Orson fez alguns gestos rápidos com as mãos e recitou um encantamento em seguida. Ainda assim, nada visível aconteceu.

    Então ele apenas inclinou o queixo na direção de Oliver.

    “Sua vez.”

    Oliver franziu a testa, sem entender. Ele sabia que magias regulares exigiam gestos e cânticos para serem conjuradas. Orson havia feito ambos, mas nada pareceu acontecer.

    “Tio Orson, que tipo de magia é essa?”

    Um leve sorriso surgiu no rosto do velho.

    “Você vai saber assim que tentar.”

    Oliver então imitou os gestos e repetiu o cântico. Os movimentos não pareciam complicados, embora Orson os tivesse executado com naturalidade e rapidez impressionantes. O verdadeiro problema era o encantamento. Aquilo não soava nem como universal, nem como élfico. Parecia uma língua completamente diferente.

    Orson interrompeu a tentativa várias vezes, corrigindo a pronúncia de Oliver com uma paciência irritante.

    “É velyôr, não veliór.”

    Oliver estreitou os olhos, claramente incomodado.

    “Tio Orson, que diabos de língua é essa?”

    “É dracônico.” Orson respondeu como se aquilo fosse óbvio. “Você nunca ouviu ninguém conjurando uma magia?”

    Oliver pensou por um instante. Já tinha visto Jonathan conjurando magia, mas o garoto costumava sussurrar, então ele nunca conseguiu ouvir com clareza o que era dito. Além disso, quando Archibald congelou o orc até a morte, Oliver também não ouviu cântico nenhum. Para completar, o livro <Fundamentos da Teoria Arcana> não mencionava em lugar algum a necessidade de usar línguas específicas na conjuração.

    Orson percebeu a confusão estampada em seu rosto e decidiu explicar.

    “Essencialmente, toda magia regular é um pedido feito à deusa da magia. Então, em teoria, não importa em que língua você faça esse pedido, mas as palavras e o ritmo do cântico devem ser sempre os mesmos. A menos que você conjure em dracônico.” Ele fez uma breve pausa antes de continuar. “Ninguém sabe exatamente por quê, mas magias conjuradas em dracônico costumam ter um efeito um pouco maior. É algo singelo, perto de 10%. Por isso, a maioria dos magos sérios conjura sempre em dracônico.”

    “Mestre Archibald não mencionou nada disso durante as aulas…”, Oliver pensou, incomodado com a sensação de estar descobrindo algo importante tarde demais.

    Depois disso, ele praticamente recebeu uma pequena aula de dracônico. Se fosse comparar aquela língua com alguma do planeta Terra, diria que sua sonoridade lembrava um pouco o mandarim.

    Por fim, após muita repetição e inúmeras correções de Orson, Oliver executou os gestos de mão e o cântico corretamente. No mesmo instante, percebeu uma mudança dentro de si. Sua mana foi consumida, mas nenhum efeito visível surgiu.

    Ele ergueu uma sobrancelha e olhou para o velho.

    “Hmm… tio Orson, não aconteceu nada, mas minha mana foi consumida. Isso está correto?”

    “Sim, absolutamente.” Orson parecia satisfeito por finalmente chegar ao ponto da lição. “Esse é um exemplo que eu queria te mostrar. Quando você executa a magia quase perfeitamente, sua mana ainda é consumida, mas a magia não entra em efeito.”

    Oliver ficou em choque com a informação. Sempre imaginou que, se a conjuração fosse feita de maneira incorreta, simplesmente nada aconteceria. Em vez disso, descobriu agora que uma conjuração quase perfeita ainda podia desperdiçar mana. Ou seja, para evitar perdas, a execução precisava ser perfeita.

    “Tio Orson, o que eu errei? Não entendo o que fiz de errado para que a magia falhasse.” Oliver realmente acreditava ter feito tudo da forma correta, então o fracasso o incomodava mais do que deveria.

    “Nem todas as magias necessitam de um componente material, mas essa que eu te ensinei precisa. Como você não possui um foco arcano ou o material correspondente, a conjuração falhou.”

    Oliver encarou o velho por um instante.

    Por que diabos ele ensinaria uma magia que exigia foco arcano para alguém que não possuía um? Oliver não tinha nenhum, embora se lembrasse de que Archibald e Lilian possuíam cajados. Pelo visto, magos em geral deviam portar algum tipo de foco para utilizar esse tipo de magia. O problema é que, olhando para Orson, também não havia foco arcano algum à vista.

    “Como diabos esse velho conjura magias que precisam de componente material? Ele não parece ter um foco arcano.”

    A alma de Orson brilhava em um amarelo intenso. Ele claramente estava se divertindo com aquela situação.

