Índice de Capítulo

    Arena Shang Mu

    Minutos antes…

    Caminhando juntos em direção ao vestiário, lá estavam Viktor e Noah.

    O trajeto pela arquibancada foi carregado de tensão: cada um dos que estavam por lá olharam para os dois, especialmente o humano. Era um misto de hostilidade e estranheza.

    O albino estava incomodado com o fato, enquanto Viktor só ignorava.

    — Viktor… — falava Noah, olhando ao redor. — Lilac disse que confia em você, porém o ambiente me mostra que ela está errada.

    — Hã? Você não confia em mim?

    — Eu não confio em te deixar sozinho, é isso. É uma péssima ideia.

    — E por quê?

    Noah não respondeu, concentrado nas reações negativas ao redor. Por mais que ignorasse, Viktor não desviou o olhar, pressionando-o.

    Assim que chegaram na entrada do vestiário, o mestiço virou para o jovem.

    — Você já esteve sozinho em um lugar onde todos não quisessem sua presença?

    — Já, sim… — suor escorreu no canto do rosto.

    O tom de sua voz — cortante e direta — entregou mais que as palavras.

    — Sabe lidar com isso, então — definiu Noah, voltando o caminho.

    Dando as costas para Viktor, ele seguiu para junto aos outros do grupo. Mas não sem antes receber:

    — Você, naquele lugar isolado… Se sentiu assim alguma vez?

    O olhar de Noah gelou, as pupilas dilataram.

    A respiração travou por um instante.

    O som se desmantelou, como um vácuo.

    Sua mente o levou sobre o Mar das Perdições Eternas, chegando à Vila Aldeia Melanmarii.

    Flashes soturnos piscaram, imagens sombrias em tom de negativo como fotos não reveladas. Um mosaico indecifrável, trazendo aflição. A forma não fechou, tampouco a compreensão.

    Mas, diante sua viagem ao passado, uma voz envolta de terror premonitório lhe soou no subconsciente:

    — O la’u taulaga ea lenei?

    Soou tenebroso, como ondas do mar no breu da noite. A luz era proibida.

    A voz era hipnótica… e queria um tributo.

    Uma brisa gelada o atravessou.

    Seu ímpeto, lentamente, retornava, no exato momento que Viktor terminou a pergunta.

    Retomando a consciência, Noah tomou ar que lhe faltou no instante e, sem olhar para trás, falou:

    — Isso é… pessoal demais.

    Viktor deu um passo para trás. Tarde demais.

    — Pessoal?! — Viktor ficou acuado. — Olha, eu não queria pressionar nem te…

    Noah se virou, cortando a voz de Viktor. Foram dois segundos de silêncio.

    — Sim — falou o albino, o fitando.

    O albino voltou a andar, com Viktor o observando ficar mais distante. Mas não sem ressalvas: pôs uma das mãos na cabeça, preocupando Viktor.

    — Ah, o que houve?

    — Não se preocupe com isso, Viktor.

    Outro silêncio veio. Ambos se olhavam, com o humano mais intenso. Noah, ressabiado, esperava.

    — Olha, você deveria comer algo, sabe? — disse Viktor.

    — Hã?

    — Noah, faz tempo que não come nada. Eu também estou com fome…

    A empatia de Viktor atingiu Noah, inesperado. Com essa sugestão gentil, não prolongou.

    — Sim… — recobrou a caminhada. — Eu farei isso…

    Viktor, vendo Noah se afastar, antes que não pudesse ser ouvido, disse:

    — A gente cresce e aprende a lidar com certas coisas. Sozinho é mais difícil, mas você pode contar com a minha companhia sempre, está bem?

    O rapaz lhe mostrou o punho direito, em sinal de apoio.

    Noah olhou para trás, mesmo sem parar de dar passos, e ficou em silêncio. Seu rosto guardava lamento, que preferiu não compartilhar.

    Ao fundo, ele avistou seu time. Lilac e Carol discutindo, Santino corado e Milla suspensa no seu ombro.

    Noah sorriu.

