A casa de Harwick ficava no lado nobre da vila, perto da muralha norte, com uma janela larga que dava para a rua principal. Gareth estava nessa janela quando Luke entrou pela porta.

    — O comandante quer falar — disse Luke.

    Gareth foi.

    O capitão da guarda estava sentado à mesa da sala que havia servido de posto de comando durante a batalha. Havia papéis na frente dele, um lacre ainda fresco numa das folhas. Levantou os olhos quando Gareth entrou.

    — Sente-se — disse o capitão.

    — Prefiro ficar de pé.

    O capitão olhou para ele por um segundo. Depois olhou para os papéis.

    — Vieram notícias de Londres esta manhã. — Dobrou as mãos sobre a mesa. — O Grão-Mestre avaliou o relatório da batalha.

    Gareth endireitou os ombros.

    — Londres está satisfeita com a defesa da vila — continuou o capitão. — Consideraram a ameaça neutralizada.

    — Neutralizada. Tch.

    — Os cultistas mortos ou dispersos. A vila defendida. Baixas lamentáveis, mas dentro do esperado para um ataque desta escala.

    Gareth ficou olhando para o capitão.

    — Há mais deles na floresta — disse ele.

    — O Grão-Mestre considera que sem liderança e com as perdas sofridas, o grupo remanescente representa risco mínimo. — O capitão sustentou o olhar. — E que perseguir indivíduos dispersos numa floresta densa, sem mapas e sem reforço, representa risco maior para os soldados do que para os cultistas.

    — E os soldados?

    — Permanecem aqui. Protegendo a vila. Que é a função que lhes foi designada.

    O silêncio durou um tempo.

    — Treinamos — disse Gareth, com uma voz muito quieta — para ficar na sombra com medo do sol.

    — Treinaram para obedecer ordens — corrigiu o capitão e estreitou o olhar. — Como todos nós.

    Gareth virou as costas e saiu.

    Luke e Frank estavam no corredor. Frank com o rosto de quem já havia deduzido o resultado pela duração da reunião. Luke com a expressão fechada de sempre.

    — Londres não virá — disse Gareth.

    Frank suspirou.

    — Então vamos sozinhos — disse Luke.

    — Já era o plano.

    Gareth foi até a janela da sala de entrada e ficou olhando para a rua. A vila ainda cheirava a fumaça do dia anterior. Havia gente limpando os escombros perto do celeiro leste, tirando as tábuas queimadas com o silêncio de quem trabalha para não pensar.

    — Onde está Réu? — disse ele.

    Frank e Luke se entreolharam.

    — Não sei — disse Frank. — Não o vi desde a reunião.

    — Foi embora cedo — disse Luke. — Antes de todos nós.

    Gareth ficou quieto com aquilo por um momento.

    A porta da frente abriu e Phillip entrou com o passo de quem veio de longe rápido. Tinha lama nas botas até o joelho e um corte novo na testa que ainda estava vermelho.

    — Fui fazer reconhecimento — disse ele. — Fui à floresta, pelo lado leste, onde as árvores ficam mais abertas depois de um ou dois quilômetros.

    — E? — disse Gareth.

    — Há uma clareira. — Phillip se encostou na parede, pegando o fôlego. — A uns vinte minutos de caminhada para dentro. Uma abertura entre os pinheiros, com uma cabana de pedra no centro. Luz acesa, fumaça na chaminé. — Ele olhou para Gareth. — Não é do mapa da vila. Ninguém daqui sabia que existe.

    Gareth ficou parado.

    — Uma cabana — disse ele.

    — Pequena. Mas habitada. E há marcas no chão do claro; barro mexido, rastros de mais de uma pessoa. Recentes.

    Gareth olhou para a janela. Para a rua. Para a linha das árvores que se via ao fundo, além das muralhas.

    Ficou quieto por um momento. Depois virou o rosto para Phillip.

    — Descreve a cabana.

    Phillip descreveu. O tamanho, a pedra, a fumaça na chaminé, as marcas no barro do claro.

    Gareth ouviu sem interromper. Quando Phillip terminou, ficou parado com os braços cruzados e os olhos perdidos.

    — Eu sabia — murmurou. — Sabia desde sempre.

    Luke ergueu os olhos.

    — Era só esperar que ele mostrasse — continuou Gareth num tom calmo e convicto. — Um órfão sem nome, sem família, sem Deus. — Parou. — Jamais permaneceria do lado da luz.

    Frank abriu a boca. Gareth o olhou com uma expressão que encerrou o assunto antes que começasse.

    Ele se virou para o grupo. Phillip ainda junto à parede. Luke com os braços cruzados. Frank com as mãos nos bolsos e o queixo baixo.

    — Aprontem-se — disse Gareth. — Partimos ao anoitecer.

    · · ·

    Mara ensinava construção naval com a mesma calma que ensinava tudo. Desta vez, no entanto, o tempo era curto e o aprendizado apressado.

    O barco tinha trincas nos flancos e a calafetagem havia cedido em dois trechos da popa. Mara trouxe alcatrão da mata e ele selou as juntas com as mãos que já sabiam achar os pontos de pressão.

