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    “Dominar os outros é força; dominar a si mesmo é verdadeiro poder.”

    — Lao Tzu, filósofo chinês (mentor de Confúcio)

    Obra: Daodejing


    Arena Shang Mu

    Arredores do vestiário

    Abertura Oficial: dentro de 3 min

    No vai e vem apressado pelas vielas das arquibancadas, Lilac aguardava Viktor ansiosa. A dragão púrpura caminhava para um lado e para o outro, preocupada com a falta de notícias.

    — Ele está demorando muito… O que será que está acontecendo? Vários lutadores saíram de lá e nada dele aparecer…

    Por várias vezes ela seguiu em direção ao vestiário, retornando em seguida — quase um ciclo infinito.

    “Respeitar o pedido… ou seguir com o coração?”

    — Droga… Ele pediu para ir sozinho, que se garantia… Só que eu… — deixou os braços bambos, expirando ar. — Essa sensação, de que tem alguma coisa errada…

    Uma lembrança dos corredores surgiu em sua mente, momentos que mostravam uma tensão latente. A jovem não evitou o pensamento, tratando disso como uma epifania — Lilac tinha recursos.

    — “A mesma sensação de antes. Quase lutei contra Joshy, sabe-se lá como isso iria terminar se eu continuasse com aquela loucura…”

    A movimentação ao fundo no meio do lei tai — monges organizando instrumentos no local — contrastava com o retorno do tom pesado e opressor dos corredores.

    — “Tudo isso de volta…?” — fechou os olhos, os forçando.

    Certas coisas deveriam ser deixadas para trás.

    — Não! Nada disso! — balançou a cabeça, passando a mão no próprio rosto. — Aquilo já passou, não tem mais lugar aqui! Chega!

    Foi quando viu um canino monge com roupas amarelas sair às pressas. Ele estava bufando e demonstrava bastante inquietude. A dragão púrpura olhou bem a fundo esse detalhe.

    — Por que ele saiu assim? Esse tipo de coisa não é normal… — ela pensou um pouco mais. — Viktor!

    Os metros até a estrada do vestiário pareciam quilômetros.

    Enquanto isso…

    Vestiário da Arena Shang Mu

    Viktor ficou parado, enquanto os dois se encaravam. Ele mesmo sentiu que havia algo diferente.

    — “Por que o Ciel está aqui? Mas, olhando melhor, nem parece a mesma pessoa…”

    Enquanto desconfiava, o felino azulado e Tamui não desviaram o olhar um milímetro sequer. Se tornou um duelo silencioso.

    No fim, Ciel se manifestou.

    — Minha resposta… E então?

    Tamui ficou em silêncio.

    O gato foi insistente.

    — Seu silêncio só confirma sua… ignorância.

    Ao fundo, fazendo com que uma das orelhas de Ciel apontasse para frente, se ouviu a voz de Viktor.

    — Você que deveria calar a boca e sair deste lugar agora!

    Nem isso foi capaz de fazer Ciel desviar o olhar de Tamui, que também fez o mesmo. Mas ele ouviu, sua orelha direita apontou na direção do humano.

    — Ele falou o que você deve fazer — falou Tamui, firme.

    — Vous voulez essayer? — ele a provocou, o sotaque de Ciel rasgou o ar.

    — Se não quer sair — cortou Tamui —, o que você quer aqui?

    — Não está claro… para você? — abriu os braços, mas com as mãos voltadas para baixo.

    Viktor rangeu os dentes e fechou os punhos. Farto de tanta indefinição, deu um passo para o lado e, fitando Ciel, procurou acabar com isso.

    — Senhorita Tamui, pode ir. Eu cuido dele.

    A judoca não saiu. Imóvel, mas não calada.

    — Eu vou ficar bem aqui. Não gosto de me expor, mas… vou abrir mais essa exceção.

    Nem Ciel recuou, aumentando a aposta.

    — Você também não quer sair. Acho que… — foi cortado.

    — Cale-se.

    Ciel elevou sua sobrancelha esquerda, com o mesmo olhar predador.

    Tamui não deixou nada abaixar.

    — Criaturas como você se acham um fenômeno da natureza, que pensam que o mundo se move em prol da sua existência. Tolo…

    O felino até pensou em falar, mas ela foi mais rápida. O corte foi cirúrgico.

    — Sequer deveria ter construído um “castelo de areia” sabendo que uma onda a destruiria em segundos. Para quê tanta tensão? Tanto drama… Um teatro falido.

    A lei do retorno.

    Uma aura surgiu em sua volta, âmbar. Mas havia algo diferente: antes era ampla e difusa. Dessa vez, estava condensada, um fio sobre a pelagem azul do felino.

    Sem sorriso, sequer rubor.

    A cabeça dele inclinou para a esquerda, a cauda torceu na base, se movendo de um lado para outro lentamente.

    Tamui observou o comportamento: sua aura, também âmbar, surgiu, deixando claro a intenção.

