O material e o imaterial, simplificações para aqueles sem a herança dos céus. Somente assim seres tão simplórios como os ivrits, qabils e europhis poderiam compreender o que os espera após a morte. Somente assim o homem dará valor à vida. Foi o pensamento de muitos euqones no início dos tempos.

    O mundo se separava em impérios. Aos poucos os homens se solidificaram no poder. A caça pela imortalidade se iniciou. Os rituais, antes clamando pela prosperidade coletiva, agora tornaram-se violentas exigências por mais anos caminhando nestas terras. 

    Os euqones foram os poucos abençoados com olhos imateriais. São a exceção da lei fundamental, seres materiais que podem interagir com o imaterial. A beleza da morte sendo vista durante toda a vida, o mais belo dos dons. Então era dever deles ensinar ao resto, serem os tutores do mundo.

    Para Ainateb, esses pensamentos ingênuos deveriam ter morrido junto aos seus antepassados. 

    Como poderiam reis e nobres, seres manchados pelo pecado, compreender o fim? Aceitar que tudo irá acabar e que nada levarão desta terra. Nada material habitará o imaterial. Isso é um conceito fundamental. Mas o terror de se imaginarem sem suas riquezas era imensurável. São imbecis. Não cultivavam amor pela vida, em seus corações a ganância emergia do piche. Suas almas são negras, abissais. Progenitoras de pesadelos eternos. Fétidas. Carne podre. 

    O resultado foi óbvio, euqones tornaram-se alvos. Cada nobre queria o seu homem e mulher exótico de olhos e cabelos brancos. Afinal, eles podem ver o que não existe. Eles podem dar vantagem antes da morte chegar. Talvez possam até estender suas miseráveis vidas.

    Tornar-se eremita foi a única maneira de cumprir com o dever e sobreviver a ganância. Vagam como curandeiros. Impossibilitados de terem um lar. Obrigados a servir todos os seres estúpidos desta terra.

    Os mortais devorariam os céus se pudessem.

    O que resta a Ainateb é a companhia de dois homens e o imenso deserto. Para além dos pequenos arbustos secos e árvores anãs, pode enxergar seus ancestrais vagando pelas areias. Pergunta-se onde estão suas sepulturas. Talvez a areia tenha as escondido para sempre. Uma pena. Foram ingênuos, porém mereciam ser lembrados e amados. 

    — Matí disse para lhe entregar um presente — Ainateb, deitada e perdida em devaneios, se permite apenas observar o europhis e o ivrit amaldiçoado através das chamas da fogueira. — Na verdade, não é bem um presente. Mas um jeito de não verem seu rosto.

    O ivrit mantém o sorriso torto ao observar o objeto em mãos. A chama da fogueira ilumina desigualmente o item, o obrigando a gira-lo constantemente. É feito de madeira, não as secas e quebradiças que nascem nessas areias. Madeira estrangeira. Ótima qualidade. Deve ter sido cara. 

    — Exótico, eu diria — por longos segundos imaginou várias finalidades para o material nobre do que uma máscara de ave. 

    — É um corvo, uma ave magnífica de acordo com Matí. Ela era visitada por um quando mais nova, o alimentava e conversava com ele — ao encarar Moshe, sentiu-se estúpido. — Já disse pra ela que não tem nada de magnífico em pássaros que comem cadáveres, mas ela insiste que… Bom, ele tem uma ideia na cabeça que…

    — Os corvos carregam almas — o ivrit o deixou mais envergonhado. 

    — Como eu disse, não se sinta obrigado a usar — Aftí observa o amigo e agoniza aguardando alguma resposta. — Tenho que tirar essas ideias dela…

    A máscara, apesar de grande, é leve. Ao vesti-la não sente desconforto, claro, a visão é parcialmente comprometida pelo longo bico. Talvez com o passar do tempo se acostume e ele se torne o seu novo nariz.

    — É muito extravagante — Aftí torcia o pescoço à procura de um bom ângulo do amigo. — Honestamente, alguns panos fariam a mesma coisa com mais eficiência.

    — Não, eu gostei — Moshe retira a máscara e a observa. — Obrigado.

    — Você não deveria aceitar algo tosco tão facilmente — o europhis resmunga incrédulo.

    Não pode fazer desfeita, é um belo presente. O bico tem furos para respirar, são inúteis, mas estão lá. Os olhos estão em uma proporção perfeita. Foi feita com muito carinho. Quando a colocou não sentiu a máscara ficar solta ou apertada demais, ela é perfeita. Extravagante? Muito. Entretanto, sente-se abraçado ao usá-la.

    — Tem algum problema, Ainateb — Moshe tenta a chamar a distância. — Posso usar essa máscara durante o dia?