    Sem pressa, o velho puxou uma pequena bolsa de couro e retirou dela o que parecia ser a escama de um grande réptil. Então a entregou a Oliver.

    “Conjure novamente, mas com essa escama em mãos.”

    Oliver fez como foi instruído. A escama tinha aproximadamente o tamanho de uma moeda de ouro.

    Dessa vez, sua mana foi consumida e ele percebeu imediatamente que a magia entrara em efeito, a escama que ele segurava em mãos não desapareceu.

    Partes do seu corpo foram recobertas por uma barreira invisível de força. No mesmo instante, Oliver entendeu o que a magia fazia.

    Aquilo parecia criar uma espécie de armadura. Ele tentou tocar a própria barreira e percebeu que realmente havia algo ali. Mesmo invisível, não conseguia atravessá-la com as mãos nuas. Uma força sutil, porém firme, o impedia. Pela natureza do feitiço, Oliver percebeu que se tratava de uma magia defensiva. Ele estava curioso para descobrir que tipo de magia Orson lhe ensinaria, mas não esperava que fosse algo voltado à defesa.

    Orson sorriu de leve antes de começar a explicação.

    “O nome dessa magia é Armadura Arcana. É uma magia defensiva, uma das mais úteis que existem. Mesmo sendo uma magia de 1º ciclo, nenhum mago de ciclo mais alto é arrogante o bastante para deixar de usá-la, porque o custo-benefício dela é excelente. Antes de tudo, o mais importante para um mago é permanecer vivo, afinal.”

    Enquanto falava, Orson puxou uma faca do cinto e, sem qualquer aviso, golpeou Oliver.

    Tudo aconteceu rápido demais. Oliver não conseguiu reagir e ficou paralisado de choque. Ainda assim, para sua surpresa, a barreira invisível que havia conjurado impediu a faca a poucos centímetros de seu estômago.

    “Ei! O que é isso, tio Orson?” A indignação em sua voz era muito maior do que qualquer tentativa de manter a compostura.

    Orson recolheu a faca sem o menor sinal de culpa.

    “Apenas uma demonstração. Como você pode ver, a barreira de força que conjurou impediu que a faca te acertasse. Mas ela não é absoluta.” Ele falou com total normalidade, como se não tivesse acabado de tentar esfaquear o próprio aluno. “A armadura não cobre o corpo inteiro, por uma questão de movimentação. Além disso, pode parar um golpe comum, mas, se fosse uma magia ou um golpe imbuído com aura, não barraria tudo completamente. Alguém com força física extraordinária provavelmente também conseguiria atravessar a barreira.”

    Oliver ouviu toda a explicação, mas continuava atordoado demais para absorver aquilo com calma.

    “Velho maluco”, pensou. “Por fora ele parece centrado, mas claramente faltam alguns parafusos nele. Já o Mestre Archibald parece impulsivo e descontrolado, mas no fundo é muito mais razoável. Os dois são opostos nesse sentido.”

    Depois da demonstração, Orson guardou a faca de volta no cinto e pareceu considerar por um instante se deveria continuar.

    “Vamos encerrar nossa aula aqui. Eu não sei quanta mana você possui, então pode ser arriscado continuar.”

    Oliver relaxou um pouco os ombros. Aquilo realmente não lhe parecia um problema.

    Oliver respondeu com a maior naturalidade, atento ao rosto do velho.

    “Ah, isso não deve ser problema. Mestre Archibald mediu minha quantidade hoje. 15 pontos de mana e um fator de recuperação arcana de 33%.”

    Por um breve momento, Orson apenas ficou em silêncio.

    Ele piscou uma vez, depois outra, como se ainda estivesse decidindo se tinha ouvido direito.

    Aquilo claramente não fazia sentido para ele. Ainda assim, Oliver não parecia o tipo de criança que mentia sem motivo.

    “Ele é uma criança, afinal. É normal que minta de vez em quando”, Orson ponderou em silêncio. “Ele me passa uma sensação de maturidade, então às vezes eu esqueço que tem apenas 7 anos.”

    No fim, em vez de questionar o que ouvira, Orson apenas estendeu a mão, indicando que Oliver fosse embora.

    “Ele claramente não acreditou.” Oliver esperava uma reação mais expressiva, como a de Archibald, mas o velho simplesmente pareceu concluir que aquilo não passava de exagero infantil.

    “Nos vemos amanhã, Oliver. Vamos encerrar por hoje.” Orson se virou e começou a caminhar de volta para a cidade. “É importante que você não desapareça por muito tempo. Alguém pode sentir sua falta.”

    Oliver o acompanhou em silêncio por parte do caminho. Quando enfim retornaram a Corval, os dois se separaram.

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