Capítulo 149 - Clã Zeimah vs Time Demifaiku (Parte 3): Balança e Peso

— Nev, seu danadinho! Você entrou na mente dele na hora certa!
Detroit abraçava seu colega de equipe com muita alegria, sorrindo. Esse era o mesmo sentimento nos demais membros do time.
O cougar, ajeitando as luvas, respondeu:
— É, eu mandei bem. Mas o cara era forte…
— Que forte o quê… — falava Ohio, apoiando-o no ombro. — É lógico que o “geleia” não tinha chances.
Durante o diálogo, Ametista Superior, que esboçava felicidade em seu rosto, pensava:
— “Eu estou contente com a vitória do Nevada, mas…” — ela voltou as atenções ao Clã Zeimah, do outro lado do lei tai. — “Aquela técnica… não era normal.”
Quebrando seu pensamento, Gil Son, gargalhando, expressou seu estado:
— Hehe… O cabeludo sabe mesmo lutar em grande nível! Aquele marrento do time deles nem deve saber o que aconteceu! Um a zero pra gente… e vem mais!
Amy se virou, também sorrindo. Mas não se desconcentrou por muito tempo:
— Ganhamos a primeira… e temos que manter a mesma estratégia. Eles virão com tudo…
— Relaxa, Amy! — disse o cougar. — Eles podem ser bons, mas nós estamos bem preparados.
Era uma verdade, a princípio.
Contudo, Amy tinha uma leitura além.
— “Preparados para lutar… mas agora nossos adversários viram o potencial de Nevada. E como meu pai previu: expor-se em um torneio longo é mostrar seu portfólio…”
Enquanto a líder do Time Demifaiku celebrava a vitória com seus aliados, a cena voou até a Tribuna de Honra, onde os ecos de algazarra soaram descabidos.
— Haha! É por isso que eu amo meu trabalho! Hahaha!
Bryan O’Brian gargalhava alto.
Seu sorriso característico estava brilhando mais que o costume.
Afoito por lutas, não era para menos.
Ao seu lado, de pernas cruzadas, lá estava Huli Hu Li, o silencioso guardião da arena que, com a mão no queixo, disse:
— Aquela técnica chamada Sino Imperial é um tesouro do Clã Zeimah. Lito Zyan Xi era um oponente poderoso, mas ineficiente no jogo mental.
— Haha! Você tirou as palavras da minha boca! O Nevada sabe lutar sob pressão e aplicando pressão. Os meninos do Ouro Superior são monstros!
Huli foi um pouco além.
— Se essa luta demorasse mais, Lito venceria.
— E por que tem tanta certeza, caro Huli?
— Se Lito ignorasse as provocações, o Sino Imperial sequer seria invocado.
— Hm… você está me fazendo ficar curioso. Quer que eu pergunte “por que”, não é?
O raposo levantou-se, indo até o vitral, olhando melhor o público e, principalmente, os médicos tratando de Lito.
— O Clã Zeimah é formidável na contenção de luta. Aquele golpe, a Lança Tonta, deveria ter acabado com a luta naquele instante. Porém, Nevada Clinch parece ter um corpo preparado.
— A Academia Demifaiku só tem cria trincada, haha!
— Mesmo assim, aquele golpe atinge diretamente o diafragma de dentro para fora, usando o próprio Nirvana do oponente.
Bryan completou:
— A não ser que o oponente não esteja com o Nirvana aflorado no momento do golpe.
— Exato. Nevada escolheu acabar com a luta o mais rápido que conseguisse.
— Ele entrou na mente do Lito e o expôs ao ridículo. Uma técnica inútil, no fim.
Huli olhou para o urso. Havia seriedade.
— O que foi?
— O Clã Zeimah foi ferido. A senhorita Ana Andirá está ciente disso, sabe me dizer?
— Hm… Ela está lá no lei tai, organizando a próxima luta.
— Aquela técnica está longe de ser inútil. O adversário era adaptado para lidar com ela, mas… você viu que viria mais.
Bryan ficou pensativo. Ele também olhou para o lei tai, vendo a movimentação de sua secretária fazendo os preparativos para a próxima luta.
Ele se lembrou do que Huli mencionou.
— Aquela técnica… Ele iria escalar. Nevada se antecipou e o pegou de surpresa. Se não fosse isso…
— Creio que precisaríamos de uma equipe médica maior — falou Huli, voltando a se sentar. — Nevada Clinch foi formidável, é o que eu digo.
Um silêncio veio, restando o burburinho da arquibancada.
