Índice de Capítulo

    Os K’allpaqs, tomados de ânimo e fúria, saltaram com suas pernas enormes, por cima dos anões, e se jogaram contra a Besta que Subiu da Terra.

    Eram como montanhas de dentes, garras e pêlos. Grunhiam ferozmente.

    Mas não tinham técnica. E eram mais lentos que seu adversário.

    A Besta evitou as mordidas e as patas ferinas, desviando sem muita dificuldade. Cravou a adaga no peito do primeiro K’allpaq, enquanto ele ainda estava no ar.

    No segundo, ele passou a lâmina pela lateral do corpo, abrindo um caminho sangrento em meio a pelagem branca.

    O machado de Ryon se aproximou novamente, cortando o ar, dessa vez com a mão atarracada segurando-lhe o cabo; e o martelo de guerra do outro anão vinha por cima.

    A Besta, com um salto, pisou sobre o machado, como se tivesse a leveza de uma pluma, e com um giro de corpo, atingiu um chute no rosto do rei dos anões.

    Em seguida, jogou sua adaga contra o segundo. O martelo passou por ele sem atingí-lo.

    Os elfos e fadas recitaram encantamentos e gesticularam símbolos no ar. Gelo envolveu os pés da Besta e galhos de árvore emergiram do chão, movendo-se feito serpentes, e agarraram-se à criatura.

    E vendo a oportunidade, Tâmara disparou seu fuzil gigantesco, atingindo o algoz, e centenas de micro explosivos explodiram ao mesmo tempo.

    O grande salão virou um Inferno.

    — Lírica! — Renato pegou a garota em seus braços.

    A demi-humana olhou para ele com os olhos semi-abertos. Tentou falar. Seus lábios se moveram, mas não houve som e nem palavra.

    — Não tá funcionando! — disse Mical, entrando em desespero. — Ela não tá se curando.

    Clara tocou a ferida, avaliando-a. Farejou.

    — E nem vai. Isso não é um simples machucado. É maldição.

    — Maldição? — O sangue de Lírica já tingia Renato de vermelho.

    — Aquela adaga é amaldiçoada. Nenhum poder de cura vai funcionar. Lírica irá morrer. A menos que… que a gente mate o dono da adaga.

    — Aquela coisa é rápida demais! É quase impossível tocá-lo! — disse Irina, assistindo a batalha que acontecia a poucos metros. — Eles não vão conseguir vencê-lo. Talvez nem a gente consiga.

    — Não é velocidade — respondeu Renato.

    A Besta se desvencilhou dos galhos e do gelo com facilidade e ganhou distância.

    Abriu um sorriso soberbo.

    — Ainda não perceberam que é inútil? Vocês estão começando a me irritar…

    — Não me diga… — respondeu Renato, com  sarcasmo e uma petulância aguda na voz. O sangue de Lírica estava sobre sua pele e roupas.

    — Renato… você teve sua chance. Olha só as consequências… — A Besta riu, enquanto manuseava sua adaga nos dedos. — Acho que tá na hora de chamar reforços. Isso aqui será terra desolada!

    — Será nada! — O garoto retrucou. Então, olhou para suas companheiras. — Já sei como derrotá-lo. 

    — Sabe mesmo? — A Besta olhou em volta, admirando o que tinha feito. Tantos lutadores fortes, caídos, derrotados!  A batalha já tinha sido decidida antes mesmo de começar.

    — Sei — confirmou o garoto.

    A Besta deu de ombros.

    — Você blefa bem, Renato.

    — Se tivesse visto um certo jogo, saberia que eu sou péssimo blefando.

    A Besta franziu o cenho.

    — Jogo? Do que está falando?

    — Garotas — disse Renato. — Tâmara, Clara, Jéssica, Mical, Irina… não quero que interfiram.

    — Lá vem você de novo tentando resolver tudo sozinho! — retrucou Irina. — Nós vamos ajudar!

    — Eu sei como vencer. Confiem em mim.

