Capítulo 144 - Véspera Inquietante
O rosto de Noah mostrava irritação.
Não. Era ódio. O pior.
Uma aura escura vazou de seu corpo, reduzida a um simples fio. Ele agora estava condensado, pronto para uma luta.
O mestiço olhava para Hornberg como um destino inevitável.
As águas furiosas em sua mente o empurravam contra o suposto inimigo — um passo seria dado a qualquer momento.
Ainda assim, Noah sabia que havia pessoas boas ao seu redor.
— Esse moço é muito bonito. Não é, Noah?
Milla.
Sua voz leve agiu como uma melodia que cortou o som que o puxava.
— Acho que ele lutando deve ser bem forte, que nem a princesa Amu Amu!
Mais uma vez.
Algo dentro dele recuou.
— Noah? Você tá ouvindo, hein? Estou falando com você!
A pequena deu um passo.
Milla segurou em sua mão… e o trouxe de volta.
O som ambiente voltou. O ar invadiu seus pulmões — e todo o calor da mãozinha o ancorou.
— Hã? M-milla… o que…
— Eu te perguntei se o Theo era forte como a Amu Amu. Você ficou parado aí…
— Eu… bem… — a voz lhe falhou por um instante. — Sim… ela deve ser.
— Mas eu defendi, hehe!
Ele também sorriu. Foi rápido, mas aconteceu.

Não só Milla estava ali.
— Na boa, cadê a diva linda? Já tá quase na hora do showzin inicial…
Aquilo trouxe o grupo de volta. Santino se prontificou.
— A kiddo está certa… Será que aconteceu alguma coisa?
Carol, sempre ela, expôs sua opinião:
— Na certa o piá evitou briga e tá fazendo amizade nova. E isso bem no nariz da Lilac, nyah!
— E como você pode ter tanta certeza disso, kiddo?
— Ué, doggo… Eu só tô falando, nyah.
Kaura Shiran acompanhava a conversa. Aquilo confirmou algo que já suspeitava.
— Tamui… também não chegou.
— Hã? Tamui? — perguntou Santino. — É um membro do seu time?
— Sim. E agora que a agradável felina de seu time comentou… A Tamui ficou no vestiário desde que chegamos na arena.
Um silêncio inesperado.
Os olhares se encontraram, de todos.
Carol tinha mais desse sentimento.
— Opa… Aí, eu falei aquela parada brincando, tá? Tô sabendo de nada!
— Relaxe… — Kaura falava, voltando a se abanar. — Tamui é anti social, mas é alguém responsável. Mesmo se houvesse algum problema, ela resolveria.
— Ela é o que? Um tipo de doutrinadora, por acaso?
Lilac poderia estar longe, mas havia alguém ali para representá-la.
— Carol… — Noah tomou a palavra. — Não é certo julgar quem você nem conhece.
— Ih, qual foi? Tu tá falando que nem a diva linda. Copiou e colou, é? E eu só chutei, tá? Leva pro coração não!
Uma pequena tensão se criou, mas resfriou. Noah se sentou, centrado na arena.
Ele viu os músicos arrumarem os instrumentos que seriam utilizados na abertura bem no meio do lei tai.
— “Me lembro da música da Vila…” — a nostalgia o atingiu. — “A harpa da senhora Orchid, a flauta do suko Haalaee… e a voz da zoma Alfreedah. Quase toda semana eles tocavam músicas lindas…”
Os pensamentos de antes voltaram — sob controle, dessa vez.
Faltando dois minutos para o início, o Panteão dos Milenares recebia mais pessoas, já que faltava pouco para começarem a abertura.
Entretanto, Carol percebeu uma movimentação diferente: atrás dela vieram caminhando pela viela da área da arquibancada três indivíduos — e bem barulhentos.
— Sizu-kun, cadê sua educação? Damas purimeiro!
— Honorável Haiiro, peço desculpas! Nunca estive em um local com poltronas dessa qualidade excepcional.
Carol não perdeu o fio, acompanhando a cena mesmo de longe.
— Ih, ah… Qual foi desse povin?
Logo atrás, tinha mais alguém.
— Vocêsss chegaram tão rápido… Como conseguiram isso? — era Jade Gya-wawa, que tomava uma de suas poções.
Mesmo que tenha saído primeiro, ela foi a última a se sentar — na poltrona logo ao lado de Kaura.
A dragão de komodo estava irritada, bufando enquanto se sentou. Motivo: Haiiro veio antes e tomou o assunto ao seu lado.
