O barco dobrou a curva na contramão da corrente.

    Mara remava. Lirien estava na proa com os olhos nas duas margens, nas pedras, na água escura.

    — Ali — disse ela.

    A silhueta no barro. A espada ornada ao lado, a cruz da empunhadura voltada para cima.

    Mara encostou o barco na margem com um golpe de remo que fez a madeira raspar nas pedras. Saltou para a margem. Lirien foi atrás.

    A mulher pegou a espada de Gareth pela empunhadura e enterrou-a funda na margem, ao lado do corpo dele. Depois fechou as duas mãos no ombro de Réu e o puxou pelo barro com a força das que sabem que não há outra opção. Lirien tomou o outro lado.

    Puseram-no no barco. Ficou deitado no fundo, com a água fria nos calcanhares e o céu acima.

    Mara ficou de joelhos ao lado dele. Examinou o ferimento no peito. Verificou o pulso no pescoço com dois dedos. Fechou os olhos por um segundo.

    — Meu menino… — ela murmurou para si. — Você lutou bem.

    Lirien, de pé na proa do barco com as mãos apertadas na madeira, levou a mão à boca. Os olhos pesavam e as lágrimas começavam a se formar.

    Mara abriu a cesta que havia levado do celeiro. Tirou um saco de couro pequeno, afrouxou o cordão. Dentro havia ervas que Réu nunca havia visto ela preparar antes — escuras, com um odor que ficava na parte de trás da garganta.

    Ela as queimou na palma da mão com o archote de reserva que guardava no barco. Murmurou alguma coisa

    Lirien segurou a mão de Réu.

    A fumaça das ervas subiu entre os dois. Mara passou a mão aberta pela ferida e murmurou mais, com uma concentração que não deixava espaço para mais nada no mundo. Réu sentiu alguma coisa quente onde havia frio.

    Depois Mara tirou o frasco pequeno.

    O chá era escuro. O cheiro era de terra e resina e gosto pior ainda. Ela ergueu a cabeça de Réu e pôs o frasco nos lábios.

    O líquido verteu pela boca enquanto Lirien massageava sua garganta.

    O calor desceu pelo peito e chegou onde o frio havia entrado.

    No pescoço, uma veia escureceu. Depois outra. Depois mais três, finas e escuras, subindo pela pele em direção ao queixo.

    Lirien apertou os dedos entrelaçados nos de Réu e chorou. Fechou os olhos e apertou os lábios.

    As veias chegaram até a mandíbula e pararam.

    O peito de Réu subiu e desceu. Uma vez. Depois mais devagar. Depois mais regular.

    Lirien sobressaltou, arregalou os olhos e se voltou para a mãe.

    Mara ficou de pé e pegou os remos.

    — Mantenha ele aquecido — disse ela para Lirien.

    Lirien puxou o cobertor que havia trazido do armazém — o cobertor velho que havia estado na cabana desde que Réu se lembrava. Cobriu-o sem dizer nada.

    O barco afastou da margem.

    A espada de Gareth ficou enterrada na beira do rio, a cruz vermelha da empunhadura prateada jazia voltada para o céu escuro. A corrente foi levando o barco pela curva e as árvores já fechavam por trás.

    Lirien ficou com o rosto voltado para frente.

    A mão dela ficou sobre a de Réu.

    O rio seguia.

    Havia vida carregada em vida.

    E havia um nome que ela guardaria para quando chegasse a hora. Um para decidir ao lado dele.

    FIM

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