    — Nós confiamos, mas…

    — De jeito nenhum! — disse Tâmara. — Prefiro morrer te ajudando, do que viver sem ter feito nada!

    — O que planeja, Renato? — perguntou Clara.

    — Eu também fiquei curioso… — disse a Besta.

    O garoto ignorou a pergunta de sua companheira súcubo, mas olhou diretamente para o inimigo. Estalou os dedos e o pescoço. Se alongou.

    — Se quer mesmo saber, por que não vem me enfrentar no mano a mano? Ou será que tá com medinho?

    A Besta ficou um tempo olhando Renato, tentando decifrá-lo. Ele parecia mesmo convicto de que tinha uma ideia. Será que ele tinha, realmente, a tola crença que seria capaz de vencer? 

    Mas não fazia diferença! Mesmo que tivesse uma carta na manga ou um ataque secreto que ele não conhecia. A Besta poderia reescrever a realidade a bel prazer. Mesmo se fosse derrotado, mesmo se recebesse um golpe fatal, não importaria!

    Nem o tempo é definitivo.

    A Besta riu. Queria ver o que Renato planejava e, acima de tudo, queria esmagar esse olhar petulante cheio de esperança!

    Como ele se atreve a ter esperanças diante de um ser como A Besta? 

    Como se atreve a ter fé numa possível vitória?

    Era louco.

    E a Besta era de um tempo onde a loucura era tratada com a morte.

    A criatura do apocalipse apertou o punho em volta da adaga.

    — Quer um mano a mano? Então vem, garoto! Vou te mostrar como se luta um hashashin!

    — Vou te mostrar como se luta o condutor!

    De espada na mão, Renato disparou a correr em direção a seu algoz.

    Tâmara tentou ir junto, mas Clara a segurou pelo braço.

    A garota dos olhos âmbares tentou se soltar, mas a súcubo era forte e segurou firme.

    Tâmara tentou buscar apoio em uma das outras garotas. Talvez elas também compartilhassem de sua opinião.

    Viu que Jéssica também segurava Irina.

    Mical, por outro lado, segurava Lírica, apoiando a cabeça da demi-humana em seu colo.

    — Se o Renato morrer, a culpa será sua! — A voz de Tâmara foi quase como um rosnado de raiva

    Clara nem piscou. Sua expressão era dura feito pedra.

    A ação levou apenas uma fração de centésimo de segundo, mas para os dois engajados na luta, foi como câmera lenta.

    Indo um de encontro ao outro, Renato e a Besta que Subiu da Terra finalmente colidiram.

    A lâmina da Espada do Pecado, faminta, quase perfurou o rosto da Besta, mas a criatura conseguiu desviar bem a tempo, direcionando o rosto para o lado. A lâmina raspou de leve na pele de sua bochecha.

    Porém, do lado em que seu rosto virou, veio o punho fechado de Renato. Dessa vez, não houve chance. Um soco certeiro na região do zigomático, forte o suficiente para trincar o osso sob a pele!

    Entretanto…

    A lâmina amaldiçoada da adaga encontrou a pele de Renato, e afundou em sua carne, logo abaixo da axila.

    Um fio de sangue jorrou.

    Os dois guerreiros rolaram no chão, um grudado no outro.

    Renato não soltou seu algoz. Pelo contrário, mesmo com a dor lhe mordendo a carne, ele segurou ainda mais firme.

    O ar em volta deles vibrou.

    Todo o castelo estalou como se estivesse sob uma pressão terrível.

    Não era a primeira vez que ia até aquele lugar, mas era a primeira que levava alguém junto.

    Não devia ser muito difícil! Bastava se concentrar o suficiente.

    Renato pôde ver as moléculas que compunham a criação vibrando loucamente, como se estivessem sofrendo.

    Algo no mundo se partiu.

    Ouviu música, a música primordial, e uma dissonância que irritava os ouvidos.

    Uma sombra vazia se abriu no chão embaixo deles, e os engoliu.

    E tudo o que havia antes, desapareceu.

    Os dois lutadores apenas flutuaram no vazio infinito.

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