— Isso está errado… sssabia?
— Por que está dizendo isso, Sifu Jade-chan?
— Troque de lugar comigo, agora! — falou, mas com autoridade.
A furão não discutiu, e entendeu perfeitamente (talvez até demais), o porquê do pedido. Em menos de dois segundos elas inverteram os lugares, com Jade, satisfeita, sentada estrategicamente… ao lado de Haitou.
O akiba contemplava o lei tai, o olhar penetrante deixava claro.
Mas a escamosa só olhava para ele.
Ele estava com os dois braços nos apoiadores da poltrona, relaxado.
Jade mirou sua mão.
Lentamente, a Sifu a levou até a dele.
A poucos centímetros, ela chegou a sorrir — levou sua cabeça também, ao ombro do canino.
— Existe uma vontade imensa dentro do meu coração de me entregar de corpo e alma para a luta! — falou Haitou, em tom épico.
Quase lá.
Até o momento que Haitou se levantou.
Tudo foi em vão. Sua cabeça caiu no encosto — e a mão também.
— Meu espírito já está pronto! Vou entregar tudo na luta! — falava o canino, em pé e reluzente. — Meu oponente se lembrará do combate pelo resto de sua vida!
Ele olhou para trás, percebendo Jade com a cabeça apoiada na poltrona.
— Ah, Sifu Gya-wawa… — Haitou estranhou. — Estamos a poucos minutos do início do torneio Tormenta. Como pode estar cansada?
Ela o encarou — irritada.
Porém, o inesperado veio: Haitou, gentilmente, segurou seu rosto, a conduzindo até seu lugar.
— Gya…? — pasma, ficou em silêncio.
Ele continuou: arrumou seu cabelo e ajeitou sua roupa, como um cavaleiro em prontidão.
No fim, Jade estava bastante envergonhada — o rosto coberto por completo pelo seu cabelo.
O toque final veio.
— Sifu Gya-wawa… — o akiba falava perto do rosto dela. — A senhorita precisa mostrar sua grandeza como mestra. Tenho orgulho de estar nesse time também por sua causa!
Os dois punhos de Jade estavam fechados, segurando parte do pano da roupa.
A seu lado, Haiiro, de braços cruzados e sorridente, não deixou passar:
— Está satisfeita por ter turocado de lugar, Jade-chan?
— Cala boca… — voz travada e baixa.
— Uh? Quer… turocar de lugar?
— Não.
— E porquê não? — voz maliciosa.
— Cala boca! Não fale comigo… Gya!
Haiiro precisou se segurar para não transparecer o que achou do momento, acompanhada por Kaura.
— Haiiro, nunca me diverti tanto como agora — o leque ainda lhe cobria o rosto. — Isso é revigorante!
Quem também gostou do que viu foi Carol. As estrelas tomaram seus olhos.
— Pô, mano… Isso aí foi fofo bagarai! Que casal massa, nyah!
E Jade Gya-wawa:
— “Droga! Queria que tudo isso não acontecessee… mas estou mais irritada porque não durou maisss tempo… Gya!”
Kaura se aproveitou disso: as apresentações.
A sacerdotisa apontou o leque para cada um deles.
— Esses são Haiiro Gakatta, minha disciplina. Os dois próximos são Sifu Jade Gya-wawa e o honrado Haitou Sizuturigi.
Santino acenou, assim como Carol e, especialmente, Milla.
— Oi! — acenou, sorrindo. — É um prazer conhecer todos vocês, hehe! A Lilac vai gostar muito de vocês!
As orelhinhas balançando enquanto ela sorria cativou a todos os três. Haiiro e Jade se abraçaram, encantadas com a fofura involuntária da pequena.
— Deuses de Avalice… Ela é muito lindinha!
— Essa guria é fofa demaisss… Gya!
E até Haitou.
— Nobres códigos de conduta que fazem de mim quem eu sou… Essa criança tem um brilho resplandecente que emana carisma!
O alto astral perdurou no Panteão dos Milenares, com leveza.
Todavia, o assunto levantado a pouco, permeava a mente de Noah. Com a responsabilidade de guiar o time, o mestiço pensava:
— “Aconteceu alguma coisa. Eu creio em Lilac, mas o Viktor…”
Ele mesmo freou a linha de raciocínio.
Noah lembrou da última conversa.
“Você já esteve sozinho em um lugar onde todos não quisessem sua presença?”