Porém:
— Um Tier A subjugou um A+… — Huli fechou os olhos. — Nirvana aflorado e Chi potencializado não querem dizer nada quando o Karma do lutador está intacto.
— É verdade, meu amigo. E tudo isso só torna as coisas mais interessantes…
As atenções dos dois voltaram ao lei tai, com Huli pensando enquanto cruzava os braços.
— “Lito já entrou com vantagem só em ser um Tier A+. Porém Nevada cresceu e ‘ficou’ em seu patamar. O honorável Bryan O’Brian está certo: isso vai ser deveras interessante.”
Os dois gigantes da tribuna aguardavam ansiosos pelo próximo combate.
Retornando ao lei tai, na área do Clã Zeimah o ambiente era de revolta, contrariando o que era esperado após uma derrota.
O líder estava de pé, olhando para sua equipe. Seu rosto oculto por sombras parecia calá-lo também. A mão estava trêmula, mas não por medo ou nervosismo; sua irritação era tão aparente que, ao levantar o braço e usar o indicador para escolher o próximo a lutar, a tremedeira permeou o gesto não com uma prova de confiança, mas sim de exigência.
Ele apontou para o mesmo felino de pelagem bege de antes. O alinhado se levantou, caminhando em direção à arena. Antes disso, parou na frente de seu capitão, dizendo:
— Desde o início eu avisei que Lito tinha poder, mas não possuía preparo para competições… — um sorriso veio em seu rosto. — Mas tudo bem. Sementes mal plantadas ainda assim crescem. E eu já estou crescido…
Enquanto ele caminhava para o centro do lei tai, o Time Demifaiku escolhia o lutador da vez.
Porém, Ohio estava de olho em quem estava vindo e, sem hesitar, disse:
— Deixa esse aí comigo!
Amy olhou para trás, percebendo a aproximação.
— Ohio, você tem certeza?
— Quer uma certeza? — disse, batendo os punhos. — Ele vai cair… além da lona.
A chacal, animada, subiu no lei tai, acenando para a equipe.
No centro, já com os dois frente a frente, Ana Andirá fez o anúncio ao seu microfone:
— A segunda luta: Beji Sol versus Ohio!
O público foi aos berros, ansioso pela próxima luta, que foi mostrada no telão da Arena Shang Mu.
Ohio caminhava, os punhos ainda estavam para baixo. Enquanto prosseguia, o público reagiu a sua presença.
“Eh… aquela lá é uma androide, é isso?”
Cochichos bem audíveis ecoaram.
“Ela não leva vantagem lutando com aquela perna?”
Dúvidas estavam não só nas vozes, mas também nos olhares.
“Aquela moça só tem um olho. Será que isso não é injusto?”
E ainda mais questões eram ditas pela torcida.
No outro lado, caminhando calmamente, o felino bege, com seu olhar frio e firme que não tirava de Ohio, parou bem na sua frente.

Ohio se aquecia, com socos curtos e rápidos o suficiente para que só se visse os vultos. Porém, do outro lado, havia um monge a observando, calado.
Ao fim de seu aquecimento, a chacal o notou.
— O que foi? Te hipnotizei ou algo assim?
— Já está pronta? — disse, encarando-a.
— Cuidado… porque pode se arrepender.
Ohio sentiu que havia algo no ar. O teor de concentração do monge estancou suas tentativas de tirá-lo da zona de conforto. No fim, lhe entregou o silêncio, e talvez fosse o que ele quisesse.
— “Ele é diferente do outro, tá na cara.”
Ele se manteve parado, assim como a chacal.
Ana, ao vê-los a postos, gritou:
— Lutem agora!
As arquibancadas vibraram, a estrutura até tremeu.
A segunda luta começou… com os dois parados.
Beji trocava olhares com Ohio que, com a testa franzida, colocou as duas mãos próximas ao queixo, inclinando levemente seu dorso para frente.
— E aí… Vai ficar de guarda aberta mesmo?
— Por que não me ataca? — retrucou o felino bege, de braços cruzados.
Imóvel, ele não esboçou mais nada além de fazer a pergunta. Contudo, Ohio não ficou calada.
— Seu colega platinado caiu. Tá chateado?
A chacal encolheu um dos olhos, reflexo da dúvida que a cercou.
— “Qual é a desse cara? Por que fica se segurando?”
A impaciência da torcida começou a ficar visível e audível. Nada havia acontecido durante um minuto.
“E aí, gente… Cadê a luta?”
Muitos estavam de pé, gritando em coro.
“Vamos lá! Lutem! A juíza já avisou!”
