Capítulo 91 - Vitória Amarga?
Arnie, Bron e os outros dez homens assistiam o fogo subindo pesado aos céus conforme devorava a madeira. O clarão alaranjado fazia sombras disformes pairarem sob seus rostos. Arnie virou e tomou uma tocha acesa enquanto Bron distribuía tochas apagadas para cada um.
— Não tenham medo — Arnie bradou. — Elchor está conosco.
As cabeças balançaram e palavras de concordância foram ditas. Ele caminhou entre eles, acendendo cada uma das tochas, e então, ao primeiro sinal, todos lançaram suas tochas contra o telhado da casa. Um estalo ecoou e se misturou ao som cada vez mais presente das chamas.
Agora falta pouco, Arnie pensou. Sorriu, orgulhoso em se tornar uma peça chave para honrar o legado de Elchor e Desmond. Talvez, após a morte dos ceifadores, ele se tornasse o novo sacerdote ao lado de Bretna. O pensamento fez seu sorriso aumentar.
Quando a primeira tocha cruzou o telhado, Anayê arregalou os olhos. O objeto quicou na cadeira onde ela estivera sentada e caiu dentro da lareira, reacendendo o fogo. Em seguida, outros objetos atravessaram o teto, caindo em diversos lugares da casa. Um na mobília da cozinha, outro em cima da mesa e ainda outro despedaçou alguns pratos e utensílios na prateleira.
Heitor ergueu um olhar duvidoso que ela não conseguiu decifrar. Embora fosse um ceifador como ela, era difícil entender o que se passava na cabeça dele.
A fumaça começava a tornar a visibilidade ruim.
— Pegue Fenrir — Heitor disse quando ela continuou em silêncio.
Ele caminhou na direção da porta da frente, mas ela se interpôs no caminho.
— O que vai fazer? — Anayê indagou.
— O que você acha?
Uma labareda começou a tomar a cadeira fazendo um estrondo quando ela tombou.
— Nós vamos embora — Anayê afirmou. — Se eles nos querem fora, nós iremos embora.
— Eles não querem nos expulsar — ele disse, irônico. — Querem nos matar.
— E você sabe que não podem.
Heitor cruzou os braços.
— O que está tentando provar?
— Só estou tentando não tornar a situação pior.
O ceifador soltou o ar pelas narinas.
— Tudo bem, tudo bem.
— Então você pega o Fenrir e eu falo com eles — Anayê ordenou.
Heitor hesitou por um instante, mas obedeceu. Meio segundo depois, voltou com Fenrir no colo enquanto a fumaça começava a se tornar insuportável dentro do cômodo.
Anayê deu um chute na porta que se despedaçou e enviou pedaços para todos os lados. Invocou sua adaga, concentrou pouca energia na lâmina e disparou uma rajada de vento curta que atravessou a casa, engolindo as chamas e espalhando a fumaça pela noite.
A ceifadora avançou a passos firmes e compassados, lenta, quase teatral e parou diante dos rostos assustados dos atacantes. Passou o olhar bem devagar em cada um, mantendo um semblante duro.
As pernas de Arnie estremeceram, espantado com a feitiçaria poderosa daquela mulher. Viu nos olhos dela a face encarnada da morte e todos os seus sonhos de se tornar um sacerdote evaporaram. Engoliu seco e fez uma prece silenciosa. Elchor, me ajude.
— O que significa isto? — Anayê indagou.
Ninguém ousou responder, então ela deu um passo à frente e repetiu a pergunta com mais autoridade.
— O que significa esse ataque?!
Atrás dela, Heitor mostrou surpresa pela atitude da garota.
A ausência de resposta fez a ceifadora balançar a cabeça, contrariada.
— Nós não queremos ferir vocês — ela falou.
E, logo depois, a adaga desapareceu de sua mão. Um dos homens não conseguiu disfarçar o espanto. Anayê quase sorriu.
— Se nos queriam fora do vilarejo, era só ter pedido.
Mais silêncio. Ela cruzou os braços.
— Essa era a nossa vontade desde o começo! — uma voz gritou.
A ceifadora virou a cabeça para a direção de onde tinha vindo a frase e viu Bretna se aproximando com passos decididos e postura altiva. A jovem de branco parou na frente de Anayê com os rostos na mesma altura. Dessa vez foi Heitor quem não conseguiu disfarçar o espanto.
Arnie não se sentiu confortável com a chegada de Bretna. Na verdade, foi atingido por uma decepção profunda com sua pessoa e por inveja da coragem da jovem tão mais nova que ele.
— Nós imploramos para vocês irem embora — Bretna pontuou.
— Bret, por favor — era Jussari se aproximando devagar, mas mantendo certa distância.
— Vocês vão ficar melhores sem Elchor — Anayê afirmou.
Porém, foi da boca para fora. Ela já não tinha tanta certeza disso e não tivera tempo suficiente para pensar a respeito.