— “Ele pode não ter Nirvana, mas seu Karma é legítimo. Ele não mentiu quando disse que sim. Não posso ignorar sua natureza, mas ele tem agência… como qualquer avaliceano.”
Ele voltou a observar a direção por onde o Time Monsenhor Sesto seguiu. A área VIP tinha um local cativo para alguns contemplados, e eles estavam lá. Não junto aos Omna — cada um possuía um box exclusivo.
— “Baron Hornberg. Um Tier S…” — sua reflexão trouxe questões. — “Por que o senhor está aqui neste lugar?”
Antes de Noah cair novamente na espiral, Milla pulou sobre ele, o abraçando.
Ele, confuso, disse:
— Hã? Mas… o que houve?
— Nada! É que eu queria abraçar alguém e só tinha você disponível, hehe.
Carol se prontificou em explicar.
— Aí, liga não! É tática dela pra fofura desenfreada. Milla se amarra em abraçar, tá?
— Mas, eu… — ele ainda estava confuso.
— Só aceita, mano! Vai, faz carinho!
Relutante a princípio, ver a pequena feliz… era bom. Aos poucos, ele fez cafuné sobre sua cabeça, a deixando mais à vontade.
Noah recebeu em troca algo único: um calor tão intenso que, mesmo após tudo que passou, sorriu com imensa sinceridade.
Mas os eventos continuavam a ocorrer entre os dois times, em um outro lugar.
A alguns metros dali, outro grupo se destacava entre os que transitavam pela arena.

Juntos ao encontro do Panteão dos Milenares, Lilac, Tamui e Viktor caminhavam pelas vielas da arquibancada, saindo da área que levava ao vestiário.
— E então eu fiquei esperando… — explicava a dragão. — agora temos que ir até essa área que falei.
— Panteão…? Que tipo de lugar é esse? — perguntou Viktor.
Tamui foi mais rápida.
— Área onde os lutadores da arena devem ficar.
— Nossa, então tem isso aqui? Incrível!
Enquanto rumavam, o humano, impressionado com a estrutura da arena, comentou:
— Não imaginava que estaria em um lugar como esse! Só fiquei lá dentro um tempo e agora está tudo mais bonito! Está cheio de gente!
Ele estava animado, a alegria estampava seu rosto. Mas a dragão olhou em volta, pois ninguém desviava o olhar dela: o preconceito por Viktor continuava por cada canto.
— “Nada mudou, mesmo ele usando seu traje de combate…” — seu rosto mostrava um pequeno desconforto. — “Isso já está passando dos limites…”
Ela o observou com mais afinco, viu o brilho de seus olhos. Lilac abraçou o próprio corpo, abaixando a cabeça por alguns segundos. Foi o tempo para Tamui por uma das mãos sobre seu ombro.
— Dragão… — voz firme, quase intimação. — Você é a líder de seu time, não é?
— Hã, mas… — o foco voltou, rápido. — Sim, eu sou. O que tem?
— Nada… — olhou para Viktor. — Ele não vai quebrar fácil. Tenha orgulho.
Lilac sorriu, ao mesmo tempo que se mostrou determinada, principalmente ao olhar para a felina como rival.
— Então você já deve saber o que te aguarda, não é?
— É. Eu sei…
— De qualquer forma, foi legal te conhecer.
A felina respondeu com um olhar condescendente.
O caminhar de Tamui era macio, mas todo o gesto que compunha essa estrutura — mãos fechadas, passadas fortes e olhar penetrante e sério — a deixava com uma pose de imponência.
— “Todos olham para ela e reagem de várias formas. Uns evitam o olhar, outros a olham com vontade… e alguns fecham os punhos. Eu nunca a vi na vida. E o Viktor a tem como rival… Muita coisa aconteceu.”
Não demorou muito e o trio chegou no local onde seus times estavam. A recepção ocorreu, com um dos monges do Monastério Omna levando-os até seus assentos.
— Até que enfim, hein! Pô, já tava na hora…
A tagarela deu as coisas vindas, ao seu jeito. E Lilac também tinha as suas.
— Nem vem com essa sua marra, tudo bem? Já estamos aqui, a tempo da abertura!
— Logo você que é a ligeira do time, nyah!
— Tá. Para com isso.
A gata viu Tamui passar por trás, acompanhando a judoca se sentar.
— Aí… quem é essa aí? — apontava Carol.
— Aquela é a Tamui, Carol — falou Viktor, se sentando. — Eu a conheci no vestiário.