    A euqone o encara com desprezo. É um ivrit com olhos negros e possuído por almas corrompidas. Mesmo longe, sente o odor pútrido de sua alma. Vestir uma simples máscara não esconderá o fato de ser amaldiçoado, ela não cobre a alma. Não esconde o abismo em teu peito.

    — Não me interessa o que você utiliza, desde que não nos atrapalhe — cansada, se deita perto da fogueira. — Faça a vigia Aftí.

    O europhis concorda com a cabeça e convence Moshe a dormir. São obrigados a dormir perto do fogo e, logicamente próximos uns dos outros. Pois levar as tendas demandaria algo que não têm. Tempo. As tendas, caso montadas corretamente, desviam os fortes ventos que a noite trás. Se montadas durante o dia, além de dissiparem, podem o armazenar o calor para maior conforto durante o sono. Infelizmente, não há tempo para o conforto. 

    São horas para a montagem das tendas. Quando mudam de local, devem estar desmontadas antes do Sol se erguer soberano e montadas novamente antes da escuridão os engolir. São preciosas horas que poderiam ser utilizadas para ganhar terreno. Irão poupar alguns dias de viagem se suportarem o frio.


    — … não… ela… desculpa… eu… eu….

    Moshe agoniza sobre a areia, pesadelos. Todas as noites geme e se contorce. É torturado em seu íntimo. Cada segundo neste estado piora o odor que exala. Ainateb cobre nariz e boca inutilmente, é imaterial. A alma está apodrecendo. Precisa vomitar. Quantos corpos habitam esse miserável? Precisa se livrar desse maldito fardo. Está sufocando. Maldito.

    Respire.

    Precisa se acalmar, o plano é levá-lo para o mais distante possível. Quando estiverem frente a frente com Yatush, o venderá. Moshe é um assassino procurado por Otige, um verdadeiro monstro segundo relatos. Um ser sanguinário deve enfrentar as consequências de seus atos. Claro, com o dinheiro conseguirá comida para o povo assim como prometeu antes de partir. 

    Um sacrifício necessário. Livramento para sua família, a doença de seu pai é culpa de Moshe. Ele estava tão bem antes desse maldito ivrit. Terminava as tarefas diárias antes da primeira gota de suor escorrer pelo rosto. Estava saudável, sim, antes de Moshe, seu pai estava bem.

    Séfora logo iria se corromper se Yitro não intervisse. Passou inúmeras noites ao lado desta praga. Agradece a Yuhiwohi por ela não ter sido imaculada. Alguém tão pura não poderia ser tocada por ele.

    O que seria de suas outras irmãs se o mantivesse por mais tempo?

    Em meio aos gemidos de horror, ela se deixa levar pela noite. O corpo está cada dia mais fraco. Sabe o motivo do constante mal-estar, tem ligação com a única certeza que nutre sua alma.

    Moshe não é o libertador, é a doença deste mundo.


    — A cada dia esse deserto desgraçado fica mais e mais quente. Deve ter uma espécie de maldição neste lugar — as olheiras de Moshe cresceram desde a partida. — Se amanhã esquentar mais, toda nossa água vai evaporar.

    — Deixe de gastar saliva ou começará a delirar — Aftí contém o ímpeto de dar um segundo gole no cantil de couro. — O Sol sequer nasceu por completo. O inferno mal começou…

    A Lua aos poucos era afugentada pelos raios solares. O trio sobreviveu a outra noite fria e já percorreu algumas centenas de metros. A frente não há nada além de dunas e atrás somente as pegadas tão temporárias quanto as frases ditas pelos dois homens. 

    Futilidades materiais, pensou a euqone.

    — Como estamos? — Ainateb balbuciou para Aftí.

    — A direção está certa, porém nenhum sinal claro dos campos de Yatush. Assim como os dias que antecederam hoje, estamos a pelo menos dez horas de distância — O Sol, por fim, venceu a Lua e agora domina por completo os céus. — Esteja preparada para dormir outra noite com as estrelas sendo nosso telhado.

    Não. Não. Não. Essa possibilidade é insana. Impossível. Irreal. Não permitirá que essa jornada se estenda por outra noite.

    — Acelerem seus animais, não temos o luxo de demorar — se imaginar dormindo perto de Moshe arrepia o corpo, a faz suar frio. — Temos bocas para alimentar.

    Dormiria no frio, longe da fogueira. Prefere sentir o corpo congelar, sim, prefere morrer enquanto o coração lentamente para do que passar outra noite com essa maldita carniça. Esse ivrit amaldiçoado não merece viver. Se somente a morte pode a separar desse cadáver ambulante, então a escolhe. Não aguenta mais…

    — Ainateb? —Alguém a chama.

    A cabeça dói. Os olhos acinzentados buscam o céu. Procuram conforto. O Sol. Está quente. Muito quente. Descansar, quer descansar um pouco. Só alguns segundos.