    Viktor acompanhava a cena, os olhos tremendo. Não só isso: a pressão do Nirvana de ambos os felinos o empurrava para longe — o desconforto era grande.

    — “Ah, droga…” — ele pressionava os pés no solo. — “Não está nada bom. A senhorita Tamui… ela não vai recuar. E Ciel… ele está diferente desde a última vez que nos encontramos… O que está acontecendo aqui?”

    Um cheiro terroso e levemente doce era sentido, com a quentura presente na respiração — esse era o reflexo do Nirvana quase em sua total manifestação.

    Viktor sentiu essa fragrância, como tantas outras vezes, mas sabia que, dessa vez, não poderia ficar só assistindo.

    — “Isso… não é como antes.”

    Fechou bem os olhos, com força, de quem fazia esforço para permanecer existindo naquele lugar.

    Cada segundo era um tormento, que o deixava imerso na dúvida.

    Esse movimento interno o levou a ver suas humilhações do passado. A faixa levada, a recuperação… até o golpe e sua queda, mesmo que em posse de seu bem mais precioso nesse mundo.

    Isso foi além.

    Viktor estava lidando com o abstrato desde que chegou em Avalice.

    Porém, as peças — milhares delas — também tinham um lugar para serem encaixadas.

    Era um manifesto.

    Uma herança, um código.

    Uma coisa que não se aprendia com teoria.

    Ele se mexeu, sem medo, nem dúvida — não dessa vez.

    Viktor foi em direção a eles, usando contra a pressão corporal que sentia ao lutar contra o Nirvana aflorado.

    Com força, se colocou ao lado dos dois e, em um ato desesperado, pôs a mão sobre o ombro de Ciel e Tamui, que o olharam surpresos.

    A voz interna lhe dizia enquanto lidava com a realidade:

    “Enquanto um lutador caminha sozinho na escuridão, as cicatrizes no coração o marcam.”

    Ele suporta aquele poder incomum com a vontade de quem já ignorou o impossível.

    O esforço era enorme, sua temperatura subiu, como se todos os músculos contraídos marcassem uma imensa demonstração de coragem.

    “Mas algo dentro dele desperta: uma chama que nunca deve apagar.”

    Enfim, essa voz, vinda que quem o conhecia, calçou:

    “Você sabe o nome disso…”

    — PAREM JÁ COM ISSO!

    A pressão era abissal.

    As pupilas de Viktor chegaram a sumir com o tanto de esforço físico que impunha. Mesmo Tamui, fria e seca, não ficou isenta daquilo.

    — Natural… solte.

    Isso serviu como um novo mantra.

    — NÃO! — seu quimono tremulava ao atrito.

    Ciel também se manifestou:

    — Você… será destruído.

    — QUEM DISSE? — suas mãos vibravam no ombro dos dois.

    Ele não soltou.

    Nesse meio tempo, entrando no vestiário, Lilac avistou, ao fundo, o jogo de luzes piscando na parede do corredor.

    — Aquilo é… Nirvana!

    Ela se apressou, frisson estampado no rosto, mas parou prestes a cruzar a esquina.

    — “Se eu ver o que está acontecendo… eu tenho certeza de que não ficarei parada. Eu… preciso esperar!”

    Um ato imprudente…?

    Ou recuo estratégico…?

    Lilac fez sua escolha. Ela esperou.

    A cena prosseguiu no vestiário.

    A intenção de luta entre Tamui e Ciel se extinguiu no devido momento em que os dois perceberam a inutilidade do confronto fora de hora — a verdade: ambos foram surpreendidos, mais do que esperavam.

    Eles apagaram seu Nirvana, fazendo com que Viktor recuasse tonto, indo ao chão — sentado, e bastante ofegante.

    Pela primeira vez desde que interagiu com o humano, Tamui estava com os olhos arregalados, mas firme em sua postura.

    Ciel, seguro, só olhava para Viktor. Não havia expressão exagerada nem nada.

    Sob suas próprias pernas, o carateca falou:

    — Será que é muito difícil… sermos só lutadores? Buscar fazer o certo, seguir o código… Isso é pedir demais?

    Os olhos de Tamui tremeram, Ciel estava indiferente.

    Veio mais.

    — Eu estou aqui, queiram ou não. E se me coloquei nessa disputa, não é para ser figurante. Se meu corpo não aguentar, minha alma irá. E se nenhum dos dois der conta…

    A pausa não foi por falta de fôlego. Nem de palavras.

    Ele, intencionalmente, parou. Foi o suficiente.

    Ser só um lutador. Nada mais.

    Ciel bateu palmas. Não era deboche.

    Ele olhou para Tamui.

    — Estou aqui por Viktor. Senti sua falta na arquibancada… junto com seu time de perdedores.

    A judoca ouviu calada. Seu semblante estava sério. E se manteve assim, mesmo com Ciel apontando para Viktor, que ainda estava sentado sobre as pernas.

