Cedo na manhã seguinte, assim que a escuridão dera lugar a penumbra, Luna pôs-se a rastrear o ladrão de artefatos.

    Fora da rota estabelecida pelos heróis do passado, a floresta morta era como um labirinto. As árvores eram de vários tipos e tamanhos diferentes, todas sem folhas e petrificadas. 

    Como algum fator sobrenatural estava envolvido na atual constituição da floresta, não era possível abrir caminho. Para quebrar os galhos e troncos de dureza semelhante a pedra era necessário despender um esforço que não valia o resultado.

    Os rastros eram fáceis de encontrar graças ao poder de Luna, mas não era igualmente fácil segui-los. O espectro aparentemente possuía uma constituição esguia ou mutável, pois os rastros indicavam caminhos muitas vezes estreitos demais para Will passar, quanto mais para os Lobos.

    O grupo precisou fazer muitos desvios no caminho, alguns levando-os para significativamente longe do rastro. 

    Elicia se perguntava o porquê do espectro ter deixado rastros falsos para despistar o grupo anteriormente, pois a floresta por si só já fazia aquele trabalho muito melhor do que ele.

    — Isso está se provando um problema maior do que prevíamos. — Elicia apontou o óbvio quando o grupo se deparou com uma grande ravina. — Por que diabos há uma fenda enorme no meio de uma floresta?

    Luna se agachou perto da beirada e analisou o solo.

    — Isso já foi um rio. 

    Não era possível ter certeza da profundidade apenas olhando devido a névoa espessa que preenchia a falha. Luna pegou uma pedra qualquer e jogou-a em direção ao fundo da fenda, ao contar o tempo que levou para ouvir o som da batida retornando, acrescentou: 

    — Bem profundo por sinal.

    — Como vamos atravessar isso? — Will estava bastante hesitante em seguir o mesmo método do espectro para chegar ao outro lado.

    Havia um espaço de cerca de quinze metros entre as bordas da fenda. A única coisa que conectava os dois lados era uma árvore caída de tronco fino. 

    Will, por algum motivo, alternava seu olhar entre cima e baixo constantemente, observando a “ponte” e aparentemente procurando algo no céu. Luna fora a única a perceber aquele comportamento enquanto Elicia e Viktor discutiam.

    — Provavelmente nos aguenta, já que a constituição de todas as árvores desse lugar é praticamente a mesma. — Viktor observou. — Mas, mesmo que consigamos passar, duvido que os lobos possam fazer o mesmo.

    Os lobos gigantes podiam dar saltos impressionantes, mas quinze metros infelizmente era demais para eles.

    — Ah, você acha? — Elicia ironizou.

    Viktor suspirou.

    — O que você sugere?

    Elicia calou-se, também não fazia ideia de como resolver a situação. Se aquilo era um rio, como Luna apontara, deveria se estender por uma vasta distância, então contorná-lo não era uma opção.

    — Acho que a única opção é bastante óbvia. — Luna tomou a palavra. — Se não tem como os lobos passarem, temos que deixar eles aqui.

    — E você espera que passemos por esse palito? — Gotas de suor começavam a se manifestar no rosto de Will.

    — Sim.

    Luna se virou em direção ao tronco fino e simplesmente saltou sobre ele, correndo até o final com a agilidade e o equilíbrio de um felino, deixando Will perplexo.

    Todos os heróis recebiam treinamento de equilíbrio e agilidade desde o momento que se apresentavam para o trabalho, mas aquelas habilidades nunca foram o forte de Will, que além da destreza manual necessária a um curandeiro, se destacava apenas em força bruta.

    Enquanto ele se preparava psicologicamente para a arriscada travessia, Elicia ordenava os lobos a esperarem daquele lado da fenda.

    — Nós voltaremos assim que possível. — Ela acariciou um pouco cada um deles.

    Depois de deixar os lobos, ela passou facilmente para o outro lado da fenda. Estava calma e muito equilibrada, com a postura disciplinada que tornava seus passos confiantes e precisos, mesmo que no fundo sentisse um frio na barriga ao pensar no tamanho da queda que sofreria se errasse um passo.

    Viktor fez uma careta para a “ponte”, mas logo seguiu Elicia.

