VI. O Coração Negro

Ainda era inverno na vila com frio nos dedos e também na barriga.
As histórias chegaram como chegam os rumores em vilas pequenas — pela boca de viajantes que param para comprar pão, pela voz do tropeiro que passa duas vezes por mês e sempre tem novidade do norte. Desta vez a novidade não era boa.
Uma aldeia a dois dias de caminhada. Encontrada de manhã com as portas arrombadas, os celeiros queimados, símbolos riscados nas paredes com carvão. Alguns moradores mortos, outros vivos mas não se sabia por quanto tempo. Não havia sido saque — não levaram nem grão nem gado. Só deixaram os símbolos e foram embora antes do amanhecer.
Numa tarde de mercado, Réu viu a reunião.
Estava no canto da praça com Clint e Adrien quando o pai de Gareth subiu no degrau da fonte e chamou os homens da vila. Edmund Harwick era um homem de cinquenta anos com o tipo de presença que não precisa de voz alta para preencher um espaço — largo nos ombros, de barba já grisalha, com dedos áridos que mostravam estar prontos pra ação mas os olhos precavidos. Na vila, era o homem que bancava a manutenção das muralhas e pagava a guarda quando a Ordem não enviava soldados. Por essa e outras, chamavam-no Lorde.
— Três aldeias em dois meses. — disse ele, sem rodeios. — Venho pedindo reforços a Londres há seis semanas e o que chegou foram cartas.
Houve murmúrio entre os homens.
Gosse, o armeiro, estava na primeira fila com os braços cruzados e o queixo levantado.
— Então nos armamos nós mesmos — disse Gosse. — Não é novidade.
— Já estamos armados — disse Harwick. — O que precisamos é de olhos. — Ele varreu a praça com o olhar. — Ninguém entra ou sai da vila depois do anoitecer sem que alguém saiba. Ninguém vai à mata sozinho. E qualquer coisa estranha, qualquer coisa, vem direto a mim ou ao capitão da guarda.
Gareth estava de pé ao lado de Harwick com os braços cruzados e o queixo levantado, copiando sem perceber a postura do pai. Olhava para os homens da praça como se fosse sequer metade do homem que seu pai era.
Adrien estava na soleira da loja do boticário com um cesto no braço. Réu a notou porque ela não estava olhando para Harwick — estava olhando para Gareth. Com aquela atenção quieta de sempre.
— O que acha? — perguntou Clint, baixinho.
— Acho que Harwick sabe o que está fazendo — disse Réu.
— Sobre os cultistas.
Réu ficou quieto por um momento.
— Acho que são reais — disse ele. — E que não vão se parar sozinhos.
Clint bocejou. Não respondeu, o que para ele era concordância.
A reunião durou mais um tempo. Harwick dividiu os homens em grupos de vigia, organizou turnos, designou postos. Era bom nisso; havia qualidade de comando na forma como ele distribuía responsabilidades sem fazer ninguém se sentir diminuído. Réu observou e pensou que entendia, olhando para Harwick, de onde Gareth havia tirado o tamanho. A soberba era do filho. A substância era do pai.
Quando a reunião terminou e os homens se dispersaram, Adrien caminhou até Gosse e deixou o cesto na bancada da ferraria; ervas para o trabalho do dia, aparentemente. O armeiro disse alguma coisa que Réu não ouviu, e Adrien respondeu com aquele aceno de cabeça que era o máximo que ela dava quando estava satisfeita com uma resposta.
— Ela conversa com todo mundo — observou Clint.
— Ela ouve todo mundo — corrigiu Réu. — É diferente.
Ficaram os três na praça até ela esvaziar completamente. Clint foi embora primeiro — tinha arrumado trabalho na ferraria e Gosse não era homem de aceitar atrasos. Adrien ficou mais um tempo, olhando para a fonte onde Harwick havia falado.
— Você acha que vêm para cá? — perguntou ela, por fim.
— Não sei — disse Réu.
— Mas acha.
Réu ficou quieto. Havia uma diferença entre o que ele achava e o que era útil dizer em voz alta para uma garota de quinze anos numa praça vazia.
— Harwick vai tratar disso — disse ele. — É para isso que serve um homem como ele.
Adrien o olhou de lado com aquela expressão que tinha quando não acreditava em algo mas decidia não gastar energia discutindo. Depois ajeitou o cesto no braço e foi embora pela rua do boticário sem mais nada.
Réu ficou parado na praça por mais algum tempo, olhando para a linha das muralhas ao norte, e além delas, a borda escura da mata.
Voltou para a floresta naquela tarde com o peso das palavras de Harwick no passo. Contou para Mara, que ouviu sem interromper. Sua expressão se tornava mais sombria a cada frase.
— Vai ficar tudo bem — disse Mara, por fim.
— É o que dizem.
— Sim. — Ela ficou quieta por um momento, os olhos num ponto médio que Réu já sabia reconhecer. — É o que sempre dizem antes de chegarem.
Réu quis perguntar o que ela queria dizer com isso. Mas havia algo no jeito como ela disse que tornava a pergunta desnecessária.
Lirien apareceu na soleira com o livro no colo e os olhos grandes entre os dois.
— O que houve?
— Nada — disse Mara.
Lirien olhou para Réu.
Ele olhou para o chão.
— Nada ainda — disse ele.
Lirien apareceu na soleira com o livro no colo e os olhos grandes entre os dois.
— O que houve?
— Nada — disse Mara.
Réu olhou para o chão.
— Nada ainda — disse ele.
· · ·
Mara saiu pouco depois com a cesta de ervas para a floresta. Lirien sentou à mesa, abriu o livro, e começou a ler.
Réu ficou de pé por um momento. Depois sentou do outro lado.
— O pai de Gareth me preocupou — disse ele.
— Hm.
— O jeito como falou. As pessoas o ouviram. E ele falou de cultistas na floresta, de ameaças vindo de dentro da mata. Se começarem a olhar para cá com esse tipo de atenção…
— Não vão encontrar esta cabana.
— Eu encontrei.
Lirien suspirou sem erguer os olhos do livro.
— Você não encontrou — corrigiu. — Foi encontrado.
Réu ficou quieto. Então coçou a cabeça.
— Mas…
Ela ergueu os olhos de um modo que o calou por um segundo, depois fechou o livro, se levantou, e foi para o quarto.
— Vou ler aqui dentro. Você é muito barulhento.
— Eu mal abri a boca.
A porta fechou.
Réu olhou para a mesa. Fez beicinho. Resmungou alguma coisa para ninguém.

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