— Tá. Ok. Show. Tu conheceu ela… Aham… — ela olhou para Lilac. — Diva linda, tá tudo de boa com você depois dessa?
Lilac tomou sua poltrona, se espreguiçando. Mas ela ouviu a pergunta.
— Claro. Por que não teria, Carol? — ela mesma interrompeu a conversa. — Ah, ok! Não precisa responder. Eu já sei o que você quis dizer. Quer saber? Não vai rolar, não estou com ciúmes.
— Ah, qual foi? Tu nem deixou eu tentar, nyah!
Tamui se sentou justamente ao lado de Haitou. Seu foco não mudou: concentrada, olhou para o lei tai.
— Haitou…
— O que, senhorita Tamui?
— Lute firme.
— Me lembrarei disso a cada segundo, Tamui Ippon!
Kaura, no lado oposto, também se manifestou.
— Você demorou, Tamui. Ficou naquele lugar tempo suficiente para fortalecer sua mente?
A judoca trocou olhares, mantendo o silêncio. Ficaram assim por exatos dez segundos — até o som ficou abafado.
A sacerdotisa recuou, se colocando de frente para a arena e voltando a se abanar. Só isso foi o suficiente.
— “Como sempre… Ela só fala quando quer ou quando precisa. Mas… dessa vez ela ficou mais do que o normal. Aconteceu alguma coisa.”
No fim, a rosada não deixou escapar o momento de fitar Viktor.
— “Esse estrangeiro… Ele chegou com Tamui e a dragão. O curioso é que ele se referiu a ela como se já a conhecesse. Logo ela, que é anti social…?”
Como sacerdotisa, Kaura tinha um pressentimento. Ela olhou novamente para Tamui, voltando para Viktor… e ao redor.
Esse detalhe foi crucial: Kaura notou que vários lutadores estavam olhando para o humano dos mais variados tipos de reações.
Alguns desenhavam. Outros riam, apontando.
Alguns apenas cerravam o rosto.
— “A inimizade cerca esse estrangeiro. Agora sei porque Tamui ficou em silêncio por tanto tempo. Os rumores se confirmaram, afinal.”
Enquanto Kaura refletia sobre o incidente social, no lado do Time Avalice Milla mostrava uma animação imensa aos seus amigos.
Ela abraçava Viktor, sorrindo como nunca.
— Você ficou muito bem com essa roupa, sabia?
— Você acha? Hehe…
— Sim! Você parece mesmo um guerreiro vestido assim. Vai ganhar qualquer batalha!
O clima festivo era contagiante, mesmo com toda carga negativa ao redor de Viktor. Bem amparado e motivado, fez novos laços e visibilidade.
Noah tinha acalmado seu coração, ainda acalorado por causa da ternura sem limites de Milla. Esse trio, juntos, tinham muito em comum.
Sorrisos por todos os lados preparavam os segundos que antecedem a abertura oficial do torneio Tormenta.
E, enfim, a voz de Ana Andirá soou pelos auto-falantes
— Sejam todos bem-vindos à Arena Shang Mu! Daremos início ao torneio Tormenta nesse exato momento. Mas antes… temos um pronunciamento do núcleo milenar, o monge representante da Família Geiza… Pawa Geiza!
O nome anunciado causou reações imediatas por vários indivíduos no Panteão dos Milenares.
Na primeira fileira, estava Ametista Superior junto com seu time. A felina franziu sua testa, assim como Gil Son.
— Lá vem o babaca…
Indo até a entrada da arena, Serpryin Papakadah e Jyn Onagadori, que acabaram de chegar às arquibancadas.
— Chegamos no exato momento de ouvirmos coisas enfadonhas.
Na área VIP do Time Omna também…
— Pawa?! O que aquele surtado quer agora?
As palavras de Sheng acompanharam o olhar duvidoso de Joshy, que ficou em silêncio, de pé como um soldado em prontidão.
Era óbvio que no grupo de Lilac, e também no de Kaura, isso teria impacto.
— Esse patife! — falava Santino. — Como os Omna podem ser tão sujos?
Lilac o encarou, não acreditando — sem diálogo.
Kaura franziu uma de suas sobrancelhas, ficando em alerta.
Sem demorar muito, a voz do lobo avermelhado foi ouvida por todos.
— Povo da Zona Milenial, os mil anos de história das artes marciais em Avalice estão sob uma ameaça silenciosa! E hoje… compartilharei o mal que nos cerca. E, juntos… IREMOS ERRADICÁ-LA!
O grito ecoou pela arena.
E tinha um alvo.

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