— Você acha? — Bretna apontou para a casa semi queimada. — Olhe essas pessoas.
Os olhos da ceifadora desviaram rapidamente. Havia alguns nas portas, outros nas janelas e ainda uns escondidos atrás das paredes.
— Elas estão com medo. E não de uma… como vocês chamam? Aberração?
Bretna voltou a encará-la. Seu olhar, Anayê notou, era diferente do olhar dos homens ou dos moradores. Tinha tanta firmeza quanto mágoa ali, mas não ódio.
— Elas estão com medo de você.
Anayê suspirou fundo. Sim, Bretna poderia ter espancado seu rosto e isso doeria menos do que aquelas palavras.
Atrás dela, Heitor percebeu isso, mas preferiu continuar de escanteio.
— Ficamos melhores sem Elchor? — Bretna indagou, irônica. — A gente devia ter o direito de decidir essa questão.
A garganta de Anayê secou. Observando aquilo, Arnie se sentiu encorajado, deu um passo à frente, estufou o peito e falou:
— Bret, tem razão, vocês deveriam ter sumido.
— Silêncio, Arnie — Bretna interrompeu. — Vocês não são melhores do que eles.
Arnie franziu o cenho.
— Colocariam todo o vilarejo em risco por conta de uma vingança sem futuro?
O rosto de Arnie ficou vermelho, mas um dos homens segurou seu cotovelo.
— Fui eu quem o encorajei — Jussari revelou.
Bretna lançou um olhar de desprezo para ela, mas a mulher mais velha não retrucou. Naquele momento, tanto Arnie quanto Jussari haviam entendido que Bretna se tornara a figura mais imponente e importante para o vilarejo, ocupando o vazio deixado por Elchor e Desmond.
Bretna encarou Anayê com olhos frios.
— Se quiser, pode matar esses tolos — disse, apontando para os homens na sua retaguarda. — Afinal, vocês fazem o que querem, não é?
— Eu não vou matar ninguém — Anayê respondeu.
A mão de Bretna avançou rapidamente. A ceifadora viu. Não desviou.
Paft! O som da bofetada ecoou pelos arredores, embora o rosto de Anayê sequer tenha se movido.
— Não quer me matar agora?
Anayê negou com a cabeça.
Arnie e os outros assistiram com mais surpresa. Jussari observava e julgava que Bretna tinha perdido o juízo.
Bretna franziu o cenho, irritada. Tomou fôlego, fechou o punho e atacou.
Entretanto, Heitor segurou seu punho no meio do caminho. Bretna mirou-o, contrariada, enquanto Anayê, surpresa.
— Basta — Heitor ordenou.
A voz dele pareceu um trovão no meio de uma tempestade descontrolada.
— Nós vamos partir — ele falou.
Bretna tentou puxar o braço, mas o aperto do ceifador era como uma manopla de ferro. Ela vislumbrou a ceifadora por um instante, engoliu o restante da sua raiva e, assim que Heitor a soltou, baixou o braço.
— Vamos — Heitor disse para Anayê.
A ceifadora sustentou o olhar, mas assim que virou de costas para o vilarejo e para as pessoas, sentiu a tristeza cortar seu semblante tão profundamente quanto o vento gelado na fortaleza de Astaroth no inverno.
***
Alcançaram os cavalos fora do vilarejo, organizaram as selas e se prepararam para partir. Acomodaram o corpo inconsciente de Fenrir na sela, garantindo que as cordas o mantivessem firme.
Anayê era a encarnação do silêncio. A grande questão na mente da ceifadora era se ficara cega tentando ajudar. Será que realmente havia se precipitado? Sua decisão quase matou Fenrir e, na verdade, se não fosse por Heitor, ela não sabia o quão poderosa seria a explosão final de Elchor. Quem sabe não estariam todos mortos agora.
— Não foi culpa sua — Heitor falou montando no cavalo.
Anayê ergueu os olhos para o ceifador.
— A gente faz o melhor que pode com o que temos — ele continuou. — Nosso trabalho se resume a derrotar aberrações.
Então se inclinou sobre o cavalo focando muito bem a face triste da ceifadora.
— Mas não podemos mudar os corações dos homens. Esse trabalho não é nossa responsabilidade.
As palavras acertaram em cheio o estômago de Anayê e foram mais complicadas de engolir do que a batalha contra Elchor.
— Se quiser pensar em alguma coisa, então pergunte quais motivos a levaram ao caminho dos ceifadores e se tais motivos são justos — ele fez uma pausa proposital. — Se forem, trate de colocar na sua mente que as pessoas também podem tomar as suas decisões. Mesmo as mais tolas ou incompreensíveis.
A conversa foi breve, porém, perdurou bastante tempo na cabeça dela, maturando, crescendo, evoluindo e perseverando em seus próprios critérios.
Eles avançaram a estrada noite adentro com o vilarejo das terras cintilantes ficando cada vez mais distante, embora sua presença fosse mais presente.

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