    — Coma um pouco, você está se esforçando muito — esferas negras com um único ponto dourado no centro a encaram. — Não se importe comigo.

    Ali, sendo observada por tantos seres corrompidos pela escuridão. Bem ali, olhando o que habita no abismo infinito que se instaurou na alma de um homem tão pequeno, vê somente a peste. O cheiro a deixa enferma. Agora, daria tudo para se tornar material e fútil como esses homens.

    — Fica… longe… — a essência pútrida envolve seu ser. — Se… afas… ta…

    Não consegue respirar. O corpo está apodrecendo. Tem que se livrar da morte.

    — Ainateb, respira — Aftí a segura pelos ombros. — Tente comer algo, qualquer coisa.

    — Aberra… — Vomitou. 

    O líquido pastoso foi atirado nas areias. Algo tão precioso desperdiçado assim. Moshe a encarou. Os olhos serrados sem vida. O corpo adormecido, deitado sobre o dromedário. Afti vê suas vestes cobertas por sobras de comida. O espírito de Ainateb não resistiu à pressão exercida por Moshe. 


    — Tenho que admitir, este calor não é natural — Aftí não mais resiste ao seu cantil.

    — Isso é irrelevante, não podemos parar — Moshe observa Ainateb desacordada, sacrificou alguns de seus panos e um pouco de água na esperança de afastar o calor dela. — Já viu algo?

    — Não…

    — Seguiremos em frente até a noite nos alcançar — pela primeira vez utiliza a máscara de madeira sob o Sol. 

    Com a figura do corvo cobrindo o rosto, sente-se calmo. O calor demora a chegar. Os pensamentos fluem. Então… a mão direita é erguida. Sua mão recebe diretamente o Sol, porém não a sente queimar. Porém seus pés, escondidos na sombra da montaria, cozinham. Ao mover a areia e penetrar alguns centímetros, a sente mais e mais quente.

    — Moshe…

    A cada acampamento que montaram, ergueram uma pequena coluna de pedras e amarraram um pano na ponta. Um método arriscado de se localizar. Elas podem cair ou serem movidas por terceiros. Porém Aftí consegue visualizar o caminho que percorreram e em que direção devem seguir.

    — Droga… — Vê perfeitamente o último pilar de pedras sendo devorado pelo solo. — Vamos partir, agora.

    Pedra por pedra desaparecendo. Transformando-se em paisagem novamente. Destruíram os pontos de referência e os isolaram. Foram rastreados. Não, estão sendo atacados.

    — Eu cuido de Ainateb — o amigo acata o pedido sem questionar.

    Montam nos dromedários que não tardam em bater violentamente os cascos contra o solo. O vento morno os encobre. O pó impossibilita o dom de Aftí, perdeu os perseguidores de vista. Mas não pode desacelerar. Deve ser um capacho de Yatush. Um caçador de escravos fujões ou um guarda. Nenhuma das opções o tranquiliza. Deveria imaginar que algo assim ocorreria.

    — O cantil! — Moshe estica a mão em sua direção. — Dê seu cantil, agora!

    O europhis arranca a bolsa de couro do dromedário e a joga para o amigo. Desesperado, o ivrit forma pequenas flechas com a água do cantil. O calor aumenta e aumenta.

    — Pula — em um instante, as flechas viraram dedos.

    Aftí vai ao chão. A areia ferve, rasga e cauteriza a carne. Bolhas logo se formarão em seu braço. Nada relevante. O sangue de um servo é descartável se comparado ao de um príncipe ou de uma euqone. É vital que os encontre antes dos agressores, porém a nuvem de poeira é um empecilho. Somente a própria montaria é visível. O pobre animal mal se mantém de pé. 

    — Moshe! Está ferdio? — deve o encontrar ou se tornar o principal alvo. — Moshe! Responda!

    O solo se agita. O dromedário geme em desespero, se debate incessantemente. Não tem mais forças. Nada além da dor o aguarda. Cedo ou tarde será devidamente sacrificado. Mas…

    — Para trás — a voz do amigo interrompe a caminhada.

    Novamente dedos d’água o empurram. A aterrisagem lhe custou o ombro esquerdo. Deslocou o membro. A areia está fervendo, muito mais do que antes. A pele, mesmo que exposta por segundos, apresenta queimaduras de segundo grau. Outro grande tremor se fez presente.

    — Aftí, fuja!

    Por fim, entendeu, o calor vem de baixo. Não é o vento ou o Sol. Algo está fervendo o solo. Algo abaixo das areias. Então o último tremor anunciou a catástrofe. O chão desmorona. Água é expelida, o suficiente para alagar Olin. A coluna hídrica  toca os céus. Fervendo como um vulcão.  

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