    E ver aquela interação o fez esquecer, por alguns segundos, as más lembranças.

    Certas coisas levariam mais tempo para serem mostradas.

    — Eles são barulhentos, mas… Eu gosto.


    Arena Shang Mu – Presente

    Arquibancada | Panteão dos Milenares

    Abertura Oficial: dentro de 3 min

    Noah havia sentido o mal agouro.

    A sensação nostálgica o enganou… ou era intencional?

    Ele não sabia. Ou sim?

    O albino estava acompanhado de pessoas que se importavam com ele; quebrou a incógnita, a condição desprendida em que quase mergulhou.

    O ruído ao redor, a algazarra amigável e estonteante, junto com sua integração ao grupo, lhe abriu os sentidos. Sons, a luminosidade do sol, o barulho de passos, o cheiro refrescante do sândalo com menta…

    Ele estava de volta.

    Mais vivo que nunca.

    Santino estava ao seu lado, assim como Carol e Milla.

    Nessa condição, o canino olhou para o lado e pressentiu alguém familiar se sentar ao seu lado.

    — Você?! — Santino olhava para Kaura Shiran, boquiaberto.

    No exato momento que o canino quase surtou, o diálogo seguiu, com Carol adorando sua reação — sua risadinha era impagável — e Milla feliz por ver a sacerdotisa novamente, a tagarela seguiu:

    — Peraí, deixa eu adivinhar: foi a linda aí que ajudou vocês nos corredores, né?

    — Ah, bem… — Santino voltou a sua cor favorita. — Ela ajudou sim, hehe… Ajudou bastante.

    Carol já sabia exatamente o que sua vermelhidão significava.

    — “Mó fofin isso aí, nyah!” — escondeu o rosto na própria cauda.

    — É aquela moça bonita que apareceu lá no corredor! — apontou Milla, sorrindo. — Oi, moça! Obrigada, tá?

    Kaura acenou, felicidade estampada no rosto. Ela continuou a conversa, olhando para Santino.

    — O que fez durante esses últimos momentos antes de vir para cá, nobre lutador? Aliás, qual seu nome?

    Ele estava visivelmente desconfortável. Carol havia percebido e fez as honras:

    — O doggo aqui foi convocado por mim… e o nome dele é Santino Rock, nyah!

    Carol esboçou um sorriso, de quem fez um favor enorme. Santino engoliu seco, tímido em um nível até inesperado.

    Todavia, Kaura manteve a mesma linha tênue de “boa visitante”.

    — Foi louvável a forma como você conduziu aquele conflito no distrito dos Geiza. Cuidar e acalmar o coração puro daquela garotinha… — apontou para Milla com o leque fechado. — Não foi só o correto. Foi lindo.

    Santino coçava a nuca, tentando encontrar alguma forma de se acalmar.

    Carol estava ao seu lado — e isso aconteceu:

    — Vermelhinho, coceirinha, gaguejando… Tu é uma Wiki de clichês de desenho, doggo!

    — Ei! Pare de falar bobagens, kiddo! — rosto mais corado.

    — E eu tô falando mentira? Pô, mano… me ajuda a te ajudar! Você tá querendo mais que amizade com a “flor do campo celestial” aí, nyah!

    Ele arregalou os olhos mais do que o normal, se virando para Kaura. Ela, por sinal, ouviu a conversa inteira, e escondeu seu rosto ao abrir o leque.

    Uma gota surgiu no rosto de Santino, ao mesmo tempo que Kaura baixava lentamente o utensílio que tinha nas mãos, dando uma olhadinha — ela chegou a elevar suas sobrancelhas.

    Os dois, com força, começaram a gargalhar, quase incessante.

    — Haha… Kiddo, de todas as brincadeiras que você fez…

    Kaura tinha fechado o leque, sorrindo enquanto puxava ar.

    — Eu… hehe… Nunca tinha me divertido tanto na minha vida com esse tipo de coisa!

    — Aí, vocês dois! — a gata falou sério dessa vez. — Que tá acontecendo? Vocês ainda tão rindo!