    Em poucos instantes, além dos lobos, só restava Will daquele lado da fenda.

    “Um passo de cada vez, vamos…”

    Luna o encarava com um sorriso zombeteiro, que a ele não parecia nada menos do que maldoso.

    Will respirou fundo, tentando se acalmar, mas uma cena infeliz passava insistentemente em sua cabeça:

    Um homem alto, de constituição forte e cabelo loiro dourado, seu pai, caindo de uma das torres de vigia da muralha da cidade. 

    Will e seu irmão Max levavam uma cesta com o almoço para o homem, que era um dos soldados que patrulhavam a muralha. Eles estavam próximos do destino quando presenciaram a cena. 

    Uma criatura alada, um tipo de besta muito raro de ser encontrado, mergulhou de repente em direção à parte aberta da torre de vigia, derrubando com a grande envergadura de suas asas os soldados que ali faziam a troca de turno. 

    Alguns soldados foram lançados da grande altura, mas Will via apenas um, o seu pai, que poucos segundos depois estava morto no chão, com o pescoço dobrado de forma não natural e sangue se espalhando a partir da cabeça rachada sem capacete. 

    A partir daquele dia, Will desenvolvera um medo substancial de altura.

    O suor frio escorria por sua testa e seu pescoço. Seus companheiros aguardavam-no do outro lado com impaciência. Ele não os culpava por julgá-lo. 

    Ele tinha muitos medos, e nunca contara o motivo de nenhum deles. Aqueles medos eram dele, e só ele tinha responsabilidade por como reagia a eles. Ele estava tentando superar cada um daqueles medos, mesmo que ainda não tivesse obtido nenhum resultado.

    Ele olhou para cima novamente, nenhuma criatura à vista.

    Will respirou fundo… e deu o primeiro passo.

    “Um passo de cada vez. Um passo de cada vez. Um passo de cada vez.”

    Will avançou um passo de cada vez, e logo estava na metade do caminho. Seus passos eram hesitantes, mas o levavam para frente.

    Ele quase conseguiu…

    Três quartos do caminho, era o que Will havia percorrido quando perdeu o equilíbrio e caiu.

    O mundo girou, a gravidade o traiu, a superfície firme sob seus pés desapareceu. Seu coração pareceu parar enquanto o tempo desacelerou. O grito preso em sua garganta estava prestes a se libertar quando ele sentiu um forte puxão em seu braço.

    Era a gravidade o puxando para baixo enquanto seu pulso fora agarrado. Will não estava mais caindo.

    Quando processou a situação, ele levantou a cabeça para ver Luna, que se agarrava ao tronco com apenas um braço enquanto segurava Will com a outra mão.

    — Aaaaaaaah! Desgraçado!

    Ela proferia pragas enquanto usava toda sua força para segurar a si e ao brutamontes. Seu rosto já estava ficando vermelho e veias saltavam em seu pescoço com o esforço.

    A raiva, porém, tornou-se uma espécie de combustível. Luna aguentou firme.

    Um segundo depois, uma corda chegou até eles e enrolou cada um pela cintura como se fosse uma cobra. Era, claramente, uma magia.

    Assim que Elicia e Viktor perceberam a queda iminente de Will, os dois pensaram ao mesmo tempo na mesma solução. Viktor rapidamente abriu sua mochila e jogou a corda para Elicia, infundindo sua magia nela nesse meio tempo.

    Elicia lançou a corda na direção de Will, ela ficou surpresa com a reação mais rápida ainda de Luna, que já o segurava a essa altura. Viktor usou sua magia para controlar a corda, passando-a por um galho que serviria de apoio, envolvendo Will e depois Luna. 

    Elicia rapidamente amarrou a outra ponta na árvore mais próxima e então gritou:

    — Pegamos vocês!

    Luna imediatamente sentiu o alívio quando Will começou a ser puxado pela corda, então soltou-o em seguida. Tendo apenas seu próprio peso para lidar enquanto ele era içado por Elicia, ela subiu novamente no tronco e pôs-se em pé. 

    Will conseguiu se agarrar ao tronco e se arrastou em segurança até o destino. Não fora dessa vez que seu medo reivindicara sua vida, mas não graças a ele.

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