    — Esse é o porquê este étranger está na minha lista. Todos querem um pedaço dele… mas eu o quero inteiro.

    O azulado deu as costas, caminhando sinuoso em direção a saída do vestiário.

    Antes de sair, parou. Olhou para Viktor.

    O humano o fitou, sem dizer uma palavra — e era isso que Ciel queria.

    Ele voltou a caminhar, cruzou a esquina… e viu Lilac, metros depois.

    O encontro de olhares ocorreu, breve. Nada incisivo. Era uma checagem.

    A dragão ficou calada, o encarando. Mas Ciel, pelo contrário:

    — Deve estar orgulhosa… — voltou a caminhar. — Não o deixe quebrar… antes de mim. Au revoir.

    Vê-lo sair não foi só um alívio. Lilac testemunhou um crescimento.

    Apoiada na parede, ela se concentrou: sua habilidade auditiva, proveniente de seus auxiliares (os fones de ouvido que sempre utilizava), foram colocados em ação plena.

    Ela só queria ouvir.

    No vestiário, Viktor ainda não havia se levantado. O baque repentino o deixou exausto, mas estava bem.

    Tamui, então, foi em sua direção. Dois passos.

    Ela o imitou e se sentou sobre as pernas, em Seiza.

    Viktor arregalou os olhos. Tal ato foi mais do que respeito. Era elo.

    Sob o mesmo nível, ela se posicionou na frente do jovem.

    — Você sabe que ele está certo. Todos querem um pedaço de você.

    O silêncio de Viktor se manteve. O olhar a fitava como o de um verdadeiro guerreiro.

    — Me responda: por que insiste nisso? Por que está no nosso mundo e… o que te faz seguir nesse caminho? Eu quero saber!

    Ele retribuiu da melhor forma: esboçou um sorriso.

    — Batalhar… É só isso.

    Tamui teve uma leve hesitação — a respiração travou — mas recobrou imediatamente: estendeu sua mão, com a palma aberta, a que tinha chamas.

    Viktor entendeu. Apertou sua mão com força, a mesma que ela impôs.

    O calor da mão flamejante da judoca passou despercebido.

    Atrás das paredes que dividiam a sala ao lado do vestiário, Lilac ouviu aquilo, esboçando um sorriso como nunca antes visto.

    Sem lágrimas, nada meloso.

    Só uma constatação.

    Ela caminhou sem pressa para fora do lugar, com a felicidade no rosto.

    Fez questão de voltar para o mesmo lugar onde ficou esperando. E por lá ficou.

    Não demorou muito e viu Viktor surgir, junto com Tamui.

    Lilac só aceitou a ideia.

    Ao se aproximar, o esperado:

    — Lilac?! Por que está aqui?

    — Oi, Viktor. Eu estava te esperando.

    — Me esperando? Mas por quê? E cadê os outros?

    — Estão no Panteão dos Milenares. E é para lá que precisamos ir!

    Fazendo de conta sua surpresa, a dragão olhou para a felina que o acompanhava.

    — Ah, quem é essa aí? — levou o indicador no queixo.

    — Essa é a senhorita Tamui, Lilac.

    E, junto a isso, as brincadeiras.

    — Hum… senhorita…? Vocês já são amigos, é?

    — Hã? D-do que está falando?!

    — Hum… sei não… — ela deu de ombros, fechando os olhos. — Por onde você vai, sempre faz amizades com outras garotas…

    — E-ei, espera! Não é nada disso, senhorita Lilac! — ele agitava as mãos, um rubor surgiu.

    Antes que tudo desabasse, a dragão tratou de ir até Tamui, estendendo a mão.

    — Muito prazer. Sou Sash Lilac!

    — Tamui Ippon… — retribuiu, apertando a mão. — Sou membro do Time Kirameku Kitakaze.

    Lilac ficou surpresa, mas seu entusiasmo foi freado por um pensamento:

    — “Muito obrigada… Tamui Ippon!”

    E, assim, o breve sumiço de Viktor enfim foi resolvido.

    Houve sim um bom motivo para que pensassem que Viktor pudesse estar com problemas.

    E justamente no Panteão dos Milenares, lá estava Noah…

    Sentado em uma das poltronas do local destinado aos lutadores, Noah buscou um foco: o lei tai no centro da arena. Era lá onde músicos arrumavam os instrumentos para a vindoura abertura.

    Mesmo que singelo, os sentimentos de um passado distante vieram com força.

    — “Me lembro da música da Vila…” — a nostalgia o atingiu. — “A harpa da senhora Orchid, a flauta do suko Haalaee… e a voz da zoma Alfreedah. Quase toda semana eles tocavam músicas lindas…”

    Quietude.

    Paz.

    Seu coração agradeceu.

    Entretanto, Noah sentiu uma fisgada em sua mente. Ele ouviu a melodia nostálgica; mas algo quebrou a harmonia.

    Um calafrio o atingiu, lhe trazendo mal estar.

    Era um mau presságio.

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