    Santino, mais calmo, respondeu:

    — Kiddo, eu estava precisando mesmo relaxar e você conseguiu. Muito obrigado!

    — Hã?! M-mas… — Carol gaguejava, estranhando como levaram. — “Pô, eu mandei um ship monstruoso pro casal… e eles tão levando na boa? Ah, qual é!”

    Ainda rindo, Kaura encostou o seu leque fechado no queixo enquanto olhava para o lei tai.

    — Nobre lutador, está ansioso para lutar?

    Recuperado, o canino cruzou os braços, já mais despojado. Ele também olhou para a área de combate.

    — Madame, eu clamo por luta, mas hoje não estarei lá.

    Ela não o olhou, mas suas dúvidas vieram.

    — Gostaria de compartilhar o porquê?

    — Eu sou do time, mas estou nesse torneio para dar suporte.

    — Oh! Isso é ainda mais louvável… Um veterano que dedica parte de seu tempo para passar sua experiência aos mais jovens.

    — Eu agradeço o elogio, madame.

    Um silêncio curto ocorreu. Kaura voltou a abrir seu leque, empurrando o ar novamente. Mas as palavras vieram.

    — Por que não abre mão da formalidade?

    — Hã? Como assim?

    — Tal etiqueta é exemplar, mas já estamos lado a lado. Me chame de… Kaura.

    Ele pigarreou, ficando com um pequeno rubor no rosto, imperceptível. Kaura cobriu parte da boca com o leque.

    — Ok… mas quero algo em troca. — Ele também sabia jogar.

    — Hã?! O que seria?

    — Me chame de… Santino.

    Ela olhou para o canino, que fez o mesmo. A encarada franca a fez cobrir totalmente o rosto com seu utensílio. Meros segundos passaram e os dois voltaram a gargalhar.

    Santino olhou para o lado e encontrou algo que nunca havia visto: Noah estava mais perto de sorrir do que nunca.

    — Garoto, você está… feliz, é isso?

    — Uh… — ajeitou o colarinho. — Acho que, pela primeira vez, senti que deveria relaxar. Vê-los se divertir… me anima.

    O canino fechou seu punho, em sinal de contentamento.

    Mas não só alí tinha interação.

    Carol, centrada ao lado de Noah, estava ainda confusa, muito além do normal.

    O motivo:

    — Na boa, esses dois pombinhos são mó estranho, oxe! — o sorriso irônico surgiu. — Tem nada, não. Vamo ver como isso aí vai nascer, hehe.

    A breve cena de leveza só foi quebrada por burburinhos nas arquibancadas.

    Começou baixo, uma comoção singela.

    A reação se propagou, como ondas em um mar de pessoas ávidas por luta.

    Minutos para o início do torneio e as arquibancadas da Arena Shang Mu evocaram um nome:

    “Theo!”

    Eram repetitivos, gerando sonoridade contínua — não como um mantra, mas sim um amálgama.

    “Lindo! Seu tudo!”

    “Eu te amo, Theo!”

    “Ahh! Ele está entre nós! Theo!”

    O público feminino estava enlouquecendo com sua presença… e parte do masculino.

    Enfim, o Time Monsenhor Sesto deu o ar da graça na arena.

    Liderando estava ele mesmo: Theo Monsenhor Sesto, esbaldando estilo, elegância e potencialidade.

    — Hehe… Nunca me canso de ouvir tudo isso. Toda a plateia é musa! — ele jogava beijos e acenava.

    Logo atrás, estava Elyra Cealestine, trazendo consigo a maleta onde guardava tanto sua Bokuto quanto a de seu pupilo-mestre.

    — Não exagere, Monsenhor. Siga o caminho…

    Ciel, com desenvoltura de um modelo, caminhava com destreza — sempre sinuoso — e bem à vontade, mas indiferente ao público que o observava.

    — Uh… Les personnes de petite taille sont tellement agaçantes. (Pessoas pequenas são tão irritantes.)

    Completando o time, mais no fundo… alguém que fez com que Noah se levantasse.