    Lirien carregava. Organizava com a precisão que era o talento dela — ervas medicinais em couro oleado, farinha em sacos impermeabilizados, carne seca no fundo do barco onde o peso assentava melhor. Sementes que Mara havia separado numa bolsa pequena que ela mesma carregaria. Réu observava o ritmo dela às vezes, entre um movimento e outro, e pensava que haveria um filho para o qual um dia contaria tudo aquilo.

    Ainda não havia dito nada. Guardava o pensamento com o cuidado de quem carrega água em mãos abertas.

    — Você está devagar — disse Lirien, passando por ele com um saco.

    — Estou fazendo direito.

    — São coisas que não se excluem em outras circunstâncias.

    — Um barco mal feito não é melhor do que nenhum barco. É pior, porque te dá esperança e a tira no pior momento.

    Ela parou. Olhou para o trabalho que ele havia feito.

    Mara entrou e saiu do armazém, comunicando o progresso em palavras curtas. O sol foi andando pelo céu e Réu foi acompanhando pela sombra que entrava pela fresta da parede.

    No trecho de lama entre o armazém e a beira do rio, quando foi buscar água para temperar o alcatrão, ele viu as pegadas.

    Botas pesadas, com o padrão de sola que havia aprendido a reconhecer: grevas. Armadura de pé. As marcas vinham de uma direção e seguiam em outra — percorrendo o perímetro da clareira, afastando-se entre os pinheiros do lado leste.

    Réu ficou parado sobre as pegadas por um momento.

    Voltou ao armazém.

    — Alguém esteve aqui — disse ele. — Reconhecendo.

    Mara olhou para ele.

    — Quando?

    — As marcas estão secas. Ontem à noite, talvez. — Olhou para o barco. — A calafetagem da proa ainda não fechou o suficiente. O painel de estibordo precisa de mais uma hora.

    — Quanto tempo temos? — disse Lirien.

    — Se mandaram alguém ontem para localizar, o grupo principal vem atrás. — Réu olhou para o sol. — Hoje. Talvez antes do anoitecer.

    Lirien cruzou os braços. Mara ficou com a cesta no braço, olhando para o barco.

    — Então vocês duas partem agora — disse Réu.

    — O barco não está pronto. — A mulher avisou, mas sabia que ele tinha ciência disso.

    — Está pronto para o trecho mais calmo do rio. — Ele foi até os remos e verificou os encaixes. — Há uma parte larga a dois quilômetros daqui onde a corrente amansa. Se chegarem lá antes que o grupo de Gareth entre pela borda leste, estão fora do alcance.

    — E você?

    Réu não respondeu imediatamente. Verificou o segundo encaixe e prosseguiu sem olhá-las:

    — Alguém precisa garantir que eles não chegam ao rio antes do barco dobrar a curva.

    — Réu — Lirien hesitou.

    — Posso ganhar tempo. — Ele a olhou. — Conheço a floresta melhor do que eles. Os caminhos, os ângulos, os trechos que dificultam passagem. Posso atrasar.

    — São quatro treinados.

    — Contra um batalhão. — Réu encostou o remo no flanco do barco. — Não sou um qualquer.

    — Eles também não são. — Ela não cedeu. — Têm armaduras pesadas, ódio e o que for preciso.

    — Eu sei.

    Lirien ficou quieta. Réu identificou a apreensão no olhar dela e fingiu um sorriso.

    — O que há? Você não confia em…

    — Estou grávida. — Ela o interrompeu.

    Uma brisa assoviou entre os troncos e ergueu a franja curta da testa de Réu. Ele arregalou os olhos.

    O garoto ficou parado. Mara ficou parada. Os pássaros continuavam sem cantar lá longe.

    Lirien o olhava com os olhos grandes e sérios e uma expressão impositiva.

    — Lirien — disse ele.

    — Três semanas — disse ela. — Ou quatro. Ainda não sei ao certo.

    Réu sentiu as prioridades se reorganizando com uma rapidez urgente.

    — Então não posso morrer aqui — disse ele.

    — Não podes.

    — Mas elas têm que chegar à curva antes de Gareth chegar ao rio. — Olhou para Mara. — Quanto tempo. Quanto preciso ganhar.

    — Uma hora — disse Mara. — Com uma hora estamos fora do alcance.

    — Posso ganhar mais do que isso.

    Lirien o agarrou pelo braço. Ele a olhou — o rosto que tentava ser firme e que revelava, nas bordas, tudo o que tentava não mostrar.

    — Prometa — ela ordenou.

    — Prometo — disse ele.

    Ela prendeu o rosto no pescoço dele por um momento. Ele sentiu o calor dela, o cheiro de ervas e de floresta e de algo doce e agradável. Depois ela se afastou e virou de costas e começou a mover os últimos suprimentos para dentro do barco, de modo a ocupar as mãos para não pensar.

    Mara o olhou.

    — Volta — tentava uma ordem, mas seu tom pela primeira vez em anos vacilou numa súplica.

    — Sim — o rapaz sorriu.

    — Meu menino… — Ela tocou seu rosto com uma mão, brevemente. Depois foi ajudar Lirien.

    Réu pegou o arco, a aljava, e a espada que seu melhor amigo havia forjado para ele quando se tornara ferreiro — aço bom demais para um imprestável como ele. Entrou na floresta.

    Foi encontrar seus fantasmas.

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