feições rígidas e olhos calculistas.

    Lorde Tomas Greymark, Ministro das Leis, um homem idoso e magro, sempre com uma expressão preocupada.

    Bispo Aldred, representante da Igreja, de túnica branca e expressão impassível.

    General Halsten Drake, Comandante Supremo do Exército, um homem de voz grave e postura militar impecável.

    Tanaka entrou na sala com passos firmes, seu semblante carregado de luto.

    – O rei Ryoma morreu esta manhã.

    Um murmúrio percorreu o salão.

    – Precisamos coroar um novo rei imediatamente – continuou Tanaka. – O reino está vulnerável. E, pior, os inimigos já estão dentro de nossas muralhas.

    – De que inimigos você fala, duque? – questionou Lorde Greymark, franzindo a testa.

    Tanaka suspirou.

    – Esta traição me parte o coração, mas não posso esconder a verdade. Hiroshi Ignivor pode ter morrido como herói, mas sua família… sua família conspirava contra o rei.

    O salão ficou em silêncio.

    – Um servo confessou que foi obrigado a envenenar Ryoma sob ordens de Haruki Ignivor – disse Tanaka, lentamente, observando as reações.

    Lady Mirianne estreitou os olhos.

    – Um servo confessou?

    – Sim – confirmou o duque. – O medo da morte o fez dizer a verdade.

    O Bispo Aldred pigarreou.

    – Se isso for verdade… então o príncipe Ryota deve ser coroado imediatamente.

    O general Halsten disse em voz alta.

    – Eu concordo.

      Os demais ministros trocaram olhares incertos. Mas a ideia de uma transição rápida e a suposta traição dos Ignivor pesaram sobre a decisão.

    Minutos depois, os mensageiros foram enviados.

    A Coroação

      O sol estava alto quando a população de Pyronia se reuniu diante do grande palanque improvisado na Praça da Chama Eterna. A cidade, que ainda chorava Hiroshi Ignivor, agora se via mergulhada em outro luto.

      A multidão murmurava, preocupada, ansiosa. Os nobres se reuniram nas primeiras fileiras, enquanto os plebeus se espalhavam por todo o perímetro da praça.

    O Duque Tanaka subiu ao palanque, ao lado de Ryota Rivenhart e dos membros do Conselho.

    – Povo de Imperion! – sua voz ecoou pela praça. – Nosso amado rei Ryoma foi tirado de nós! Assassinato cruelmente pelos mesmos traidores que se escondem entre nós!

    Um burburinho se espalhou pela multidão.

    – Hiroshi Ignivor pode ter sido um herói do passado, mas sua família conspirava contra a coroa! Seu filho, Haruki Ignivor, ordenou o envenenamento do rei!

      A revolta começou a se espalhar. Nobres cochichavam, plebeus olhavam uns para os outros.

    Tanaka fez um sinal. Um servo foi trazido ao palanque, um homem pálido e trêmulo.

    – Diga a verdade! – ordenou Tanaka.

    O servo caiu de joelhos.

    – Eles… eles me obrigaram… Haruki Ignivor… ele me obrigou a envenenar o rei! – gritou o homem, em meio a soluços.

    A multidão explodiu em indignação.

    – Traidores! – alguém gritou.

    – Morte aos Ignivor!

    Tanaka ergueu as mãos.

    – O reino precisa de um novo rei. E por isso, com a benção do Conselho e da Igreja, coroo Ryota Rivenhart como soberano de Imperion!

    Ryota ajoelhou-se, o olhar sério, como se o peso da coroa já estivesse sobre ele.

    Tanaka pegou a coroa e, com solenidade, colocou-a sobre sua cabeça.

    – Viva o rei! – bradou.

    A multidão repetiu, primeiro timidamente, depois em uníssono.

    Ryota se levantou e deu um passo à frente.

    – Minha primeira ordem como rei – anunciou –, é que os Ignivor sejam capturados! São inimigos do reino! Suas terras, títulos e fortunas serão confiscados!

    A praça rugiu em aprovação.

    Logo, cavaleiros partiram para a mansão Ignivor.

    A caçada aos Ignivor havia começado.

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