    Todos ao seu lado só acompanhavam a festa inesperada, mas o albino tinha sentimentos diferentes.

    — “Enfim… ele chegou.”

    Baron Hornberg surgiu de uma das passagens. O primeiro passo que executou diante do grande público da arena emergiu dilatando o ar ao redor, com todos sentindo o impacto em todos os seus sentidos.

    O Karma era imediato e automático.

    A elegância acima da média, que trouxe silêncio.

    “Quem é esse aí?”

    E a pressão de estar presente naquele lugar — audível como o estalo de chamas demoníacas.

    “Pelos deuses… esse cara é real?”

    O calor de seu Nirvana involuntário, efeito de ser um Tier S.

    “Ele é um tipo de… Deus?!”

    E o aroma rústico e natural, quase selvagem, ratificou o ambiente ao seu redor.

    “Olha a altura desse cara!”

    “Eu… acho que… estou com medo.”

    Várias outras frases foram ouvidas, ilustrando o abalo em todos os sentidos na plateia.

    Em seguida, saindo da passagem, também estava a princesa Amu Amu, que saltitava leve e serena. Por ironia, ela não trouxe maiores sentimentos aos presentes.

    “Hã? Uma garotinha?”

    “Ela… essa menininha aí… faz parte do time?!”

    “Eh… é sério isso?’

    O desdém ruiu: Amu, ao aplicar o último saltitar, surgiu ao lado de Baron em frações de segundos — dez metros os separavam, e nenhum olho foi capaz de acompanhá-la, restando apenas as partículas de neon como prova do fenômeno.

    O público trancou a respiração, surpreso com o ocorrido. Os comentários cessaram e só ficou a estranheza e o temor.

    Cada passo do bode trazia impacto aos presentes, que se afastaram do parapeito da arquibancada por causa da pressão. Todos, sem exceção, tinham dificuldades de manter sua presença próximo onde ele caminhava.

    Mesmo longe, Noah sentiu esse baque com mais intensidade. Em seu interior, algo reagia à aproximação de Baron.

    O albino olhou para os lados, viu seus companheiros e rivais ao redor, reagindo… e todos tinham o mesmo sentimento.

    Mas ele não.

    — “Como alguém como ele pode ter a audácia de caminhar entre nós? Ele é… um monstro. Eu fiz um grande esforço na primeira vez, mas agora…”

    Todavia, não restou somente a seus pensamentos o contágio emocional.

    — “Um ser como ele, nesse mundo… é inconcebível. Seria um deus ou… um demônio?”

    Algo latente, que recentemente foi acalmado, ressurgiu com mais força. Uma força antiga, despertada, que pulsava em seu subconsciente, brigando intensamente com seus instintos inatos e também com sua Herança Eterna, o maior tesouro ainda desconhecido.

    — “Tento manter tudo isso aqui dentro… então por que ainda me atacam?”

    E foi no exato momento que Amu deu as mãos ao seu servo leal que a propagação de forças escusas tomou um patamar ainda maior.

    Um estalo ocorreu — como um click de uma chave disjuntora. Mas, ao invés de luz, trouxe trevas.

    — “Tem pessoas boas à minha volta. São amáveis… pessoas que confiam em mim. Eles não podem… não…”

    Noah era o alvo… ou seu âmago.

    O mar de revolta não era regido por marés… e sim ativo por querer.

    Não eram ondas, mas, conforme avançava, tinha nuance musical.

    Uma flauta afinada, mas fúnebre.

    Harpa harmoniosa, com teor maldito.

    Essa era a melodia do Mar das Predições Eternas.

    A força atingiu seu âmago, sem defesa. Todo o tom melancólico que trazia conflitos internos à sua mente fragmentada o levasse direto ao vácuo de outrora.

    Aquelas ondas malditas, as mesmas que tinha medo, trouxeram uma mensagem.

    — O la’u taulaga lenei, tama e…?

    O ciclo não se encerrou.

    Nunca se encerra.

    E, desta vez…

    Era pessoal.

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