IX. A Escolha

Réu completou dezesseis anos no começo do verão, e o verão o devolveu à vila após uma temporada distante com uma diferença que as pessoas notavam com bocas abertas e mentes fechadas.
Embora o corpo tivesse mudado, os ombros um pouco mais largos, a postura diferente, as roupas apertando em lugares onde antes sobrav, era outra coisa, mais sutil. O jeito como ele andava. O jeito como olhava para os lados antes de cruzar uma esquina — confiante e treinado. Isso era estranho à maioria das pessoas.
O padre Anselmo o recebeu com um meio abraço que homens rabugentos dão quando estão emocionados mas não querem parecer emotivos.
— Como está enorme. — notou a meia distância que o garoto já o havia passado e não mostrava estar prestes a parar.
A visão fê-lo acordar para a moita que se instaurara sobre a cabeça do rapaz. Mandou que sentasse.
— Você precisar cortar esse cabelo — disse Anselmo.
— O senhor pode fazer como sempre fez.
O padre sorriu — pequeno, mas verdadeiro. Buscou a tesoura num instante e começou a cortar.
Conversaram enquanto trabalhava. Anselmo perguntou sobre o futuro, sobre o que Réu pretendia fazer quando fosse adulto de verdade, sobre os planos. Disse que logo ele seria grande demais para brincar de cavaleiro na floresta. Que o mundo exigia escolhas.
— A Igreja sempre teria um lugar para ti — declarou, com cuidado para oferecer algo de valor sem que pareça pressão. — Se decidires esse caminho.
— Eu já decidi, padre.
Anselmo parou com a tesoura no ar.
— Decidi que não posso seguir o mesmo caminho do senhor — disse Réu. — Preciso seguir o meu.
O padre ficou quieto por um momento. Depois continuou cortando, mais devagar.
— Promete que serás bom? — perguntou Anselmo.
— Prometo.
— Promete com os dedos à mostra. — O padre olhou para as mãos de Réu com suspeita bem fundamentada em anos de experiência.
Réu estendeu as mãos. Dedos abertos.
— Prometo de novo.
O padre sorriu. Continuou cortando.
— Você já tomou a escolha que eu esperava — disse Anselmo, depois de um tempo, com a voz ligeiramente rouca de um velho que não vai admitir que está sentindo alguma coisa. — Tornar-se-á alguém bom. Eu cria e crer-lo-ei sempre.
Réu abriu a boca, fechou, abriu de novo. Sentiu alguma coisa apertar no peito.
Lágrimas.
— Está chorando? — o padre ergueu uma sobrancelha.
— É que o senhor fez um caminho de rato aqui em cima — disse Réu, apontando para a própria cabeça.
O padre rangeu os dentes.
O cascudo foi preciso e sem hesitação.
Saindo da Igreja com as orelhas vermelhas e o coração mais leve do que em meses, Réu encontrou o grupo na praça — Adrien e três outros órfãos, os que haviam ficado na vila quando Réu passou a frequentar mais a floresta. Eles o viram e vieram até ele com o entusiasmo de quem não via alguém, mesmo distante, por tempo suficiente para sentir falta.
— Como estás? — perguntou Adrien. — Há quanto tempo não te via.
— Bem — disse Réu. — Você?
Adrien sorriu. Havia alguma coisa naquele sorriso que Réu não leu imediatamente — um excesso de atenção, uma qualidade específica que os sorrisos de amizade geralmente não tem.
— Muito bem — disse ela.
Conversaram. Os outros foram embora aos poucos, como grupos tendem a se dissolver quando duas pessoas específicas continuam falando, e então eram só eles dois.
— Pareces diferente — disse Adrien.
— Todo mundo diz isso.
— É um diferente bom. — Ela olhou para ele. — Sempre achei que serias alguém de fazer coisas grandes.
Réu quis responder alguma coisa, mas Adrien deu um passo em frente e o puxou pelo braço e o beijou.
Réu se afastou.