Outros até batiam palmas, mas por cobrança.
“Comecem a lutar! Já está chato!”
Os burburinhos tomaram a arena.
Beji, tranquilo, falou:
— Está confusa, não está?
— Uh… Você é irritante, só isso — disse, começando a mover o dorso em zigue-zague.
O movimento ondular calou os burburinhos e trouxe gritos histéricos, típico indício de que alguém vai dar o primeiro passo.
E foi o que houve: Ohio praticamente sumiu de vista; seu vulto lateral foi o último rastro de sua presença.
E, sem precedentes, surgiu bem ao lado de Beji, gritando:
— Cruzado de direita… Jump’uncher!
Um ruído seco e pesado soou. O golpe encaixou diretamente no rosto do monge.
No lado do Time Demifaiku, uma comemoração de Detroit.
— É isso aí, Ohio! Mandou bem!
Porém, a realidade surgiu nos olhos da esquilo, contagiando todo seu time: Beji, com uma das mãos, que emanava uma aura marrom, segurou seu potente soco e, com o pé, um chute entrou preciso no abdômen da chacal.
— Técnica Divina: Balança Zeimah.
O Nirvana aflorado potencializou o contra-ataque inesperado.
Ohio recebeu o golpe, com seu rosto se contraindo e sentindo a dor, que era muita: ela se ajoelhou, colocando ambas as mãos no local atingido.
Ana se aproximou, dizendo:
— Eu vou abrir a contagem! — levantou o braço, apontando para o chão em cada número. — Um… dois… três…
Durante a contagem, Beji se aproximou. Ficou a dois metros — Ana respirou aliviada — mas:
— Você vai ficar até a oitava contagem, eu sei. Faz parte do seu estilo Demifaiku. Previsível… Tem orgulho dessa filosofia?
Ela virou seu rosto, procurando por ele. O olhar parecia o de um predador. Na quinta contagem, ela já se levantava.
Beji, de braços cruzados, a observava. Seu olhar gelado disse mais do que qualquer palavra.
— Tome cuidado quando falar do Estilo Demifaiku.
Beji mantinha a mesma postura inicial. Era quase um deboche. E isso era mais incômodo.
— Lutem! — gritou Ana Andirá.
Já estava valendo. O reinício da luta veio.
Ohio se mexeu outra vez, sumindo.
Ela reapareceu: na lateral direita.
Veio com um jab, defendido por Beji sem que ele a olhasse. Isso a fez executar outros três, todos defendidos.
O monge simulou um soco como contra-ataque, mas cessou, pois Ohio desapareceu mais uma vez — ela surgiu pelas costas.
— Soco direto… Crasher-Nado!
O golpe formou um cilindro de vento, poderoso o suficiente para fazer tremular a vestimenta nobre de Beji.
Ele se abaixou no último segundo, chegando a encostar o queixo no chão ao contrair todo o corpo, se equilibrando com um dos pés — equilíbrio pleno.
Ohio arregalou seus olhos, foram milissegundos, oportunidade de receber um contra-ataque indefensável… mas Beji só se levantou, ignorando a chance.
Os punhos de Ohio se contraíram mais — até o ruído da luva apertando foi ouvido — deixando exposto que estava tensa.
Ela voltou a fazer finta com o corpo, dizendo:
— Tá difícil responder com os punhos, não é?
Ela puxou o ar; isso não foi só visível, mas também audível. Ohio sumiu bem na sua frente, com o monge imutável em sua postura.
Segundos depois, a chacal apareceu, no lado esquerdo, e pronta com um soco carregado. Mesmo com a ameaça, Beji nem se mexeu.
— Cara, qual é a sua? Você não quer lutar, é isso? Por que não desiste então?
Novamente, um vulto translúcido da silhueta da chacal era o último rastro de sua presença. Com o grande público preocupado com o sumiço, essa não era a mesma impressão de Beji.
Durante sua movimentação impressionante — ombros contraídos, punhos juntos e pernas soltas — ela o flanqueou, na tentativa de acertá-lo.
Ohio havia encontrado uma brecha, mas sua constatação a freou antes da ação: só com o movimentar de seus olhos, Beji a viu.
Os olhos dela também encontraram os dele, fazendo-a passar com o ataque e fitá-lo.
Houve a troca.
— Eu já percebi, franjinha.
— Ah, foi? Isso é bom, porque eu já estava ficando entediado… — disse o felino, com os olhos entreabertos.
Ao lado, no Time Demifaiku, Ametista Superior avaliava a pausa.