O olhar dela vacilou. Uma expressão passou por ela — surpresa, depois incerteza, depois aquela coisa mais dolorosa que é o começo da compreensão.
— Eu — começou Réu.
— Não precisas explicar.
— Eu preciso. — Ele a olhou. — Adrien, eu…
Ela ergueu uma mão.
— Entendo — disse ela.
— Eu não acho que entende…
— Entendo que há outra pessoa. — Ela disse isso com uma calma que custou alguma coisa, ele via. — Não é preciso mais.
O menino sentia uma pressão na sobrancelha, uma dúvida que apertava os seus olhos. Confusão.
— Por… Por que fez isso?
Então, ela suspirou, resignada com a decisão de dizer tudo para não ter de carregar junto.
— Sempre gostei de você — os olhos ainda restavam colados no chão. — Desde quando você corria de um lado para o outro com aquela espada de madeira. Apanhava toda vez e voltava no dia seguinte como se nada tivesse acontecido. — Uma pausa curta. — E quando eles me pegaram… você foi o primeiro a correr.
Réu sentiu um nó crescer em sua garganta.
— Queria te dar o que a gente nunca teve. — Ela segurou mais forte a barra do vestido. — Uma família. Um lar. Alguém que ficasse. Pensei nisso todos os dias nos últimos anos…
Ela olhava para baixo enquanto falava, segurando a barra do vestido com as duas mãos.
Réu seguiu ouvindo até o fim. Sentia que devia um tipo de respeito que as palavras dela mereciam — o respeito de não interromper.
Quando ela terminou, o silêncio foi breve.
— Perdoa-me, Adrien — disse ele. — Eu já tenho uma família. Já amo alguém.
Adrien ficou muito quieta por um segundo. Depois ergueu os olhos.
Ele deu um passo em sua direção mas ela recuou, com um gesto gentil mas claro, ela ergueu a mão para que ele parasse.
— Entendo — parecia embargada. — Fico feliz por ti.
Ela saiu. Réu ficou olhando para o céu que estava anoitecendo, com as primeiras estrelas que apareciam tímidas sobre o azul que virava índigo.
Voltou para a floresta.
Lirien estava sentada na grama fora da cabana quando ele chegou, os joelhos dobrados, o cabelo solto, olhando para as estrelas com a atenção tranquila que ela dava a tudo. Ela o ouviu chegar e abriu espaço ao lado.
Ele deitou na grama.
— Não vieste deitar-te — disse ela.
— Precisava caminhar um pouco.
Silêncio. Conforto.
— Eu beijei outra mulher hoje — disse Réu.
Lirien virou a cabeça.
— Ela me beijou — corrigiu ele rapidamente. — Foi ela. Me pegou de surpresa. Mas eu a parei.
A expressão de Lirien passou por três fases distintas em rápida sucessão: espanto, ponderação, e então condescendência.
— Começa do início — disse ela.
Contou. Quando terminou, ela ficou quieta por um momento.
— Você é mesmo um bruto sem sentimentos — declarou a garota com olhos no céu.
— Não sou.
— Ela confessou amor e você disse não tenho como retribuir.
— Disse que já amava outra pessoa! Que já tinha família!
— O que é bruto de um jeito diferente. — Mas ela estava sorrindo. Um sorriso pequeno e lateral que ela tentava esconder virando o rosto. — Que sorte a minha, então.
Ela se deitou de lado, o braço dobrado, a cabeça apoiada na mão, olhando para ele. A luz da lua chegava pelas árvores em pedaços, e um dos pedaços caiu no rosto dela.
Réu corou. Havia dias em que ele olhava para Lirien e pensava que o mundo havia feito um esforço especial naquele rosto, e a luz da lua naquele momento era o tipo de coisa que tornava impossível não pensar isso.
— Cora assim todo dia ou é ocasional? — perguntou ela.
— Cala a boca — disse Réu.
Ela riu.
Acima deles, as estrelas foram chegando uma por uma até cobrirem tudo.

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