— “Ohio parou, o está encarando… Ela entendeu o que está acontecendo…”
A plateia reagiu. Grunhidos e gritos histéricos ocorreram, todos como um mantra de batalha.
As expectativas eram altas, dado o último combate.
“Vamos com isso, Clã Zeimah! Os mil anos!”
“Beji, eles estão ganhando no placar!”
“Para de enrolar e honre as artes marciais em Shang Mu!”
Mas Beji nem se movia. Seu foco na luta era tão imersivo quanto sua vontade de minar a paciência de todos.
Confirmando isso, seu líder, cuja fronte estava sob sombras, inclinou sua cabeça em sinal de confirmação — havia algo.
— E então… — falava a chacal. — Devo te socar até que leve a sério?
— Então você percebeu, não é? — Beji debochou, um sorriso de canto surgiu de leve.
Por mais que Ohio tivesse controle em seu gênio, a postura de “não luta” estava elevando seu nível de ansiedade.
Porém, Beji tinha outros planos.
— Sabe, fico imaginando o quão patético e baixo deva ter sido seu caminho como “lutadora”… é assim que você se considera, não?
Com a guarda alta, um traço mais forte do franzir de sua testa foi visto. A concentração continuava, mas havia rachaduras.
— Lidemos com os fatos: Lito pode ser imaturo em combate competitivo, mas tanto ele como eu sabemos que isso que vocês estão tentando fazer aqui é… inútil.
Ohio só ouvia. Mas os dentes ficaram visíveis. Mais rusgas surgiram.
— Para lidar com você, postura marcial seria até uma heresia. Você não merece minha forma de luta. Já caiu com um mísero golpe… e vai cair no próximo.
— Então me mostre… e lute, franjinha! — ela bateu um punho no outro.
O mesmo ruído seco — couro contra couro — foi o intervalo entre a inércia e a movimentação quase instantânea que Beji realizou ao estar a menos de 30 centímetros de Ohio.
A chacal arregalou seus olhos — o tempo parecia ter parado — enquanto o monge dizia:
— Técnica Contundente Zeimah… Pêndulo do Imperador.
Um soco direto no diafragma de Ohio, ao trazer seu punho desde as costas até a extremidade do seu braço, foi desferido contra a chacal. O ruído do golpe foi tão forte que fez trepidar o chão do lei tai.
Aos poucos, a visão da lutadora foi se tornando turva, a ponto de que, ao realizar um passo, a força de sua perna de carne e osso cessava.
Mas, contrariando o movimento de declínio, sua outra perna, a metalizada, foi colocada em uso: o segundo passo sustentou o peso de todo seu corpo.
Contudo, os gritos de dor foram ouvidos — Ohio sentiu o golpe.
— Ahh… D-desgraçado… imundo…
Suportando o breve sofrimento, ela tentou se recompor — era uma luta e havia um adversário logo ao seu lado.
Tomou postura, mesmo na dor angustiante que lhe havia retirado o ar, se colocando em base outra vez. Nos 4 segundos de sua recuperação, Beji teve todo o tempo de golpeá-la…
Mas não o fez.
Posturado, sequer se moveu após a recuperação rápida da chacal.
— “Você teve chance de me golpear mas não fez nada?” é o que você vai me perguntar, não é?
— CALE A BOCA! — gritou ela, com sua voz cortando o ar.
O sorriso que expressava escárnio de mais cedo sumiu.
Beji falou:
— Sou incapaz de obter vantagens contra alguém que não possui condições de lutar, acho que você viu.
Esse diálogo fez com que todo o Time Demifaiku reagisse.
Nevada cerrou os punhos, seguido por Gil Son. Detroit franziu o cenho, com Amy pensando:
— “O que…?! Mas… o que…”
O conflito era outro, ela percebeu antes de todos, até mesmo do alvo.
Ohio estava incrédula, já que o entendimento veio lentamente.
Todavia, Beji encurtou o caminho até a resposta.
— Essa perna e seu olho… eles te limitam. E isso é um incômodo pra mim. Equidade… é injusta.
Um pulsar ocorreu bem dentro do íntimo da chacal.
Seu coração parecia sofrer cortes, como as lâminas do ceifeiro de um passado distante que levou dela partes do seu corpo atlético.
Mas, junto a seus pensamentos tristes, um grito desesperado trouxe um terror que já presenciou… e que voltou para cobrar o tempo.
— Maninha! Me ajuda! Não me deixa… morrer!
Algo dentro de Ohio a atingiu em cheio em seu ímpeto.
Algo como carne e aço.

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